Identidade litúrgica: o que se celebra?

Hoje o mundo vive uma crise litúrgica. As mudanças foram ocorrendo a passos curtos, porém, já percorreram uma longa distância. Isso fez com que a mentalidade atual ficasse “habituada ao erro”, enraizada num modo de agir que “aparentemente não tem nada demais”, fruto da falta de formação e de uma postura egocêntrica adotada pelos fiéis. Por isso a importância de fazer com que os fins a que se destina a ação litúrgica sejam novamente compreendidos e vivenciados de forma sacra. Pois, segundo Gamber, temos passado, de uma forma exagerada, a pôr o acento na atividade dos participantes, colocando num segundo plano os próprios elementos do culto.

O próprio Sumo Pontífice vem tentando resolver as questões da liturgia, tão mal compreendidas por leigos e até mesmo por Sacerdotes. Reconhecê-la como uma propriedade, ao seu bel prazer, é dar margens a gostos e inclinações pessoais, deixando de lado o sentido da liturgia e desconsiderando 2000 anos de Tradição.

A liturgia é extremamente rica, com um vasto simbolismo presente na Santa Missa, e em especial a Celebração versus Deum, vulgarmente chamada de “de costas”. Neste posicionamento há uma consonância maior entre a Igreja militante e a triunfante, pois toda a Ecclesia, sacerdote e fiéis, está voltada para Deus, em uma comum união. O sacerdote, como capitão da barca, um alter Christus, deixa de ser o foco – o qual nunca deveria ter sido – e se volta, juntamente com todos os fiéis, para o verdadeiro centro da Liturgia. Além disso, o versus Deum permite uma compreensão melhor do sentido sacrificial, gerando nos crentes uma postura digna ao participar do mistério da Cruz que se faz presente na Santa Missa. Ademais, faz com que os abusos litúrgicos sejam suprimidos, em detrimento de uma postura mais piedosa e em consonância com o ethos litúrgico milenar.

Durante a celebração eucarística, o Filho de Deus quer unir-se conosco, através da perpetuação incruenta do Seu sacrifício. Por isso, após a consagração, o sacerdote, fazendo as vezes da Pessoa de Cristo, volta-se ad Orientem, como forma de reforçar a orientação espiritual da liturgia. Este rico simbolismo litúrgico remonta às tradições mais fundamentais do Cristianismo. Infelizmente, a heresia do arqueologismo, que tenta recriar o cenário da dita igreja primitiva, rompe com todo o desenvolvimento orgânico do senso da Liturgia. Em outros ritos, o mistério do altar, em especial o momento da Consagração, é guardado e reservado. No Rito Bizantino as portas da iconostase – porta santa – que apenas clérigos podem usar -, porta diaconal e porta setentrional -, se fecham em silêncio no ápice da Celebração. Do mesmo modo, no Rito Armênio, as cortinas são abertas para conservar o mistério. No Rito Romano houve, por muito tempo, a jubé que, mesmo não sendo uma barreira intencional entre o clero e o povo – sua destinação era criar um ambiente apropriado para a oração monástica e as Missas conventuais – separava o altar-mor da nave. Entretanto, depois do Concílio de Trento, as jubés foram retiradas partindo das definições conciliares que pediam maior acesso dos fiéis ao altar. São Carlos Borromeu enfatizou a importância da visibilidade do altar-mor. Assim, foi construída a Igreja de Gesú, em Roma. Não obstante, a posição versus Deum e, em especial, as orações com voz submissa, encarnam o mesmo caráter oculto, sublime, místico e misterioso da Celebração; seriam a “iconostase ocidental”.

Destarte, por mais absurdo que possa parecer, algumas pessoas concebem a existência de abusos, dos mais variados, no rito de Paulo VI, justificados como expressões de alegria, criatividade, mas não os acham devidos nos ritos Romano Tradicional, Bizantino, Armênio, Copta etc. Claro que o sentido litúrgico é exatamente o mesmo em todos os ritos, a mesma realidade sobrenatural se faz presente. Assim, para tais católicos, é como se “tudo lhes fosse permitido e conveniente” na forma ordinária, um indulto que sanciona todo o tipo de balbúrdia, originando, dessa forma, um caos na antípoda do correto espírito sacrificial. O resultado dessa mentalidade é um círculo vicioso mui destrutivo onde um “pequeno desvio” origina uma diversidade de erros.

