Arquivo diário: 10 de novembro de 2010

5 modos rápidos de se identificar uma fraude intelectual

  • Abuso de self-selling pessoal e grupal: Sempre suspeite quando alguém propuser evidências anedotais como “A diferença é que eu penso logicamente…”, “Eu aceito as evidências…”, “Eu penso ceticamente”, “Os ateus pensam assim…” ou ainda promessas utópicas como  “O mundo terá mais paz com o ateísmo”. O que há de comum a todas essas alegações? São “carteiraços” dados para ganhar vantagem no debate. Imagine que duas pessoas estão discutindo a libertação de um preso. Uma delas apresenta vários argumentos e a outra simplesmente diz “Você está errado, porque a diferença é que eu sou um defensor da justiça e os direitos humanos”. E onde estão as evidências disso? Qualquer bom argumentador sabe que evidência anedota tem valor zero como argumento. Não caia no truque de quem quer se vender como o bonzinho ou o sábio da história.
  • Ignorância quanto ao âmbito da Ciência: essa é uma crença estimulada por “gurus” do pseudo-ceticismo, que acham que a Ciência um dia poderá responder todas as questões da humanidade e que “A única forma de se conseguir conhecimento é através do Método Científico”. A Ciência serve só para estabelecer relações quanto ao empírico, não servindo para julgamentos éticos, estéticos, metafísicos, lógicos e validação da matemática, etc. E se a Ciência é a única forma de conseguir conhecimento, sendo essa uma frase expressando uma forma de conhecimento também, qual é a evidência cientifica disso?
  • Distorção e Quote Mining: consiste em pegar partes do seu discurso e mudar o sentido do que foi dito. Por exemplo, quando alguém alega “NINGUÉM tem provas de que Deus existe” e você diz “É possível pensar que alguém possui provas da existência de Deus. Não entrevistamos todos para saber”. O próximo passo é distorcer o que você disse, pegando só a parte do discurso que interessa e manipulando, como: “alguém possui provas da existência de Deus –> ah é? Então prove essa sua alegação, babaca!”
  • Inversão de Planos na discussão: Tentar misturar os vários planos de conhecimento (cientifico, filosófico, teológico, etc.). Para discutir se Deus existe ou não, quer jogar no plano científico (quando o correto seria o filosófico). Quando quer comentar a Bíblia (plano teológico), pergunta porque devemos acreditar que Deus existe (discussão no plano filosófico, que já deveria ter sido feita anteriormente à discussão da Bíblia). E por aí vai.
  • Ridicularização: quando falham todas as outras fraudes, o debatedor começa a te atacar pessoalmente ou mencionar seus argumentos e crenças de modo irônico. Mantenha uma postura firme, aponte o dedo e mostre a desonestidade cometida pelo outro. Se você for moderador da comunidade, aproveite para advertir ou até expulsar.
  • Fonte:http://quebrandooencantodoneoateismo.wordpress.com/2010/08/18/5-modos-rapidos-de-se-identificar-uma-fraude-intelectual/

Técnica: Se houvesse evidências, eu acreditaria

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Nesse estratagema, o neo-ateu nos lembra daquilo que nunca deveríamos ter esquecido: que ele “o” cético, que ele só olha as evidências e que ele é uma pessoa extremamente racional, um modelo a ser seguido. Logo, como não existem evidências para Deus, ele não acredita. E “se houvesse evidências, eu acreditaria”. Importante lembrar: a idéia “se houvesse evidências” já deixa implicita a técnica Não há evidências, que também deve ser refutada. Vamos identificar o erro dessa fala.

Em um caso prático, o diálogo pode ocorrer mais ou menos assim:

  • NEO-ATEU: A nossa diferença é a seguinte. Se houvessem provas, eu acreditaria. Mas não há evidências, por isso sou ateu.
  • REFUTADOR: É o que vamos ver…

A falha gritante desse truque é que ele se baseia apenas em EVIDÊNCIA ANEDOTA e, por consequência, essa frase deve ser DESCARTADA. A alegação “se houvesse evidências, eu acreditaria” não é testável. Nesse sentido, ela não é muito diferente de dizer que há um “Dragão na Garagem”. Não há como saber, a princípio, se ele realmente iria acreditar e se outros fatores iriam influenciar e “suprimir” as evidências.

