Arquivo diário: 18 de outubro de 2010

A Inquisição exterminou 30 milhões de pessoas?

Para muitos estes supostos dados de “milhões de mortes” deixam claro e em evidencia o obscurantismo e a corrupção da Igreja durante a “Idade das Trevas” Mais podemos afirmar estes números que pressupõem que um verdadeiro “holocausto” foi promovido por parte do clero da Igreja Católica?

É comum vermos na literatura secular, em filmes e documentários, pior nas escolas do ensino fundamental e médio e até em faculdades e universidades, a afirmativa de que a Igreja “torturou e matou milhares”, alguns dizem milhões de pessoas com a Inquisição. Há também vários ambientes acadêmicos no Brasil em que é nítida esta linha interpretativa, são muitos autores e professores universitários a partilhar dessas objeções.

É inegável a existência da Inquisição, afirmar isto seria uma aberração um erro grotesco de história, mais a crítica aqui é dirigida aos números de motes e incidentes referentes aos cerca de 386 anos de atuação, deste tribunal eclesiástico.

Muitos podem até dizer que números não importam, mesmo assim ela “matou e torturou”, mas os números representam o maior pretexto e fonte de contradições ao tema, pois tendem a alimentar e propagar a ideia de uma tragédia história, sem controle, um crime um perverso ato criminoso vindo da Igreja, mais levando em conta os fatores, o contexto e as posições religiosas da época estaria correto afirmar estas posições subjetivas nascidas do nosso cunho contemporâneo? Que foi uma ferramenta de perseguição e extermínio de quem usava pensar diferente?

Vale salientar que estas sociedades eram nitidamente ligadas ao bem e ‘alegria social’ (Pernoud, 1997) e da religião “em função da fé cristã” (Daniel Rops, Vol. III. p. 43), tinha como ferramentas a prevenção através da condenação, para evitar a contaminação de confusões e divisões que ruíam ‘todo o sistema e ordem social da época’ (Gonzaga, 1994) além da propagação de heresias e divisões entre os fieis da Cristandade, assim os códigos penais civis abraçavam e previam comumente a tortura e a morte do réu. E o povo entendia que estes eram os princípios jurídicos e inquisidores (cf. Mt 18,6-7).

Mas seriam verdadeiros estes indicies sobre a Inquisição? Ou é maquinação vinda dos inimigos da religião que tiram proveito não só da Inquisição ou Cruzadas, mais dos erros e faltas morais de alguns filhos da Igreja para fazer de “cavalo de batalha na sua guerra contra a religião e para perpetuamente as estarem lançando em rosto à Igreja.” como disse o historiador e Pe. W. Devivier, S.J. Fato que “é da natureza da Igreja provocar ira e ataque do mundo” segundo Hilaire Belloc.

A questão aqui tratada não é amenizar os efeitos da Instituição ou fazê-la mais branda, mas trazer a tona os fatos e verdadeiros números cujos estudiosos sérios testemunham para que possamos construir uma justa compreensão sobre o tema sem nos veicularmos a nenhuma propaganda anticatólica.

Vamos tomar como ponto as Atas do grande simpósio Internacional que reuni mais de 30 grandes historiadores, de diversas confissões religiosas para tratar historicamente da Inquisição, proposta vinda da Igreja. João Paulo II perguntou certa vez perguntou “Na opinião do publico, a imagem da Inquisição representa praticamente o símbolo do escândalo”. “Até que ponto essa imagem é fiel à realidade” pergunta crucial.

O encontro aconteceu entre 29 a 31 de Outubro de 1998. Com total abertura dos arquivos da Congregação do Santo Oficio e da Congregação do Índice. Anos depois as Atas deste Simpósio foram reunidas e apresentadas ao publico sob forma de Livro com 783 paginas com o titulo original “L’Inquisione” pelo historiador Agostinho Borromeo, professor da Universidade de La Sapienza de Roma. O mesmo historiador lembrou “Para historiadores, porem, os números têm significado” (Folha de S. Paulo, 16 junho 2004).

Entre os dados do simpósio cuja documentação já foi utilizada em vários obras, e continua a ser, consta entre os em resumo aos dados as seguintes afirmações declaradas pelo historiador Agostinho Borromeo.

