Arquivo mensal: novembro 2010

Quatro pontos que diferenciam um ateu tradicional de um neo-ateu

tresPatetas

Muitas vezes as pessoas me perguntam como saber quem é um neo-ateu. Eles existem, mas, de fato, pode ser um pouco difícil de identificá-los. Por isso, uma pequena investigação para descobrir critérios para diferenciar se o o adversário é um neo-ateu ou não pode ser útil aqui.

Primeiro, de onde vem o termo neo-ateu? Claro que não fui que o inventei. Ele está bem definido como representante de quatro autores – Richard Dawkins, Sam Harris, Daniel Dennet e Cristopher Hitchens – e seus seguidores diretos ou indiretos. É um movimento intelectual bem delimitado e popular (com vários livros no top dos best-sellers do New York Times, Amazon, etc.) Toda a documentação sobre a existência do neo-ateísmo já foi tratada no seguinte post.

Basicamente, o neo-ateísmo é o ateismo com um “plus” dado pela mentalidade revolucionária. Para questões didáticas, quatro pontos podem ser propostos para fazer a efetiva diferença entre o que é um neo-ateu e o que é um ateu tradicional baseado no que dizem os autores neo-ateus:

1. Discurso de baixa qualidade filosófica:

O neo-ateu (que é um movimento direcionado para o “populacho”) normalmente trabalha com SLOGANS, diferente de argumentos filosóficos. Neo-ateus sabem pouco, ou muito pouco, de filosofia, epistemologia e teologia.

Isso já fica bem claro, por exemplo, no prefácio à edição de bolso de Deus, um Delírio. Dawkins recebeu várias críticas por sua pobreza filosófica na questão Deus. Para se esquivar, deu uma resposta infame, dizendo que “Se eu eu não preciso conhecer o Monstro do Espaguete Voador para criticar (fraude analisada aqui), Deus também”. Veja aí:

Ampliando o argumento, a maioria de nós desqualifica sem problemas as fadas, a astrologia e o Monstro de Espaguete Voador,* sem precisar afundar em livros de teologia pastafariana, e assim por diante. (Deus, um Delírio, pág. 10)

Ou seja, Dawkins confessa PUBLICAMENTE que critica a religião… sem entender teologia, que poderia fornecer as respostas para a crítica. Para complementar, basta lembrar que William Lane Craig comentou que Hitchens disse que estava “surpreso” com a existência de justificações para o teísmo e que “eu achava que era tudo pela fé!” (October 27, 2009, Christopher Hitchens Debate, Reasonable Faith Podcast Archive). Está na cara que eles não entendem muito do assunto. Eles são escritores de PROPAGANDA, não de filosofia.

Entre alguns dos problemas do discurso filosófico neo-ateu, poderiamos citar:

  • cientismo (a ciência responde todas as questões, inclusive para a moralidade);
  • venda extrapolada da Teoria da Evolução (“Darwin nos livrou de Deus”);
  • negação da existência de padrões objetivos de moralidade, ao mesmo que tempo que julgam atos religiosos como absolutamente imorais (“a moral é uma construção cultural, mas ensinar religião para as crianças é um absurdo que é errado em qualquer situação);
  • self-selling para ateísmo (Ateus são fortes, Teístas são fracos);

E todo tipo de truque analisado por mim na seção Truques Neo-Ateístas.

2. Ateísmo militante (em oposição ao ateísmo agnóstico ou ateísmo moderado)

Outra diferença do neo-ateu é que ele quer CONVERTER mais pessoas para o ateísmo (ou, pelo menos, destruir as convições religiosas das pessoas). Não basta achar que Deus não existe; é necessário fazer as pessoas entendam que Deus não existe. Richard Dawkins, por exemplo, deixa claro isso no seu livro:

Sua intenção é conscientizar — conscientizar para o fato de que ser ateu é uma aspiração realista, e uma aspiração corajosa e esplêndida. (…) Se este livro funcionar do modo como pretendo, os leitores religiosos que o abrirem serão ateus quando o terminarem. (Deus, um Delírio, pág. 18 e 23)

Richard Dawkins também deixa bem claro que seus leitores tem um papel a cumprir, ao citar que é errado dizer que crianças tem posições religiosas e que os seus leitores precisam rebater qualquer pessoa que fale sobre “crianças muçulmanas”, por exemplo, devendo “usar todas as oportunidades para marcar essa posição.” (pág. 13, Deus um Delírio). O movimento deve ser usado para “conscientizar”.

O neo-ateísmo é um ateísmo militante.

Qual a motivação para a militância? Isso nos leva para o item (3) do neo-ateísmo.

3. Crença sem evidências que a eliminação da religião irá diminuir o gregarismo na espécie humana/ajudar a implementação de um “novo homem”:

Por trás da motivação da militância, está a idéia de transformação da sociedade pela eliminação da religião, seja na esfera pública, seja na esfere privada (com um “novo homem” emancipado, típico dos discursos humanistas). Cristopher Hitchens deixa claro que a religião não só é ruim, como é uma AMEAÇA para espécie humana em seu livro Deus não é Grande:

Visto que a religião tem provado que ela é unicamente deliquente… nós podemos concluir que… a religião não é apenas amoral, mas também imoral. A religião envenena tudo. Além de ser uma ameaça para a civilização, ela é uma ameaça para a sobrevivência da própria espécie humana. (pág. 10 e 20, God Is Not Great: How Religion Poisons Evertything, traduzido por mim do inglês)

