O Grande Erro de Richard Dawkins

O Grande Erro de Richard Dawkins

Com o advento do neo-ateísmo , o nível do debate sobre a Existência de Deus caiu. Podemos especular que as principais razões para isso seriam (1) O fato de que os principais “autores” dessa correntes são, na verdade, cientistas, comentaristas políticos, dentre outros, e não pessoas capacitadas para dar pitacos em em um debate filosófico e, eventualmente, histórico (e não é de hoje que pessoas fora de suas àreas falam bobagens no assunto, como comprova esse vídeo do renomado químico Peter Atkins); e (2) o fato de terem como alvo atingir o “povão”. Esses autores não fazem um debate acadêmico no tópico (quem já leu Plantinga e Richard Swinburne vai entender o que eu estou falando) e sim uma reciclagem de argumentos ruins ou já abandonados, não demonstrando ter muita preocupação com apresentar algo relevante.

Um dos exemplos que podemos citar é, sem dúvida, o argumento central do livro “Deus, um delírio”, escrito pelo biólogo Richard Dawkins. Para o autor, essa seria uma prova da inexistência de Deus. Apresento o argumento abaixo:

1. Um dos maiores desafios para o intelecto humano foi explicar como o complexo e improvável aparecimento do design surgiu no universo.

2. A tentação natural é atribuir o aparecimento do design a um design verdadeiro.

3. A tentação é uma falsidade porque a hipótese do projetista remete imediatamente ao problema maior de quem projetou o projetista.

4. A explicação (guindaste) mais engenhosa e poderosa é evolução de Darwin através de seleção natural.

5. Nós não temos uma explicação (guindaste) equivalente para a física.

6. Nós não deveríamos renunciar a esperança de uma explicação (guindaste) melhor que surja na física, algo tão poderoso quanto o Darwinismo é para biologia.

Se o argumento deste capítulo for aceito, Deus, quase com certeza, não existe.

O argumento é composto por seis premissas seguidos por uma conclusão.

Vamos, agora, analisar premissa por premissa o argumento de Dawkins:

1. Um dos maiores desafios para o intelecto humano foi explicar como o complexo e improvável aparecimento do design surgiu no universo.

Até aqui, nenhum problema. Dawkins basicamente faz uma exposição, sob um certo ponto até desnecessária. Vamos em frente.

2. A tentação natural é atribuir o aparecimento do design a um design verdadeiro.

Tentação natural ou não, é irrelevante. O modo pelo qual se adquire uma crença em nada serve para validá-la ou invalidá-la, conforme comentei no texto de ontem. Mesmo assim, tal qual a premissa anterior, esta basicamente é uma exposição. Seguimos.

3. A tentação é uma falsidade porque a hipótese do projetista remete imediatamente ao problema maior de quem projetou o projetista.

Do’h!

Obviamente há erros nessa premissa.

Primeiro, Dawkins apela para “necessitamos de uma explicação da explicação”, o que não é verdade. Para reconhecer que o causa “X” é a melhor explicação para o efeito “Y”, não precisamos de uma outra explicação para a causa “X” .

A título de ilustração, imagine, por exemplo, que um grupo de antropólogos descubra uma ilha “perdida” no meio do Oceano Pacífico. À primeira vista, parece um ambiente selvagem nunca tocado pelo homem. Cientistas fazem cálculos e previsões e concluem que seria impossível para o homem primitivo chegar até aquela ilha, só podendo ser alcançada pela tecnologia atual.

No entanto, durante as escavações feitas pelos antropólogos, descobrem-se vários artefatos, como esculturas reproduzindo fielmente o corpo e o rosto humano em grande número, pontas de lança, etc.

Os cientistas ficam confusos: “Mas como eles conseguiram chegar aqui? Diante dos dados que temos, parece impossível!”

Mesmo assim, o fato de não termos a explicação da explicação faz a explicação ruir?

É claro que não. É muito mais sensato concluir que a reprodução fiel e em grande número do rosto humano foi feita por outro ser humano do que pela sedimentação natural.

O engraçado é que essa teoria “Qual a explicação da explicação?” poderia ser usada contra o próprio Darwin, muito tempo atras. Na época de suas descobertas, o velho barbudo foi colocado contra a parede: “Ok, a evolução pode ter ocorrido. Mas COMO ela ocorre, espertinho?” Não se conheciam exatamente os mecanismos pelo qual a evolução opera. Isso invalidaria a evolução, à época? É claro que não.

O mesmo pode ser dito para a lei da gravidade. Mesmo se for o caso de não sabermos o porquê de massa atrair massa, isso não muda o fato que a melhor explicação é de que… massa atrai massa.

O primeiro erro da premissa já está desmascarado.

Ainda há outro erro que temos que tratar, que é a uma versão escondida da pegadinha clássica “Quem causou Deus?” [ou “Who Design the Designer?”]. Para refutá-la, só precisamos conhecer dois aspectos básicos da descrição clássica de Deus, o que demonstra extrema falta de preparo de Dawkins (ou desonestidade, o que prefiro não acreditar).