Pense um pouco: como saber se o neo-ateu realmente iria acreditar ao ver as evidências? Será que ao ver as evidências fatores sociais e emocionais não iriam contar para a tomada de decisão?

Imagine alguém que estude em um ambiente altamente secularizado e anti-religioso, o levando ao ateísmo. Todos os dias as pessoas desse departamento contam piada de religiosos, tiram sarro da crença em Deus, dizem que ela é “irracional” e etc. Um dia, ele vê as evidências. Essa experiência anterior cotidiana de sátira e escárnio influenciaria no grau de ceticismo usado pelo julgador talvez o levando a uma exarcebação que ele não aplicaria em outras àreas da vida? Será que não? O psicólogo Paul Vitz levantou a hipótese de que um relacionamento ruim com o pai e a satisfação de não ter que “prestar contas” moralmente para ninguém ajudam a sustentar a preferência pelo ateísmo. Será que isso é impossível? Estar acostumado a um estilo de vida, com pressão emocional de ter que se ajustar a alguma conduta se acreditar, além das pressões do ambiente não impediria uma análise imparcial das evidências? Existindo a possibilidade de outros fatores, além das evidências, influenciarem na decisão final, o self-selling vai para a lata de lixo.

Se eu fosse cretino, eu poderia dizer que “não é possível convencer um descrente de coisa alguma; pois suas descrenças não se baseiam em evidências, baseiam-se numa profunda necessidade de descrer”. Mas como eu não sou, e reconheço que não tenho nenhuma bola de cristal para saber o que todos pensam, não falarei que essa frase é válida.

Se você quiser ser ingênuo e achar que o mundo é composto por “Pollyannas”, que são sempre honestas e vão avaliar só por evidências, sendo impossível levar em conta aspectos variados… pode acreditar. Mas, em um debate, eu não sou obrigado a acreditar.

Notem que eu não estou dizendo que não existam pessoas que olhem as evidências e decidam só por elas. Decerto existem muitas pessoas que realmente conseguiriam agir assim. A questão é que não é possível saber se o alegador realmente é honesto, se está enganando você ou até se está enganando a si próprio. Não preciso aceitar a declaração PESSOAL de alguém se eu não sei ela é válida ou não.

Talvez algum ateu responda “Você tem que confiar na declaração de um outro ser humano! Acreditar com evidências é instintivo!”.

Mas eu já aviso de antemão que eu NÃO tenho “crença no homem”. As pessoas podem sim ser desonestas, mentir e manipular (principalmente quem acredita que “não há verdade objetiva”, não é mesmo?). Minha postura em debates e política é baseada nisso. Podem analisar meu comportamento e avaliar.

Outro erro comum é pensar que “se realmente existissem provas, todos concordariam; como há discordância, é sinal de que não existem evidências”. Ué, desde quando a verdade virou um mero “consenso democrático”? Se for assim, a Evolução também entra nesse balaio, pois muitos discordam que ela tenha efetivamente ocorrido. “E se há discordância, então não há evidências”. Dá para ver que esse raciocínio não pode ser considerado correto.

Em resumo:

  1. A alegação “se houvesse evidências, eu acreditaria”, baseia-se em evidência anedota e não é verificável, a princípio;
  2. Se existir alguma possibilidade de fatores emocionais ou sociais refletirem no ateísmo da pessoa, então não devemos acreditar na sua declaração original;
  3. Mesmo sendo verdadeira, a posição pessoal não importa nada em um debate; dizer “eu faria aquilo, eu faria isso” não é um argumento e não tem que ser discutido, a não ser para desmascarar quem diz isso;

Portanto, a refutação pode seguir essa linha:

  • NEO-ATEU: A nossa diferença é a seguinte. Se houvessem provas, eu acreditaria. Mas não há evidências, por isso sou ateu.
  • REFUTADOR: Não há como saber se você acreditaria ou não. Essa é uma evidência anedota e você pode estar mentindo. Pode ser que, por motivos emocionais ou sociais, você simplesmente não aceitaria, mesmo com as evidências. Além disso, quando você fala “não há evidências”, qual o tipo de evidência esperada?
  • NEO-ATEU: Como você ousa duvidar de mim? Eu estou sendo absolutamente sincero! Eu gostaria muito que Deus existisse, só não existem provas, e por isso quem acredita é irracional! Que tipo de evidência? Ahn, qualquer coisa CONCRETA, se for ilógico eu advirto…
  • REFUTADOR: Você cometeu um erro de especificação de evidência, usando palavras vagas como “qualquer coisa” e “concreta”. Para declarar que não existem evidências, você tem que saber EXATAMENTE o tipo de evidência que seria produzida no caso de existência. Sobre a primeira parte, você, novamente, pode estar mentindo, seja para mim ou seja para si mesmo. Além disso, essa sentença é só uma forma de propaganda em declaração pessoal. Portanto, ela não importa absolutamente NADA para o debate. Devemos focar nos argumentos, entendeu?