Richard Dawkins acredita que na esfera individual, as pessoas viverão uma “vida livre de verdade” ao adotarem o ateísmo:

Prefiro dizer que acredito nas pessoas, e as pessoas, quando incentivadas a pensar por si sós sobre toda a informação disponível hoje em dia, com muita freqüência acabam não acreditando em Deus, e vivem uma vida realizada — uma vida livre de verdade. (Deus, um Delírio, pág. 10)

Dawkins complementa, em seguida, ao dizer que ateísmo é correlacionado ao “mente saudável”

Minha quarta conscientização diz respeito ao orgulho ateu. Pelo contrário, é uma coisa da qual se deve ter orgulho, encarando o horizonte de cabeça erguida, já que o ateísmo quase sempre indica uma independência de pensamento saudável e, mesmo, uma mente saudável. (Deus, um Delírio, pág. 21)

Aliás, se havia alguma dúvida se Dawkins tinha “crença no novo homem”, não há mais. O neo-ateísmo é apenas uma variação do humanismo e da mentalidade revolucionária, que defende a transformação da sociedade para uma era “cheia de paz” ou o “outro mundo possível”. Para chegar a uma coisa tão boa, não valeria qualquer tipo de atitude? É o que nos leva ao item (4).

4. Uso de estratégias de escárnio e ridicularização:

No movimento neo-ateu, tratar religiosos e a religião como lixo não uma coincidência: é um princípio. Vamos lembrar, aqui, de uma entrevista dada por Sam Harris ao site Truthdig:

Então, ridicularizão pública é um princípio. Uma vez que você deixa de lado o tabu que é criticar a fé e exige que as pessoas comecem a falar com sentido, então a capacidade de fazer as certezas religiosas parecerem estúpidas, fará nós começarmos a rir na cara das pessoas que acreditam aquilo que Tom DeLays, que Pat Robersons do mundo acreditam. Nós vamos rir deles de uma maneira que será sinônimo de excluí-los do nossos salões do poder. [¹]

A mensagem de Sam Harris é explícita. Pessoas que possuam crença religiosa devem ser EXCLUÍDAS da discussão pública. E isso está exatamente de acordo com sua atitude, alguns anos depois, de atacar a nomeação de Francis Collins ao NIH por ele acreditar em Deus. [²]

Cristopher Hitchens também mandou uma mensagem semelhante – a religião não deve ser respeitada, deve ser destruída:

“E eu afirmo que [a religião] deveria ser tratada como rídicula, e com ódio e desprezo – e afirmo que isso é um direito”. [³]

O que Hitchens defende não é muito diferente daquilo que Datena defendeu no seu programa no caso célebre dos últimos meses. Portanto, assim como tive rejeição à atitude de Datena, rejeito a de Hitchens.

Por fim, acho que tenho uma boa base para afimar essa diferenciação. Dá para ver qual é a postura dos autores neo-ateus. Como eles foram um sucesso de vendas e de marketing, essa postura ganhou adeptos. Duvida? Vá em comunidades de debates e confira se essas figuras não aparecem.

E é por isso que eu digo: não há mais oportunidade de diálogo. Eles devem ser investigados e desmascarados. Fim de papo. Qualquer coisa além disso é perda de tempo. Não deixe pessoas lhe ridicularizarem e as trate como “tendo as melhores das intenções”.

Se você fizer isso, já perdeu qualquer confronto intelectual de antemão. A resposta tem que ser firme. Quem trata com polidez imerecida aqueles que lhe atacam virulosamente como “irracional”, “idiota”, “estúpido”, deve ser considerado cúmplice na difamação aos religiosos.

Fontes:

  1. Sam Harris, Truthdig interview, April 3, 2006, v. http://www.truthdig.com/report/page5/20060403_sam_harris_interview/?/interview/page5/20060403_sam_harris_interview/
  2. Sam Harris, Science Is in the details, July 26, 2009 v. http://www.nytimes.com/2009/07/27/opinion/27harris.html?pagewanted=2&_r=2&ref=opinion; Para uma análise mais completa do caso, v. Luciano Ayan, “O Mito da Racionalidade Neo-Ateísta” http://lucianoayan.wordpress.com/2010/01/14/o-mito-da-racionalidade-neo-ateista/
  3. ~Christopher Hitchens, on Freedom of Speech, v. http://blogs.alternet.org/speakeasy/2010/07/07/what-christopher-hitchens-and-the-new-atheists-can-learn-from-malcolm-x/

[OBS.: Em boa parte dos casos, o único ponto explícito será o nº (4). Nesse caso, mesmo que o autor diga que não é neo-ateu, ele estará AGINDO como um. Portanto, a crítica pode ser feita no sentido “você está agindo como neo-ateu”. A filiação à comunidades ou defesa de Dawkins e cia. também serve como indicativo de que temos um neo-ateu no debate.]

Fonte:http://quebrandooencantodoneoateismo.wordpress.com/2010/11/01/quatro-pontos-que-diferenciam-um-ateu-tradicional-de-um-neo-ateu/

O Grande Erro de Richard Dawkins

O Grande Erro de Richard Dawkins

Com o advento do neo-ateísmo , o nível do debate sobre a Existência de Deus caiu. Podemos especular que as principais razões para isso seriam (1) O fato de que os principais “autores” dessa correntes são, na verdade, cientistas, comentaristas políticos, dentre outros, e não pessoas capacitadas para dar pitacos em em um debate filosófico e, eventualmente, histórico (e não é de hoje que pessoas fora de suas àreas falam bobagens no assunto, como comprova esse vídeo do renomado químico Peter Atkins); e (2) o fato de terem como alvo atingir o “povão”. Esses autores não fazem um debate acadêmico no tópico (quem já leu Plantinga e Richard Swinburne vai entender o que eu estou falando) e sim uma reciclagem de argumentos ruins ou já abandonados, não demonstrando ter muita preocupação com apresentar algo relevante.