Deus é descrito, classicamente, como além da matéria e do tempo. Portanto, é imaterial (notavelmente simples) e atemporal (eterno). (Alguns acusam essa descrição de se basear em um argumento de Deus das Lacunas, o que está errado, como você pode ler aqui)

O primeiro ponto da pegadinha é sustentar que “Observamos na natureza que toda complexidade vem de um ser ainda mais complexo, portanto Deus teria que ser mais complexo que o Universo”. Mas algo complexo é definido pelo seu número de partes e frações. Deus existiria além da matéria, não sendo possível ser composto de partes ou frações. Logo, é notavelmente simples. O erro é aplicar uma regra física para um jogo metafísico, uma das fraudes intelectuais abordadas por mim aqui.

O segundo ponto da pegadinha “Deus é a causa do universo, mas Deus também precisa de uma causa.” Ora, apenas o que VEM a existir precisa de uma causa. O que já existe eternamente, não tem causa, pois não tem início. Deus existe além do tempo, logo é eterno. Sendo eterno, não precisa de causa (e esse seria o mesmo caso se o universo fosse eterno, o que parece não ser, segundo propõe o modelo Big Bang de Lemaitre).

Dawkins, até agora, não conseguiu muita coisa (além de demonstrar ignorância em pontos básicos). Adiante.

4. A explicação mais engenhosa e poderosa é evolução de Darwin através de seleção natural.

Para a Biologia, realmente é. Mas isso não invalida nem teísmo nem ateísmo. Aqui, não há muito a comentar além disso, já que só o fiz para evitar erros de interpretação.

5. Nós não temos uma explicação equivalente para a física.

Aqui, Dawkins não deixa exatamente claro do que está falando. Imagino que seja da ordem do Universo ou do Fine Tuning que permitiu a própria consistência do Universo e o surgimento da vida.

De qualquer forma, o correto seria falar “eu não tenho uma explicação” ou “eu não conheço uma explicação equivalente”. Pode ser que alguém tenha a explicação ou que ela não seja aceita por motivos ideológicos. Seguimos.

6. Nós não deveríamos renunciar a esperança de uma explicação melhor que surja na física, algo tão poderoso quanto o Darwinismo é para biologia.

Hahaha!

A última premissa é simplesmente risível.

Quer dizer que, para provar que Deus não existe, ele simplesmente vem com: “Queridos, não percamos a esperança de achar outra explicação?”. Puro wishful thinking ou falácia da esperança.

O que Dawkins tentou fazer foi uma falácia do Declive Escorregadio ou Ampliação Indevida, tentando puxar o fato de termos uma explicação que ele possivelmente goste para Biologia implicaria em termos uma explicação que ele também possivelmente goste para Física no futuro.

Isso serve mais como técnica de lavagem cerebral do que como argumento respeitável.

Agora, finalmente, a conclusão:

Logo, Deus, quase com certeza, não existe.

Não é preciso ser um gênio para ver que a conclusão em NADA tem a ver com as premissas.Mesmo que todas as premissas comentadas acima fossem verdadeiras, ainda seria a conclusão NÃO seria verdadeira. Resumidamente, o argumento é esse: (1) Precisamos explicar a complexidade do universo (2) Não podemos perder as esperanças de achar uma alternativa melhor que Deus (3) Logo, Deus não existe.

O que há de se dizer disso? No mínimo, que é um argumento pífio.

Ora, mesmo que fosse um raciocínio correto, provar que um argumento pró-X está errado NÃO é provar que o inverso é verdadeiro. No caso Galileu, por exemplo, sua prova do modelo heliocêntrico era o fenômeno das marés… o que estava errado! (Galileu, Annibale Fantoli, pág. 229) A refutação de um argumento falso para uma hipótese X não faz todo o caminho de volta provando que X está errado. Dawkins, como cientista, deveria saber disso.

O que o argumento diz, se fosse correto (e não é), é que não devemos dizer que Deus existe pelo argumento do Design. Mas ainda assim teriamos outros argumentos a favor da hipótese. Mesmo não havendo nenhum, também existe o postulado “Ausência de Evidência não é Evidência de Ausência”, que é correto.

Enfim, um desastre. Dawkins, como filósofo, está mais para adepto de técnicas de PNL. Argumentos como os seus, mesmo sendo ilógicos, ainda capturam algumas pessoas. Está na hora de desmascará-los.

(*) agradecimos Vinícius Pinheiro, do blog Apologética e Filosofia, por ajudar no conteúdo do post.

***

Você poderá gostar também de:



http://www.apologia.com.br/?p=53
http://lucianoayan.wordpress.com/2010/01/13/deus-um-delirio-capitulo-4-pt-6-derrubando-o-boeing-747/

Fonte:http://quebrandooencantodoneoateismo.wordpress.com/2010/08/20/o-grande-erro-de-richard-dawkins/</

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Publicado em 3 de novembro de 2010, em Comunicados aos Cristãos, Neo ateísmo. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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