Arquivo mensal: novembro 2010

O que disse o Papa sobre os preservativos?

O novo livro de Bento XVI, “Luz do Mundo: o Papa, a Igreja e os Sinais dos Tempos”, nem sequer tinha sido publicado e já estava no centro de uma controvérsia nos meios de comunicação on-line.

 

A polêmica explodiu na semana passada, quando o L’Osservatore Romano violou unilateralmente o embargo sobre o livro, publicando alguns extratos em língua italiana das diversas declarações do Papa, para grande desgosto dos editores em todo o mundo, que trabalhavam cuidadosamente visando um lançamento orquestrado do livro, que se daria na terça-feira seguinte.

Um dos extratos tratava do uso de preservativos para tentar evitar a propagação da AIDS e a imprensa imediatamente tirou proveito disto (p.ex.: Reuters, Associated Press, BBC Online). E assim, surgiram manchetes como:

– Papa diz que os preservativos são admissíveis em certos casos para deter a AIDS

– Papa: “Os preservativos justificam-se em alguns casos”

– Papa diz que os preservativos podem ser usados na luta contra a AIDS

Particularmente notória é a declaração de William Crawley, da BBC:

“O Papa Bento XVI parece ter alterado a postura oficial do Vaticano sobre o uso de preservativos, adotando uma posição moral que muitos teólogos católicos já recomendavam há muito tempo”.

Bah!

Pois bem: em primeiro lugar, trata-se de um livro de entrevistas. O Papa foi entrevistado. Não estava exercendo seu múnus oficial de ensinar. Este livro não é uma encíclica, uma constituição apostólica, uma bula papal, nem nada semelhante. Não é uma publicação da Igreja. Trata-se de uma entrevista realizada por um jornalista, em idioma alemão. Conseqüentemente, o livro não representa um ato do Magistério da Igreja, nem tem a capacidade de “alterar a postura oficial do Vaticano” em nada. Não possui força dogmática nem canônica. O livro – que é fascinante e sem precedentes, mas isto é tema para outra oportunidade – constitui aquilo que se classifica como opiniões pessoais do Papa sobre as perguntas questionadas pelo entrevistador Peter Seewald.

E como o Papa Bento XVI observa no livro:

“Há que se dizer que o Papa pode ter opiniões privadas que se encontram equivocadas”.

Não estou assinalando isto para insinuar que naquilo que o Papa Bento XVI fala a respeito dos preservativos está incorreto – chegaremos a este ponto ao seu tempo – mas para indicar o contexto da situação, deixando claro que se trata das opiniões privadas do Papa. São apenas isto: opiniões privadas. Não é ensino oficial da Igreja. Então, continuemos…

Entre os desserviços do L’Osservatore Romano feitos para romper o embargo do livro da maneira que fez, houve também o fato de que apenas publicou um pequeno trecho da seção em que o Papa discutia sobre o uso dos preservativos. Como resultado, o leitor não tinha como ver o contexto das suas declarações e, assim, garantir que a imprensa secular não estava tomando as observações do Papa fora do seu contexto (o que seria feito de qualquer modo, mas talvez nem tanto). Especialmente notório é o fato de que o L’Osservatore Romano omitiu o material onde Bento esclarece sua declaração sobre os preservativos, em uma pergunta logo a seguir.

Com efeito, o L’Osservatore Romano causou um grande dano tanto às comunidades católicas quanto às não-católicas.

Felizmente, agora você pode ler o texto completo das declarações do Papa.

Ademais, prevendo a controvérsia que estas palavras poderiam produzir, a drª. Janet Smith preparou um guia útil sobre o que o Papa disse e não disse.

Lancemos vista aos comentários do Papa, para ver o que ele realmente disse.

Seewald: (…) Na África, se apontou que o ensino tradicional da Igreja demonstrou ser a única maneira segura de se deter a propagação do HIV. Os críticos, incluindo a crítica dentro das próprias fileiras da Igreja, objetam que é uma loucura proibir a população de alto risco de usar preservativos.

Bento XVI: (…) Em minha intervenção, eu não estava fazendo uma declaração geral sobre o tema do preservativo, mas apenas dizendo – e isto é o que causou grande ofensa -, que não podemos resolver o problema mediante a distribuição de preservativos. Resta muito o que fazer. Devemos estar próximos das pessoas; devemos guiá-los e ajudá-los; e temos que fazer isto antes e depois do contágio com a doença. É um fato, como você já sabe, que as pessoas podem obter preservativos quando o desejarem, de qualquer modo. Porém, isto serve apenas para demonstrar que os preservativos por si próprios não resolvem o problema em si mesmo. Muito mais precisa ser feito. Enquanto isso, no âmbito secular, desenvolveu-se a teoria chamada ‘ABC’ – abstinência, fidelidade, preservativo -, em que se entende o preservativo somente como um último recurso, quando os outros dois pontos foram rejeitados. Isto quer dizer que concentrar-se no preservativo implica em uma banalização da sexualidade, e, além de tudo, é precisamente a origem perigosa da atitude da sexualidade, não como a expressão do amor, mas como uma espécie de entorpecente que as pessoas administram a si mesmas. Esta é a razão pela qual a luta contra a banalização da sexualidade é parte também da luta para garantir que a sexualidade seja tratada como um valor positivo e para que possa ter um efeito positivo na totalidade de ser do homem”.

Consideremos que o argumento geral do Papa é que os preservativos não resolvem o problema da AIDS. Em apoio disto, ele aponta vários argumentos:

1) As pessoas já podem obter preservativos, mas é evidente que o problema não foi resolvido.

2) No mundo secular foi proposto o ‘Programa ABC’, em que o preservativo só será usado quando os dois primeiros procedimentos verdadeiramente eficazes – a abstinência e a fidelidade – tiverem sido rejeitados. Assim, a proposta secular do ABC reconhece inclusive que os preservativos não são a única solução. Eles não funcionam tão bem quanto a abstinência e a fidelidade. Os dois primeiros são melhores.

3) Concentrar-se no uso do preservativo representa uma banalização (trivialização) da sexualidade, que se converte de ato de amor em ato de egoísmo. Para que o sexo desempenhe o papel positivo que deve ter, esta banalização do sexo – e, portanto, a fixação nos preservativos – deve ser resistida.

Esse é o contexto da afirmação que a imprensa reproduziu:

“Pode haver casos individuais justificados como, por exemplo, quanto um prostituto usa um preservativo, e isto pode ser um primeiro passo para uma moralização, um primeiro ato de responsabilidade para desenvolver novamente a consciência de que nem tudo é permitido e que não se pode fazer tudo o que se quer. Porém, não é realmente a maneira de tratar com o mal da infecção pelo HIV, o que realmente pode apenas vir de uma humanização da sexualidade”.

Há várias coisas a se considerar: em primeiro lugar, leve em conta que o Papa diz que: “Pode haver casos individuais justificados”, e não que: “Está justificado”. Esta é uma linguagem especulativa. Mas sobre o quê o Papa especula? Que o uso do preservativo está moralmente justificado? Não, não foi isso o que ele disse, mas que pode haver casos “sempre e quando [o uso do preservativo] pode ser um primeiro passo para uma moralização, um primeiro ato de responsabilidade para desenvolver novamente a consciência de que nem tudo é permitido”.

Em outras palavras, como diz Janet Smith:

“O Santo Padre está simplesmente observando que para alguns prostitutos homossexuais o uso de um preservativo pode indicar um despertar do sentido moral, um despertar acerca de que o prazer sexual não é o valor máximo, mas que devemos ter o cuidado de não prejudicar ninguém em nossas escolhas. Ele não está falando de uma moralidade do uso de preservativos, mas de algo que pode ser certo sobre o estado psicológico daqueles que os usam. Se estas pessoas, usando preservativos, o fazem com o fim de evitar prejudicar outras, com o passar do tempo perceberão que os atos sexuais entre membros do mesmo sexo são intrinsecamente maus, já que não estão de acordo com a natureza humana”.

Pelo menos isto é o máximo que se pode razoavelmente inferir das declarações do Papa, o que poderia ser expresso com maior clareza (e espero que o Vaticano emita um esclarecimento urgente).

Em segundo lugar, repare que o Papa segue imediatamente sua declaração acerca da prostituição homossexual usuária de preservativos com a afirmação: “Porém, não é realmente a maneira de se tratar com o mal da infecção pelo HIV, o que realmente pode apenas vir de uma humanização da sexualidade”.

Por “uma humanização da sexualidade”, o Papa quer reconhecer a verdade sobre a sexualidade humana, que deve ser exercida de maneira amorosa, fiel entre um homem e uma mulher unidos em matrimônio. Esta é a verdadeira solução e não colocar um preservativo e manter relações sexuais promíscuas com pessoas infectadas com um vírus mortal.

Neste momento da entrevista, Seewald faz uma pergunta de continuidade, e é verdadeiramente um crime que o L’Osservatore Romana não tenha reproduzido esta parte:

“Seewald: Quer dizer, então, que a Igreja Católica, na realidade, não se opõe em princípio ao uso dos preservativos?

Bento XVI: Ela, obviamente, não os considera como solução real ou moral, porém, neste ou em outro caso, pode haver, todavia, a intenção de reduzir o risco da infecção, como um primeiro passo para uma forma distinta e mais humana de viver a sexualidade”.

Assim, Bento XVI reitera que esta não é uma solução real (prática) para a crise da AIDS, nem tampouco uma solução moral. No entanto, em alguns casos, o uso de preservativo mostra “a intenção de reduzir o risco da infecção”, que é “um primeiro passo para… uma forma mais humana de viver a sexualidade”.

Portanto, não está dizendo que o uso de preservativos é justificado, mas que pode mostrar uma intenção particular e que esta intenção é um passo na direção correta.

Janet Smith oferece uma analogia útil:

“Se alguém fosse assaltar um banco e estava decidido em empregar uma arma de fogo, seria melhor para essa pessoa usar uma arma desmuniciada: reduzir-se-ia o risco de lesões mortais. Porém, não é tarefa da Igreja ensinar possíveis assaltantes de banco a assaltar bancos de uma maneira mais segura; menos ainda é tarefa da Igreja apoiar programas para oferecer a possíveis assaltantes de banco armas de fogo incapazes de ser municiadas. Não obstante, a intenção de um assaltante de banco em assaltar um banco de uma maneira que é mais segura para os funcionários e clientes do banco pode indicar um elemento de responsabilidade moral que poderia ser um passo para a compreensão final da imoralidade que é o assalto a bancos”.

Muito mais se poderia dizer de tudo isto, mas pelo que vimos, já resta claro que as declarações do Papa devem ser lidas com cuidado e que não constituem o tipo de licença para o uso de preservativos que os meios de comunicação desejam.

Há mais por vir…

Fonte: http://infocatolica.com/blog/. Tradução de Carlos Martins Nabeto.

Fonte:http://www.veritatis.com.br/doutrina/a-igreja/955-o-que-disse-o-papa-sobre-os-preservativos

As palavras do Papa sobre preservativo

Quando li a notícia no sábado, o Papa, não poderia deixar o meu espanto, o Papa justifica o uso de preservativos em certos casos.

Logo veio a nota do Pe. Federico Lombardi, que ao invés de esclarecer, obscurecendo as palavras do Papa. A revelação veio. “s moralidade sexual bunker da Igreja estava rachando.

No entanto, gostaria de analisar cuidadosamente o que foi dito pelo Papa, em comparação com um autor cuja qualidade doutrinária na sua vida e obra, é irrefutável, um padre que já deve estar no altar para o bem que ele fez – e usar o presente perfeito aqui não é uma questão meramente gramatical – a Igreja, quer dizer, o pai Antonio Royo Marín, OP e uma vez analisados, iremos tirar algumas conclusões para o efeito.

Deixe-me começar por dizer que este é um texto que é uma entrevista por escrito. A entrevista é sempre a aparência de um argumento, onde o entrevistador, nesse caso Seewald não é uma pessoa que quer convencer a priori. O entrevistador é uma espécie de maestro, enquanto o entrevistado argumentou formaula parecer uma chance. É importante levar isso em consideração porque a maneira de organizar os argumentos para este tipo de texto é completamente diferente do que é feito em um manual ou um artigo.

Parto também uma outra premissa e boas intenções do Papa, isto é, interpretá-lo de acordo com o Magistério da Igreja e que tem sido dito por ele em vários discursos e escritos. Não é porque o papa não pode estar errado – não fale sobre a infalibilidade -, mas porque este tipo de textos jornalísticos são tão informal que se prestam a confusão.

O texto em questão diz o seguinte:

Olhando apenas para a profilaxia significa a banalização da sexualidade, e esta banalização é precisamente a razão pela qual tantas pessoas perigosas não vê a sexualidade mais na expressão do seu amor, mas apenas uma espécie de droga, que eles mesmos fornecem . Assim também a luta contra a banalização da sexualidade é parte de um esforço maior que a sexualidade é vista com bons olhos e pode exercer o seu efeito positivo sobre os seres humanos na sua totalidade.

Os casos específicos pode justificar-se, por exemplo, quando uma prostituta usando preservativo, e este pode ser o primeiro passo em direção a uma moral, uma responsabilidade primordial de desenvolver uma nova consciência do fato de que nem tudo é permitido e que não podem ser fazer tudo o que você quer. No entanto, esta não é a forma verdadeira e apropriada a bater infecções por HIV. Realmente precisamos de uma humanização da sexualidade.

Assim, em bruto, não só mostra a doutrina de uma forma, digamos, nebulosa, mas pode até haver uma aparente contradição entre os dois parágrafos: banalização da sexualidade, por um lado e responsável utilização – e chamá-lo assim – de preservativo numa relação onde o sexo é uma mercadoria comprada / vendida.

Eu quero chamar a atenção para a comparação feita pelo Papa de drogas, sexo e as conotações que carrega a analogia. A droga tem um efeito não apenas na razão, mas também sobre o elemento de vontade, porque eles criam um hábito quase irresistível para eles. É uma espécie de suicídio doce contra a qual eles não podem reagir como vítimas das drogas.

Padre Antonio Royo Marín, OP, em sua teologia moral para os leigos, diz o seguinte quando se fala da luxúria realizado pela natureza:

572. Um conceito. Simples ato venéreo prostituição está completamente tomado por consentimento mútuo entre homens e mulheres solteiros, não afectadas por quaisquer vínculos religiosos ou familiares.

(…)

574. 3. Forms. São três fonicación maneiras principais:

uma coabitação) (…).

b) O meretrício, ou fornicação com uma prostituta. Em si mesmo não muda o tipo, a menos que o fornicador está relacionada com uma relação (casamento, direito a voto) que tornam impossível para a fornicação simples (sendo em si, necessariamente, adultério ou sacrilégio).

c) FORNICAÇÃO ONANÍSTICA, é o que é feito de modo que é impossível construir. Alterar o tipo de pecado, quer sejam utilizados meios artificiais (preservativos, etc) Como se por retração natural simples. Em ambos os casos, comete um pecado contra a natureza, o seu muito mais grave do que a fornicação simples e natural. Na prática, porém, é menos maldade subjetiva em um pecador ignorante assim, acredita que o pecado menos ou é menos prejudicial, mas seria esse o caso – isto é, aumentar a responsabilidade dos seus pecados – se o pecado fez em silêncio sem incorrer em encargos económicos ou sociais que possam vir de seu ato. É menos culpada diante de Deus que peca por aceitar as conseqüências humanas de seus pecados do que simplesmente rejeita o pecado mais facilmente.

Neste caso é importante para o raciocínio do Doutor Angélico, que na Suma Teológica (II-II, 154,12), é dizer que as formas não naturais são sempre mais graves do que natural, não só em termos absolutos quer em si mesmo Mas, mesmo levando em conta outros conduz.

Agora, voltando ao assunto em mãos, o que os textos têm de fazer juntos? Acho que o Papa se refere a um caso em que o pecador, ignorante, acho que efetivamente, o uso do preservativo é menos prejudicial.

Neste caso, o pecador obscurecida a consciência – a consciência, como sabemos, pode falhar, não sindérese – ainda há um pequeno orifício por onde passa um feixe de luz que ainda te faz pensar que o bem eo mal dizer, ainda não totalmente afundado na lama e, em seguida, Grace vai mostrar o jeito que você faz fora da lama, nem tudo está perdido.

Eu realmente não se justifica a usar preservativos, mas num caso em que a pessoa, por ignorância, acham que isso torna menos errado. Eu sei que a explicação é complicada, mas a mudança no ponto de vista dá-nos uma nova perspectiva. Neste caso, o Papa fala do lado do pecador, e não de objetividade. Não justificam o uso de preservativos em qualquer circunstância.

E agora os resultados:

1 .- O Papa como um homem do seu tempo, sofre os mesmos defeitos que os homens do posto de Igreja – a reconciliação: falar sobre tudo, em todos os sentidos, esquecendo que ele é o Papa de levantar e deitar-se perigo inerente colocados pela mídia, especialmente se não se sabe bem lidar com essas questões.

2 .- O papa cometeu um jogo irresponsável estas questões difíceis e específicos, em uma entrevista. Há uma diferença substancial entre a maneira em que o pai manifesta Antonio Royo Marín, OP, claro, a escola, límpido tomista si ea forma como ele faz, o Santo Padre, entre outras coisas porque o Papa não é tomista – Alguém que se aproximou de seus livros, você vai ver como a apresentar as questões está longe de ser acadêmica – e, além disso, os meios são diferentes: o dominicano escrever um manual de teologia moral, que visa um público específico , que visa formar, usando linguagem técnica e rigorosa, cientificamente, enquanto que o papa concedeu uma entrevista com as limitações deste tipo de mídia, e que se destina a todos os públicos, sem distinção, assumindo mínimo, aliás, não são de hoje. A divulgação inclui um perigos inerentes que tornam a exposição inadequada de algumas questões teológicas.