Um dos exemplos que podemos citar é, sem dúvida, o argumento central do livro “Deus, um delírio”, escrito pelo biólogo Richard Dawkins. Para o autor, essa seria uma prova da inexistência de Deus. Apresento o argumento abaixo:

1. Um dos maiores desafios para o intelecto humano foi explicar como o complexo e improvável aparecimento do design surgiu no universo.

2. A tentação natural é atribuir o aparecimento do design a um design verdadeiro.

3. A tentação é uma falsidade porque a hipótese do projetista remete imediatamente ao problema maior de quem projetou o projetista.

4. A explicação (guindaste) mais engenhosa e poderosa é evolução de Darwin através de seleção natural.

5. Nós não temos uma explicação (guindaste) equivalente para a física.

6. Nós não deveríamos renunciar a esperança de uma explicação (guindaste) melhor que surja na física, algo tão poderoso quanto o Darwinismo é para biologia.

Se o argumento deste capítulo for aceito, Deus, quase com certeza, não existe.

O argumento é composto por seis premissas seguidos por uma conclusão.

Vamos, agora, analisar premissa por premissa o argumento de Dawkins:

1. Um dos maiores desafios para o intelecto humano foi explicar como o complexo e improvável aparecimento do design surgiu no universo.

Até aqui, nenhum problema. Dawkins basicamente faz uma exposição, sob um certo ponto até desnecessária. Vamos em frente.

2. A tentação natural é atribuir o aparecimento do design a um design verdadeiro.

Tentação natural ou não, é irrelevante. O modo pelo qual se adquire uma crença em nada serve para validá-la ou invalidá-la, conforme comentei no texto de ontem. Mesmo assim, tal qual a premissa anterior, esta basicamente é uma exposição. Seguimos.

3. A tentação é uma falsidade porque a hipótese do projetista remete imediatamente ao problema maior de quem projetou o projetista.

Do’h!

Obviamente há erros nessa premissa.

Primeiro, Dawkins apela para “necessitamos de uma explicação da explicação”, o que não é verdade. Para reconhecer que o causa “X” é a melhor explicação para o efeito “Y”, não precisamos de uma outra explicação para a causa “X” .

A título de ilustração, imagine, por exemplo, que um grupo de antropólogos descubra uma ilha “perdida” no meio do Oceano Pacífico. À primeira vista, parece um ambiente selvagem nunca tocado pelo homem. Cientistas fazem cálculos e previsões e concluem que seria impossível para o homem primitivo chegar até aquela ilha, só podendo ser alcançada pela tecnologia atual.

No entanto, durante as escavações feitas pelos antropólogos, descobrem-se vários artefatos, como esculturas reproduzindo fielmente o corpo e o rosto humano em grande número, pontas de lança, etc.

Os cientistas ficam confusos: “Mas como eles conseguiram chegar aqui? Diante dos dados que temos, parece impossível!”

Mesmo assim, o fato de não termos a explicação da explicação faz a explicação ruir?

É claro que não. É muito mais sensato concluir que a reprodução fiel e em grande número do rosto humano foi feita por outro ser humano do que pela sedimentação natural.

O engraçado é que essa teoria “Qual a explicação da explicação?” poderia ser usada contra o próprio Darwin, muito tempo atras. Na época de suas descobertas, o velho barbudo foi colocado contra a parede: “Ok, a evolução pode ter ocorrido. Mas COMO ela ocorre, espertinho?” Não se conheciam exatamente os mecanismos pelo qual a evolução opera. Isso invalidaria a evolução, à época? É claro que não.

O mesmo pode ser dito para a lei da gravidade. Mesmo se for o caso de não sabermos o porquê de massa atrair massa, isso não muda o fato que a melhor explicação é de que… massa atrai massa.

O primeiro erro da premissa já está desmascarado.

Ainda há outro erro que temos que tratar, que é a uma versão escondida da pegadinha clássica “Quem causou Deus?” [ou “Who Design the Designer?”]. Para refutá-la, só precisamos conhecer dois aspectos básicos da descrição clássica de Deus, o que demonstra extrema falta de preparo de Dawkins (ou desonestidade, o que prefiro não acreditar).

Deus é descrito, classicamente, como além da matéria e do tempo. Portanto, é imaterial (notavelmente simples) e atemporal (eterno). (Alguns acusam essa descrição de se basear em um argumento de Deus das Lacunas, o que está errado, como você pode ler aqui)

O primeiro ponto da pegadinha é sustentar que “Observamos na natureza que toda complexidade vem de um ser ainda mais complexo, portanto Deus teria que ser mais complexo que o Universo”. Mas algo complexo é definido pelo seu número de partes e frações. Deus existiria além da matéria, não sendo possível ser composto de partes ou frações. Logo, é notavelmente simples. O erro é aplicar uma regra física para um jogo metafísico, uma das fraudes intelectuais abordadas por mim aqui.