Sobre a “famigerada e terrível” Inquisição Espanhola:

“A Inquisição na Espanha celebrou, entre 1540 e 1700, 44.674 juízos. Os acusados condenados à morte foram apenas 1,8% (804) e, destes, 1,7 (13) foram condenados em “contumácia”, ou seja, pessoas de paradeiro desconhecido ou mortos que em seu lugar se queimavam ou enforcavam bonecos.”

Sobre as famosas “caças as bruxas”.

“Dos 125.000 processos de sua historia [tribunais eclesiásticos], a Inquisição espanhola condenou a morte 59 “bruxas”. Na Itália. 36 e em Portugal 4.”

O que diriam os que alarmam “foram milhões”.

Evidenciou-se que os tribunais religiosos eram mais brandos do que os tribunais civis, tiveram poucas participações nestes casos, o que não aconteceu com os tribunais civis que mataram milhares de pessoas.

Sentenças de uma famoso inquisidor:

“Em 930 sentenças que o Inquisidor Bernardo Guy pronunciou em 15 anos, houve 139 absolvições, 132 penitências canônicas, 152 obrigações de peregrinações, 307 prisões e 42 “entregas ao braço secular” ([citado em] AQUINO, Felipe. Para entender a Inquisição. 1 ed. Cleofas. Lorena. 2009, p. 23).

O Simpósio conclui que as penas de morte e os processos em que se usavam tortura, representam menos números do se imagina e foi propagado. Os dados representam uma verdadeira demolição de muitas ideias falsas e fantasiosas sobre a Inquisição.

“Hoje em dia, os historiadores já não utilizam o tema da inquisição como instrumento para defender ou atacar a Igreja. Diferentemente do que antes sucedia, o debate se encaminhou para o ambiente histórico com estatísticas sérias” (Historiador Agostinho Borromeo, presidente do Instituto Italiano de Estudos Ibéricos: AS, 1998).

Bom que tudo isto tem mudado é sinal de esperança, tomara que haja uma nova reconstrução “hermenêutica”, pois este é um dos sentimentos históricos. E com uma justa crítica acurada, superem-se as ambiguidades historiográficas.

Pena que as correntes históricas penduram-se e os teóricos antigos dizem eles os “conceituados” continuam a ser as referencias “fidelíssimas”, assim na pratica pedagógica e histórica; seja superior (acadêmica) ou (média e fundamental) ensinos públicos, continua à ritualista tradição a-histórica, não transparente sobre os acontecimentos de tom feiticista e alienado, incluindo dentre destes, muitos estudiosos, professores, e jornalistas brasileiros e do resto do mundo. “Há milhões de pessoas que odeiam o que erroneamente supõe o que seja a Igreja Católica” (Bispo americano, John Fulton Sheen).

Referencias:

AQUINO, Felipe. Para entender a Inquisição. 1º ed. Cleofas. Lorena. 2009.

DEVEVIER, W. A Historia da Inquisição, curso de apologética cristã. Melhoramentos, São Paulo, 1925.

L’INQUISIONI. Atas do Simpósio sobre a Inquisição, 1998.

PERNOUD, Régine. A Idade Média: Que não nos ensinaram. Ed. Agir, SP, 1964.

ROPS. Henri-Daniel. A Igreja das Catedrais e das Cruzadas. Vol. III. Ed. Quadrante, São Paulo. 1993.
Veritatis Splendor

Como os tontons-maCUTs defendem a “liberdade de expressão”


O vídeo acima ilustra a seguinte matéria, publicada no Estadão, com o título “PT tenta barrar panfletos encomendados por bispo”:

O Partido dos Trabalhadores (PT) está tentando impedir agora à tarde que cerca de um milhão de panfletos encomendados pelo bispo da Diocese de Guarulhos (SP), Dom Luiz Gonzaga Bergonzini, seja distribuído à população. O panfletos recomendam aos brasileiros e brasileiras que deem seu voto ‘a candidato ou candidata e partidos contrários à descriminalização do aborto’

O material, segundo a advogada Ana Fernanda Ayres, do escritório Bottini Tamasauskas Advogados, que assessora o PT, seria ilegal, uma vez que não apresenta o CNPJ do autor. ‘Queremos assegurar que não houve qualquer tipo de crime (em relação ao material)’, afirmou.