3 .- Em vista disso, o papa como Papa, deve se abster de dar entrevistas, escrevendo livros, etc., Ou seja, devem limitar as suas declarações, porque, embora eles não são actos de magistério, como o livro “Jesus de Nazaré continua a ser o Vigário de Cristo na terra. E para os fiéis, é especialmente difícil distinguir as situações. O ato perlocucionário do Papa foi de magnitude semelhante ao do bombardeio de Hiroshima e Nagasaki. A confusão, manipulação, tem sido enorme “, e todos por um livro? Tão necessária era?

4 .- O diretor do LOR e Federico Lombardi deveria renunciar imediatamente. Os colaboradores do papa são prejudiciais na comunicação (“ninguém chegou a perceber que este número necessário digressão?). Neste caso, Navarro Valls deu vinte voltas no presente. É uma vergonha a nota emitida por Lombardi. A Igreja é o Corpo Místico de Cristo, mas isso não prejudica a exigência de profissionalismo em tais posições. Não há nenhum ponto de pertencer a alguma corporação, ordem ou instituto. Não. Você tem que ser muito bom para lidar com o mundo em que vivemos.

5 .- A Igreja é uma necessidade real. Não estou dizendo nada de novo. Mas as palavras do papa ter descoberto o estado lastimável é a teologia moral, mesmo entre os chamados peritos assim (o meu vizinho é um exemplo. Em um certo momento agora seria sob o jugo da Inquisição).

6 .- Finalmente, há uma urgente reforma da Ratio Studiorum dos Seminários. Voltar para o estudo de St. Thomas é uma necessidade absoluta. Não porque a Igreja não se encaixa em outras formas de fazer teologia. Nem porque é por excelência o eminente teologia, que também é, mas por uma questão mais básica é que São Tomé é a teologia que a matemática para engenharia. O engenheiro não é matemático, mas a matemática vai permitir uma forma de realidade do modelo. O estudo da estrutura de Aquino, para que a mente pode ser tratada adequadamente problemas teológicos. St. Thomas a estrutura dos materiais, atacar os problemas e siga logicamente de forma clara, simples e clara. Eu não sei se me explico.

7 .- A maioria de todos, por que o Senhor tenha misericórdia de nós!

Fonte:http://infocatolica.com/blog/

A Verdadeira Reforma da Liturgia

CONSTITUIÇÃO CONCILIAR
 SACROSANCTUM CONCILIUM
SOBRE A SAGRADA LITURGIA

PROÉMIO

Fim do Concílio e sua relação com a reforma litúrgica

1. O sagrado Concílio propõe-se fomentar a vida cristã entre os fiéis, adaptar melhor às necessidades do nosso tempo as instituições susceptíveis de mudança, promover tudo o que pode ajudar à união de todos os crentes em Cristo, e fortalecer o que pode contribuir para chamar a todos ao seio da Igreja. Julga, por isso, dever também interessar-se de modo particular pela reforma e incremento da Liturgia.

2. A Liturgia, pela qual, especialmente no sacrifício eucarístico, «se opera o fruto da nossa Redenção» (1), contribui em sumo grau para que os fiéis exprimam na vida e manifestem aos outros o mistério de Cristo e a autêntica natureza da verdadeira Igreja, que é simultâneamente humana e divina, visível e dotada de elementos invisíveis, empenhada na acção e dada à contemplação, presente no mundo e, todavia, peregrina, mas de forma que o que nela é humano se deve ordenar e subordinar ao divino, o visível ao invisível, a acção à contemplação, e o presente à cidade futura que buscamos (2). A Liturgia, ao mesmo tempo que edifica os que estão na Igreja em templo santo no Senhor, em morada de Deus no Espírito (3), até à medida da idade da plenitude de Cristo (4), robustece de modo admirável as suas energias para pregar Cristo e mostra a Igreja aos que estão fora, como sinal erguido entre as nações (5), para reunir à sua sombra os filhos de Deus dispersos (6), até que haja um só rebanho e um só pastor (7).

Aplicação aos diversos ritos

3. Entende, portanto, o sagrado Concílio dever recordar os princípios e determinar as normas práticas que se seguem, acerca do incremento e da reforma da Liturgia.

Entre estes princípios e normas, alguns podem e devem aplicar-se não só ao rito romano mas a todos os outros ritos, muito embora as normas práticas que se seguem devam entender-se referidas só ao rito romano, a não ser que se trate de coisas que, por sua própria natureza, digam respeito também aos outros ritos.

4. O sagrado Concílio, guarda fiel da tradição, declara que a santa mãe Igreja considera iguais em direito e honra todos os ritos legitimamente reconhecidos, quer que se mantenham e sejam por todos os meios promovidos, e deseja que, onde for necessário, sejam prudente e integralmente revistos no espírito da sã tradição e lhes seja dado novo vigor, de acordo com as circunstâncias e as necessidades do nosso tempo.

CAPÍTULO I

PRINCÍPIOS GERAIS EM ORDEM
À REFORMA E INCREMENTO DA LITURGIA

I -NATUREZA DA SAGRADA LITURGIA E SUA IMPORTÂNCIA NA VIDA DA IGREJA

Jesus Cristo salvador do mundo

5. Deus, que «quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade» (I Tim. 2,4), «tendo falado outrora muitas vezes e de muitos modos aos nossos pais pelos profetas» (Hebr. 1,1), quando chegou a plenitude dos tempos, enviou o Seu Filho, Verbo feito carne, ungido pelo Espírito Santo, a evangelizar os pobres, curar os contritos de coração (8), como ,médico da carne e do espírito(9), mediador entre Deus e os homens (10). A sua humanidade foi, na unidade da pessoa do Verbo, o instrumento da nossa salvação. Por isso, em Cristo «se realizou plenamente a nossa reconciliação e se nos deu a plenitude do culto divino» (11).

Esta obra da redenção dos homens e da glorificação perfeita de Deus, prefigurada pelas suas grandes obras no povo da Antiga Aliança, realizou-a Cristo Senhor, principalmente pelo mistério pascal da sua bem-aventurada Paixão, Ressurreição dos mortos e gloriosa Ascensão, em que «morrendo destruiu a nossa morte e ressurgindo restaurou a nossa vida» (12). Foi do lado de Cristo adormecido na cruz que nasceu o sacramento admirável de toda a Igreja (13).

pelo sacrifício e pelos sacramentos

6. Assim como Cristo foi enviado pelo Pai, assim também Ele enviou os Apóstolos, cheios do Espírito Santo, não só para que, pregando o Evangelho a toda a criatura (14), anunciassem que o Filho de Deus, pela sua morte e ressurreição, nos libertara do poder de Satanás (15) e da morte e nos introduzira no Reino do Pai, mas também para que realizassem a obra de salvação que anunciavam, mediante o sacrifício e os sacramentos, à volta dos quais gira toda a vida litúrgica. Pelo Baptismo são os homens enxertados no mistério pascal de Cristo: mortos com Ele, sepultados com Ele, com Ele ressuscitados (16); recebem o espírito de adopção filial que «nos faz clamar: Abba, Pai» (Rom. 8,15), transformando-se assim nos verdadeiros adoradores que o Pai procura (17). E sempre que comem a Ceia do Senhor, anunciam igualmente a sua morte até Ele vir (18). Por isso foram baptizados no próprio dia de Pentecostes, em que a Igreja se manifestou ao mundo, os que receberam a palavra de Pedro. E «mantinham-se fiéis à doutrina dos Apóstolos, à participação na fracção do pão e nas orações… louvando a Deus e sendo bem vistos pelo povo» (Act. 2, 41-47). Desde então, nunca mais a Igreja deixou de se reunir em assembleia para celebrar o mistério pascal: lendo «o que se referia a Ele em todas as Escrituras» (Lc. 24,27), celebrando a Eucaristia, na qual «se torna presente o triunfo e a vitória da sua morte» (19), e dando graças «a Deus pelo Seu dom inefável (2 Cor. 9,15) em Cristo Jesus, «para louvor da sua glória» (Ef. 1,12), pela virtude do Espírito Santo.

presença de Cristo na Liturgia

7. Para realizar tão grande obra, Cristo está sempre presente na sua igreja, especialmente nas acções litúrgicas. Está presente no sacrifício da Missa, quer na pessoa do ministro – «O que se oferece agora pelo ministério sacerdotal é o mesmo que se ofereceu na Cruz» (20) -quer e sobretudo sob as espécies eucarísticas. Está presente com o seu dinamismo nos Sacramentos, de modo que, quando alguém baptiza, é o próprio Cristo que baptiza (21). Está presente na sua palavra, pois é Ele que fala ao ser lida na Igreja a Sagrada Escritura. Está presente, enfim, quando a Igreja reza e canta, Ele que prometeu: «Onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, Eu estou no meio deles» (Mt. 18,20).

Em tão grande obra, que permite que Deus seja perfeitamente glorificado e que os homens se santifiquem, Cristo associa sempre a si a Igreja, sua esposa muito amada, a qual invoca o seu Senhor e por meio dele rende culto ao Eterno Pai.

Com razão se considera a Liturgia como o exercício da função sacerdotal de Cristo. Nela, os sinais sensíveis significam e, cada um à sua maneira, realizam a santificação dos homens; nela, o Corpo Místico de Jesus Cristo – cabeça e membros – presta a Deus o culto público integral.

Portanto, qualquer celebração litúrgica é, por ser obra de Cristo sacerdote e do seu Corpo que é a Igreja, acção sagrada par excelência, cuja eficácia, com o mesmo título e no mesmo grau, não é igualada por nenhuma outra acção da Igreja.

A Liturgia terrena, antecipação da Liturgia celeste

8. Pela Liturgia da terra participamos, saboreando-a já, na Liturgia celeste celebrada na cidade santa de Jerusalém, para a qual, como peregrinos nos dirigimos e onde Cristo está sentado à direita de Deus, ministro do santuário e do verdadeiro tabernáculo (22); por meio dela cantamos ao Senhor um hino de glória com toda a milícia do exército celestial, esperamos ter parte e comunhão com os Santos cuja memória veneramos, e aguardamos o Salvador, Nosso Senhor Jesus Cristo, até Ele aparecer como nossa vida e nós aparecermos com Ele na glória (23).

Lugar da Liturgia na vida da Igreja

9. A sagrada Liturgia não esgota toda a acção da Igreja, porque os homens, antes de poderem participar na Liturgia, precisam de ouvir o apelo à fé e à conversão: «Como hão-de invocar aquele em quem não creram? Ou como hão-de crer sem o terem ouvido? Como poderão ouvir se não houver quem pregue? E como se há-de pregar se não houver quem seja enviado?» (Rom. 10, 14-15).

É por este motivo que a Igreja anuncia a mensagem de salvação aos que ainda não têm fé, para que todos os homens venham a conhecer o único Deus verdadeiro e o Seu enviado, Jesus Cristo, e se convertam dos seus caminhos pela penitência (24). Aos que crêem, tem o dever de pregar constantemente a fé e a penitência, de dispó-los aos Sacramentos, de ensiná-los a guardar tudo o que Cristo mandou (25), de estimulá-los a tudo o que seja obra de caridade, de piedade e apostolado, onde os cristãos possam mostrar que são a luz do mundo, embora não sejam deste mundo, e que glorificam o Pai diante dos homens.

10. Contudo, a Liturgia é simultâneamente a meta para a qual se encaminha a acção da Igreja e a fonte de onde promana toda a sua força. Na verdade, o trabalho apostólico ordena-se a conseguir que todos os que se tornaram filhos de Deus pela fé e pelo Baptismo se reunam em assembleia para louvar a Deus no meio da Igreja, participem no Sacrifício e comam a Ceia do Senhor.

A Liturgia, por sua vez, impele os fiéis, saciados pelos «mistérios pascais», a viverem «unidos no amor» (26); pede «que sejam fiéis na vida a quanto receberam pela fé» (27); e pela renovação da aliança do Senhor com os homens na Eucaristia, e aquece os fiéis na caridade urgente de Cristo. Da Liturgia, pois, em especial da Eucaristia, corre sobre nós, como de sua fonte, a graça, e por meio dela conseguem os homens com total eficácia a santificação em Cristo e a glorificação de Deus, a que se ordenam, como a seu fim, todas as outras obras da Igreja.

A participação dos fiéis

11. Para assegurar esta eficácia plena, é necessário, porém, que os fiéis celebrem a Liturgia com rectidão de espírito, unam a sua mente às palavras que pronunciam, cooperem com a graça de Deus, não aconteça de a receberem em vão (28). Por conseguinte, devem os pastores de almas vigiar por que não só se observem, na acção litúrgica, as leis que regulam a celebração válida e lícita, mas também que os fiéis participem nela consciente, activa e frutuosamente.

Vida espiritual extra-litúrgica

12. A participação na sagrada Liturgia não esgota, todavia, a vida espiritual. O cristão, chamado a rezar em comum, deve entrar também no seu quarto para rezar a sós (29) ao Pai, segundo ensina o Apóstolo, deve rezar sem cessar (30). E o mesmo Apóstolo nos ensina a trazer sempre no nosso corpo os sofrimentos da morte de Jesus, para que a sua vida se revele na nossa carne mortal (31). É essa a razão por que no Sacrifício da Missa pedimos ao Senhor que, tendo aceite a oblação da vítima espiritual, faça de nós uma «oferta eterna» (32) a si consagrada.

13. São muito de recomendar os exercícios piedosos do povo cristão, desde que estejam em conformidade com as leis e as normas da Igreja, e especialmente quando se fazem por mandato da Sé Apostólica.

Gozam também de especial dignidade as práticas religiosas das Igrejas particulares, celebradas por mandato dos Bispos e segundo os costumes ou os livros legitimamente aprovados.

Importa, porém, ordenar essas práticas tendo em conta os tempos litúrgicos, de modo que se harmonizem com a sagrada Liturgia, de certo modo derivem dela, e a ela, que por sua natureza é muito superior, conduzam o povo.

II- EDUCAÇÃO LITÚRGICA E PARTICIPAÇÃO ACTIVA

Normas gerais

14. É desejo ardente na mãe Igreja que todos os fiéis cheguem àquela plena, consciente e activa participação nas celebrações litúrgicas que a própria natureza da Liturgia exige e que é, por força do Baptismo, um direito e um dever do povo cristão, «raça escolhida, sacerdócio real, nação santa, povo adquirido» (1 Ped. 2,9; cfr. 2, 4-5).

Na reforma e incremento da sagrada Liturgia, deve dar-se a maior atenção a esta plena e activa participação de todo o povo porque ela é a primeira e necessária fonte onde os fiéis hão-de beber o espírito genuìnamente cristão. Esta é a razão que deve levar os pastores de almas a procurarem-na com o máximo empenho, através da devida educação.

Mas, porque não há qualquer esperança de que tal aconteça, se antes os pastores de almas se não imbuírem plenamente. do espírito e da virtude da Liturgia e não se fizerem mestres nela, é absolutamente necessário que se providencie em primeiro lugar à formação litúrgica do clero. Por tal razões este sagrado Concílio determinou quanto segue:

Formação dos professores de Liturgia

15. Os professores que se destinam a ensinar a sagrada Liturgia nos seminários, nas casas de estudos dos religiosos e nas faculdades de teologia, devem receber a formação conveniente em ordem ao seu múnus em institutos para isso especialmente destinados.

O ensino da Liturgia nos Seminários

16. A sagrada Liturgia deve ser tida, nos seminários e casas de estudo dos religiosos, como uma das disciplinas necessárias e mais importantes, nas faculdades de teologia como disciplina principal, e ensinar-se nos seus aspectos quer teológico e histórico, quer espiritual, pastoral e jurídico.

Mais: procurem os professores das outras disciplinas, sobretudo de teologia dogmática, Sagrada Escritura, teologia espiritual e pastoral, fazer ressaltar, a partir das exigências intrínsecas de cada disciplina, o mistério de Cristo e a história da salvação, para que se veja claramente a sua conexão com a Liturgia e a unidade da formação sacerdotal.

A formação litúrgica dos seminaristas, sacerdotes e fiéis

17. Nos seminários e casas religiosas, adquiram os clérigos uma formação litúrgica da vida espiritual, mediante uma conveniente iniciação que lhes permita penetrar no sentido dos ritos sagrados e participar perfeitamente neles, mediante a celebração dos sagrados mistérios, como também mediante outros exercícios de piedade penetrados do espírito da sagrada Liturgia. Aprendam também a observar as leis litúrgicas, de modo que nos seminários e institutos religiosos a vida seja totalmente impregnada de espírito litúrgico.

18. Ajudem-se os sacerdotes, quer seculares quer religiosos, que já trabalham na vinha do Senhor, por todos os meios oportunos, a penetrarem cada vez melhor o sentido do que fazem nas funções sagradas, a viverem a vida litúrgica, e a partilharem-na com os fiéis que lhes estão confiados.

19. Procurem os pastores de almas fomentar com persistência e zelo a educação litúrgica e a participação activa dos fiéis, tanto interna como externa, segundo a sua idade, condição, género de vida e grau de cultura religiosa, na convicção de que estão cumprindo um dos mais importantes múnus do dispensador fiel dos mistérios de Deus. Neste ponto guiem o rebanho não só com palavras mas também com o exemplo.

O uso dos meios de comunicação

20. Façam-se com discrição e dignidade, e sob a direcção de pessoa competente, para tal designada pelos Bispos, as transmissões radiofónicas ou televisivas das acções sagradas, especialmente da Missa.

III – REFORMA DA SAGRADA LITURGIA

Razão e sentido da reforma

21. A santa mãe Igreja, para permitir ao povo cristão um acesso mais seguro à abundância de graça que a Liturgia contém, deseja fazer uma acurada reforma geral da mesma Liturgia. Na verdade, a Liturgia compõe-se duma parte imutável, porque de instituição divina, e de partes susceptíveis de modificação, as quais podem e devem variar no decorrer do tempo, se porventura se tiverem introduzido nelas elementos que não correspondam tão bem à natureza íntima da Liturgia ou se tenham tornado menos apropriados.