[e assim por diante, até neutralizar a propaganda]

Conclusão

Essa técnica não passa de um apelo emocional e apelo de autoridade, tentando colocar o divulgador da tese com uma aparência de “Eu tenho dúvidas, eles não; eu olho as evidências, vocês não; eu sou bonzão, vocês não.” Dizer “se houvesse evidências, eu acreditaria”, no fim das contas, não é nada mais que uma forma de self-selling, evidência anedota e fraude intelectual. Simples assim.

Fonte:http://quebrandooencantodoneoateismo.wordpress.com/2010/10/27/tcnica-se-houvesse-evidncias-eu-acreditaria/

Técnica: Contando suposto passado religioso

Nesse estratagema, a declaração do neo-ateu sobre um suposto passado religioso é aplicada como prova durante um debate sobre a existência de Deus ou sobre a coerência da religião.

Embora eu não duvide que uma parte dos ateus já tenha sido de religiosos (e vice-versa), uma coisa que precisa ficar clara sobre isso é declarar passado religioso ou declarar ter estudados os argumentos para o teísmo durante o debate é um erro FEIO em dois pontos:

  • (a) validade lógica;
  • (b) credibilidade;

Do ponto de vista lógico, esse é um argumento quase bizarro. A desistência de fazer parte de uma religião ou a ausência de crença em Deus não prova… absolutamente nada sobre a validade da religião ou a existência de Deus. Se esses são os tópicos discutidos, contar histórias do passado não só é nonsense, como é completamente irrelevante. Deus pode existir mesmo que você tenha desistido de crer e uma religião pode ser coerente mesmo que você não faça parte dela.

E como quase toda declaração de passado religioso é feita por evidência anedota, ela também falha na CREDIBILIDADE. Evidência anedota é rejeitada, em um debate lógico, justamente porque qualquer um pode falsificá-la ou ter facilmente sido induzida ao erro em alguma experiência. Via de regra, em um argumentação FORMAL só valem evidências que podem ser conferidas – o que não é o caso da mera declaração. Por exemplo: se ele diz ter analisado e rejeitado o argumento Kalam, NÃO adianta SÓ dizer isso. Vai ter que demonstrar o erro e se preparar para receber um checagem por parte dos religiosos via escrutínio cético da sua refutação.

Uma aplicação prática dessa técnica (acompanha da refutação) abaixo:

  • DEBATEDOR: No tempo em que eu era católico e acreditava em Deus, meu ideal era ser santo e, por vários anos, tentei me comunicar com Deus, inteiramente em vão. Passei a estudar minha religião, ao mesmo tempo em que estudava muita filosofia, física, cosmologia, biologia, história e outros assuntos (música, pintura, literatura etc).  Meus estudos e reflexões me levaram a concluir pela total impropriedade da fé e, em decorrência, de qualquer religião. A princípio, aos 19 anos, me tornei agnóstico e depois, pelos 23 anos, ateu, da modalidade cética, isto é, não dogmática. Desde então venho me aprofundando no estudo das argumentações contra e a favor da existência de Deus e estou cada vez mais convencido de sua inexistência.
  • REFUTADOR: E eu com isso? No que isso prova a inexistência de Deus ou a invalidade da religião? Alias, o fato de você DECLARAR que era católico ou que estudou os argumentos a favor e contra não PROVA a verdade de nenhuma dessas proposições…
  • DEBATEDOR: Mas eu estudei, posso garantir. Não há motivos para duvidar de mim, estou sendo absolutamente verdadeiro.
  • REFUTADOR: Verdadeiro ou não, isso NÃO importa para o DEBATE. Experiências e declarações subjetivas não interessam, por isso pode parar com essa história e vamos para os tópicos importantes. Se quer desabafar, faça com um amigo ou com um psicólogo, não no meio de uma arena intelectual.

