Técnica: A existência de ateus prova que Deus não existe

Nessa técnica, o neo-ateu ou ateu tenta provar a inexistência de Deus pelo confrontamento com a existência de humanos descrentes Nele. Esse argumento pode ser considerado como parte do discurso neo-ateu, pois foi utilizado por Victor Stenger no debate contra William Lane Craig (transcrição aqui, subtítulo Existence of non-belief).

À primeira vista, isso parece ser absurdo. Quer dizer que se eu acreditar que Justin Bieber não existe, ele deixa de existir?  Essa versão (possivelmente usada apenas por ateus mais ignorantes ou que estejam trollando) é uma aplicação da falácia da incredulidade pessoal: “Se eu não acredito em X, logo X não é válido”. Não pode ser levada a sério.

A outra versão do argumento, um pouco mais sofisticada (mas nem tanto), baseia-se em uma suposta contradição entre a existência de ateus e os atributos divinos. Assim podemos descrevê-lo:

  1. Se Deus existe, Deus:
    1. quer que todos humanos acreditem Nele antes da morte;
    2. pode criar uma situação onde todos os humanos acreditem Nele antes da morte;
    3. não quer nada, ou ao menos com a mesma importância, que entraria em conflito com seu desejo de que todos acreditem Nele antes da morte;
    4. sempre age de acordo com aquilo que ele mais quer;
  2. Se Deus existe, todos os humanos acreditariam nele antes da morte (por 1).
  3. Mas nem todos humanos acreditam em Deus antes da mortes.
  4. Logo, Deus não existe (por 2 e 3).

(Observação: na internet, praticamente ninguém apresenta os argumentos em forma de silogismo – usados aqui para facilitar a visualização. Lembre disso quando for debater.)

Respondo: o primeiro possível erro está em (1.1) – Deus quer que todos acreditem nele. Podemos fazer a defesa respondendo que não é do interesse de Deus que as pessoas acreditem ou não; o interesse é o das pessoas em se aproximar daquilo que é o Bem e por isso Deus permite essa aproximação.

O segundo possível erro está em (1.2 e 1.3) – Deus pode criar uma situação onde todos acreditem nele antes da morte e não “quer” nada mais importante do que isso. Deus pode criar, mas, para isso, teria que acabar com o livre-arbitrio desses seres; o outro erro é achar que Deus não “quer” – o correto seria “e não vemos bom motivos para ele agir de forma contrária”, pois um ser perfeito não tem necessidades a serem satisfeitas (lembrei da técnica “Deus estava carente“, agora).

Ainda que não tivessemos a defesa do livre-arbitrio, bem comentou Alvin Plantinga sobre essa premissa: a sentença “Nós não vemos uma bom motivo para Deus fazer X” só implicaria “Deus não possui um bom motivo para fazer X” se assumirmos que “Se Deus tivesse um bom motivo para fazer X, nós sempre seriamos capazes de saber esse motivo” é necessariamente verdadeiro, o que não podemos fazer.

Mesmo assumindo (1) e (2) como premissas verdadeiras, ainda teríamos que discutir sobre (3). Não podemos saber, no mais íntimo de cada pessoa, se no segundo ou no milésimo anterior à morte ela não passou a acreditar em Deus ou não. Ainda poderia ser o caso que isso ocorra.

Se (1), (2) e (3) não são verdade, segue (4) também não pode ser dentro desse raciocínio.

A refutação, então, pode ser a seguinte:

  1. Se Deus existe, Deus:
    1. pode permitir o livre-arbitrio aos humanos;
    2. os humanos, pelo livre-arbitrio, fazem a escolha de se aproximar do que é bom ou não;
    3. o interesse da religação Deus-Homem é do Homem, pois um ser perfeito não tem necessidades;
  2. Se Deus existe, nem todos os humanos precisariam acreditar Nele antes da morte, pois podem possuir o livre-arbítrio;
  3. Logo, de (1) e (2), a existência de ateus não entra em conflito com a existência de Deus.

Conclusão

Essa técnica tem baixo poder argumentativo. Possivelmente, poucas pessoas se convenceriam a analisando por cima, pois a idéia do livre-arbítrio torna plausível a existência do ateísmo.

(*) Esse blog não discute a existência ou inexistência de Deus. Estamos argumentando dentro do plano teológico sobre a coerência interna dos atributos divinos, já aceitos em uma discussão filosófica anterior.

(**) texto sujeito à correções.

http://quebrandooencantodoneoateismo.wordpress.com/2010/09/12/tecnica-a-existencia-de-ateus-prova-que-deus-nao-existe/

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Publicado em 15 de outubro de 2010, em Neo ateísmo. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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