Nesta reforma, proceda-se quanto aos textos e ritos, de tal modo que eles exprimam com mais clareza as coisas santas que significam, e, quanto possível, o povo cristão possa mais fàcilmente apreender-lhes o sentido e participar neles por meio de uma celebração plena, activa e comunitária.

Para tal fim, o sagrado Concílio estabeleceu estas normas gerais:

A. Normas gerais

A autoridade competente

22. § 1. Regular a sagrada Liturgia compete ùnicamente à autoridade da Igreja, a qual reside na Sé Apostólica e, segundo as normas do direito, no Bispo.

§ 2. Em virtude do poder concedido pelo direito, pertence também às competentes assembleias episcopais territoriais de vário género legitimamente constituídas regular, dentro dos limites estabelecidos, a Liturgia.

§ 3. Por isso, ninguém mais, mesmo que seja sacerdote, ouse, por sua iniciativa, acrescentar, suprimir ou mudar seja o que for em matéria litúrgica.

Trabalho prudente

23. Para conservar a sã tradição e abrir ao mesmo tempo o caminho a um progresso legítimo, faça-se uma acurada investigação teológica, histórica e pastoral acerca de cada uma das partes da Liturgia que devem ser revistas. Tenham-se ainda em consideração às leis gerais da estrutura e do espírito da Liturgia, a experiência adquirida nas recentes reformas litúrgicas e nos indultos aqui e além concedidos. Finalmente, não se introduzam inovações, a não ser que uma utilidade autêntica e certa da Igreja o exija, e com a preocupação de que as novas formas como que surjam a partir das já existentes.

Evitem-se também, na medida do possível, diferenças notáveis de ritos entre regiões confinantes.

O lugar da Sagrada Escritura

24. É enorme a importância da Sagrada Escritura na celebração da Liturgia. Porque é a ela que se vão buscar as leituras que se explicam na homilia e os salmos para cantar; com o seu espírito e da sua inspiração nasceram as preces, as orações e os hinos litúrgicos; dela tiram a sua capacidade de significação as acções e os sinais. Para promover a reforma, o progresso e adaptação da sagrada Liturgia, é necessário, por conseguinte, desenvolver aquele amor suave e vivo da Sagrada Escritura de que dá testemunho a venerável tradição dos ritos tanto orientais como ocidentais.

A revisão dos livros

25. Faça-se o mais depressa possível a revisão dos livros litúrgicos, utilizando o trabalho de pessoas competentes e consultando Bispos de diversos países do mundo.

B. Normas que derivam da natureza hierárquica e comunitária da Liturgia

A liturgia, acção da Igreja comunitária

26. As acções litúrgicas não são acções privadas, mas celebrações da Igreja, que é «sacramento de unidade», isto é, Povo santo reunido e ordenado sob a direcção dos Bispos (33).

Por isso, tais acções pertencem a todo o Corpo da Igreja, manifestam-no, atingindo, porém, cada um dos membros de modo diverso, segundo a variedade de estados, funções e participação actual.

27. Sempre que os ritos comportam, segundo a natureza particular de cada um, uma celebração comunitária, caracterizada pela presença e activa participação dos fiéis, inculque-se que esta deve preferir-se, na medida do possível, à celebração individual e como que privada.

Isto é válido sobretudo para a celebração da Missa e para a administração dos sacramentos, ressalvando-se sempre a natureza pública e social de toda a Missa.

28. Nas celebrações litúrgicas, limite-se cada um, ministro ou simples fiel, exercendo o seu ofício, a fazer tudo e só o que é de sua competência, segundo a natureza do rito e as leis litúrgicas.

Os ministros inferiores

29. Os que servem ao altar, os leitores, comentadores e elementos do grupo coral desempenham também um autêntico ministério litúrgico. Exerçam, pois, o seu múnus com piedade autêntica e do modo que convêm a tão grande ministério e que o Povo de Deus tem o direito de exigir.

É, pois, necessário imbuí-los de espírito litúrgico, cada um a seu modo, e formá-los para executarem perfeita e ordenadamente a parte que lhes compete.

A participação do povo

30. Para fomentar a participação activa, promovam-se as aclamações dos fiéis, as respostas, a salmodia, as antífonas, os cânticos, bem como as acções, gestos e atitudes corporais. Não deve deixar de observar-se, a seu tempo, um silêncio sagrado.

31. Na revisão dos livros litúrgicas, procure-se que as rubricas tenham em conta a parte que compete aos fiéis.

A não-acepção das pessoas

32. Na Liturgia, à excepção da distinção que deriva da função litúrgica e da sagrada Ordem e das honras devidas às autoridades civis segundo as leis litúrgicas, não deve fazer-se qualquer acepção de pessoas ou classes sociais, quer nas cerimónias, quer nas solenidades externas.

C. Normas que derivam da natureza didáctica e pastoral da Liturgia

O valor didático da Liturgia

33. Embora a sagrada Liturgia seja principalmente culto da majestade divina, é também abundante fonte de instrução para o povo fiel (34). Efectivamente, na Liturgia Deus fala ao Seu povo, e Cristo continua a anunciar o Evangelho. Por seu lado, o povo responde a Deus com o canto e a oração.

Mais: as orações dirigidas a Deus pelo sacerdote que preside, em representação de Cristo, à assembleia, são ditas em nome de todo o Povo santo e de todos os que estão presentes. Os próprios sinais visíveis que a sagrada Liturgia utiliza para simbolizar as realidades invisíveis foram escolhidos por Cristo ou pela Igreja.

Por isso, não é só quando se faz a leitura «do que foi escrito para nossa instrução» (Rom. 15,4), mas também quando a Igreja reza, canta ou age, que a fé dos presentes é alimentada e os espíritos se elevam a Deus, para se lhe submeterem de modo racional e receberem com mais abundância a sua graça.

Por isso, na reforma da Liturgia, observem-se as seguintes normas gerais:

Aplicação aos diversos ritos

34. Brilhem os ritos pela sua nobre simplicidade, sejam claros na brevidade e evitem repetições inúteis; devem adaptar-se à capacidade de compreensão dos fiéis, e não precisar, em geral, de muitas explicações.

A conexão entre a palavra e o rito

35. Para se poder ver claramente que na Liturgia o rito e a palavra estão ìntimamente unidos:

1) Seja mais abundante, variada e bem adaptada a leitura da Sagrada Escritura nas celebrações litúrgicas.

2) Indiquem as rubricas o momento mais apto para a pregação, que é parte da acção litúrgica, quando o rito a comporta. O ministério da palavra deve ser exercido com muita fidelidade e no modo devido. A pregação deve ir beber à Sagrada Escritura e à Liturgia, e ser como que o anúncio das maravilhas de Deus na história da salvação, ou seja, no mistério de Cristo, o qual está sempre presente e operante em nós, sobretudo nas celebrações litúrgicas.

3) Procure-se também inculcar por todos os modos uma catequese mais directamente litúrgica, e prevejam-se nos próprios ritos, quando necessário, breves admonições, feitas só nos momentos mais oportunos, pelo sacerdote ou outro ministro competente, com as palavras prescritas ou semelhantes.

4) Promova-se a celebração da Palavra de Deus nas vigílias das festas mais solenes, em alguns dias feriais do Advento e da Quaresma e nos domingos e dias de festa, especialmente onde não houver sacerdote; neste caso, será um diácono, ou outra pessoa delegada pelo Bispo, a dirigir a celebração.

A língua litúrgica: traduções

36. § 1. Deve conservar-se o uso do latim nos ritos latinos, salvo o direito particular.

§ 2. Dado, porém, que não raramente o uso da língua vulgar pode revestir-se de grande utilidade para o povo, quer na administração dos sacramentos, quer em outras partes da Liturgia, poderá conceder-se à língua vernácula lugar mais amplo, especialmente nas leituras e admonições, em algumas orações e cantos, segundo as normas estabelecidas para cada caso nos capítulos seguintes.

§ 3. Observando estas normas, pertence à competente autoridade eclesiástica territorial, a que se refere o artigo 22 § 2, consultados, se for o caso, os Bispos das regiões limítrofes da mesma língua, decidir acerca do uso e extensão da língua vernácula. Tais decisões deverão ser aprovadas ou confirmadas pela Sé Apostólica.

§ 4. A tradução do texto latino em língua vulgar para uso na Liturgia, deve ser aprovada pela autoridade eclesiástica territorial competente, acima mencionada.

D. Normas para a adaptação da Liturgia à índole e tradições dos povos

A adaptação da Igreja

37. Não é desejo da Igreja impor, nem mesmo na Liturgia, a não ser quando está em causa a fé e o bem de toda a comunidade, uma forma única e rígida, mas respeitar e procurar desenvolver as qualidades e dotes de espírito das várias raças e povos. A Igreja considera com benevolência tudo o que nos seus costumes não está indissolùvelmente ligado a superstições e erros, e, quando é possível, mantem-no inalterável, por vezes chega a aceitá-lo na Liturgia, se se harmoniza com o verdadeiro e autêntico espírito litúrgico.

Aplicação à Liturgia

38. Mantendo-se substancialmente a unidade do rito romano, dê-se possibilidade às legítimas diversidades e adaptações aos vários grupos étnicos, regiões e povos, sobretudo nas Missões, de se afirmarem, até na revisão dos livros litúrgicos; tenha-se isto oportunamente diante dos olhos ao estruturar os ritos e ao preparar as rubricas.

A autoridade competente

39. Será da atribuição da competente autoridade eclesiástica territorial, de que fala o art. 22 § 2, determinar as várias adaptações a fazer, especialmente no que se refere à administração dos sacramentos, aos sacramentais, às procissões, à língua litúrgica, à música sacra e às artes, dentro dos limites estabelecidos nas edições típicas dos livros litúrgicos e sempre segundo as normas fundamentais desta Constituição.

Casos especiais

40. Mas como em alguns lugares e circunstâncias é urgente fazer uma adaptação mais profunda da Liturgia, que é, por isso, mais difícil:

1) Deve a competente autoridade eclesiástica territorial, a que se refere o art. 22 § 2, considerar com muita prudência e atenção o que, neste aspecto, das tradições e génio de cada povo, poderá oportunamente ser aceite na Liturgia. Proponham-se à Sé Apostólica as adaptações julgadas úteis ou necessárias, para serem introduzidas com o seu consentimento.

2) Para se fazer a adaptação com a devida cautela, a Sé Apostólica poderá dar, se for necessário, à mesma autoridade eclesiástica territorial a faculdade de permitir e dirigir as experiências prévias que forem precisas, em alguns grupos que sejam aptos para isso e por um tempo determinado.

3) Como as leis litúrgicas criam em geral dificuldades especiais quanto à adaptação, sobretudo nas Missões, haja, para a sua elaboração, pessoas competentes na matéria de que se trata.

IV – PROMOÇÃO DA VIDA LITÚRGICA NA DIOCESE E NA PARÓQUIA

O Bispo, centro de unidade de vida na diocese

41. O Bispo deve ser considerado como o sumo-sacerdote do seu rebanho, de quem deriva e depende, de algum modo, a vida de seus fiéis em Cristo.

Por isso, todos devem dar a maior importância à vida litúrgica da diocese que gravita em redor do Bispo, sobretudo na igreja catedral, convencidos de que a principal manifestação da Igreja se faz numa participação perfeita e activa de todo o Povo santo de Deus na mesma celebração litúrgica, especialmente na mesma Eucaristia, numa única oração, ao redor do único altar a que preside o Bispo rodeado pelo presbitério e pelos ministros (35).

O pároco seu representante

42. Impossibilitado como está o Bispo de presidir pessoalmente sempre e em toda a diocese a todo o seu rebanho, vê-se na necessidade de reunir os fiéis em grupos vários, entre os quais têm lugar proeminente as paróquias, constituídas localmente sob a presidência dum pastor que faz as vezes do Bispo. As paróquias representam, de algum modo, a Igreja visível estabelecida em todo o mundo.

Por consequência, deve cultivar-se no espírito e no modo de agir dos fiéis e dos sacerdotes a vida litúrgica da paróquia e a sua relação com ó Bispo, e trabalhar para que floresça o sentido da comunidade paroquial, especialmente na celebração comunitária da missa dominical.

V – INCREMENTO DA ACÇÃO PASTORAL LITÚRGICA

Sinal providencial

43. O interesse pelo incremento e renovação da Liturgia é justamente considerado como um sinal dos desígnios providenciais de Deus sobre o nosso tempo, como uma passagem do Espírito Santo pela sua Igreja, e imprime uma nota distintiva à própria vida da Igreja, a todo o modo religioso de sentir e de agir do nosso tempo.

Em ordem a desenvolver cada vez mais na Igreja esta acção pastoral litúrgica, o sagrado Concílio determina:

Comissões de Liturgia, música e arte sacra

44. Convém que a autoridade eclesiástica territorial competente, a que se refere o art. 22 § 2, crie uma Comissão litúrgica, que deve servir-se da ajuda de especialistas em liturgia, música, arte sacra e pastoral. A Comissão deverá contar, se possível, com o auxílio dum Instituto de Liturgia Pastoral, de cujos membros não se excluirão leigos particularmente competentes, se for necessário. Será atribuição da dita Comissão dirigir, guiada pela autoridade eclesiástica territorial, a pastoral litúrgica no território da sua competência, promover os estudos e as experiências necessárias sempre que se trate de adaptações a propor à Santa Sé.

45. Crie-se igualmente em cada diocese a Comissão litúrgica, em ordem a promover, sob a direcção do Bispo, a pastoral litúrgica. Poderá suceder que seja oportuno que várias dioceses formem uma só Comissão para promover em conjunto o apostolado litúrgico.

46. Criem-se em cada diocese, se possível, além da Comissão litúrgica, Comissões de música sacra e de arte sacra.

É necessário que estas três Comissões trabalhem em conjunto, e não raro poderá ser oportuno que formem uma só Comissão.

CAPÍTULO II

O SAGRADO MISTÉRIO DA EUCARISTIA

Instituição e natureza

47. O nosso Salvador instituiu na última Ceia, na noite em que foi entregue, o Sacrifício eucarístico do seu Corpo e do seu Sangue para perpetuar pelo decorrer dos séculos, até Ele voltar, o Sacrifício da cruz, confiando à Igreja, sua esposa amada, o memorial da sua morte e ressurreição: sacramento de piedade, sinal de unidade, vínculo de caridade (36), banquete pascal em que se recebe Cristo, a alma se enche de graça e nos é concedido o penhor da glória futura (37).

A participação dos fiéis

48. É por isso que a Igreja procura, solícita e cuidadosa, que os cristãos não entrem neste mistério de fé como estranhos ou espectadores mudos, mas participem na acção sagrada, consciente, activa e piedosamente, por meio duma boa compreensão dos ritos e orações; sejam instruídos pela palavra de Deus; alimentem-se à mesa do Corpo do Senhor; dêem graças a Deus; aprendam a oferecer-se a si mesmos, ao oferecer juntamente com o sacerdote, que não só pelas mãos dele, a hóstia imaculada; que, dia após dia, por Cristo mediador (38), progridam na unidade com Deus e entre si, para que finalmente Deus seja tudo em todos.

Revisão dos textos com mais leituras bíblicas

49. Para que o Sacrifício da missa alcance plena eficácia pastoral, mesmo quanto ao seu rito, o sagrado Concílio, tendo em atenção as missas que se celebram com assistência do povo, sobretudo aos domingos e nas festas de preceito, determina o seguinte:

50. O Ordinário da missa deve ser revisto, de modo que se manifeste mais claramente a estrutura de cada uma das suas partes bem como a sua mútua conexão, para facilitar uma participação piedosa e activa dos fiéis. Que os ritos se simplifiquem, bem respeitados na sua estrutura essencial; sejam omitidos todos os que, com o andar do tempo, se duplicaram ou menos ùtilmente se acrescentaram; restaurem-se, porém, se parecer oportuno ou necessário e segundo a antiga tradição dos Santos Padres, alguns que desapareceram com o tempo.

51. Prepare-se para os fiéis, com maior abundância, a mesa da Palavra de Deus: abram-se mais largamente os tesouros da Bíblia, de modo que, dentro de um período de tempo estabelecido, sejam lidas ao povo as partes mais importantes da Sagrada Escritura.

Homilia e oração dos fiéis

52. A homilia, que é a exposição dos mistérios da fé e das normas da vida cristã no decurso do ano litúrgico e a partir do texto sagrado, é muito para recomendar, como parte da própria Liturgia; não deve omitir-se, sem motivo grave, nas missas dos domingos e festas de preceito, concorridas pelo povo.

53. Deve restaurar-se, especialmente nos domingos e festas de preceito, a «oração comum» ou «oração dos fiéis», recitada após o Evangelho e a homilia, para que, com a participação do povo, se façam preces pela santa Igreja, pelos que nos governam, por aqueles a quem a necessidade oprime, por todos os homens e pela salvação de todo o mundo (39).

Língua

54. A língua vernácula pode dar-se, nas missas celebradas com o povo, um lugar conveniente, sobretudo nas leituras e na «oração comum» e, segundo as diversas circunstâncias dos lugares, nas partes que pertencem ao povo, conforme o estabelecido no art. 36 desta Constituição.

Tomem-se providências para que os fiéis possam rezar ou cantar, mesmo em latim, as partes do Ordinário da missa que lhes competem.

Se algures parecer oportuno um uso mais amplo do vernáculo na missa, observe-se o que fica determinado no art. 40 desta Constituição.

Comunhão dos fiéis

55. Recomenda-se vivamente um modo mais perfeito de participação na missa, que consiste em que os fiéis, depois da comunhão do sacerdote, recebam do mesmo Sacrifício, o Corpo do Senhor.

