Técnica: Não há evidências

A Técnica “Não Há Evidências” :::

Quem já participou de debates, deve ter visto essa técnica sendo utilizada até não poder mais. E, ao contrário do que possa parecer, ela não é utilizada só na internet. Lewis Wolpert, por exemplo, utilizou-a ad nauseam no debate contra William Lane Craig.

Funciona da seguinte maneira: o neo-ateu repete (quase como um mantra, na maioria absoluta dos casos) que “não há evidências para a existência de Deus”. O início da refutação é perguntar qual o tipo de evidência esperada e ver, pela contra-resposta, o que acontece (se ele estiver trollando, então não será capaz de fazer a especificação).

A resposta mais comum, depois do questionamento cético a essa afirmação, é “qualquer coisa, se for ilógico eu advirto”/ “qualquer tipo de prova concreta”/”alguma evidência empírica”/, o que mais uma vez demonstra que ou neo-ateus não tem base filosófica, nem conhecimento de princípios de pesquisa, ou estão sendo deliberadamente desonestos.

Embora neo-ateus usem bastante esse discurso, minha inspiração mais imediata para esse post foi o comentário de ontem sobre Ayn Rand passando vergonha.

Erros contidos nessa técnica :::

Alguns dos princípios metodológicos da pesquisa são (1) a definição do escopo de busca, (2) do plano de discussão e (3) do tipo de evidência esperada que irá reforçar ou negar a tese. Quem comete erros na definição de algum desses itens, já falha em poder formar conclusões válidas.

O estratagema “qualquer evidência” é errado em relação ao princípio (3). Para fazer uma pesquisa, TEMOS que definir a prova esperada. Imagine, por exemplo, que você fizesse parte de uma equipe de perícia médica. Uma garota, encontrada ferida na beira da estrada, foi encaminhada para o hospital e o delegado pediu para verificar se houve um atropelamento. O chefe da equipe médica diz “Galera, vão lá e descubram se ela foi atropelada”. Você (mais inexperiente) retruca: “Que tipo de evidência devemos encontrar para confirmar a hipótese?”.

Ele poderia responder de duas maneiras:

  • LÍDER: Qualquer evidência, se vocês acharem que não temos o suficiente, me avisem que dou a pesquisa por encerrada.

Ou:

  • LÍDER: Bem, se ela foi atropelada, o esperado é que se encontrem hematomas ou fraturas na região do quadril ou das costelas, causadas pelo impacto do carro no seu corpo. Também devemos procurar escoriações nos braços, nas costas e nas àreas laterais do tronco, que seriam os resultados do atrito com o chão, no caso de ela ter sido arrastada ou arremessada para longe quando do encontro com o automóvel. Se essas evidências forem encontradas, aliado ao fato de ela estar desacordada perto de uma rodovia, então temos um bom caso para definir que ela realmente foi atropelada.

E então, qual das duas opções deve ser levada a sério? A primeira afirmativa (que utilizou o raciocínio neo-ateu)? É claro que não. O segundo caso é de uma pesquisa BEM-FEITA. A outra alternativa possui um erro metodológico crasso – a falta de especificação de evidência e, portanto, o formato utilizado não pode (pelo menos entre investigadores reais) ser considerada como válido.

Já a técnica “qualquer prova concreta” ou “empírica”, além de ter o erro anterior, é uma falácia da Inversão de Planos, que erra nos princípios (1) e (2). A discussão sobre a existência ou inexistência de Deus é feita no plano metafísico, de acordo com as características classicamente definidas para ele [i.e., imaterial, atemporal, etc.]. Devemos lembrar, também, que em discussões metafísicas (como a universalidade das leis físicas no Universo ou a impossibilidade de um infinito real) não se “provam” as posições sentido estrito e sim adotam-se as posições mais coerentes.

O neo-ateu pode, ainda, tentar uma saída pela tangente, dizendo: “Ué, Deus é metafísico, mas não interage com o físico? Logo, ele deve ser testado fisicamente”. É um raciocínio incorreto. Quando se diz que Deus interage com o mundo físico (através de milagres, por exemplo) esse é um evento incomum, extraordinário. Para testes físicos, de acordo com os princípios da pesquisa científica, a tese pesquisada deve envolver relações possíveis de serem controladas e reproduzidas. Portanto, se um evento não é reproduzível (como uma ação para milagres) ele está fora do escopo do método cientifico.

Em suma:

  1. Se o neo-ateu disser que não há evidências, deve receber um questionamento cético do tipo: “Qual a evidência esperada?”
  2. Se disser que qualquer evidência genérica serve, está cometendo um erro metodológico;
  3. Se disser que a evidência tem que ser empírica, está cometendo uma falácia de inversão de planos;
  4. Se não for capaz de especificar qual seria uma boa evidência, então a sua frase “não há evidências” foi desmascarada como um truque ou um erro;

Conclusão :::

Recentemente, na Contradições do Ateísmo, um ateu-satanista foi pressionado a definir o tipo de evidência e se saiu com “se todos os humanos virassem porquinhos-da-índia do nada”. Um reductio ad absurdum monstruoso, possivelmente feito porque ele aprendeu essa técnica de forma direta ou indireta com alguém, não refletiu e teve que se virar para arranjar alguma coisa que valeria como prova de última hora.

Se alguém pedir evidências, mas for incapaz de definir quais são as esperadas, então o slogan “não há evidências” vai direto pra lata de lixo.

Fonte:http://quebrandooencantodoneoateismo.wordpress.com/2010/09/11/tecnica-nao-ha-evidencias/

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Publicado em 10 de novembro de 2010, em Neo ateísmo. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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