O que foi feito aqui foi a desqualificação da informação, nos pontos que eu havia citado acima, tanto no prisma da (a) validade lógica quanto no da (b) credibilidade.

Outro exemplo de aplicação prática:

  • DEBATEDOR: Eu não decidi ser atéia, apenas um dia, depois de muito pesquisar e tentar, percebi que não conseguia mais ver sentido naquilo, e não consegui mais acreditar.
  • REFUTADOR: Isso é apenas evidência anedota. Você pode estar mentindo, pode ter trabalho só com versões espantalhos dos argumentos a favor da religião… não há confiabilidade para sua informação e ela também não é relevante.
  • DEBATEDOR: Bom, se vou ser taxada de mentirosa quando estou sendo absolutamente sincera, é um bom motivo para não insistir na discussão aqui.
  • REFUTADOR: Não disse que você é mentirosa. Disse que você PODE estar mentindo (como qualquer pessoa seria capaz de fazer, inclusive religiosos). Por isso, não devemos aceitar evidência anedota em um  debate. É uma questão simples.

Ele pode tentar também uma variação citando um evento traumático ou alguma suposta qualidade negativa atribuida à Religião por suas vivências. Na refutação, deixe claro que a evidência não é nem confiável nem suficiente para julgarmos a religião como um todo, pois puxar um caso para o TODO constitui generalização apressada :

  • DEBATEDOR: O que você não entende é o seguinte. Eu virei ateu, pois na minha família percebi que a religião só promove a intolerância.
  • REFUTADOR: “eu percebi” configura evidência anedota. E mesmo que fosse verdadeira, esse é um problema da TUA família. Você não pode julgar fenômenos complexos (como a religião) apenas por exemplos pessoais, nem provar a inexistência de Deus porque alguém fez uma burrada.
  • DEBATEDOR: Mas o mundo seria melhor se todos fossem ateus, pois ateus sempre são tolerantes.
  • REFUTADOR:  Certo, como provou Mao Tse Tung, não é? E “apelo às consequências” (como o seu “se todos forem ateus, o mundo será “melhor””) não prova que o algo é verdadeiro logicamente…

Enfim, o que precisa ficar bem claro sobre essa questão é:

  1. Qualquer declaração de passado ou experiência é IMEDIATAMENTE descartada em um debate, se constituída apenas de evidência anedota;
  2. Mesmo que fosse a evidência seja válida, não contribui em absolutamente NADA para um debate sobre Deus ou sobre teologia;
  3. Qualquer erro, experiência ruim ou trauma que a pessoa declare ter, representa, no máximo, o que aconteceu com ELA, não uma regra geral na religião;

Conclusão

O efeito dessa técnica é puramente psicológico – logicamente, não possui valor algum. Pode fazer alguns estragos do ponto de vista retórico, por isso não deixe o monstro crescer muito. Puxe a descarga cedo e evite maiores problemas.

Fonte:http://quebrandooencantodoneoateismo.wordpress.com/2010/10/02/tecnica-contando-suposto-passado-religioso/

Técnica: Não há evidências

A Técnica “Não Há Evidências” :::

Quem já participou de debates, deve ter visto essa técnica sendo utilizada até não poder mais. E, ao contrário do que possa parecer, ela não é utilizada só na internet. Lewis Wolpert, por exemplo, utilizou-a ad nauseam no debate contra William Lane Craig.

Funciona da seguinte maneira: o neo-ateu repete (quase como um mantra, na maioria absoluta dos casos) que “não há evidências para a existência de Deus”. O início da refutação é perguntar qual o tipo de evidência esperada e ver, pela contra-resposta, o que acontece (se ele estiver trollando, então não será capaz de fazer a especificação).

A resposta mais comum, depois do questionamento cético a essa afirmação, é “qualquer coisa, se for ilógico eu advirto”/ “qualquer tipo de prova concreta”/”alguma evidência empírica”/, o que mais uma vez demonstra que ou neo-ateus não tem base filosófica, nem conhecimento de princípios de pesquisa, ou estão sendo deliberadamente desonestos.

Embora neo-ateus usem bastante esse discurso, minha inspiração mais imediata para esse post foi o comentário de ontem sobre Ayn Rand passando vergonha.