A comunhão sob as duas espécies, firmes os princípios dogmáticos estabelecidos pelo Concílio de Trento (40), pode ser permitida, quer aos clérigos e religiosos, quer aos leigos, nos casos a determinar pela Santa Sé e ao arbítrio do Bispo, como seria o caso dos recém-ordenados na missa da ordenação, dos professos na missa da sua profissão religiosa, dos neófitos na missa pós-baptismal.

Unidade da liturgia da palavra e da liturgia eucarística

56. Estão tão intimamente ligadas entre si as duas partes de que se compõe, de algum modo, a missa – a liturgia da Palavra e a liturgia eucarística – que formam um só acto de culto. Por isso, o sagrado Concilio exorta com veemência os pastores de almas a instruirem bem os fiéis, na catequese, sobre o dever de ouvir a missa inteira, especialmente nos domingos e festas de preceito.

Concelebração e seu rito

57. § 1. A concelebração, que manifesta bem a unidade do sacerdócio, tem sido prática constante até ao dia de hoje, quer no Oriente quer no Ocidente. Por tal motivo, aprouve ao Concílio estender a faculdade de concelebrar aos seguintes casos:

1°. a) na quinta-feira da Ceia do Senhor, tanto na missa crismal como na missa vespertina;

b) nas missas dos Concílios, Conferências episcopais e Sínodos;

c) na missa da bênção dum Abade.

2°. Além disso, com licença do Ordinário, a quem compete julgar da oportunidade da concelebração:

a) na missa conventual e na missa principal das igrejas, sempre que a utilidade dos fiéis não exige a celebração individual de todos os sacerdotes presentes;

b) nas missas celebradas por ocasião de qualquer espécie de reuniões de sacerdotes, tanto seculares como religiosos.

§ 2. 1.° É da atribuição do Bispo regular a disciplina da concelebração na diocese.

2°. Ressalva-se, contudo, que se mantem sempre a faculdade de qualquer sacerdote celebrar individualmente, mas não simultâneamente na mesma igreja, nem na quinta-feira da Ceia do Senhor.

58. Deve compor-se o novo rito da concelebração a inserir no Pontifical e no Missal romano.

CAPÍTULO III

OS OUTROS SACRAMENTOS E OS SACRAMENTAIS

Natureza dos sacramentos

59. Os sacramentos estão ordenados à santificação dos homens, à edificação do Corpo de Cristo e, enfim, a prestar culto a Deus; como sinais, têm também a função de instruir. Não só supõem a fé, mas também a alimentam, fortificam e exprimem por meio de palavras e coisas, razão pela qual se chamam sacramentos da fé. Conferem a graça, a cuja frutuosa recepção a celebração dos mesmos òptimamente dispõe os fiéis, bem como a honrar a Deus do modo devido e a praticar a caridade.

Por este motivo, interessa muito que os fiéis compreendam facilmente os sinais sacramentais e recebam com a maior frequência possível os sacramentos que foram instituídos para alimentar a vida cristã.

Natureza dos sacramentais

60. A santa mãe Igreja instituiu também os sacramentais. Estes são, à imitação dos sacramentos, sinais sagrados que significam realidades, sobretudo de ordem espiritual, e se obtêm pela oração da Igreja. Por meio deles dispõem-se os homens para a recepção do principal efeito dos sacramentos e santificam-se as várias circunstâncias da vida.

61. Portanto, a liturgia dos sacramentos e sacramentais faz com que a graça divina, que deriva do Mistério pascal da Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo, onde vão buscar a sua eficácia todos os sacramentos e sacramentais, santifique todos os passos da vida dos fiéis que os recebem com a devida disposição. A ela se deve também que não deixe de poder ser orientado para a santificação dos homens e para o louvor de Deus o bom uso das coisas materiais.

Necessidade de revisão

62. Tendo-se introduzido, com o decorrer do tempo, no ritual dos sacramentos e sacramentais, elementos que tornam hoje menos claros a sua natureza e fim, e devendo por isso fazer-se algumas adaptações às necessidades do nosso tempo, o sagrado Concílio decretou o seguinte em ordem à sua revisão.

A língua

63. Pode ser frequentemente muito útil para o povo o uso do vernáculo na administração dos sacramentos e sacramentais. Dê-se-lhe, por isso, maior importância segundo estas normas:

a) Na administração dós sacramentos e sacramentais pode usar-se o vernáculo, segundo o estatuído no art. 36;

b) A competente autoridade eclesiástica territorial, a que se refere o art. 22 § 2.” desta Constituição, prepare o mais depressa possível, com base na nova edição do Ritual romano, os Rituais particulares, adaptados às necessidades de cada uma das regiões, mesmo quanto à língua. Procure-se que sejam postos em vigor nas respectivas regiões depois de aprovados pela Sé Apostólica. Na composição destes Rituais ou especiais «Colecções de ritos» não devem omitir-se as instruções que o Ritual romano coloca no início de cada rito, quer sejam de carácter pastoral, quer digam respeito às rubricas, quer tenham especial importância comunitária.

Restauração do catecumenado

64. Restaure-se o catecumenado dos adultos, com vários graus, a praticar segundo o critério do Ordinário do lugar, de modo que se possa dar a conveniente instrução a que se destina o catecumenado e santificar este tempo por meio de ritos sagrados que se hão-de celebrar em ocasiões sucessivas.

65. Seja lícito admitir nas terras de Missão, ao lado dos elementos próprios da tradição cristã, os elementos de iniciação usados por cada um desses povos, na medida em que puderem integrar-se no rito cristão, segundo os art.s 37-40 desta Constituição.

Rito do Baptismo de adultos

66. Revejam-se tanto o rito simples do Baptismo de adultos, como o mais solene, tendo em conta a restauração do catecumenado, e insira-se no Missal romano a missa própria «para a administração do Baptismo».

Rito do Baptismo de crianças

67. Reveja-se o rito do Baptismo de crianças e adapte-se à sua real condição. Dê-se maior realce, no rito, à parte e aos deveres dos pais e padrinhos.

Adaptações do rito do Baptismo

68. Prevejam-se adaptações no rito do Baptismo, a usar, segundo o critério do Ordinário do lugar; para quando houver grande número de neófitos. Componha-se também um «Rito mais breve» que os catequistas, sobretudo em terras de Missão, e em perigo de morte qualquer fiel, possam utilizar na ausência de um sacerdote ou diácono.

Rito para suprir as cerimónias omitidas no Baptismo

69. Em vez do «Rito para suprir as cerimónias omitidas sobre uma criança já baptizada», componha-se um novo em que se exprima de modo mais claro e conveniente que uma criança, baptizada com o rito breve, já foi recebida na Igreja.

Prepare-se também um novo rito que exprima que são acolhidos na comunhão da Igreja os vàlidamente baptizados que se converteram à Religião católica.

Bênção da água baptismal

Fora do tempo pascal, pode benzer-se a água baptismal no próprio rito do baptismo e com uma fórmula especial mais breve.

Rito da Confirmação

71. Para fazer ressaltar a íntima união do sacramento da Confirmação com toda a iniciação cristã, reveja-se o rito deste sacramento; pela mesma razão, é muito conveniente, antes de o receber, fazer a renovação das promessas do Baptismo.

A Confirmação, se parecer oportuno, pode ser conferida durante a missa; prepare-se, entretanto. em ordem à celebração do rito fora da missa, uma fórmula que lhe possa servir de introdução.

Rito da Penitência

72. Revejam-se o rito e as fórmulas da Penitência de modo que exprimam com mais clareza a natureza e o efeito do sacramento.

A Unção dos enfermos

73. A «Extrema-Unção», que também pode, e melhor, ser chamada «Unção dos enfermos», não é sacramento só dos que estão no fim da vida. É já certamente tempo oportuno para a receber quando o fiel começa, por doença ou por velhice, a estar em perigo de morte.

74. Além dos ritos distintos da Unção dos enfermos e do Viático, componha-se um «Rito contínuo» em que a Unção se administre ao doente depois da confissão e antes da recepção do Viático.

75. O número das unções deve regular-se segundo a oportunidade. Revejam-se as orações do rito da Unção dos enfermos, de modo que correspondam às diversas condições dos que recebem este sacramento.

Revisão dos ritos da Ordem

76. Faça-se a revisão do texto e das cerimónias do rito das Ordenações. As alocuções do Bispo, no início da ordenação ou sagração, podem ser em vernáculo.

Na sagração episcopal, todos os Bispos presentes podem fazer a imposição das mãos.

Rito do Matrimónio

77. A fim de indicar mais claramente a graça do sacramento e inculcar os deveres dos cônjuges, reveja-se e enriqueça-se o rito do Matrimónio que vem no Ritual romano.

«É desejo veemente do sagrado Concílio que as regiões, onde na celebração do Matrimónio se usam outras louváveis tradições e cerimónias, as conservem» (41).

Concede-se à competente autoridade eclesiástica territorial, a que se refere o art. 22 § 2 desta Constituição, a faculdade de preparar um rito próprio de acordo com o uso dos vários lugares e povos, devendo, porém, o sacerdote que assiste pedir e receber o consentimento dos nubentes.

78. Celebre-se usualmente o Matrimónio dentro da missa, depois da leitura do Evangelho e da homilia e antes da «Oração dos fiéis». A oração pela esposa, devidamente corrigida a fim de inculcar que o dever de fidelidade é mútuo, pode dizer-se em vernáculo.

Se o Matrimónio não for celebrado dentro da missa, leiam-se no começo do rito a epístola e o evangelho da «Missa dos esposos» e nunca se deixe de dar a bênção nupcial.

Revisão dos Sacramentais

79. Faça-se uma revisão dos sacramentos, tendo presente o princípio fundamental de uma participação consciente, activa e fácil dos fiéis, bem como as necessidades do nosso tempo. Podem acrescentar-se nos Rituais, a rever segundo o disposto no art. 63, novos sacramentais conforme as necessidades o pedirem.

Limitem-se a um pequeno número, e só em favor dos Bispos ou Ordinários, as bênçãos reservadas.

Providencie-se de modo que alguns sacramentais, pelo menos em circunstâncias especiais e a juízo do Ordinário, possam ser administrados por leigos dotados das qualidades requeridas.

Rito da consagração das Virgens

80. Reveja-se o rito da consagração das Virgens, que vem no Pontifical romano.

Componha-se também um rito de profissão religiosa e de renovação de votos, a utilizar, salvo direito particular, por aqueles que fazem a profissão ou renovam os votos dentro da Missa, o qual contribua para maior unidade, sobriedade e dignidade. Será louvável fazer a profissão religiosa dentro da Missa.

Rito das exéquias

81. As exéquias devem exprimir melhor o sentido pascal da morte cristã. Adapte-se mais o rito às condições e tradições das várias regiões, mesmo na cor litúrgica.

82. Faça-se a revisão do rito de sepultura das crianças e dê-se-lhe missa própria.

CAPÍTULO IV

O OFÍCIO DIVINO

Sua natureza: oração da Igreja em nome de Cristo

83. Jesus Cristo, sumo sacerdote da nova e eterna Aliança, ao assumir a natureza humana, trouxe a este exílio da terra aquele hino que se canta por toda a eternidade na celeste mansão. Ele une a si toda a humanidade e associa-a a este cântico divino de louvor.

Continua esse múnus sacerdotal por intermédio da sua Igreja, que louva o Senhor sem cessar e intercede pela salvação de todo o mundo, não só com a celebração da Eucaristia, mas de vários outros modos, especialmente pela recitação do Ofício divino.

84. O Ofício divino, segundo a antiga tradição cristã, destina-se a consagrar, pelo louvor a Deus, o curso diurno e nocturno do tempo. E quando são os sacerdotes a cantar esse admirável cântico de louvor, ou outros para tal deputados pela Igreja, ou os fiéis quando rezam juntamente com o sacerdote segundo as formas aprovadas, então é verdadeiramente a voz da Esposa que fala com o Esposo ou, melhor, a oração que Cristo, unido ao seu Corpo, eleva ao Pai.

85. Todos os que rezam assim, cumprem, por um lado, a obrigação própria da Igreja, e, por outro, participam na imensa honra da Esposa de Cristo, porque estão em nome da Igreja diante do trono de Deus, a louvar o Senhor.

Valor pastoral

86. Os sacerdotes, dedicados ao sagrado ministério pastoral, recitarão com tanto mais fervor o Ofício divino, quanto mais conscientes estiverem de que devem seguir a exortação de S. Paulo: «Rezai sem cessar» (1 Tess. 5,17). É que só o Senhor pode dar eficácia e fazer progredir a obra em que trabalham, Ele que disse: «Sem mim, nada podeis fazer» (Jo. 15, 5). Razão tiveram os Apóstolos para dizer, quando instituiram os diáconos: «Nós atenderemos com assiduidade à oração e ao ministério da palavra» (Act. 6, 4).

Normas para a reforma

87. Para permitir nas circunstâncias actuais, quer aos sacerdotes, quer a outros membros da Igreja, uma melhor e mais perfeita recitação do Ofício divino, pareceu bem ao sagrado Concílio, continuando a restauração felizmente iniciada pela Santa Sé, estabelecer o seguinte sobre o Ofício do rito romano.

88. Sendo o objectivo do Ofício a santificação do dia, deve rever-se a sua estrutura tradicional, de modo que, na medida do possível, se façam corresponder as «horas» ao seu respectivo tempo, tendo presentes também as condições da vida hodierna em que se encontram sobretudo os que se dedicam  a obras do apostolado.

89. Por isso, na reforma do Ofício, observem-se as seguintes normas:

a) As Laudes, oração da manhã, e as Vésperas, oração da noite, tidas como os dois polos do Ofício quotidiano pela tradição venerável da Igreja universal, devem considerar-se as principais Horas e como tais celebrar-se;

b) As Completas devem adaptar-se, para condizer com o fim do dia;

c) As Matinas, continuando embora, quando recitadas em coro, com a índole de louvor nocturno, devem adaptar-se para ser recitadas a qualquer hora do dia; tenham menos salmos e lições mais extensas;

d) Suprima-se a Hora de Prima;

e) Mantenham-se na recitação em coro as Horas menores de Tércia, Sexta e Noa. Fora da recitação coral, pode escolher-se uma das três, a que mais se coadune com a hora do dia.

90. Sendo ainda o Ofício divino, como oração pública da Igreja, fonte de piedade e alimento da oração pessoal, exortam-se no Senhor os sacerdotes, e todos os outros que participam no Ofício divino, a que, ao recitarem-no, o espírito corresponda às palavras; para melhor o conseguirem, procurem adquirir maior instrução litúrgica e bíblica, especialmente quanto aos salmos. Tenha-se como objectivo, ao fazer a reforma desse tesouro venerável e secular que é o Ofício romano, que mais larga e fàcilmente o possam usufruir todos aqueles a quem é confiado.

91. Para poder observar-se realmente o curso das Horas, proposta no artigo 89, distribuam-se os salmos, não já por uma semana, mas por mais longo espaço de tempo.

Conclua-se o mais depressa possível a obra, felizmente iniciada, da revisão do Saltério, procurando respeitar a língua latina cristã, o seu uso litúrgico mesmo no canto, e toda a tradição da Igreja latina.

92. Quanto às leituras, sigam-se estas normas:

a) Ordenem-se as leituras da Sagrada Escritura de modo que se permita mais fácil e amplo acesso aos tesouros da palavra de Deus;

b) Faça-se melhor selecção das leituras a extrair das obras dos Santos Padres, Doutores e Escritores eclesiásticos;

c) As «Paixões» ou vidas dos Santos sejam restituídas à verdade histórica.

93. Restaurem-se os hinos, segundo convenha, na sua forma original, tirando ou mudando tudo o que tenha ressaibos mitológicos ou for menos conforme com a piedade cristã. Se convier, admitam-se também outros que se encontram nas colecções hinológicas.

Recitação coral ou privada

94. Importa, quer para santificar verdadeiramente o dia, quer para recitar as Horas com fruto espiritual, que ao rezá-las se observe o tempo que mais se aproxima do verdadeiro tempo de cada um das Horas canónicas.

95. As Comunidades com obrigação de coro têm o dever de celebrar, além da Missa conventual, diàriamente e em coro, o Ofício divino, ou seja;

a) O Ofício completo: as Ordens de Cónegos, de Monges e Monjas e de outros Regulares que por direito ou constituições estão obrigados ao coro;

b) As partes do Ofício que lhes são. impostas pelo direito comum ou particular: os Cabidos das catedrais ou das colegiadas;

c) Todos os membros dessas Comunidades que já receberam Ordens maiores ou fizeram profissão solene, à excepção dos conversos, devem recitar sòzinhos as Horas canónicas que não recitam no coro.

96. Os clérigos não obrigados ao coro, se já receberam Ordens maiores, são obrigados a recitar diàriamente, ou em comum ou individualmente, todo o Ofício, segundo o prescrito no art. 89.

97. As novas rubricas estabelecerão as comutações, que parecerem oportunas, do Ofício divino por outro acto litúrgico. Podem os Ordinários, em casos particulares e por causa justa, dispensar os seus súbditos da obrigação de recitar o Ofício no todo ou em parte, ou comutá-lo.

98. Os membros dos Institutos de perfeição, que, por força das constituições, recitam algumas partes do Ofício divino, participam na oração pública da Igreja.

Tomam parte igualmente na oração pública da Igreja se recitam, segundo as constituições, algum «Ofício breve», desde que seja composto à imitação do Ofício divino e devidamente aprovado.

99. Sendo o Ofício divino a voz da Igreja, isto é, de todo o Corpo místico a louvar a Deus pùblicamente, aconselha-se aos clérigos não obrigados ao coro, e sobretudo aos sacerdotes que convivem ou se retinem, que rezem em comum ao menos alguma parte do Ofício divino.

Todos, pois, os que recitam o Ofício quer em coro quer em comum, esforcem-se por desempenhar do modo mais perfeito possível o múnus que lhes está confiado, tanto na disposição interior do espírito como na compostura exterior. Além disso, é bem que se cante o Ofício divino, tanto em coro como em comum, segundo a oportunidade.