A Editora e Gráfica Pana, responsável pela impressão do material, mostrou documentos que comprovam o pedido feito por Dom Luiz Gonzaga. Os proprietários alegam que, da parte deles, apenas cumpriram encomenda legal feita por um cliente.

Um primeiro lote de um milhão de panfletos já havia sido distribuído antes do primeiro turno das eleições, segundo Paulo Ogawa, pai de Alexandre Takeshi Ogawa, proprietário da gráfica.

De acordo com Paulo Ogawa, pai de Alexandre Takeshi Ogawa ainda há cerca de 1 milhão de unidades do panfleto na gráfica, que fica no bairro do Cambuci, em São Paulo. O caso está sendo registrado neste momento no 5o. Distrito Policial.

Aliás, só para deixar claro, logo depois desta notícia a Polícia Federal realizou a apreensão dos panfletos.

Tudo, claro, amparado por muito chilique e histeria do PT.

Então, antes de tudo, vamos então aos tais panfletos “difamatórios’?

Veja a imagem a seguir:

Esta também:

Agora, qual é a difamação contida ali?

O documento cita algumas informações, como pode ser visto na primeira imagem:

Em abril de 2005, no IIº Relatório do Brasil sobre o Tratado de Direitos Civis e Políticos, apresentado ao Comitê de Direitos Humanos da ONU (nr. 45), o atual governo compremeteu-se a legalizar o aborto;
Em agosto de 2005, o atual governo entregou ao Comitê da ONU para a Eliminação de Todas as formas de Discriminação contra a Mulher (CEDAW), documento no qual reconhece o aborto como Direito Humano da Mulher;
Em setembro de 2005, através da Secretaria Especial de Política das Mulheres, o atual governo apresentou ao Congresso um substitutivo da PL 1135/91.
Será que os petralhas que reclamaram de propaganda política vão negar qualquer um desses eventos?

Quer dizer que agora eles estão com vergonha de suas ações no governo?

Em nenhuma dessas citações, sequer há menção ao nome da Dilma Rousseff. Mesmo assim, chamam de propaganda política?

Quer dizer que com a aproximação das eleições, nenhum panfleto que relembre as posições tomadas pelo governo pode ser publicado? (Talvez eles deixem se o panfleto for “a favor” do governo)

Nem Hugo Chávez faria melhor…

A coisa fica mais macabra ainda quando observamos outra parte do panfleto, quando é recomendado que nas eleições os eleitores deveriam dar seu voto somente a candidatos ou candidatas e partidos contrários à descriminalização do aborto. (veja a segunda imagem)

Isso é plenamente normal, pois se os católicos são contra o aborto, é natural sugerir que os eleitores não votem em políticos a favor do aborto.

É aí que vem a grande contradição dos lullistas.

Eles chamam de difamação o ato de divulgarmos o vídeo abaixo em que Dilma alega que é favor da descriminalização do aborto:

Alegam eles que a Dilma NÃO É a favor da descriminalização do aborto.

Então, por que ficam enfezadinhos com um panfleto que diz para os eleitores só não votarem em quem é a favor da descriminalização do aborto?

Sem querer, eles assumiram sua culpa. (Pois, se a Dilma realmente fosse contra a descriminalização do aborto, ela não estaria afetada pelo panfleto)

E o cenário fica ainda mais repugnante pela forma como os petralhas foram na gráfica.

Agora, neste país, as pessoas perdem o direito de expressão. Se o folheto é “campanha política”, isso deveria ser decidido pela justiça, e não por uma patrulha ideológica que arma campana em frente à uma gráfica.

A falta de senso de decência dessa cambada é tamanha que um sujeito chega até a constranger o pai do dono gráfica, dizendo que ele pode “ir preso”.

Preso por que? Só por que ele aceitou um pedido para impressão de panfletos em que um bispo critica a postura do governo?

Mais um detalhe: que “sistema de informação” esses militantes possuem, não?

Lembram muito bem a patrulha de Papa Doc no Haiti.

Agora será que vão começar a patrulhar o uso de computadores para evitar que mandemos o conteúdo desses panfletos para a nossa rede de contatos?