Erros contidos nessa técnica :::

Alguns dos princípios metodológicos da pesquisa são (1) a definição do escopo de busca, (2) do plano de discussão e (3) do tipo de evidência esperada que irá reforçar ou negar a tese. Quem comete erros na definição de algum desses itens, já falha em poder formar conclusões válidas.

O estratagema “qualquer evidência” é errado em relação ao princípio (3). Para fazer uma pesquisa, TEMOS que definir a prova esperada. Imagine, por exemplo, que você fizesse parte de uma equipe de perícia médica. Uma garota, encontrada ferida na beira da estrada, foi encaminhada para o hospital e o delegado pediu para verificar se houve um atropelamento. O chefe da equipe médica diz “Galera, vão lá e descubram se ela foi atropelada”. Você (mais inexperiente) retruca: “Que tipo de evidência devemos encontrar para confirmar a hipótese?”.

Ele poderia responder de duas maneiras:

  • LÍDER: Qualquer evidência, se vocês acharem que não temos o suficiente, me avisem que dou a pesquisa por encerrada.

Ou:

  • LÍDER: Bem, se ela foi atropelada, o esperado é que se encontrem hematomas ou fraturas na região do quadril ou das costelas, causadas pelo impacto do carro no seu corpo. Também devemos procurar escoriações nos braços, nas costas e nas àreas laterais do tronco, que seriam os resultados do atrito com o chão, no caso de ela ter sido arrastada ou arremessada para longe quando do encontro com o automóvel. Se essas evidências forem encontradas, aliado ao fato de ela estar desacordada perto de uma rodovia, então temos um bom caso para definir que ela realmente foi atropelada.

E então, qual das duas opções deve ser levada a sério? A primeira afirmativa (que utilizou o raciocínio neo-ateu)? É claro que não. O segundo caso é de uma pesquisa BEM-FEITA. A outra alternativa possui um erro metodológico crasso – a falta de especificação de evidência e, portanto, o formato utilizado não pode (pelo menos entre investigadores reais) ser considerada como válido.

Já a técnica “qualquer prova concreta” ou “empírica”, além de ter o erro anterior, é uma falácia da Inversão de Planos, que erra nos princípios (1) e (2). A discussão sobre a existência ou inexistência de Deus é feita no plano metafísico, de acordo com as características classicamente definidas para ele [i.e., imaterial, atemporal, etc.]. Devemos lembrar, também, que em discussões metafísicas (como a universalidade das leis físicas no Universo ou a impossibilidade de um infinito real) não se “provam” as posições sentido estrito e sim adotam-se as posições mais coerentes.

O neo-ateu pode, ainda, tentar uma saída pela tangente, dizendo: “Ué, Deus é metafísico, mas não interage com o físico? Logo, ele deve ser testado fisicamente”. É um raciocínio incorreto. Quando se diz que Deus interage com o mundo físico (através de milagres, por exemplo) esse é um evento incomum, extraordinário. Para testes físicos, de acordo com os princípios da pesquisa científica, a tese pesquisada deve envolver relações possíveis de serem controladas e reproduzidas. Portanto, se um evento não é reproduzível (como uma ação para milagres) ele está fora do escopo do método cientifico.

Em suma:

  1. Se o neo-ateu disser que não há evidências, deve receber um questionamento cético do tipo: “Qual a evidência esperada?”
  2. Se disser que qualquer evidência genérica serve, está cometendo um erro metodológico;
  3. Se disser que a evidência tem que ser empírica, está cometendo uma falácia de inversão de planos;
  4. Se não for capaz de especificar qual seria uma boa evidência, então a sua frase “não há evidências” foi desmascarada como um truque ou um erro;

Conclusão :::

Recentemente, na Contradições do Ateísmo, um ateu-satanista foi pressionado a definir o tipo de evidência e se saiu com “se todos os humanos virassem porquinhos-da-índia do nada”. Um reductio ad absurdum monstruoso, possivelmente feito porque ele aprendeu essa técnica de forma direta ou indireta com alguém, não refletiu e teve que se virar para arranjar alguma coisa que valeria como prova de última hora.

Se alguém pedir evidências, mas for incapaz de definir quais são as esperadas, então o slogan “não há evidências” vai direto pra lata de lixo.

Fonte:http://quebrandooencantodoneoateismo.wordpress.com/2010/09/11/tecnica-nao-ha-evidencias/