100. Cuidem os pastores de almas que nos domingos e festas mais solenes se celebrem em comum na igreja as Horas principais, especialmente Vésperas. Recomenda-se também aos leigos que recitem o Ofício divino, quer juntamente com os sacerdotes, quer uns com os outros, ou mesmo particularmente.

Língua

101. § 1. Conforme à tradição secular do rito latino, a língua a usar no Ofício divino é o latim. O Ordinário poderá, contudo, conceder, em casos particulares, aos clérigos para quem o uso da língua latina for um impedimento grave para devidamente recitarem o Ofício, a faculdade de usarem uma tradução em vernáculo, composta segundo a norma do art. 36.

§ 2. O Superior competente pode conceder às Monjas, como também aos membros dos Institutos de perfeição, não clérigos ou mulheres, o uso do vernáculo no Ofício divino, mesmo na celebração coral, desde que a versão seja aprovada.

§ 3. Cumprem a sua obrigação de rezar o Ofício divino os clérigos que o recitem em vernáculo com a assembleia dos fiéis ou com aqueles a que se refere o § 2, desde que a tradução seja aprovada.

CAPÍTULO V

O ANO LITÚRGICO

Sua natureza: o ciclo do tempo

102. A santa mãe Igreja considera seu dever celebrar, em determinados dias do ano, a memória sagrada da obra de salvação do seu divino Esposo. Em cada semana, no dia a que chamou domingo, celebra a da Ressurreição do Senhor, como a celebra também uma vez no ano na Páscoa, a maior das solenidades, unida à memória da sua Paixão.

Distribui todo o mistério de Cristo pelo correr do ano, da Incarnação e Nascimento à Ascensão, ao Pentecostes, à expectativa da feliz esperança e da vinda do Senhor.

Com esta recordação dos mistérios da Redenção, a Igreja oferece aos fiéis as riquezas das obras e merecimentos do seu Senhor, a ponto de os tornar como que presentes a todo o tempo, para que os fiéis, em contacto com eles, se encham de graça.

as festas da Virgem e dos Santos

103. Na celebração deste ciclo anual dos mistérios de Cristo, a santa Igreja venera com especial amor, porque indissolùvelmente unida à obra de salvação do seu Filho, a Bem-aventurada Virgem Maria, Mãe de Deus, em quem vê e exalta o mais excelso fruto da Redenção, em quem contempla, qual imagem puríssima, o que ela, toda ela, com alegria deseja e espera ser..

104. A Igreja inseriu também no ciclo anual a memória dos Mártires e outros Santos, os quais, tendo pela graça multiforme de Deus atingido a perfeição e alcançado a salvação eterna, cantam hoje a Deus no céu o louvor perfeito e intercedem por nós. Ao celebrar o «dies natalis» (dia da morte) dos Santos, proclama o mistério pascal realizado na paixão e glorificação deles com Cristo, propõe aos fiéis os seus exemplos, que conduzem os homens ao Pai por Cristo, e implora pelos seus méritos as bênçãos de Deus.

exercícios de piedade

105. Em várias épocas do ano e seguindo o uso tradicional, a Igreja completa a formação dos fiéis servindo-se de piedosas práticas corporais e espirituais, da instrução, da oração e das obras de penitência e misericórdia.

Por isso, aprouve ao sagrado Concílio determinar o seguinte:

Domingo e festas do Senhor

106. Por tradição apostólica, que nasceu do próprio dia da Ressurreição de Cristo, a Igreja celebra o mistério pascal todos os oito dias, no dia que bem se denomina dia do Senhor ou domingo. Neste dia devem os fiéis reunir-se para participarem na Eucaristia e ouvirem a palavra de Deus, e assim recordarem a Paixão, Ressurreição e glória do Senhor Jesus e darem graças a Deus que os »regenerou para uma esperança viva pela Ressurreição de Jesus Cristo de entre os mortos» (1 Pedr. 1,3). O domingo é, pois, o principal dia de festa a propor e inculcar no espírito dos fiéis; seja também o dia da alegria e do repouso. Não deve ser sacrificado a outras celebrações que não sejam de máxima importância, porque o domingo é o fundamento e o centro de todo o

107. Reveja-se o ano litúrgico de tal modo que, conservando-se ou reintegrando-se os costumes tradicionais dos tempos litúrgicos, segundo o permitirem as circunstâncias de hoje, mantenha o seu carácter original para, com a celebração dos mistérios da Redenção cristã, sobretudo do mistério pascal, alimentar devidamente a piedade dos fiéis. Sé acaso forem necessárias adaptações aos vários lugares, façam-se segundo os art. 39 e 40.

108. Oriente-se o espírito dos fiéis em primeiro lugar para as festas do Senhor, as quais celebram durante o ano os mistérios da salvação e, para que o ciclo destes mistérios possa ser celebrado no modo devido e na sua totalidade, dê-se ao Próprio do Tempo o lugar que lhe convém, de preferência sobre as festas dos Santos.

A Quaresma

109. Ponham-se em maior realce, tanto na Liturgia como na catequese litúrgica, os dois aspectos característicos do tempo quaresmal, que pretende, sobretudo através da recordação ou preparação do Baptismo e pela Penitência, preparar os fiéis, que devem ouvir com mais frequência a Palavra de Deus e dar-se à oração com mais insistência, para a celebração do mistério pascal. Por isso:

a) utilizem-se com mais abundância os elementos baptismais próprios da liturgia quaresmal e retomem-se, se parecer oportuno, elementos da antiga tradição;

b) o mesmo se diga dos elementos penitenciais. Quanto à catequese, inculque-se nos espíritos, de par com as consequências sociais do pecado, a natureza própria da penitência, que é detestação do pecado por ser ofensa de Deus; nem se deve esquecer a parte da Igreja na prática penitenciai, nem deixar de recomendar a oração pelos pecadores.

110. A penitência quaresmal deve ser também externa e social, que não só interna e individual. Estimule-se a prática da penitência, adaptada ao nosso tempo, às possibilidades das diversas regiões e à condição de cada um dos fiéis. Recomendem-na as autoridades a que se refere o art. 22.

Mantenha-se religiosamente o jejum pascal, que se deve observar em toda a parte na Sexta-feira da Paixão e Morte do Senhor e, se oportuno, estender-se também ao Sábado santo, para que os fiéis possam chegar à alegria da Ressurreição do Senhor com elevação e largueza de espírito.

As festas dos santos

111. A Igreja, segundo a tradição, venera os Santos e as suas relíquias autênticas, bem como as suas imagens. É que as festas dos Santos proclamam as grandes obras de Cristo nos seus servos e oferecem aos fiéis os bons exemplos a imitar.

Para que as festas dos Santos não prevaleçam sobre as festas que recordam os mistérios da salvação, muitas delas ficarão a ser celebradas só por uma igreja particular ou nação ou família religiosa, estendendo-se apenas a toda a Igreja as que festejam Santos de inegável importância universal.

CAPÍTULO VI

A MÚSICA SACRA

Importância para a Liturgia

112. A tradição musical da Igreja é um tesouro de inestimável valor, que excede todas as outras expressões de arte, sobretudo porque o canto sagrado, intimamente unido com o texto, constitui parte necessária ou integrante da Liturgia solene.

Não cessam de a enaltecer, quer a Sagrada Escritura (42), quer os Santos Padres e os Romanos Pontífices, que ainda recentemente, a começar em S. Pio X, vincaram com mais insistência a função ministerial da música sacra no culto divino.

A música sacra será, por isso, tanto mais santa quanto mais intimamente unida estiver à acção litúrgica, quer como expressão delicada da oração, quer como factor de comunhão, quer como elemento de maior solenidade nas funções sagradas. A Igreja aprova e aceita no culto divino todas as formas autênticas de arte, desde que dotadas das qualidades requeridas.

O sagrado Concílio, fiel às normas e determinações da tradição e disciplina da Igreja, e não perdendo de vista o fim da música sacra, que é a glória de Deus e a santificação dos fiéis, estabelece o seguinte:

113. A acção litúrgica reveste-se de maior nobreza quando é celebrada de modo solene com canto, com a presença dos ministros sagrados e a participação activa do povo.

Observe-se, quanto à língua a usar, o art. 36; quanto à Missa, o art. 54; quanto aos sacramentos, o art. 63; e quanto ao Ofício divino, o art. 101.

Promoção da música sacra

114. Guarde-se e desenvolva-se com diligência o património da música sacra. Promovam-se com empenho, sobretudo nas igrejas catedrais, as «Scholae cantorum». Procurem os Bispos e demais pastores de almas que os fiéis participem activamente nas funções sagradas que se celebram com canto, na medida que lhes compete e segundo os art. 28 e 30.

115. Dê-se grande importância nos Seminários, Noviciados e casas de estudo de religiosos de ambos os sexos, bem como noutros institutos e escolas católicas, à formação e prática musical. Para o conseguir, procure-se preparar também e com muito cuidado os professores que terão a missão de ensinar a música sacra.

Recomenda-se a fundação, segundo as circunstâncias, de Institutos Superiores de música sacra.

Os compositores e os cantores, principalmente as crianças, devem receber também uma verdadeira educação litúrgica.

116. A Igreja reconhece como canto próprio da liturgia romana o canto gregoriano; terá este, por isso, na acção litúrgica, em igualdade de circunstâncias, o primeiro lugar.

Não se excluem todos os outros géneros de música sacra, mormente a polifonia, na celebração dos Ofícios divinos, desde que estejam em harmonia com o espírito da acção litúrgica, segundo o estatuído no art. 30.

117. Procure terminar-se a edição típica dos livros de canto gregoriano; prepare-se uma edição mais crítica dos livros já editados depois da reforma de S. Pio X.

Convirá preparar uma edição com melodias mais simples para uso das igrejas menores.

118. Promova-se muito o canto popular religioso, para que os fiéis possam cantar tanto nos exercícios piedosos e sagrados como nas próprias acções litúrgicas, segundo o que as rubricas determinam.

Adaptação às diferentes culturas

119. Em certas regiões, sobretudo nas Missões, há povos com tradição musical própria, a qual tem excepcional importância na sua vida religiosa e social. Estime-se como se deve e dê-se-lhe o lugar que lhe compete, tanto na educação do sentido religioso desses povos como na adaptação do culto à sua índole, segundo os art. 39 e 40. Por isso, procure-se cuidadosamente que, na sua formação musical, os missionários fiquem aptos, na medida do possível, a promover a música tradicional desses povos nas escolas e nas acções sagradas.

Instrumentos músicos sagrados

120. Tenha-se em grande apreço na Igreja latina o órgão de tubos, instrumento musical tradicional e cujo som é capaz de dar às cerimónias do culto um esplendor extraordinário e elevar poderosamente o espírito para Deus.

Podem utilizar-se no culto divino outros instrumentos, segundo o parecer e com o consentimento da autoridade territorial competente, conforme o estabelecido nos art. 22 § 2, 37 e 40, contanto que esses instrumentos estejam adaptados ou sejam adaptáveis ao uso sacro, não desdigam da dignidade do templo e favoreçam realmente a edificação dos fiéis.

Normas para os compositores

121. Os compositores possuídos do espírito cristão compreendam que são chamados a cultivar a música sacra e a aumentar-lhe o património.

Que as suas composições se apresentem com as características da verdadeira música sacra, possam ser cantadas não só pelos grandes coros, mas se adaptem também aos pequenos e favoreçam uma activa participação de toda a assembleia dos fiéis.

Os textos destinados ao canto sacro devem estar de acordo com a doutrina católica e inspirar-se sobretudo na Sagrada Escritura e nas fontes litúrgicas.

CAPÍTULO VII

A ARTE SACRA E AS ALFAIAS LITÚRGICAS

A arte sacra e seus estilos

122. Entre as mais nobres actividades do espírito humano estão, de pleno direito, as belas artes, e muito especialmente a arte religiosa e o seu mais alto cimo, que é a arte sacra. Elas tendem, por natureza, a exprimir de algum modo, nas obras saídas das mãos do homem, a infinita beleza de Deus, e estarão mais orientadas para o louvor e glória de Deus se não tiverem outro fim senão o de conduzir piamente e o mais eficazmente possível, através das suas obras, o espírito do homem até Deus.

É esta a razão por que a santa mãe Igreja amou sempre as belas artes, formou artistas e nunca deixou de procurar o contributo delas, procurando que os objectos atinentes ao culto fossem dignos, decorosos e belos, verdadeiros sinais e símbolos do sobrenatural. A Igreja julgou-se sempre no direito de ser como que o seu árbitro, escolhendo entre as obras dos artistas as que estavam de acordo com a fé, a piedade e as orientações veneráveis da tradição e que melhor pudessem servir ao culto.

A Igreja preocupou-se com muita solicitude em que as alfaias sagradas contribuissem para a dignidade e beleza do culto, aceitando no decorrer do tempo, na matéria, na forma e na ornamentação, as mudanças que o progresso técnico foi introduzindo.

Pareceu bem aos Padres determinar, a este propósito, o que segue:

123. A Igreja. nunca considerou um estilo como próprio seu, mas aceitou os estilos de todas as épocas, segundo a índole e condição dos povos e as exigências dos vários ritos, criando deste modo no decorrer dos séculos um tesouro artístico que deve ser conservado cuidadosamente. Seja também cultivada livremente ‘na Igreja a arte do nosso tempo, a arte de todos os povos e regiões, desde que sirva com a devida reverência e a devida honra às exigências dos edifícios e ritos sagrados. Assim poderá ela unir a sua voz ao admirável cântico de glória que grandes homens elevaram à fé católica em séculos passados.

124. Ao promoverem uma autêntica arte sacra, prefiram os Ordinários à mera sumptuosidade uma beleza que seja nobre. Aplique-se isto mesmo às vestes e ornamentos sagrados.

Tenham os Bispos todo o cuidado em retirar da casa de Deus e de outros lugares sagrados aquelas obras de arte que não se coadunam com a fé e os costumes e com a piedade cristã, ofendem o genuíno sentido religioso, quer pela depravação da forma, que pela insuficiência, mediocridade ou falsidade da expressão artística.

Na construção de edifícios sagrados, tenha-se grande preocupação de que sejam aptos para lá se realizarem as acções litúrgicas e permitam a participação activa dos fiéis.

O culto das imagens

125. Mantenha-se o uso de expor imagens nas igrejas à veneração ds fiéis. Sejam, no entanto, em número comedido e na ordem devida, para não causar estranheza aos fiéis nem contemporizar com uma devoção menos ortodoxa.

Comissão diocesana da arte

126. Para emitir um juízo sobre as obras de arte, oiçam os Ordinários de lugar o parecer da Comissão de arte sacra e de outras pessoas particularmente competentes, se for o caso, assim como também das Comissões a que se referem os art. 44, 45, 46.

Os Ordinários vigiarão com todo o cuidado para que não se percam nem se alienem as alfaias sagradas e obras preciosas, que embelezam a casa de Deus.

Promoção da arte e formação dos artistas

127. Cuidem os Bispos de, por si ou por sacerdotes idóneos e que conheçam e amem a arte, imbuir os artistas do espírito da arte sacra e da sagrada Liturgia.

Recomenda-se também, para formar os artistas, a criação de Escolas ou Academias de arte sacra, onde parecer oportuno.

Recordem-se constantemente os artistas que desejam, levados pela sua inspiração, servir a glória de Deus na santa Igreja, de que a sua actividade é, de algum modo, uma sagrada imitação de Deus criador e de que as suas obras se destinam ao culto católico, à edificação, piedade e instrução religiosa dos fiéis.

128. Revejam-se o mais depressa possível, juntamente com os livros litúrgicos, conforme dispõe o art. 25, os cânones e determinações eclesiásticas atinentes ao conjunto das coisas externas que se referem ao culto, sobretudo quanto a uma construção funcional e digna dos edifícios sagrados, erecção e forma dos altares, nobreza, disposição e segurança dos sacrários, dignidade e funcionalidade do baptistério, conveniente disposição das imagens, decoração e ornamentos. Corrijam-se ou desapareçam as normas que parecem menos de acordo com a reforma da Liturgia; mantenham-se e introduzam-se as que forem julgadas aptas a promovê-la.

Neste particular e especialmente quanto à matéria e forma dos objectos e das vestes sagradas, o sagrado Concílio concede às Conferências episcopais das várias regiões a faculdade de fazer a adaptação às necessidades e costumes dos lugares, segundo o art. 22 desta Constituição.

129. Para poderem estimar e conservar os preciosos monumentos da Igreja e para estarem aptos a orientar como convém os artistas na realização das suas obras, devem os clérigos, durante o curso filosófico e teológico, estudar a história e evolução da arte sacra, bem como os sãos princípios em que deve fundar-se.

Uso das insígnias pontifícias

130. É conveniente que o uso das insígnias pontificais seja reservado às pessoas eclesiásticas que possuem a dignidade episcopal ou gozam de especial jurisdição.


Apêndice

DECLARAÇÃO DO CONCÍLIO ECUMÉNICO VATICANO II
SOBRE A REFORMA DO CALENDÁRIO

Apêndice: Declaração sobre a revisão do Calendário

O sagrado Concílio Ecuménico Vaticano II, tendo na devida conta o desejo expresso por muitos para dar à festa da Páscoa um domingo certo e adoptar um calendário fixo, depois de ter ponderado maduramente as consequências que poderão resultar da introdução do novo calendário, declara o seguinte:

1. O sagrado Concílio não tem nada a opor à fixação da festa da Páscoa num domingo certo do calendário gregoriano, se obtiver o assentimento daqueles a quem interessa, especialmente dos irmãos separados da comunhão com a Sé Apostólica.