O segundo ponto da pegadinha “Deus é a causa do universo, mas Deus também precisa de uma causa.” Ora, apenas o que VEM a existir precisa de uma causa. O que já existe eternamente, não tem causa, pois não tem início. Deus existe além do tempo, logo é eterno. Sendo eterno, não precisa de causa (e esse seria o mesmo caso se o universo fosse eterno, o que parece não ser, segundo propõe o modelo Big Bang de Lemaitre).

Dawkins, até agora, não conseguiu muita coisa (além de demonstrar ignorância em pontos básicos). Adiante.

4. A explicação mais engenhosa e poderosa é evolução de Darwin através de seleção natural.

Para a Biologia, realmente é. Mas isso não invalida nem teísmo nem ateísmo. Aqui, não há muito a comentar além disso, já que só o fiz para evitar erros de interpretação.

5. Nós não temos uma explicação equivalente para a física.

Aqui, Dawkins não deixa exatamente claro do que está falando. Imagino que seja da ordem do Universo ou do Fine Tuning que permitiu a própria consistência do Universo e o surgimento da vida.

De qualquer forma, o correto seria falar “eu não tenho uma explicação” ou “eu não conheço uma explicação equivalente”. Pode ser que alguém tenha a explicação ou que ela não seja aceita por motivos ideológicos. Seguimos.

6. Nós não deveríamos renunciar a esperança de uma explicação melhor que surja na física, algo tão poderoso quanto o Darwinismo é para biologia.

Hahaha!

A última premissa é simplesmente risível.

Quer dizer que, para provar que Deus não existe, ele simplesmente vem com: “Queridos, não percamos a esperança de achar outra explicação?”. Puro wishful thinking ou falácia da esperança.

O que Dawkins tentou fazer foi uma falácia do Declive Escorregadio ou Ampliação Indevida, tentando puxar o fato de termos uma explicação que ele possivelmente goste para Biologia implicaria em termos uma explicação que ele também possivelmente goste para Física no futuro.

Isso serve mais como técnica de lavagem cerebral do que como argumento respeitável.

Agora, finalmente, a conclusão:

Logo, Deus, quase com certeza, não existe.

Não é preciso ser um gênio para ver que a conclusão em NADA tem a ver com as premissas.Mesmo que todas as premissas comentadas acima fossem verdadeiras, ainda seria a conclusão NÃO seria verdadeira. Resumidamente, o argumento é esse: (1) Precisamos explicar a complexidade do universo (2) Não podemos perder as esperanças de achar uma alternativa melhor que Deus (3) Logo, Deus não existe.

O que há de se dizer disso? No mínimo, que é um argumento pífio.

Ora, mesmo que fosse um raciocínio correto, provar que um argumento pró-X está errado NÃO é provar que o inverso é verdadeiro. No caso Galileu, por exemplo, sua prova do modelo heliocêntrico era o fenômeno das marés… o que estava errado! (Galileu, Annibale Fantoli, pág. 229) A refutação de um argumento falso para uma hipótese X não faz todo o caminho de volta provando que X está errado. Dawkins, como cientista, deveria saber disso.

O que o argumento diz, se fosse correto (e não é), é que não devemos dizer que Deus existe pelo argumento do Design. Mas ainda assim teriamos outros argumentos a favor da hipótese. Mesmo não havendo nenhum, também existe o postulado “Ausência de Evidência não é Evidência de Ausência”, que é correto.

Enfim, um desastre. Dawkins, como filósofo, está mais para adepto de técnicas de PNL. Argumentos como os seus, mesmo sendo ilógicos, ainda capturam algumas pessoas. Está na hora de desmascará-los.

(*) agradecimos Vinícius Pinheiro, do blog Apologética e Filosofia, por ajudar no conteúdo do post.

***

Você poderá gostar também de:



http://www.apologia.com.br/?p=53
http://lucianoayan.wordpress.com/2010/01/13/deus-um-delirio-capitulo-4-pt-6-derrubando-o-boeing-747/

Fonte:http://quebrandooencantodoneoateismo.wordpress.com/2010/08/20/o-grande-erro-de-richard-dawkins/</

A Imaculada Conceição da Virgem Maria

“Entrando, o anjo disse-lhe: Ave, cheia de graça, o Senhor é contigo” (Lc 1,28)

A Imaculada Conceição da Virgem Maria é uma Verdade, que a Igreja discerniu com o tempo, assim como o fez ao ensinar que Cristo possui duas naturezas (a humana e a divina). Neste opúsculo, na medida que o Senhor nos permitir, procuraremos expor esta doutrina mostrando sua perfeita comunhão com as Sagradas Escrituras.

A Doutrina

O credo na Imaculada Conceição da Virgem Maria consiste em que Deus no momento da conceição da Virgem (união da alma com o corpo) impediu que sua alma (criada por Deus) fosse manchada pelo corpo, que possuía o germe corrompido do pecado original. Deus fez isso pelos méritos de Cristo, a fim de preparar o tabernáculo onde Cristo entraria e chegaria ao mundo.

O Testemunho de São Lucas

Uma das provas da imaculada conceição da Virgem Maria está na saudação do Anjo Gabriel. São Lucas, ao registrar que a Maria é ?cheia de graça? utilizada a palavra grega ?charitoo?, que é utilizada na Sagrada Escritura para designar a Graça no sentido pleno ou em toda sua plenitude.

Por esta razão, São Jerônimo, o maior especialista cristão nas línguas sagradas, no séc. IV ao traduzir as Escrituras para o latim (versão conhecida como Vulgata), traduziu a expressão grega como “gratia plena“, que em português seria ?graça plena?.