Nesse final de semana, a postura dos militantes do PT na frente da Gráfica lembrou os piores momentos das ditaduras de alguns países africanos, assim como de Venezuela e Cuba.

O fato é que os panfletos não dizem mentira alguma e não há qualquer tipo de difamação.

As matérias ali estão embasadas no 3º e 4º Congressos do PT, nos quais foram fechadas a questão da descriminalização do aborto.

É simplesmente absurdo, intolerável e inaceitável que aceitemos a coação dessa corja do PT, militantes que patrulham cidadãos de bem, somente para manter esse sistema corrupto que estabeleceu o mensalão.

Aquele cidadão que logo aos 5 minutos de vídeo ameaça o senhor (quem nem era o dono da Gráfica, pois esta pertencia ao seu filho) é simplesmente uma aberração para a nossa sociedade.

Esse tipo de gente tem que ser tratada com desconfiança e rejeição social, pois se acham até no direito de fazer coação em prol do PT.

Mesmo que até a publicação dos panfletos seja considerada ilegal, nada justifica esse tipo de coação em um país democrático.

Por isso, deixo aqui a minha dica: se algum de vocês, leitores, tiver algum familiar que apóia o PT, NÃO CONFIE nele. Eles podem chegar e lhe entregar.

Querem um exemplo?

Vários de nós enviamos emails em correntes (e os petistas também fazem isso), com mensagens apoiando ou criticando algum candidato.

Se algum familiar seu for petralha, ele poderá usar isso contra você, pois para ele o que importa é o “partidão” do José Dirceu.

Por isso, a partir de agora, temos que dividir o país em dois grupos. Os que estão a favor do PT e os que estão contra.

Nós, que somos contra o PT, não temos que confiar de forma alguma naqueles que são a favor.

Os que são a favor são parte da indústria de informação do PT, e não titubearão em te entregar à turminha dele se você enviar um email criticando o PNDH-3, por exemplo.

E, sem contar para essa turminha (mesmo que sejam familiares), peço que enviem essa mensagem aos seus VERDADEIROS amigos.

Obs.: Os Tonton Macoute eram os voluntários da Segurança Nacional, que obedeciam cegamente às ordens do ditador François Papa Doc Duvalier, no Haiti. Calcula-se que eles fizeram desaparecer mais de 150 mil pessoas entre 1959 e 1986. Os tontons-maCUTs são um termo criado por Reinaldo Azevedo para definir petralhas que servem para coagir e atacar opositores ao governo petista. A tendência é que as ações se tornem violentas quando a ditadura petista formal estiver estabelecida.

http://lucianoayan.wordpress.com/2010/10/18/como-os-tontons-macuts-defendem-a-liberdade-de-expressao/

A versão portuguesa da Bíblia entre os protestantes

Interessam-nos agora apenas as versões feitas ou ao menos generosamente espalhadas pelos protestantes. Por isso, não trataremos dos primeiros tradutores lusitanos da Bíblia, os monges de Alcobaça, nem dos letrados portugueses no tempo do El Rei D. João I, nem de Gonçalo Garcia de Santa Maria, nem de Dona Filipa de Lancastre, filha do infante D. Pedro e neta de D. João I, nem mencionaremos outras versões de menor importância que precederam a tradução protestante de João Ferreira de Almeida.

Nascido em Lisboa, no ano de 1628, de pais católicos, seguiu João Ferreira de Almeida para a Batávia, passando em 1642 para a Igreja Reformada. Com 15 anos, já traduzia do espanhol para o português um resumo dos Evangelhos e Epístolas. Ordenado ministro calvinista, a par de suas atividades missionárias, traduziu primeiramente o Novo Testamento sobre o texto grego, que seguiu quando diferia da Vulgata (como atesta o padre Antonio Ribeiro dos Santos) e o Antigo Testamento sobre o original hebraico (servindo-se da edição holandesa de 1618), com o auxílio da versão castelhana e de outras traduções. Por isso, se diz que a versão Almeida é tradução de traduções. Como calvinista, não excluiu os livros deuterocanônicos que o luteranismo rejeita.

O Novo testamento foi impresso em 1681 e o Antigo Testamento começou a ser divulgado em 1738 e ficou concluída a sua impressão em 1748, muito após a morte de Ferreira da Almeida, o que se deu em 6 de agosto de 1691.