2. Igualmente declara não se opor às iniciativas para introduzir um calendário perpétuo na sociedade civil.

Contudo, entre os vários sistemas em estudo para fixar um calendário perpétuo e introduzi-lo na sociedade civil, a Igreja só não se opõe àqueles que conservem a semana de sete dias e com o respectivo domingo. A Igreja deseja também manter intacta a sucessão hebdomadária, sem inserção de dias fora da semana, a não ser que surjam razões gravíssimas sobre as quais deverá pronunciar-se a Sé Apostólica.

Roma, 4 de Dezembro de 1963.

PAPA PAULO VI


Notas

1. IX Dom. d. Pentec., oração sobre as oblatas.

2. Cfr. Hebr. 13,14.

3. Cfr. Ef. 2, 21-22.

4. Cfr. Ef. 4,13.

5. Cfr. Is. 11,12.

6. Cfr. Jo. 11,52.

7. Cfr. Jo. 10,16.

8. Cfr. Is. 61,1; Lc. 4,18.

9. S. Inácio de Antioquia aos Efésios, 7, 8: F. X. Funk, Patres Apostolici, I, Tubinga, 1901, p. 218.

10. Cfr. I Tim. 2,5.

11. Sacramentário de Verona (Leoniano): ed. C. Mohlberg, Roma, 1956, n.° 1265, p. 162.

12. Missal Romano, Prefácio pascal.

13. Cfr. S. Agostinho, Enarr. in Ps. CXXXVIII, 2: Corpus Christianorum XL, Tournai, 1956, p. 1991; e a oração depois da segunda leitura de Sábado Santo antes da reforma da Semana Santa, no Missal Romano.

14. Cfr. Mc. 16,15

15. Cfr. Act. 26,18

16. Cfr. Rom. 6,4; Ef. 2,6; Col. 3,1; 2 Tim. 2,11.

17. Cfr. Jo. 4,23.

18. Cfr. 1 Cor. 11,26.

19. Conc. Trento, Sess. XIII, 11 Out. 1551, Decr. De ss. Eucharist., ci 5: Concilium Tridentinum, Diariorum, Actorum, Epistolarum, Tractatuum nova collectio, ed. Soc. Goerresiana, t. VII. Actas: Parte IV, Friburgo da Brisgóvia, 1961, p. 202.

20. Conc. Trento, Sess. XXII, 17 Set. 1562, Dout. De ss. Missae sacrif., c. 2: Concilium Tridentinum, ed. cit., t. VIII, Actas: Parte V, Friburgo da Brisgóvia, 1919, p. 960.

21. Cfr. S. Agostinho, In Joannis Evangelium Tractatus VI, c. I, n.° 7: PL 35, 1428.

22. Cfr. Apoc. 21,2; Col. 3,1; Heb. 8,2.

23. Cfr. Fil. 3,20; Col. 3,4,

24. Cfr. Jo. 17,3; Lc. 24,47; Act. 2,38.

25. Cfr. Mt. 28,20.

26. Oração depois da comunhão na Vigília Pascal e no Domingo da Ressurreição.

27. Oração da missa de terça-feira da Oitava de Páscoa.

28. Cfr. 2 Cor. 6,1.

29 Cfr. Mt. 6,6.

30. Cfr. 1 Tess. 5,17.

31. Cfr. 2 Cor. 4, 10-11.

32. Missal Romano, 2ª  feira da Oitava de Pentecostes, oração sobre as oblatas.

33. S. Cipriano, De Cath. Eccl. unitate, 7: ed. G. Hartel, em CSEL, t. III, 1, Viena 1868, pp. 215-216. Cfr. Ep. 66, n.° 8, 3: ed. cit., t. III„ 2, Viena 1871, pp. 732-733.

34. Cfr. Conc. Trento, Sess. XXII, 17 Setembro 1562, Doctr. de ss. missae sacrif., c. 8: Concilium Trident. ed. cit., t. VIII, p. 961.

35. Cfr. S. Inácio de Antioquia, Ad Magn. 7; Ad Philad. 4; Ad Smyrn. 8: ed. cit. F. X. Funk, I, pp 336, 266, 281.

36. Cfr. S. Agostinho. In Joannis Evang. tractatus XXVI, cap. VI, n.° 13: PL 35, 1613.

37. Breviário Romano, na festa do Corpo de Deus: Antífona do Magnificat em 2ªs Vésperas.

38. Cfr. S. Cirilo de Alexandria, Commentarium in Joannis Evangelium, livro XI, cap. XI-XII: PG 74, 557-565.

39. Cfr. 1 Tim. 2, 1-2.

40. Sessão XXI, Doctrina de Communione sub utraque specie et parvulorum, e. 1-3, cân. 1-3: Concilium Trident. ed. cit., t. VIII, pp. 698-699.

41. Conc. Trento, Sessão XXIV, 11 Novembro 1563, Decr. De reformatione, c. I: Concilium Trident. ed. cit., t. IX. Actas: parte VI, Friburgo Br. 1924., p. 969. Cfr. Ritual Romano, tit.8, c.  II, n° 6.

42. Cfr. Ef. 5,19; Col. 3,16.
Autor:Conc. Vaticano II
Fonte:http://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_const_19631204_sacrosanctum-concilium_po.html

Como os primeiros cristãos celebravam o culto a Deus?

Missa católica ou culto protestante?
Que culto os cristãos devem prestar a Deus, é uma questão presente em algumas discussões religiosas promovidas por círculos cristãos diversos. Com o crescimento das seitas no Brasil, desde o fim da década passada podemos verificar a soberba de muitos não-catolicos em afirmar que o culto ou liturgia que eles prestam a Deus são verdadeiros e solidamente legítimos, pois identificam-se com o culto que os primeiros cristãos tributavam a Deus, sendo seu culto bíblico; seria verdadeiro este argumento? Acusam que a Missa católica é invenção humana e não se trata de um culto a Deus, mais uma simples reunião social, cujo Deus não ouve ou aceita, sem base bíblica mais um sacrifício paganizado; verdade estas afirmações?

Vamos analisar a historicidade litúrgica do culto oferecido pela Igreja, que tipo de culto e ritos os cristãos prestavam a Deus na antiguidade, sabemos que os primeiros cristãos seguiram a doutrina ensinada pelos apóstolos e mais tarde guarnecida pelos Padres da Igreja, o próprio mandamento do Senhor diz como lembra Paulo: “Fazei isto em memória de mim. Todas as vezes que comerdes este pão e beberdes este cálice, anunciareis a minha morte, e confessareis a minha ressurreição” (1 Cor 11,26) . Lembra também Jesus no Evangelho de João “Em verdade, em verdade vos digo: se não comerdes a carne do Filho do Homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós mesmos” Jo 6, 53.

Os cristãos primitivos então viviam:

 Na comunhão do pão e na oração perseveravam os primeiros cristãos convertidos após a Ressurreição de Cristo, como atestado na Igreja primitiva (At 2, 42), celebrando os santos mistérios sacramentais, e no inicio do II séc.  usando a disciplina do Arcano¹, onde os mistérios cristãos eram celebrados secretamente para que não se paganizassem e se mantivessem no seio da Igreja, vivos, os gentios não participavam, os que podiam gozar de tais mistérios os “sacramentos” eram os já catequizados e batizados e não os catecúmenos. No serviço litúrgico (At 13, 2); reunidos na casa de membros da comunidade ou em lugares ocultos (como catacumbas), devido à perseguição, nos tempos primitivos muitos apóstolos ministraram a “liturgia”, ou seja, o oficio ou serviço de adoração a Deus, em suas casas edificações que ficaram conhecidas como Domus Eclesiae que mais tarde virá a se tornar Domus Dei edifícios só para o culto cristão.

Celebravam no primeiro dia depois do sábado (o Domingo, segundo São João, Ap. 1, 10), quando S. Paulo diz para partir o pão (At. 20,7), os cristãos cultuavam a Deus mais frequentemente. Faziam à leitura dos profetas, das epístolas dos apóstolos, das cartas que dirigiam às igrejas. Estas leituras eram explicadas, conforme S. João, que, conduzido a Éfeso, limitou-se a esta exortação: “Meus filhos, amai-vos uns aos outros”. Desta prática de explicar o que era lido no Texto Sagrado, deriva a realização das homilias e sermões.

Vejamos os primeiros registros sobre a liturgia o que dizem os Pais Apostólicos da Igreja

S. Justino Mártir, (103-167) filósofo pagão que se convertera , tornando-se sacerdote e mártir, contemporâneo de Simeão (que havia ouvido Nosso Senhor Jesus Cristo), de S. Inácio, de Clemente, companheiro de S. Paulo na pregação, de Potino e de Irineu, discípulos de Policarpo em sua obra Apologia 2, escreve: “No chamado dia do Sol todos os fiéis das vilas e do campo se reúnem num mesmo lugar: em todas as oblações que fazemos, bendizemos e louvamos o Criador de todas as coisas, por Jesus Cristo, seu Filho, e pelo Espírito Santo” e sobre a reunião dos primeiros cristãos para culto ele descreve.

“Lêem-se os escritos dos profetas e os comentários dos apóstolos. Concluídas as leituras, o sacerdote faz um discurso em que instrui e exorta o povo a imitar tão belos exemplos”. “Em seguida, nos erguemos, recitamos várias orações, e oferecemos pão, vinho e água”.

“O sacerdote pronuncia claramente várias orações e ações de graças, que são acompanhadas pelo povo, com a aclamação Amem!”. “Distribui-se os dons oferecidos, comunga-se desta oferenda, sobre a qual pronunciara-se a ação de graças, e os diáconos levam esta comunhão aos ausentes”.

“Os que possuem bens e riquezas dão uma esmola, conforme sua vontade, que é coletada e levada ao sacerdote que, com ela, socorre órfãos, viúvas, prisioneiros e forasteiros, pois ele é o encarregado de aliviar todas as necessidades”.

“Celebramos nossas reuniões no dia do Sol, porque ele é o primeiro dia da criação em que Deus separou a luz das trevas, e em que Jesus Cristo ressuscitou dos mortos”.

Outro atestado é de;

S. Inácio de Antioquia, (†110) terceiro bispo de Antioquia, sucessor de S. Pedro e de Evódio, contemporâneo dos apóstolos quando muito jovem, que declarou ter visto Nosso Senhor ressuscitado; Conheceu pessoalmente São Paulo e São João. Sob o imperador Trajano, foi preso e conduzido a Roma onde morreu nos dentes dos leões no Coliseu. A caminho de Roma escreveu Cartas as igrejas de Éfeso, Magnésia, Trales, Filadélfia, Esmirna e ao bispo S. Policarpo de Esmirna. Apresenta alguns detalhes sobre a oblação da Eucaristia, na sua primeira carta aos cristãos de Esmirna. E nesta aparece pela primeira vez a expressão “Igreja Católica”.

“Abstêm-se eles da Eucaristia e da oração, por que não reconhecem que a Eucaristia é a carne de nosso Salvador Jesus Cristo, carne que padeceu por nos­sos pecados e que o Pai, em Sua bondade, ressuscitou.” (Epístola aos Esmirnenses: Cap. VII; Santo Inácio de Antioquia).

S. Ireneu de Lião, (130-202) eminente teólogo ocidental, confirma-nos o sacrifício que era prestado pelos primeiros cristãos figurado no sacrifício de Cristo, em outra obra ele ressalta a importância e a transubstanciação na Eucaristia.

“(Nosso Senhor) nos ensinou também que há um novo sacrifício da Nova Aliança, sacrifício que a Igreja recebeu dos Apóstolos, e que se oferece em todos os lugares da terra ao Deus que se nos dá em alimento como primícia dos favores que Ele nos concede no Novo Testamento. Já o havia prefigurado Malaquias ao dizer: Porque desde o nascer do sol, (…) (Malaquias, I, 11). O que equivale dizer com toda clareza que o povo primeiramente eleito (os judeus) não havia mais de oferecer sacrifícios, senão que em todo lugar se ofereceria um sacrifício puro e que seu nome seria glorificado entre as nações.” (Adversus haereses, São Ireneu de Lion).

Outro Registro é o:

Didaqué um catecismo cristão que fora escrito por volta do ano 120 d.C. um dos mais antigos registros do cristianismo, fala nos do culto cristão e da celebração dos primeiros crentes após transcrever regras a respeito da celebração da eucaristia; diz:

“Que ninguém coma nem beba da Eucaristia sem antes ter sido batizado em nome do Senhor pois sobre isso o Senhor disse: “Não dêem as coisas santas aos cães”. (Didaqué, Cap. IX, Nº 5)

Também diz sobre a reunião dos crentes;

“Reúna-se no dia do Senhor para partir o pão e agradecer após ter confessado seus pecados, para que o sacrifício seja puro” (Didaqué, Cap. XIV, nº 1)

O que tem em comum estes testemunhos do fim do I séc. e inicio do II século, comprovam a liturgia católica como herdeira, da liturgia dos primeiros cristãos oferecidas em suas reuniões, mais tarde no séc. III conhecidas pelo termo Missa, que Procede do latim “mitere”, que quer dizer “enviar, mandar, despedir”. Missa é o particípio que adquira o sentido de substantivo; “missão, despedida, dispensa,” é, pois a despedida na partida. Podemos observar que eles perseveravam na comunhão e na celebração eucarística então onde ficam os cultos protestantes? Os gritos, os longos sermões, e as musicas e estilos exagerados e sentimentais, além dos pseudo-exorcismos e das tidas manifestações do “Espírito”? Se não tem embasamento histórico, bíblico ou nas reuniões dos primeiros cristãos? Trata-se de invenções humanas posteriores a antiguidade cristã.

Notas:

Disciplina do Arcano¹: Disciplina do Segredo, ou Lei do Arcano, é o termo teológico para expressar o costume que prevaleceu na Igreja primitiva, na qual o conhecimento dos mistérios da religião cristã era, por medida de prudência, cuidadosamente mantido oculto aos gentios, aos não-iniciados e até mesmo aos que se submetiam à instrução na fé, para evitar que aprendessem algo que pudessem fazer mau uso, o costume pendurou-se até o séc. VI.
Autor:John Lennon J. da Silva
Fonte:http://www.veritatis.com.br/doutrina/sacramentos/945-missa-catolica-ou-culto-protestante

5 modos rápidos de se identificar uma fraude intelectual

  • Abuso de self-selling pessoal e grupal: Sempre suspeite quando alguém propuser evidências anedotais como “A diferença é que eu penso logicamente…”, “Eu aceito as evidências…”, “Eu penso ceticamente”, “Os ateus pensam assim…” ou ainda promessas utópicas como  “O mundo terá mais paz com o ateísmo”. O que há de comum a todas essas alegações? São “carteiraços” dados para ganhar vantagem no debate. Imagine que duas pessoas estão discutindo a libertação de um preso. Uma delas apresenta vários argumentos e a outra simplesmente diz “Você está errado, porque a diferença é que eu sou um defensor da justiça e os direitos humanos”. E onde estão as evidências disso? Qualquer bom argumentador sabe que evidência anedota tem valor zero como argumento. Não caia no truque de quem quer se vender como o bonzinho ou o sábio da história.
  • Ignorância quanto ao âmbito da Ciência: essa é uma crença estimulada por “gurus” do pseudo-ceticismo, que acham que a Ciência um dia poderá responder todas as questões da humanidade e que “A única forma de se conseguir conhecimento é através do Método Científico”. A Ciência serve só para estabelecer relações quanto ao empírico, não servindo para julgamentos éticos, estéticos, metafísicos, lógicos e validação da matemática, etc. E se a Ciência é a única forma de conseguir conhecimento, sendo essa uma frase expressando uma forma de conhecimento também, qual é a evidência cientifica disso?
  • Distorção e Quote Mining: consiste em pegar partes do seu discurso e mudar o sentido do que foi dito. Por exemplo, quando alguém alega “NINGUÉM tem provas de que Deus existe” e você diz “É possível pensar que alguém possui provas da existência de Deus. Não entrevistamos todos para saber”. O próximo passo é distorcer o que você disse, pegando só a parte do discurso que interessa e manipulando, como: “alguém possui provas da existência de Deus –> ah é? Então prove essa sua alegação, babaca!”
  • Inversão de Planos na discussão: Tentar misturar os vários planos de conhecimento (cientifico, filosófico, teológico, etc.). Para discutir se Deus existe ou não, quer jogar no plano científico (quando o correto seria o filosófico). Quando quer comentar a Bíblia (plano teológico), pergunta porque devemos acreditar que Deus existe (discussão no plano filosófico, que já deveria ter sido feita anteriormente à discussão da Bíblia). E por aí vai.
  • Ridicularização: quando falham todas as outras fraudes, o debatedor começa a te atacar pessoalmente ou mencionar seus argumentos e crenças de modo irônico. Mantenha uma postura firme, aponte o dedo e mostre a desonestidade cometida pelo outro. Se você for moderador da comunidade, aproveite para advertir ou até expulsar.
  • Fonte:http://quebrandooencantodoneoateismo.wordpress.com/2010/08/18/5-modos-rapidos-de-se-identificar-uma-fraude-intelectual/

Técnica: Se houvesse evidências, eu acreditaria

OLYMPUS DIGITAL CAMERA

Nesse estratagema, o neo-ateu nos lembra daquilo que nunca deveríamos ter esquecido: que ele “o” cético, que ele só olha as evidências e que ele é uma pessoa extremamente racional, um modelo a ser seguido. Logo, como não existem evidências para Deus, ele não acredita. E “se houvesse evidências, eu acreditaria”. Importante lembrar: a idéia “se houvesse evidências” já deixa implicita a técnica Não há evidências, que também deve ser refutada. Vamos identificar o erro dessa fala.

Em um caso prático, o diálogo pode ocorrer mais ou menos assim:

  • NEO-ATEU: A nossa diferença é a seguinte. Se houvessem provas, eu acreditaria. Mas não há evidências, por isso sou ateu.
  • REFUTADOR: É o que vamos ver…

A falha gritante desse truque é que ele se baseia apenas em EVIDÊNCIA ANEDOTA e, por consequência, essa frase deve ser DESCARTADA. A alegação “se houvesse evidências, eu acreditaria” não é testável. Nesse sentido, ela não é muito diferente de dizer que há um “Dragão na Garagem”. Não há como saber, a princípio, se ele realmente iria acreditar e se outros fatores iriam influenciar e “suprimir” as evidências.