Que plenitude da Graça era essa que Maria alcançou? Era a Graça original, a Graça perdida no tempo em a nossa natureza humana não estava sujeita ao pecado, mas caiu nele por livre escolha.

Deus ao preservar a Virgem da transmissão do pecado original, a transforma em uma Nova Eva, Mãe da Igreja e dos Cristãos.

A Necessidade da Imaculada Conceição

O pecado é a ofensa a Deus, ele O entristece, desta forma, a Segunda Pessoa da Trindade não poderia ser concebido em um ventre sujeito ao pecado. Ora, quando recebemos alguém em nossa casa procuramos deixar a casa em ordem, limpa, para que nossos convidados se sintam bem, se sintam acolhidos. Devemos entender a imaculada conceição da Virgem, como esta arrumação, providenciada pelo próprio Deus, pelos méritos de Cristo, para que Ele pudesse se encarnar.

Uma figura da Imaculada Conceição está no livro de Josué, onde lemos:

Eis que a arca da aliança do Senhor de toda a terra vai atravessar diante de vós o Jordão. Tomai doze homens, um de cada tribo de Israel. Logo que os sacerdotes que levam a arca de Javé, o Senhor de toda a terra, tiverem tocado com a planta dos seus pés as águas do Jordão, estas serão cortadas, e as águas que vêm de cima pararão, amontoando-se. O povo dobrou suas tendas e dispôs-se a passar o Jordão, tendo diante de si os sacerdotes que marchavam na frente do povo levando a arca. No momento em que os portadores da arca chegaram ao rio e os sacerdotes mergulharam os seus pés na beira do rio – o Jordão estava transbordante e inundava suas margens durante todo o tempo da ceifa -,as águas que vinham de cima detiveram-se e amontoaram-se em uma grande extensão, até perto de Adom, localidade situada nas proximidades de Sartã; e as águas que desciam para o mar da planície, o mar Salgado, foram completamente separadas. O povo atravessou defronte de Jericó” (Js 3,11-16) (grifos meus).

Da mesma forma como nos tempos de Josué, o Senhor impediu que as águas do Jordão tocassem a Arca da Aliança, o Senhor também impediu que as torrentes do pecado original tocassem a alma da Virgem no momento de sua conceição, com o fim único de preparar o tabernáculo pelo qual Cristo viria.

Por isso o escritor sagrado deixou registrado: “Porém, já veio Cristo, Sumo Sacerdote dos bens vindouros. E através de um tabernáculo mais excelente e mais perfeito, não construído por mãos humanas (isto é, não deste mundo)” (Hb 9,11) (grifos meus).

Se a Virgem não foi preparada para ser a Mãe do Salvador, ela de forma alguma seria “um tabernáculo mais excelente e mais perfeito “.

Respondendo às objeções

1 – A Bíblia afirma que todos pecaram

Alguns apresentam como principal objeção à Imaculada Conceição, as seguintes palavras de São Paulo: “com efeito, todos pecaram e todos estão privados da glória de Deus” (Rm 3,23).

Essa é uma lei geral, mas sabemos que existem exceções a leis gerais. Por exemplo, também está escrito: “Como está determinado que os homens morram uma só vez, e logo em seguida vem o juízo” (Hb 9,27).

No entanto o morto que Elizeu ressuscitou, Lázaro, a filha do Centurião, e tantos outros exemplos de pessoas que foram ressuscitadas, morreram duas vezes.

Devemos nos lembrar que São Paulo escreveu em grego. Onde lemos “todos” ele utilizou a palavra  “pas” que também possui sentido mais geral. Esta palavra designa cada indivíduo de um gênero ou grupo se precedida do mesmo, caso contrário ela tem sentido coletivo de forma geral.

Por exemplo, em Mt 1,17 lemos: “Portanto, [todas] as gerações, desde Abraão até Davi, são quatorze. Desde Davi até o cativeiro de Babilônia, quatorze gerações. E, depois do cativeiro até Cristo, quatorze gerações” (Mt 1,17).

No português, a palavra “todas” (que coloquei entre colchetes) não aparece, mas ela está presente no original grego, onde o versículo começa da seguinte forma: “oun pas genea“. A expressão “pas genea” significa “todas as gerações”. Assim o escritor sagrado quer deixar bem claro que de Abraão até Davi, TODAS as gerações sem exceção foram quatorze.

Sua fama espalhou-se por toda a Síria: traziam-lhe [todos] os doentes e os enfermos, os possessos, os lunáticos, os paralíticos. E ele curava a todos” (Mt 4,24).

Assim como no exemplo anterior, a palavra “todos” que não aparece no português, está presente no original grego. A expressão “todos os doentes” foi escrita em grego como “pas kakos echo“. Aqui também o escritor sagrado quer deixar bem claro que Jesus curou TODOS os doentes que lhe trouxeram, sem exceção.

Já que demonstramos o uso de “pas” na totalidade, vamos demonstrar o uso de forma geral.

Por exemplo, ainda em Mateus lemos: “Sereis odiados de todos por causa de meu nome, mas aquele que perseverar até o fim será salvo” (Mt 10,22). Em grego o versículo começa da seguinte forma: “kai esomai miseo hupo pas dia mou onouma“. A expressão  “hupo pas dia mou onouma” significa “por todos por causa do meu nome “.

Aqui o evangelista está se referindo a “todos” de forma geral, não a todos sem exceção, pois, nem todos os homens odiaram os cristãos por causa de Cristo.