A Igreja é o Corpo Místico de Cristo e, como tal, reflete a perfeição e ordem do Deus que a edificou. Só que, muitas vezes, o homem, com toda a atual visão antropocêntrica, fere esse princípio, tentando subordinar o que é divino ao que é humano. A liturgia usa sinais visíveis para expressar uma realidade invisível, agora imagine o quão grave é a falta de reverência, quando não irreverências, de alguns fiéis diante de tais sinais? É inconcebível pensar que existem crentes preocupados em transformar a liturgia naquilo que pré-estabelecem, tentando “ajustar” ao que apreciam.
Isso permite que a própria celebração se transforme numa representação que não condiz com o espírito do Calvário. Os ritos iniciais se transformam numa entrada “alegórica” de diversos leigos com cartazes, faixas, se assemelhando a uma verdadeira peça teatral, com direito até a coreografia. O canto de entrada mais parece uma “ola” num estádio de futebol. O ato penitencial? Ah, esse é feito sem reverência, sem piedade e sem contrição, com músicas muitas vezes que levam os fiéis a pensar em tudo o que está ao seu redor ou até mesmo fora da Igreja, mas não a interiorizar e a refletir sobre os próprios pecados, sequer permite o exercício de um exame de consciência com toda a humildade que é essencial. O Glória é por vezes acompanhado com palmas e danças. E na Oração Eucarística sempre se canta uma música entre a consagração das Oblatas. Isso sem falar na oração da paz, o momento onde Sacerdote e fiéis “rezam juntos”, muitas vezes, infelizmente, a pedido do próprio Presbítero. Silêncio pós-comunhão? Não há, é a “hora de colocar o papo em dia”, afinal, as músicas animadas não param de tocar. Se faz mister frisar que nós não cantamos na Missa, mas sim, cantamos a Missa. A música não é, na Celebração Eucarística, um componente meramente estético, mas sim uma parte essencial da Ação de Graças. Sobretudo, a música deve possuir a qualidade que é própria do senso litúrgico: a santidade. Deve ser santa e, por isso, deverá romper com tudo o que é profano, sendo condizente com a dignidade do templo e favorecendo a edificação dos fiéis.
A mentalidade do fiel moderno é muito problemática. Os abusos litúrgicos e o espírito da reforma criaram uma verdadeira aberração. Os crentes se viciam no erro, se agarram a ele numa postura egocêntrica que reflete o antropocentrismo do ethos da sociedade atual. As Igrejas estão cheias, com pessoas se ajoelhando na Consagração, mas que não conseguem entender nem mesmo a fé que professam com sensatez. Crêem na Eucaristia mas não fazem uma genuflexão diante do Sacrário, crêem na Presença Real mas não se incomodam com irreverências na Comunhão. Seguem um credo mas não conseguem aplicá-lo a toda a realidade religiosa.
Os fiéis estão fechados, viciados, agarrados ao erro. Muitos não estão dispostos a aprender, se importam apenas com aquilo que os fazem bem, com aquilo que gostam e apreciam (sic). O relativismo cria brechas, “permite” malabarismos retóricos. Ora, se alguém entende a Liturgia como Sacrifício e crê na Eucaristia como o Corpo de Cristo é mais do que natural que acate e siga os ensinamentos da Igreja e o correto espírito litúrgico. Assim, fiéis sem nenhum grande conhecimento teológico, apologético, litúrgico, têm posturas legitimamente católicas, justamente porque raciocinam com a sensatez da crença que professam, aplicam os princípios que seguem. Entretanto, o relativismo faz com muitos outros crentes que também crêem na Liturgia como Sacrifício e na Eucaristia com a sua Presença Real, lancem mão de falácias sentimentalistas para endossar contradições óbvias. Nesse caso, contradições pesadas, já que é uma prática que se coloca na antítese da teoria; acreditam na Presença Real mas desonram a Eucaristia como se não acreditassem, por exemplo.
A lei da oração – lex orandi – reflete diretamente na lei da crença – lex credendi – e por isso é temorosa a situação de centenas de milhares de crentes. A fé é alimentada pela prática, pelos símbolos, pela sua vivência piedosa e fidedigna. O choque entre a teoria da fé e a sua prática corrói e desfavorece a compreensão profunda e plena do que se professa. A crença na Eucaristia, por exemplo, se faz na externalização, com atos de devoção, amor e adoração ao Cristo realmente presente. Entretanto, atitudes irreverentes, frias e nada piedosas ao Corpo e Sangue de Nosso Senhor enfraquecem a fé eucarística. O mesmo paradigma serve para todo arcabouço dogmático e doutrinal da Igreja.
Diante disso, urge um clamor para que os fiéis não se comportem na Celebração Eucarística de forma vã e mundana, quiçá apenas com uma compreensão artificial do Mistério que se faz presente no altar. Não se devem poupar esforços para que os crentes reconheçam o verdadeiro sentido da Liturgia, para o verdadeiro triunfo da causa de Deus. Tudo se inicia a partir de um maior zelo eucarístico e fidelidade ao Sacrifício incruento de Cristo na Cruz. Oxalá os cristãos compreendam a magnanimidade da celebração com todo o seu rico simbolismo, em especial a posição versus Deum, para que possam se entregar ao real sentido do sacrifício e permitir a transmissão da riqueza milenar da Igreja.

Bethânia Bittencourt, solteira, é fonoaudióloga e membro do Ministério Anticorpos, destacado grupo católico, de formação apologética, na Bahia.

http://www.veritatis.com.br/doutrina/sacramentos/927-identidade-liturgica-o-que-se-celebra

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Publicado em 16 de outubro de 2010, em Catolicismo, Comunicados aos Cristãos. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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