Pense um pouco: como saber se o neo-ateu realmente iria acreditar ao ver as evidências? Será que ao ver as evidências fatores sociais e emocionais não iriam contar para a tomada de decisão?

Imagine alguém que estude em um ambiente altamente secularizado e anti-religioso, o levando ao ateísmo. Todos os dias as pessoas desse departamento contam piada de religiosos, tiram sarro da crença em Deus, dizem que ela é “irracional” e etc. Um dia, ele vê as evidências. Essa experiência anterior cotidiana de sátira e escárnio influenciaria no grau de ceticismo usado pelo julgador talvez o levando a uma exarcebação que ele não aplicaria em outras àreas da vida? Será que não? O psicólogo Paul Vitz levantou a hipótese de que um relacionamento ruim com o pai e a satisfação de não ter que “prestar contas” moralmente para ninguém ajudam a sustentar a preferência pelo ateísmo. Será que isso é impossível? Estar acostumado a um estilo de vida, com pressão emocional de ter que se ajustar a alguma conduta se acreditar, além das pressões do ambiente não impediria uma análise imparcial das evidências? Existindo a possibilidade de outros fatores, além das evidências, influenciarem na decisão final, o self-selling vai para a lata de lixo.

Se eu fosse cretino, eu poderia dizer que “não é possível convencer um descrente de coisa alguma; pois suas descrenças não se baseiam em evidências, baseiam-se numa profunda necessidade de descrer”. Mas como eu não sou, e reconheço que não tenho nenhuma bola de cristal para saber o que todos pensam, não falarei que essa frase é válida.

Se você quiser ser ingênuo e achar que o mundo é composto por “Pollyannas”, que são sempre honestas e vão avaliar só por evidências, sendo impossível levar em conta aspectos variados… pode acreditar. Mas, em um debate, eu não sou obrigado a acreditar.

Notem que eu não estou dizendo que não existam pessoas que olhem as evidências e decidam só por elas. Decerto existem muitas pessoas que realmente conseguiriam agir assim. A questão é que não é possível saber se o alegador realmente é honesto, se está enganando você ou até se está enganando a si próprio. Não preciso aceitar a declaração PESSOAL de alguém se eu não sei ela é válida ou não.

Talvez algum ateu responda “Você tem que confiar na declaração de um outro ser humano! Acreditar com evidências é instintivo!”.

Mas eu já aviso de antemão que eu NÃO tenho “crença no homem”. As pessoas podem sim ser desonestas, mentir e manipular (principalmente quem acredita que “não há verdade objetiva”, não é mesmo?). Minha postura em debates e política é baseada nisso. Podem analisar meu comportamento e avaliar.

Outro erro comum é pensar que “se realmente existissem provas, todos concordariam; como há discordância, é sinal de que não existem evidências”. Ué, desde quando a verdade virou um mero “consenso democrático”? Se for assim, a Evolução também entra nesse balaio, pois muitos discordam que ela tenha efetivamente ocorrido. “E se há discordância, então não há evidências”. Dá para ver que esse raciocínio não pode ser considerado correto.

Em resumo:

  1. A alegação “se houvesse evidências, eu acreditaria”, baseia-se em evidência anedota e não é verificável, a princípio;
  2. Se existir alguma possibilidade de fatores emocionais ou sociais refletirem no ateísmo da pessoa, então não devemos acreditar na sua declaração original;
  3. Mesmo sendo verdadeira, a posição pessoal não importa nada em um debate; dizer “eu faria aquilo, eu faria isso” não é um argumento e não tem que ser discutido, a não ser para desmascarar quem diz isso;

Portanto, a refutação pode seguir essa linha:

  • NEO-ATEU: A nossa diferença é a seguinte. Se houvessem provas, eu acreditaria. Mas não há evidências, por isso sou ateu.
  • REFUTADOR: Não há como saber se você acreditaria ou não. Essa é uma evidência anedota e você pode estar mentindo. Pode ser que, por motivos emocionais ou sociais, você simplesmente não aceitaria, mesmo com as evidências. Além disso, quando você fala “não há evidências”, qual o tipo de evidência esperada?
  • NEO-ATEU: Como você ousa duvidar de mim? Eu estou sendo absolutamente sincero! Eu gostaria muito que Deus existisse, só não existem provas, e por isso quem acredita é irracional! Que tipo de evidência? Ahn, qualquer coisa CONCRETA, se for ilógico eu advirto…
  • REFUTADOR: Você cometeu um erro de especificação de evidência, usando palavras vagas como “qualquer coisa” e “concreta”. Para declarar que não existem evidências, você tem que saber EXATAMENTE o tipo de evidência que seria produzida no caso de existência. Sobre a primeira parte, você, novamente, pode estar mentindo, seja para mim ou seja para si mesmo. Além disso, essa sentença é só uma forma de propaganda em declaração pessoal. Portanto, ela não importa absolutamente NADA para o debate. Devemos focar nos argumentos, entendeu?

[e assim por diante, até neutralizar a propaganda]

Conclusão

Essa técnica não passa de um apelo emocional e apelo de autoridade, tentando colocar o divulgador da tese com uma aparência de “Eu tenho dúvidas, eles não; eu olho as evidências, vocês não; eu sou bonzão, vocês não.” Dizer “se houvesse evidências, eu acreditaria”, no fim das contas, não é nada mais que uma forma de self-selling, evidência anedota e fraude intelectual. Simples assim.

Fonte:http://quebrandooencantodoneoateismo.wordpress.com/2010/10/27/tcnica-se-houvesse-evidncias-eu-acreditaria/

Técnica: Contando suposto passado religioso

Nesse estratagema, a declaração do neo-ateu sobre um suposto passado religioso é aplicada como prova durante um debate sobre a existência de Deus ou sobre a coerência da religião.

Embora eu não duvide que uma parte dos ateus já tenha sido de religiosos (e vice-versa), uma coisa que precisa ficar clara sobre isso é declarar passado religioso ou declarar ter estudados os argumentos para o teísmo durante o debate é um erro FEIO em dois pontos:

  • (a) validade lógica;
  • (b) credibilidade;

Do ponto de vista lógico, esse é um argumento quase bizarro. A desistência de fazer parte de uma religião ou a ausência de crença em Deus não prova… absolutamente nada sobre a validade da religião ou a existência de Deus. Se esses são os tópicos discutidos, contar histórias do passado não só é nonsense, como é completamente irrelevante. Deus pode existir mesmo que você tenha desistido de crer e uma religião pode ser coerente mesmo que você não faça parte dela.

E como quase toda declaração de passado religioso é feita por evidência anedota, ela também falha na CREDIBILIDADE. Evidência anedota é rejeitada, em um debate lógico, justamente porque qualquer um pode falsificá-la ou ter facilmente sido induzida ao erro em alguma experiência. Via de regra, em um argumentação FORMAL só valem evidências que podem ser conferidas – o que não é o caso da mera declaração. Por exemplo: se ele diz ter analisado e rejeitado o argumento Kalam, NÃO adianta SÓ dizer isso. Vai ter que demonstrar o erro e se preparar para receber um checagem por parte dos religiosos via escrutínio cético da sua refutação.

Uma aplicação prática dessa técnica (acompanha da refutação) abaixo:

  • DEBATEDOR: No tempo em que eu era católico e acreditava em Deus, meu ideal era ser santo e, por vários anos, tentei me comunicar com Deus, inteiramente em vão. Passei a estudar minha religião, ao mesmo tempo em que estudava muita filosofia, física, cosmologia, biologia, história e outros assuntos (música, pintura, literatura etc).  Meus estudos e reflexões me levaram a concluir pela total impropriedade da fé e, em decorrência, de qualquer religião. A princípio, aos 19 anos, me tornei agnóstico e depois, pelos 23 anos, ateu, da modalidade cética, isto é, não dogmática. Desde então venho me aprofundando no estudo das argumentações contra e a favor da existência de Deus e estou cada vez mais convencido de sua inexistência.
  • REFUTADOR: E eu com isso? No que isso prova a inexistência de Deus ou a invalidade da religião? Alias, o fato de você DECLARAR que era católico ou que estudou os argumentos a favor e contra não PROVA a verdade de nenhuma dessas proposições…
  • DEBATEDOR: Mas eu estudei, posso garantir. Não há motivos para duvidar de mim, estou sendo absolutamente verdadeiro.
  • REFUTADOR: Verdadeiro ou não, isso NÃO importa para o DEBATE. Experiências e declarações subjetivas não interessam, por isso pode parar com essa história e vamos para os tópicos importantes. Se quer desabafar, faça com um amigo ou com um psicólogo, não no meio de uma arena intelectual.

O que foi feito aqui foi a desqualificação da informação, nos pontos que eu havia citado acima, tanto no prisma da (a) validade lógica quanto no da (b) credibilidade.

Outro exemplo de aplicação prática:

  • DEBATEDOR: Eu não decidi ser atéia, apenas um dia, depois de muito pesquisar e tentar, percebi que não conseguia mais ver sentido naquilo, e não consegui mais acreditar.
  • REFUTADOR: Isso é apenas evidência anedota. Você pode estar mentindo, pode ter trabalho só com versões espantalhos dos argumentos a favor da religião… não há confiabilidade para sua informação e ela também não é relevante.
  • DEBATEDOR: Bom, se vou ser taxada de mentirosa quando estou sendo absolutamente sincera, é um bom motivo para não insistir na discussão aqui.
  • REFUTADOR: Não disse que você é mentirosa. Disse que você PODE estar mentindo (como qualquer pessoa seria capaz de fazer, inclusive religiosos). Por isso, não devemos aceitar evidência anedota em um  debate. É uma questão simples.

Ele pode tentar também uma variação citando um evento traumático ou alguma suposta qualidade negativa atribuida à Religião por suas vivências. Na refutação, deixe claro que a evidência não é nem confiável nem suficiente para julgarmos a religião como um todo, pois puxar um caso para o TODO constitui generalização apressada :

  • DEBATEDOR: O que você não entende é o seguinte. Eu virei ateu, pois na minha família percebi que a religião só promove a intolerância.
  • REFUTADOR: “eu percebi” configura evidência anedota. E mesmo que fosse verdadeira, esse é um problema da TUA família. Você não pode julgar fenômenos complexos (como a religião) apenas por exemplos pessoais, nem provar a inexistência de Deus porque alguém fez uma burrada.
  • DEBATEDOR: Mas o mundo seria melhor se todos fossem ateus, pois ateus sempre são tolerantes.
  • REFUTADOR:  Certo, como provou Mao Tse Tung, não é? E “apelo às consequências” (como o seu “se todos forem ateus, o mundo será “melhor””) não prova que o algo é verdadeiro logicamente…

Enfim, o que precisa ficar bem claro sobre essa questão é:

  1. Qualquer declaração de passado ou experiência é IMEDIATAMENTE descartada em um debate, se constituída apenas de evidência anedota;
  2. Mesmo que fosse a evidência seja válida, não contribui em absolutamente NADA para um debate sobre Deus ou sobre teologia;
  3. Qualquer erro, experiência ruim ou trauma que a pessoa declare ter, representa, no máximo, o que aconteceu com ELA, não uma regra geral na religião;

Conclusão

O efeito dessa técnica é puramente psicológico – logicamente, não possui valor algum. Pode fazer alguns estragos do ponto de vista retórico, por isso não deixe o monstro crescer muito. Puxe a descarga cedo e evite maiores problemas.

Fonte:http://quebrandooencantodoneoateismo.wordpress.com/2010/10/02/tecnica-contando-suposto-passado-religioso/

Técnica: Não há evidências

A Técnica “Não Há Evidências” :::

Quem já participou de debates, deve ter visto essa técnica sendo utilizada até não poder mais. E, ao contrário do que possa parecer, ela não é utilizada só na internet. Lewis Wolpert, por exemplo, utilizou-a ad nauseam no debate contra William Lane Craig.

Funciona da seguinte maneira: o neo-ateu repete (quase como um mantra, na maioria absoluta dos casos) que “não há evidências para a existência de Deus”. O início da refutação é perguntar qual o tipo de evidência esperada e ver, pela contra-resposta, o que acontece (se ele estiver trollando, então não será capaz de fazer a especificação).

A resposta mais comum, depois do questionamento cético a essa afirmação, é “qualquer coisa, se for ilógico eu advirto”/ “qualquer tipo de prova concreta”/”alguma evidência empírica”/, o que mais uma vez demonstra que ou neo-ateus não tem base filosófica, nem conhecimento de princípios de pesquisa, ou estão sendo deliberadamente desonestos.

Embora neo-ateus usem bastante esse discurso, minha inspiração mais imediata para esse post foi o comentário de ontem sobre Ayn Rand passando vergonha.

Erros contidos nessa técnica :::

Alguns dos princípios metodológicos da pesquisa são (1) a definição do escopo de busca, (2) do plano de discussão e (3) do tipo de evidência esperada que irá reforçar ou negar a tese. Quem comete erros na definição de algum desses itens, já falha em poder formar conclusões válidas.

O estratagema “qualquer evidência” é errado em relação ao princípio (3). Para fazer uma pesquisa, TEMOS que definir a prova esperada. Imagine, por exemplo, que você fizesse parte de uma equipe de perícia médica. Uma garota, encontrada ferida na beira da estrada, foi encaminhada para o hospital e o delegado pediu para verificar se houve um atropelamento. O chefe da equipe médica diz “Galera, vão lá e descubram se ela foi atropelada”. Você (mais inexperiente) retruca: “Que tipo de evidência devemos encontrar para confirmar a hipótese?”.

Ele poderia responder de duas maneiras:

  • LÍDER: Qualquer evidência, se vocês acharem que não temos o suficiente, me avisem que dou a pesquisa por encerrada.

Ou:

  • LÍDER: Bem, se ela foi atropelada, o esperado é que se encontrem hematomas ou fraturas na região do quadril ou das costelas, causadas pelo impacto do carro no seu corpo. Também devemos procurar escoriações nos braços, nas costas e nas àreas laterais do tronco, que seriam os resultados do atrito com o chão, no caso de ela ter sido arrastada ou arremessada para longe quando do encontro com o automóvel. Se essas evidências forem encontradas, aliado ao fato de ela estar desacordada perto de uma rodovia, então temos um bom caso para definir que ela realmente foi atropelada.

E então, qual das duas opções deve ser levada a sério? A primeira afirmativa (que utilizou o raciocínio neo-ateu)? É claro que não. O segundo caso é de uma pesquisa BEM-FEITA. A outra alternativa possui um erro metodológico crasso – a falta de especificação de evidência e, portanto, o formato utilizado não pode (pelo menos entre investigadores reais) ser considerada como válido.

Já a técnica “qualquer prova concreta” ou “empírica”, além de ter o erro anterior, é uma falácia da Inversão de Planos, que erra nos princípios (1) e (2). A discussão sobre a existência ou inexistência de Deus é feita no plano metafísico, de acordo com as características classicamente definidas para ele [i.e., imaterial, atemporal, etc.]. Devemos lembrar, também, que em discussões metafísicas (como a universalidade das leis físicas no Universo ou a impossibilidade de um infinito real) não se “provam” as posições sentido estrito e sim adotam-se as posições mais coerentes.

O neo-ateu pode, ainda, tentar uma saída pela tangente, dizendo: “Ué, Deus é metafísico, mas não interage com o físico? Logo, ele deve ser testado fisicamente”. É um raciocínio incorreto. Quando se diz que Deus interage com o mundo físico (através de milagres, por exemplo) esse é um evento incomum, extraordinário. Para testes físicos, de acordo com os princípios da pesquisa científica, a tese pesquisada deve envolver relações possíveis de serem controladas e reproduzidas. Portanto, se um evento não é reproduzível (como uma ação para milagres) ele está fora do escopo do método cientifico.

Em suma:

  1. Se o neo-ateu disser que não há evidências, deve receber um questionamento cético do tipo: “Qual a evidência esperada?”
  2. Se disser que qualquer evidência genérica serve, está cometendo um erro metodológico;
  3. Se disser que a evidência tem que ser empírica, está cometendo uma falácia de inversão de planos;
  4. Se não for capaz de especificar qual seria uma boa evidência, então a sua frase “não há evidências” foi desmascarada como um truque ou um erro;

Conclusão :::

Recentemente, na Contradições do Ateísmo, um ateu-satanista foi pressionado a definir o tipo de evidência e se saiu com “se todos os humanos virassem porquinhos-da-índia do nada”. Um reductio ad absurdum monstruoso, possivelmente feito porque ele aprendeu essa técnica de forma direta ou indireta com alguém, não refletiu e teve que se virar para arranjar alguma coisa que valeria como prova de última hora.

Se alguém pedir evidências, mas for incapaz de definir quais são as esperadas, então o slogan “não há evidências” vai direto pra lata de lixo.

Fonte:http://quebrandooencantodoneoateismo.wordpress.com/2010/09/11/tecnica-nao-ha-evidencias/

Diferença entre Imagem e Ídolo

 

Imagem não é o mesmo que ídolo. Chama-se ídolo: uma imagem falsa, um simulacro a que se atribui vida própria, conforme explica o profeta Habacuc (2, 18). Eis o que claramente indica Habacuc, dizendo: “Ai daquele que diz ao pau: Acorda, e a pedra muda: Desperta” (Hc 2, 19)

A Bíblia reza no livro de Josué: “Josué prostrou-se com o rosto em terra diante da arca do Senhor, e assim permaneceu até à tarde, imitando-o todos anciãos de Israel” (Jos 7, 6).

Terão sido idólatras Josué e os anciãos de Israel?