O que queremos demonstrar é que “pas” como foi empregado por São Paulo, não tem o sentido de TODAS as pessoas sem exceção, mas significa as pessoas de forma geral. Além do mais, se quisermos dar a  “pas” um emprego que o Apóstolo não deu e que pela exegese bíblica ela não tem, cairíamos em heresia, pois deveríamos afirmar que Cristo também pecou, já que também era homem. Se “todos” são todos os homens, por conseqüência deveremos negaremos que Cristo é verdadeiro homem. Se Cristo foi exceção, por quê não poderá ter havido outras exceções? Estaria Deus limitado a operar tal milagre?

Lamento muito, mas Rm 3,23 não pode ser usado para negar a Imaculada Conceição da Virgem Maria.

2 – Maria não pode ser imaculada, pois afirma que Deus é seu Salvador

Outra tentativa para negar a Imaculada Conceição da Virgem, são as palavras dela mesma conforme o testemunho de São Lucas: “E Maria disse: Minha alma glorifica ao Senhor, meu espírito exulta de alegria em Deus, meu Salvador” (Lc 1,46-47).

Sinceramente, eu não vejo como a Graça de Deus operada na Virgem possa negar que este mesmo Deus seja seu o Salvador. Seria o mesmo que dizer que Deus não é o salvador de Elias, por tê-lo arrebatado em vida.

Um bombeiro que tira alguém soterrado em um buraco ou que impede que alguém caia e seja soterrado em um buraco, por acaso não foi o salvador de ambas as vidas?

Muitos cristãos crêem que Moisés não morreu de fato, devido ao mistério que a Escritura coloca sobre sua morte. Se Deus realmente ressuscitou Moisés, por acaso deixou Ele de ser seu Salvador?

São Paulo no ensina que “Se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, e também é vã a vossa fé” (1 Cor 15,14) e ainda “E se Cristo não ressuscitou, é inútil a vossa fé, e ainda estais em vossos pecados” (1 Cor 15,17).

Isso mostra que Jesus se tornou nosso Salvador após Sua morte e ressurreição. Então, como Deus poderia ter sido o Salvador da Virgem no momento da anunciação? A resposta é simples: da mesma forma como foi o Salvador de Elias e Moisés, isto é, através de uma operação extra-ordinária da Sua Graça. Desta forma, as palavras da Virgem Maria não negam o milagre nela operado, ao contrário, só o confirmam, pois ela declara que Deus é o seu Salvador, mesmo antes do mesmo ter nascido, morrido e ressuscitado.

3 – Jesus não necessitaria que Sua Mãe fosse imaculada, pois poderia operar na Sua própria conceição o milagre que os católicos crêem que foi operado na Virgem.

Primeiramente, com exceção dos Adventistas, todos os cristãos concordam que Jesus era imaculado. E isto está mesmo presente no ensinamento Paulino, onde lemos:

Porque vós sabeis que não é por bens perecíveis, como a prata e o ouro, que tendes sido resgatados da vossa vã maneira de viver, recebida por tradição de vossos pais, mas pelo precioso sangue de Cristo, o Cordeiro imaculado e sem defeito algum, aquele que foi predestinado antes da criação do mundo e que nos últimos tempos foi manifestado por amor de vós” (1 Pd 18-20) (grifos meus).

Uma coisa é ter pecado em Adão e outra coisa é pecar pessoalmente. Pecar em Adão é nascer com a mancha do pecado original. Pecar pessoalmente é cometer algum pecado.

São Paulo quando afirma que Jesus era imaculado, testifica que Ele em sua natureza humana não possuía a mácula do pecado original, por isso chama o Senhor de “o Cordeiro imaculado“. E para confirmar que Jesus não possuía o “defeito de fabricação” que a natureza humana herdou de Adão, complementando “e sem defeito algum“. Então São Paulo nos ensina que Jesus é “o Cordeiro imaculado e sem defeito algum” do pecado de Adão.

É verdade que o mesmo milagre que nós católicos cremos que Jesus operou em Sua Mãe, ele poderia ter operado na sua própria conceição. Mas como já expomos, e queremos lembrar, o pecado é a ofensa a Ele, por isso ele JAMAIS poderia ser concebido num ventre sujeito ao pecado.

Também devemos lembrar que o “precioso sangue de Cristo” é o mesmo sangue de Maria. Os cromossomos do Senhor são 100% marianos.

Por isto, Salomão inspirado pelo Espírito Santo profetizou sobre a encarnação do Verbo: “A Sabedoria não entrará na alma perversa, nem habitará no corpo sujeito ao pecado” (Sb 1,4). E por esta mesma razão o autor de Hebreus, chama o ventre de Maria de “um tabernáculo mais excelente e mais perfeito, não construído por mãos humanas (isto é, não deste mundo)” (cf. Hb 9,11).

Fonte:http://www.veritatis.com.br/apologetica/maria-santissima/611-a-imaculada-conceicao-da-virgem-maria

A veneração dos santos através de uma perspectiva bíblica

Começamos em Hebreus 11, versiculo 1: “A fé é uma posse antecipada do que se espera, um meio de demonstrar as realidades que não se vêem. Foi por ela que os antigos deram o seu testemunho. Foi pela fé que compreendemos que os mundos foram organizados por uma palavra de Deus. Por isso é que o mundo visível não tem a sua origem em coisas manifestas.”