Ferreira de Almeida foi apóstata, não porém padre apóstata, como vulgarmente se afirma[1].

A tradução em foco tem como características:

a) É demasiadamente servil.

b) Tem muitos modismos e expressões holandesas, familiares ao Autor, que cresceu ouvindo esse idioma.

c) Foi deploravelmente estropiada pelos revisores (Bartholomeus Heynes e Joannes de Vought): o próprio autor se revoltou contra a incapacidade dos revisores quando teve em mãos, na Batávia, o primeiro exemplar impresso, redigindo depois uma advertência com um índice de mais de mil erros e não os deu todos.

A 2ª edição, aparecida doze anos mais tarde, já falecido o autor, foi ainda mais miseravelmente desfigurada pelos revisores (Theodorus Zaz e Jocobus op dem Akker), pouco conhecedores da língua portuguesa, que corromperam o que das belezas do original havia escapado à barbaridade dos seus predecessores. Assim, colocaram quase todos os verbos no fim, tornando o sentido obscuro, violentando a frase e viciando a construção dos períodos. Diversas edições teve o Novo Testamento e, como diz Santos Ferreira, as revisões da versão de Ferreira de Almeida quase que se contam pelo número de edições feitas por revisores que desconheciam nosso idioma.

É sabido que Ferreira de Almeida deixou incompleta sua obra do Antigo Testamento, terminado por Jacob op dem Akker, que traduziu a parte restante de Ezequiel, Daniel e os Profetas Menores.

Desde 1808, aproveitando-se da abertura dos portos, a Sociedade Bíblica Britânica inicia, no Brasil, sua propaganda de exemplares do Novo Testamento de Ferreira de Almeida. Mais tarde, crescendo essa distribuição, o Arcebispo da Bahia, d. Manuel Joaquim da Silveira, publicava, em 1862, uma carta pastoral para prevenir os fiéis “contra as adulterações e mutilações da Bíblia traduzida em português pelo padre F. A. de Almeida”[2].

Outra tradução espalhada pelos protestante é a do padre Antonio Pereira de Figueiredo (1725-1797), que começava a editar em 1778 o Novo Testamento e, de 1783 a 1790, o Antigo Testamento, traduzindo a Bíblia da edição Vulgata [de São Jerônimo]. De sua obra tiraram-se várias edições, inclusive uma no Brasil, da Livraria Garnier, em 1864, com notas de Delaunay, que foi aprovada por mandamento do Arcebispo da Bahia (por ato de 1863).

A Sociedade Bíblica de Londres publicou diversas edições da versão Figueiredo, sem prefácio e notas. A de 1821 trazia os deuterocanônicos, que os protestantes consideram apócrifos. Mas a edição de 1828 já não os apresenta mais. É que nesse interim a Sociedade Bíblica de Londres, por decreto de 3 de maio de 1826, proibira a divulgação da Bíblia com os pretensos livros “apócrifos” (Cornely, Manuel d’Introduction, vol. I, p. 50).

Francisco Recreio, um dos censores da edição católica de 1864, advertia que aquela edição se publicava com todo o cuidado porque – dizia – a propaganda protestante a tem introduzido facciosamente em Portugal e países de sua dominação, fazendo-a imprimir, a seu talante, por imprensas impuras e falsificadoras.

Sendo Pereira de Figueiredo exímio latinista e cultor da língua pátria, sua obra goza merecidamente de valor clássico, sob o ponto de vista filológico e literário. Entretanto, o autor sofreu as influências regalistas da época, que defendeu nos livros “Tentativa Teológica” e “Análise da Profissão de Fé do Santo Padre Pio IV”, que foi posto no Index (26.01.1796). Entretanto, Pereira de Figueiredo recusou-se a retratar-se. Diante disso, compreende-se que suas notas tenham sido condenadas, embora grande número delas atestem seus conhecimentos lingüísticos, históricos e literários. Nelas, porém, não prevalecem nem o espírito sacerdotal nem a piedade cristã[3].

Ocupado o território português por tropas britânicas e estabelecidas as relações comerciais e políticas com a Grã-Bretanha, a colônia britânica residente em Lisboa e no Porto rapidamente se propagou pelo Reino. Tudo isso favoreceu a iniciativa da Casa Bertrand de divulgar as edições de Figueiredo.