Foi Deus ainda que ordenou a Moisés levantar uma “serpente” de metal (Nm 21,8) e todos os que olhassem para ela seriam curados. Ora, que “olhar” é esse que confere uma cura milagrosa diante de uma estátua de metal?

Temos as provas de como esse culto era já uma pré-figura do culto à Deus nas palavras de S. João, que diz que tal “serpente” era o símbolo do Cristo crucificado: “Bem como ergueu Moisés a serpente no deserto, assim cumpre que seja levantado o Filho do Homem” (Jo 3, 14).

Por acaso caíram também Moisés e S. João, e até o Espírito Santo (autor da Sagrada Escritura) em crime de idolatria? É claro que não.

 A idolatria consistiria em achar que a divindade está em uma estátua, por exemplo. Ou seja, teríamos que colocar alimentos para as imagens, como faziam os romanos, os egípcios e os demais povos idólatras. Teríamos que achar que Deus e o santo são a mesma pessoa. No fundo, seria dizer que S. Benedito não é e nem foi S. Benedito, mas foi Deus, etc.

 Nunca se ouviu algum católico defendendo que o Santo era Deus! Mesmo porque isso seria cair em um panteísmo (defendido por Calvino e Lutero em algumas de suas obras). Para se dizer que os católicos adoram os santos, eles teriam que dizer que S. Benedito, por exemplo, não é S. Benedito, mas Deus.

 E, ainda mais difícil, os católicos teriam que afirmar que S. Benedito é a estátua, uma espécie de amuleto mágico…

 Nenhum católico acredita que o santo seja Deus ou que ele seja a madeira da estátua (como uma divindade). Logo, não há idolatria possível, visto que esta consiste em adorar um falso deus. (Ver a diferença entre os cultos de “latria“, “hiperdulia” e “dulia).

Alguns protestantes argumentam que só é possível fazer imagens quando Deus expressamente permite. Pergunta-se: onde está essa norma na Bíblia? É uma contradição dos protestantes, pois tudo para eles está na Bíblia, todavia, para condenar os católicos, não é necessária a Bíblia…

Deus proíbe a idolatria e não o uso de imagens

 O mesmo Deus, no mesmo livro do Êxodo em que proíbe que sejam feitas imagens, manda Moisés fazer dois querubins de ouro e colocá-los por cima da Arca da Aliança (Ex 25, 18-20). Manda-lhe, também, fazer uma serpente de bronze e colocá-la por cima duma haste, para curar os mordidos pelas serpentes venenosas (Num 21, 8-9). Manda, ainda, a Salomão enfeitar o templo de Jerusalém com imanges de querubins, palmas, flores, bois e leões (I Reis 6, 23-35 e 7, 29).

 Ora, se Deus manda fazer imagens em várias passagens das Sagradas Escrituras (Ex 25, 17-22; 1Rs 6, 23-28; 1 Rs 6, 29s; Nm 21, 4-9; 1Rs 7, 23-26; 1 Rs 7, 28s; etc) e proíbe que se façam imagens em outra, de duas uma, ou Deus é contraditório ou fazer imagens não é idolatria!

 Portanto, fica claro que o erro não está nas imagens, mas no tipo de culto que se presta à elas.

 Os Judeus, saindo da dominação egípcia, um povo idólatra, tinham muita tendência à idolatria. Basta ver o que aconteceu quando Moisés desceu do Monte Sinai com as Tábuas da Lei e encontrou o povo adorando o “Bezerro de Ouro” como se ele fosse uma divindade, um amuleto. É claro, como permitir que um povo tendente à idolatria fosse fazer imagens.

 Nas imagens católicas se representam os santos, que são pessoas que possuem virtudes que os tornam “semelhantes” a Deus, como afirmou S. Paulo: “já não sou eu quem vivo, mas é Cristo que vive em mim“.

 Nas catacumbas encontram-se, em toda parte, imagens e estátuas da Virgem Maria; prova de que tal culto existia no tempo dos apóstolos e foi por eles praticado, ensinado e transmitido à posteridade. Uma das imagens de Nossa Senhora, segundo a tradição, foi pintada pelo próprio S. Lucas e está na catedral de Loreto, exposto à veneração dos fiéis.

 As imagens católicas representam pessoas virtuosas. Virtude essa que provém da graça de Deus. O mesmo não se dava na idolatria, pois os povos idólatras representavam as virtudes e os vícios em seus ídolos.

O Concílio de Trento formalmente legitimou o uso das imagens: As imagens de Jesus Cristo, da Mãe de Deus, e dos outros santos, podem ser adquiridas e conservadas, sobretudo nas Igrejas, e se lhes pode prestar honra e veneração; não porque há nelas qualquer virtude ou qualquer coisa de divino, ou para delas alcançar qualquer auxílio, ou porque se tenha nelas confiança, como os pagãos de outrora, que colocavam a sua esperança nos ídolos, mas, sim, porque o culto que lhes é prestado dirige-se ao original que representam, de modo que nas imanges que possuímos, diante das quais nos descobrimos ou inclinamos a cabeça, nós adoramos Cristo, e veneramos os santos que elas representam (Sess XXV).

O Concílio de Nicéia, o primeiro celebrado na Igreja, no ano de 325, sob o Papa S. Silvestre I e o imperador Constantino, defende o culto das imagens contra os iconoclastas, com um vigor admirável.

Lê-se nos atos deste concílio: Nós recebemos o culto das imagens, e ferimos de anátema os que procedem de modo contrário. Anátema a todo aquele que aplica às santas imagens os textos da escritura contra os ídolos. Anátema a todo aquele que as chama ídolos. Anátema àqueles que ousam dizer que a Igreja presta culto a ídolos.

Fonte:http://www.lepanto.com.br/dados/ApImag.html

Pondo os ateus na defensiva

(partes I e II)Por: Kenneth R. Samples
© 1992

Tradução: Emerson de Oliveira

De Dicas de Testemunho – coluna do Christian Research Journal.
————-

Pode ser supresa para alguns cristãos descobrir que todos os ateus não são iguais. Os ateus debatem dependendo do tipo de seu ateísmo. Neste primeiros dois tópicos eu mostrarei as maneiras que os ateus defendem e explicam seu ateísmo. Eu os chamo de “ateísmo ofensivo” e “ateísmo defensivo”. Também darei algumas sugestões de como os cristãos podem responder com sucesso algumas perguntas feitas por ateus e eficazmente apresentá-los a Jesus Cristo. Na parte dois eu examinarei alguns dos argumentos tradicionais para a existência de Deus.

Ateísmo ofensivo.  Quando cristãos e ateus estão num debate de “Deus existe?” os ateus freqüentemente afirmam que os cristãos é que devem mostrar provas da existência de Deus. Isto, no entanto, é uma asserção falsa. Como nos diz o filósofo cristão William Craig quando a questão “Deus existe?” é levantada, cada lado deve dar provas e responder aquilo que acha correto. Isto é ao contrário de debater uma proposição como “Deus existe?” onde somente o lado afirmativo deve dar provas. Segue então que ao debater a pergunta da existência de Deus, ambos (cristãos e ateus) são obrigados a dar apoio de sua posição. O cristão deve insistir que o ateu dê provas da alegada inexistência de Deus. Isto, no entanto, leva a uma ligação lógica com o ateu.

Por definição, o ateísmo é a mentalidade que nega a existência de Deus. Para ser mais específico, o ateísmo tradicional (ateísmo ofensivo) positivamente afirma que nunca houve, não há e nunca haverá um deus em e além do mundo. Mas pode isto ser verificado?

O ateu não pode logicamente provar a inexistência de Deus. E eis o porque: para saber que um Deus transcendente não existe, deve ser necessário ter um conhecimento de todas as coisas (onisciência). Para ter esse conhecimento seria necessário ter acesso simultâneo a todas as partes do mundo e além (onipresença). Por conseguinte, para estar certo da opinião do ateu seria necessário que uma pessoa fosse divina. Obviamente, a limitada natureza evita estas habilidades especiais. A idéia dogmática atéia é portanto injustificável. Como o lógico Mortimer Adler afirmou, a tentativa dos ateus em provar uma negativa universal é errônea. O cristão deve dar ênfase então que o ateu ofensivo é incapaz de dar uma objeção à existência de Deus.

Ateísmo defensivo. Muitos ateus sofisticados de hoje estão totalmente conscientes das armadilhas filosóficas ligadas com o ateísmo dogmático. Ateus eminentes como Gordon Stein e Carl Sagan tem admitido que a existência de Deus não pode ser refutada. Isto tem levado estes ateus a defender o que eu chamo de ateísmo defensivo. O ateísmo defensivo afirma que enquanto a existência de Deus não pode ser lógica e empiricamente desaprovada, não obstante, não pode ser provada.

Os ateus deste tipo tem redefinido o ateísmo como “ausência da crença em Deus” em vez de “negação da existência de Deus”. Para este tipo moderado de ateísmo, o conceito “Deus” é como a idéia de um unicórnio, leprechaum ou duende. Enquanto eles não podem desaprovar, eles continuam não-provando. A incredulidade do ateísmo defensivo é fundamentada na rejeição das provas para a existência de Deus e/ou a crença que o conceito cristão de Deus (ou qualquer outro deus) não tem lógica.

Uma resposta cristã apropriada a esta altura seria que o ateísmo defensivo está usando uma estipulada e não correta definição da palavra ateísmo. Paul Edwards, um proeminente ateu e editor da Enciclopedia de Filosofia, define um ateu como “uma pessoa que afirma que não existe Deus”. Ateísmo, portanto, implica uma negação da existência de Deus, não só uma ausência de crença. Também se deve declarar que a ausência de crença do ateísmo defensivo soa como agnosticismo (que professa a incapacidade de determinar se Deus existe). O cristão deve forçar o ateu a simplesmente mostrar como seu ateísmo difere do agnosticismo. Ele sabe ou não sabe que existe Deus?

A insuficiência do ateísmo. Seja ofensivo ou defensivo, há várias razões porque o ateísmo é inadequado como um sistema racional. Primeiro, o ateísmo não pode explicar satisfatoriamente a existência do mundo. Como todas as coisas, o mundo em que vivemos clama por uma explicação. O ateu, no entanto, é incapaz de proporcionar uma consistente. Se ele defende que o mundo é eterno, então vai contra a ciência moderna que mostra que o Universo teve princípio e está se deteriorando. Se afirma que o Universo teve um princípio, então deve considerar o que o causou. De qualquer maneira, o ateu não pode adequadamente explicar o mundo.

Segundo, a idéia atéia é irracional e não pode dar uma adequada base de experiência inteligível. Veja, o mundo ateu é ao acaso, transitivo e volátil. Portanto, é incapaz de fornecer as necessárias pré-condições de relatar as leis da ciência, as leis da lógica e a necessidade humana para a moral absoluta. Em resumo, não pode considerar as significativas realidades que nós encontramos na vida.

A idéia cristão, ao contrário, explica os aspectos trancendentais da vida. A uniformidade da origem natural de Deus ordena um plano no Universo. As leis da lógica são um reflexo da maneira como Deus pensa e como deveríamos pensar. Normas morais absolutas, como “Não matarás”, espelham a perfeita natureza moral de Deus.

O argumento cristológico. Se os ateus individuais estão dispostos a considerar a evidência para a existência de Deus, veja Jesus Cristo. Jesus não disse ser outro a não ser Deus em carne humana (Jo. 8.58). Esta afirmação assombrosa foi apoiada por Seu caráter pessoal sem igual, Seu cumprimento de profecias, Sua incalculável influência na história humana, Seus muitos milagres e, finalmente, Sua histórica ressurreição (para uma apresentação completa do argumento cristológico veja o livro de William Craig, Apologetics: An Introduction e a série O Jesus Histórico neste site). A evidência está definitivamente lá para o ateu sincero examinar. Como o recente apologista Francis Schaeffer disse “Deus está ali e não está em silêncio.”

Parte II————-

Na parte I nós vimos como os ateus fazem para explicar e defender seu ponto de vista naturalista. Eu sugeri como os cristãos podem responder às perguntas dos dogmáticos (ateísmo ofensivo) e os céticos (ateísmo defensivo). Nesta parte iremos examinar uma maneira pela qual os cristãos podem ser ofensivos por oferecer evidência da existência de Deus e, assim, ilustrar a racionalidade do teísmo cristão.

Quase todo mundo, em seus momentos de reflexão, já se fez perguntas como: de onde o mundo veio? Por que há algo ao invés do nada? Como o mundo se originou? A pergunta destas elementais, mas profundas questões tem levado a formulação do popular argumento da existência de Deus. O argumento é conhecido como “argumento cosmológico.” Deriva seu nome da palavra kosmos, palavra grega para mundo. Enquanto há variações para o argumento (veja Scaling the Secular City, por J. P. Moreland [Baker Book House, 1987] e Questions That Matter by Ed L. Miller [McGraw-Hill, 1987]) o ponto básico do argumento é que Deus é a única explicação para a existência do mundo. Este argumento que considero ser tanto poderoso e persuasivo foi formulado primeiramente pelo filósofo grego Aristóteles. Sua apresentação famosa, no entanto, se deu pelo filósofo/teólogo cristão medieval S. Tomás de Aquino. Veremos agora uma popular e simplificada forma do argumento cosmológico que pode ser apresentada ao ateu.

Como explicamos o Universo? Como explicamos a existência do mundo? Bem, falando logicamente, há só algumas opções. Mas uma delas é racionalmente aceitável.

Nosso ponto de partida sobre a discussão do mundo é afirmar que ele existe de fato no tempo e espaço. Há alguns que debatem este assunto, dizendo que o Universo é apenas uma ilusão. No entanto, a maioria dos ateus, sendo materialistas (que crê que toda realidade é finalmente matéria e energia), aceitarão seu ponto de partida. 9Se o mundo foi uma ilusão, não haveria nenhuma razão para crer que todos nós percebêssemos o mundo da mesma maneira. Mas nós vemos o mundo da mesma maneira, de forma que haja previsões exatas [ciência]. Dizer que o mundo é uma ilusão desafia nosso bom senso e experiência.)

Desde que nós temos um mundo real a nossa volta, como o consideramos? Bem, a primeira opção é que o mundo de algum modo foi criado ou criou a si mesmo. Isto, no entanto, é uma conclusão irracional. Para se criar, teria que existir algo antes que fosse criado e isso é completamente absurdo. Algo não pode existir e não existir ao mesmo tempo e da mesma maneira. Concluir que o mundo se criou ou se causou a si mesmo não é uma alternatica racional aceitável.

Uma segunda sugestão para isto é que o Universo veio do nada por nada. Alguns ateus, de fato, afirmam esta maneira. Isto, no entanto, também é irracional porque algo não pode vir do nada. Um efeito não pode ser maior que sua causa – e neste caso a causa não seria nada. Uma das leis básicas da física é expressa pela frase em latim
ex nihilo, nihil fit, “do nada, nada se faz”. Isto é um tremendo salto de fé crer que o mundo surgiu do nada. Lembre-se que o ateu é alguém que supõe não ter nenhuma fé.

Nossa terceira opção é que o Universo é absolutamente eterno. Sempre esteve aqui. Esta alternativa, no entanto, também está condenada ao fracasso. Primeiro, o mundo em que nós vivemos mostra sinais que é contingente (dependente para sua contínua existência de algo fora dele, algo sem causa e absoluto). De fato, nenhum só elemento no Universo contêm a explicação para sua existência. Por conseguinte, esta cadeia de contingências que nós chamamos mundo faz necessária a existência de uma causa não-causada ou absoluto.

Além disso, o conceito de um Universo eterno contradiz a ciência moderna que ensina que o Universo teve um princípio específico (Big-Bang) um finito período de tempo atrás. Pior ainda, contradiz o fato científico que o mundo está com a energia se deteriorando (segunda lei da termodinâmica). Se o Universo sempre existiu (eterno), já havia ocorrido a entropia (veja The Fingerprint of God by Hugh Ross [Promise Publishing, 1989]). Além do mais, se o Universo fosse eterno, então teria um passado infinito (quer dizer, um número infinito de dias, semans, meses, anos, etc.). Isto, no entanto, leva a uma contradição lógica. Por definição, ninguém pode chegar ao fim de um período infinito de tempo; não obstante, nós temos chegado ou atravessado hoje ao denominado passado infinito (ver Scaling the Secular City). Isto faz esta teoria de Universo eterno científica e filosoficamente insustentável.

Já que estas outras alternativas tem falhado, a única alternativa verdaderiamente racional é que o Universo foi originado por uma entidade fora do espaço e tempo, uma entidade por definição sem causa e última. E, porque este Ser cria outros seres que são pessoais, Ele deve ser um Ser pessoal (lembre-se, o efeito não pode ser maior que a causa). Esta explicação é perfeitamente harmonizada com que a Bíblia ensina: “No princípio Deus criou os céus e a Terra” (Gn. 1.1).

Este argumento, ainda que poderoso, não leva o ateu a uma fé pessoal com Cristo. De certa forma, ele ou ela chega a uma deidade com muitos atribuitos teístas. No entanto, este argumento ilustra que crer em Deus é racional e neste caso é a única alternativa racional para o Universo.

Neste ponto podemos voltar à discussão de Jesus Cristo e Suas afirmações em ser Deus encarnado (veja Christian Apologetics, por Norman Geisler [Baker Book House, 1976] and History and Christianity by John Warwick
Montgomery [Bethany House Publishers, 1964). Lembre-se que só acreditar não salva uma pessoa. É uma relação com Jesus Cristo que salva (Jo. 14.6).

Nós não temos discutido algumas das objeções atéias sobre este argumento. Para uma lista de objeções e refutações acerca do arguemento cosmológico, veja Faith and Reason, por Ronald Nash [Zondervan Publishing House, 1988] e The Existence of God por Richard Swinburne [Oxford University Press, 1979]

Kenneth R. Samples é o diretor do Augustine Fellowship Study Center em  Hemet, CA.

Fonte:http://logoshp.6te.net/ttpateus.htm