Aí São Paulo começa a citar um por um dos grandes santos da família de Deus do Antigo Testamento começando com o primeiro mártir, Abel, que tinha oferecido um sacrifício aceito por Deus. E depois Henoc e Noé e Abraão, Isac, Jacó e Sara. Depois continua a falar de Abraão, Isac e Jacó, e todo o sofrimento que eles passaram por que a esperança deles não estava na Jerusalém terrena, mas na Jerusalém celeste; não na terra prometida terrena, mas na celeste.

Então no versículo 23 ele fala sobre Moises e tudo o que ele renunciou para ganhar esta herança gloriosa no céu; e da mesma forma, Israel. E depois Raab, a prostituta de Jericó: até mesmo a fé dela é exaltada. Depois Gedeão, Barac, Sansão, Jefté, Davi, Samuel e os profetas que pela fé conquistaram reinos, receberam promessas, deteram as bocas de leões e acabaram com fogueiras devastadoras, escaparam da espada, tiraram fortaleza da fraqueza, tornaram-se poderosos na guerra, fizeram os exércitos inimigos fugir. Todos os grandes feitos são relembrados não só para passar pela história mas principalmente, como você verá, para inspirar uma fé, esperança e amor maiores em nós.

No versiculo 36: “Outros ainda sofreram a provação dos escárnios, experimentaram o açoite, as correntes e as prisões. Foram lapidados, foram serrados e morreram assassinados com golpes de espada. Levaram vida errante, vestidos com peles de carneiro ou pêlos de cabras; oprimidos e maltratados, sofreram privações. Eles, de quem o mundo não era digno, erravam pelos desertos e pelas montanhas, pelas grutas e cavernas da terra. E não obstante, todos eles, se bem que pela fé tenham recebido um bom testemunho, apesar disso não obtiveram a realização da promessa. Pois Deus previa para nós algo de melhor, para que sem nós não chegassem à plena realização.”

Assim, de certa maneira, o advento de Cristo e da economia da Nova Aliança trouxeram uma benção e glória para estes santos do Antigo Testamento maior do que a que eles receberam quando morreram. Algo novo foi inaugurado quando Cristo ressuscitou, quando ele subiu aos céus e quando subiu ao trono. Ele abriu um novo panorama, uma nova porta, a porta de entrada para o céu, para que seus irmãos viessem pra casa. Nós veremos mais adiante como foi colacado neste reino glorioso no céu tronos e neles estão sentados este grandes santos, bem como os santos da Nova Aliança. E eles são sacerdotes, eles testemunham para servir a Cristo e para rezar em nosso favor.

Mas observe que o autor de Hebreus relembra tudo isto para nos inspirar a seguir o exemplo deles. Isto vai ser uma consideração fundamental para entender a base lógica bíblica para a veneração dos santos. Exemplos heróicos inspiram virtudes heróicas. Vejamos Hebreus 12: “Portanto” (um dos mais básicos princípios interpretativos de estudos biblicos, sempre que aparecer a palavra, “portanto”, pergunte a si mesmo o que vem a seguir pois basicamente há um resumo de tudo o que foi dito anteriormente e encerra com uma conclusão prática, especialmente na carta aos Hebreus.) “Portanto, também nós, com tal nuvem de testemunhas ao nosso redor, rejeitando todo fardo e pecado que nos envolve, corramos com perseverança para o certame que nos é proposto, com os olhos fixos naquele que é o autor e realizador da fé, Jesus, que, em vez da alegria que lhe foi proposta, suportou a cruz, desprezando a vergonha, e se assentou à direita do trono de Deus. Considerai, pois, aquele que suportou tal contradição por parte dos pecadores, para não vos deixardes fatigar pelo desanimo. Vós ainda não resististes até o sangue em vosso combate contra o pecado. Vós esquecestes a exortação que vos foi dirigida como a filhos?”

E ele continua a falar sobre a disciplina de Nosso Senhor e a castidade e sofrimento que é próprio aos filhos de Deus para amadurecer e crescer. Então no versículo 12: “Por isso, reerguei as mãos enfraquecidas e os joelhos tropegos; endireitai os caminhos para os vossos pés, a fim de que não se extravie o que é manco, mas antes seja curado.”

Todo o quadro em Hebreus 12 é uma grande corrida e quem está na multidão? Todos os santos. E o que eles compõem? Versiculo 1, “uma nuvem de testemunhas”. O que se quer dizer com nuvem? Bem, se você fizer um pouquinho de estudo de fundo biblico, esta nuvem é a mesma nuvem que se pode rastrear de volta ao Antigo Testamento. É a a nuvem de glória em que Moisés subiu no Monte Sinai. É a mesma nuvem que cobriu Jesus quando ele ascendeu aos céus diante dos olhos dos discípulos. Esta nuvem de uma certa forma é uma manifestação portátil daquilo que é como estar “movido pelo Espírito” como João no livro do Apocalipse: “No dia do Senhor fui movido pelo Espírito”, e esta nuvem de glória agora está repleta de nossos irmãos e irmãs mais velhos. E eles constituem uma nuvem de testemunhas, não é apenas uma nuvem que vai e vem conforme sopra o vento. É uma nuvem que é uma multidão com o objetivo de nos animar.

Quando o time1 joga em casa, as chances são maiores dele ganhar o jogo. Por quê? Porque os seus torcedores estão lá. Você pode dizer que é porque eles conhecem melhor o campo. Pode ser. Mas existe sempre um limite psicológico incrível especialmente em jogos de campeonato.