De 1902 em diante, tem a tradução de Figueiredo sido reeditada por Santos Farinha, com notas de Glaire, Knabenbauer, Lesetre, Lestrade, Poel, Vigouroux etc., com aprovação do Exmo. Cardeal Patriarca de Lisboa.

Na realidade, nem Almeida nem Figueiredo satisfaziam completamente as Sociedades Bíblicas Britânica e Americana, que decidiram, em 1886, preparar uma nova tradução baseada na versão Figueiredo. Nomearam duas comissões, uma em Portugal e outra no Brasil. A brasileira traduziu uma parte do Evangelho de São Lucas e deixou de funcionar; a portuguesa continuou o trabalho até 1901, traduzindo o Novo Testamento até o fim da Epístola aos Hebreus.

Assim abandonado, o plano se realizou mais tarde, em 1902, na “tradução brasileira” sobre as línguas originais. A comissão tradutora era composta dos seguintes ministros: W.C.Brown, da Igreja Episcopal; J.R.Smith, da Igreja Presbiteriana (Sul); J.M.Kyle, da Igreja Presbiteriana (Norte); A.B.Trajano, da Igreja Presbiteriana Sinodal; E.C.Pereira, da Igreja Independente; e Hipólito de Campos, da Igreja Metodista. Associados com esta comissão havia vários literatos brasileiros como consultores. A 1ª edição do Novo Testamento desta versão saiu em 1910 e a Bíblia completa, em 1917. Desta edição diz o dr. José Carlos Rodrigues:

“Se perdemos nela o castigado e belo português do trabalho de Figueiredo, ganhamos uma revisão muito fiel dos originais, seguindo as melhores autoridades… Escoimada de bastantes erros tipográficos que contém e melhorada a sua linguagem em alguns pontos, é a versão portuguesa que deve permanecer como a mais fiel, sendo por isso indispensável aos que estudam a Bíblia” (Estudo sobre o Velho Testamento, vol. I, pág. 193).

O rev. Eduardo Moreira, um dos líderes protestantes em Portugal, ao contrário, assim se expressa:

“A erroneamente denominada ‘versão brasileira de 1911’, por uma comissão de teólogos na qual predominavam os norte-americanos, não chegou a satisfazer os mesmos brasileiros e é intolerável em Portugal” (The Significance or Portugal, páb. 36).

Por isso, em abril de 1943, as Sociedades Bíblicas Unidas, sentindo a necessidade duma revisão de Almeida, constituíram uma comissão de 18 membros, 12 para o Novo Testamento e 6 para o Antigo Testamento. Essa comissão até hoje desenvolve suas atividades, pensando dar ao Brasil a melhor versão vernácula.

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Notas

[1] Esse equívoco se deve: (a) Ao fato de confundir-se o seu nome com o de um certo jesuíta também Ferreira de sobrenome; (b) Ao fato de se declarar invariavelmente nos frontispícios de todas as antigas edições de sua Bíblia que a tradução foi feita pelo “Revdo. Pe. João Ferreira A. de Almeida”. Mas nessas ocasião, vários ministros do Evangelho holandeses, alemães, dinamarqueses se auto intitulavam “Reverendos Padres” e, o que é mais original, “Reverendos Padres Dominicanos”.

[2] Aí se examina a edição de Nova Iorque que os protestantes espalhavam no Brasil; depois de tê-la confrontado com o texto reconhecido autêntico desde dos primeiros séculos, mostra que ela contém alterações, mudanças, mutilações e acréscimos, por exemplo Lc 1,28; At 14,23; Ef 5,32; 2Tm 4,5; 2Jo 5,6,10,15,17,20.

[3] Mr. Fox, querendo justificar o fato de os protestantes se apropriarem desta tradução católica, diz a respeito do seu autor: “Foi um clérigo católico romano, mas adversário das pretensões da autoridade papal e inimigo dos jesuítas. Além disso, não é tradutor servil da Vulgata, mas atreveu-se a seguir o texto grego e, portanto, tem o espírito quase-protestante”.

Fonte: Estudos Bíblicos Adicionais, Ed. das Américas.

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