Técnica: Todos nascem ateus

Nessa técnica, o neo-ateu tentará jogar tudo pra platéia e argumentar que todos os teístas são vítimas da influência “maléfica” da sociedade – afinal, “todos nascem ateus” e não haveria motivos externos a pressões da sociedade que levariam ao teísmo. Observe que, de cara, já observamos alguma pinta de falácia genética; embora, mesmo assim, sejamos capazes de analisar mais profundamente essa hipótese.
A aplicação prática dessa idéia segue mais ou menos essa linha:
NEO-ATEU: Todos nascem ateus. O único motivo pelo qual passamos a acreditar em Deus é por pressão da sociedade.
REFUTADOR: Será? É o que vamos ver…
Primeiro, devemos nos perguntar: o que é ateísmo? Para responder à essa questão, vamos voltar até Aristóteles e começar a investigação.
Segundo Aristóteles (conforme citado por Alvin Plantinga em Warranted Christian Belief, 2000), o homem é um animal racional. Mas o que especificamente ele queria dizer com isso? Aqui, o termo “racional” aponta ou expressa uma propriedade que distingue os seres humanos de outros animais. Como Aristóteles dizia, essa propriedade é a possessão da ratio – o poder da razão. A idéia é que seres humanos, diferentemente de, pelo menos, a maioria dos animais, tem conceitos e é capaz de julgar crenças; nós conseguimos raciocinar, refletir e pensar sobre as coisas, mesmo sobre coisas muito distantes em tempo e espaço; em suma, seres humanos são conhecedores. Isso é o que é ser um criatura racional; e isso é o que Aristóteles viu de diferença sobre os seres humanos.
A questão que imediatamente surge daí é: um bebê é um conhecedor? É um animal racional?
A resposta é claramente NÃO. Se o ateísmo for considerado uma posição racional sobre um conjunto de crenças, então irracionais recém-nascidos NÃO podem ser considerados ateus. Um bebê é tão ateu quanto um gato, um cachorro, uma porta, uma mesa e meu teclado que foi usado para escrever esse post – ele é ateu simplesmente porque é incapaz de ser conhecedor de qualquer conceito de Deus. Esses seres são, por definição, neutros, uma vez que são incapazes até de manifestar e julgar. Se um ateísmo não é baseado em um conhecimento de uma hipótese e o consequente julgamento dela como forte ou fraca pelo poder da ratio, significa que ele não tem valor algum. É, nesse caso, sinônimo de burrice apenas.
Se ateísmo e teísmo tem qualquer coisa a ver com racionalidade, o melhor a fazer aqui é julgar irracionais como NEUTROS nessa questão.
Talvez o neo-ateu talvez tente sair dessa com um “Ok, ok; o ateísmo deles é irracional – ou até mesmo são neutros, como você diz. O fato é que crescendo e raciocinando eles não acreditariam em Deus nem iriam para alguma religião se não fosse a influência da sociedade.”
Aqui, o neo-ateu se complica AINDA mais. Ele vai ter que provar que NECESSARIAMENTE todas as pessoas não acreditariam em algum conceito divino sem receber influências constrangedoras externas. Podemos sugerir algumas evidências em contrário: por exemplo, pessoas já sugeriram que nós somos “brain-wired” para a crença em Deus – como Lewis Wolpert, aqui e aqui (é certo que ele é um debatedor infame; mas como ele estava comentando a sua àrea – a biologia – e não dando palpites filosóficos baseados na idéia de que Deus é um velhinho barbudo, pode ser que ele tenha mais credibilidade para fornecer essa informação.) Nesse caso, o ateísmo é que seria resultado de influência cultural e não o teísmo.
Se for uma tendência natural do ser humano procurar se relacionar com o transcendente (e responder perguntas sobre a realidade como “por que existe tudo ao invés do nada?”, “qual o sentido da vida?”, “qual o conceito de certo e errado?” e por aí vai – que podem ser encontradas em alguma noção de Deus ou na escolha de alguma religião que responda satisfatoriamente essa questão), então o neo-ateu errou de novo na sua segunda idéia.
O debate continuaria assim:
NEO-ATEU: Todos nascem ateus. O único motivo pelo qual passamos a acreditar em Deus é por pressão da sociedade.
REFUTADOR: Espere um pouco: você definir ateísmo como uma postura racional em frente a um conjunto de crenças específicas e cognoscíveis, não é mesmo?
NEO-ATEU: Claro. Penso, logo sou ateu.
REFUTADOR: Então um bebê NÃO é ateu, pois ele é IRRACIONAL e incapaz de adotar uma postura, até mesmo de descrença, pois sequer conhece o conjunto de crenças específicas. O único motivo pelo qual ele é ateu é porque não tem neurônios suficientes para saber se isso é o certo ou errado. O melhor – de longe – é defini-lo como NEUTRO nessa polêmica. Esse seu chute foi parar direto na arquibancada.
NEO-ATEU: Ok. Mas quando ele passasse a raciocinar, ele seria ateu. O único motivo pelo qual ele não é ateu é porque obrigam ele a acreditar em Deus.
REFUTADOR: Você teria que demonstrar que TODOS os eventos que possivelmente levem à crença em Deus se dão por constrangimento social. Se houver alguma hipótese possível em contrário, você falhou. Por exemplo: se existir a possibilidade de nossa programação cerebral tenha sido moldada para a crença em Deus, significa que é o ateísmo é que resulta de influências culturais, não o teísmo. Você tem como provar que essa hipótese é falsa?
NEO-ATEU: Hã… Do que estávamos falando mesmo?
Em resumo, a refutação segue essa linha:
Se o ateísmo é uma posição racional sobre um conjunto de crenças, então o recém-nascido NÃO é ateu, pois ele é IRRACIONAL;
Se o ateísmo conta também com a irracionalidade, então não há “mérito” algum nessa informação, pois o ateísmo da criança é decorrente de sua FALTA de CAPACIDADE mental;
A partir daí a pergunta que deve ser feita é: ao começar a raciocinar, mesmo em um ambiente não-teísta, ela necessariamente iria ser descrente em/negar a existência de Deus? Se a resposta for não e alguma hipótese do tipo (a) seres humanos naturalmente estão inclinados a acreditar ou se relacionar com Deus/procurar uma religião for plausível, então a tese “somente passam a acreditar em Deus por “influência externa” também é derrubada;
Por fim, tudo isso não faz nem cócegas na veracidade do Cristianismo ou do teísmo – é, no máximo, uma discussão curiosa sobre a tendência do seres humanos a crença em Deus;
Conclusão

Essa é mais uma técnica sem qualquer valor de verdade – sua utilidade é puramente um jogo psicológico, que coloca contra a parede teístas como se fossem “manipulados pelo mundo”, enquanto ateus são realistas, ao molde da velha falácia Ateus são fortes, Teístas são Fracos. Para os que querem um debate sadio, esse estratagema não contribui em nada logicamente.

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Publicado em 14 de outubro de 2010, em Neo ateísmo e marcado como , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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