Sempre se tem uma chance a mais quando se joga em casa. E aqui nós jogamos em casa e tem uma enorme nuvem de testemunhas, todos os nossos familiares mais velhos estão torcendo por nós, nos animando. Você pode ver nas mãos e nos pés destas pessoas que levantam as mãos, que nos animam e nos olham, feridas e cicatrizes, em seus rostos e em suas costas. Você sabe que eles participaram do jogo e estão nos chamando para fazer o mesmo.

E o maior e mais barulhento animador de todos é o próprio Jesus, o pioneiro e o aperfeiçoador de nossa fé, o primogênito entre muitos irmãos e irmãs, conforme nos conta Romanos 8. Todo um estádio está repleto com nossa família. E inspira ardor e coragem, vigor e sacrificio. E sabe o que mais? O autor de Hebreus jamais considera por um segundo sequer argumentar isto. Ele crê e ele pensa que devemos crer também, mas que devemos meditar a respeito e nos inspirarmos.

Agora se os santos não sabem o que nós estamos fazendo, e nós não temos idéia do que eles estão fazendo, ou seja, se não temos nenhum contato, nenhuma comunicação, este tipo de descrição é apenas uma metáfora simplesmente fraca e estranha. Mas não é este o caso. Esta é a realidade espiritual compreendida com os olhos da fé, os olhos que estão abertos para as verdades espirituais desta grande declaração do Credo: “Creio na comunhão dos Santos”.

Agora não é só porque todos nós acreditamos na mesma coisa que temos este sentimento bom e real mas sobrenatural de que todos estamos unidos por este laço de confissão doutrinária e culto litúrgico. É muito mais do que isso. É mais do que somente ser um companheirismo de pessoas que pensam da mesma forma. Nós dizemos, “Eu creio no Espirito Santo”, e é por isso que cremos na santa Igreja Católica, porque sem o Espirito Santo, nós só seríamos mais uma organização humana. Mas o Espirito Santo – ensina a Igreja – é a alma da Igreja. O Corpo Mistico de Cristo é animado e obtém vida sobrenatural do Espírito Santo. Assim dizemos, “Eu creio no Espirito Santo, na santa Igreja Católica – e o quê mais? – na comunhão dos Santos”.

Agora como é que se pode ter comunhão com pessoas com as quais não se tem nenhuma comunicação? Como se pode possivelmente estar em comunhão com pessoas com as quais não partilhamos nada em comum juntos em termos de experiência diária? Eu não estou dizenho que Nosso Senhor nos tenha dito para termos conversações diárias. Certo, algumas pessoas são dotadas de revelações místicas. Mas sempre que alguém disser: “Bem, você está se comunicando com os mortos e isto é pecado julgado pelo Antigo e pelo Novo Testamento porque isto é divinização, isto é feitiçaria ou sei lá o quê”, você responde: “Eles não estão mortos. Eles estão mais vivos do que nós. Benditos aqueles que morreram no Senhor”. Por quê? Porque suas obras os acompanham ao céu. Os santos do Antigo Testamento tiveram que esperar pelo Messias, mas esta espera já passou. Aqueles santos martirizados estão com Nosso Senhor e com uma multidão, e eles torcem por nós. Nós não precisamos só olhar com fé, mas ouvir com fé.

A veneração dos santos não transgride a situação de Cristo nosso único mediador

Quero dizer mais uma coisa antes de continuar: eu quero que vocês saibam que os santos não são uma rota alternativa para se chegar até Deus. Se você pensa que sim, então pare de rezar para os santos até que você tenha sua vida espiritual reajustada de volta ao curso normal, porque você não é um bom católico. O fato é que existe um único mediador entre Deus e o homem, que é o homem Jesus Cristo. Paulo não poderia ter deixado isto mais claro em Timoteo. Ele diz: “Há um só mediador entre Deus e os homens, um homem, Cristo Jesus”.

Vejamos o que diz Timoteo. 1 Tim 2, 5: “Há um só Deus, e um só mediador entre Deus e os homens, um homem, Cristo Jesus, que se deu em resgate por todos”. Agora que conclusões podemos tirar disto? Podemos concluir falsamente que porque nós temos um mediador, logo estamos enfraquecendo o trabalho de Cristo ao pedirmos para os santos intercederem a nosso favor? Não, claro que não. Esqueça o fato de que os santos são cristãos que estão no céu, nós temos ciência do fato de que os cristãos da terra são constantemente chamados de santos no Novo Testamento. Isto é o que nós somos. Isto é o que nós devemos nos tornar, e se continuarmos em frente e nos mantermos firmes na fé, isto é o que seremos por toda eternidade. Mas somos santos se estivermos em Cristo.

Agora, católicos ou não, se alguém vos pedir para rezar por eles, para interceder por eles à Deus, vocês sairão por aí dizendo: “Como se atreve a debilitar a única mediação de Jesus Cristo, o único Sumo Sacerdote?”. Claro que não. Por quê? Porque o que diz Paulo nos primeiros quatro versiculos anteriores a 1Tim 2, 5?: “Eu recomendo, pois antes de tudo, que se façam pedidos, orações, súplicas e ações de graças, por todos os homens”. Só através de Jesus? Claro que não. Por nós, “pelos reis e todos os que detêm a autoridade, a fim de que levemos uma vida calma e serena, com toda piedade e dignidade. Eis o que é bom e aceitável diante de Deus, nosso Salvador, que quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade. Pois há um só Deus, e um só mediador entre Deus e os homens”.

Eu costumava citar este texto fora do contexto e usava-o para minar a veneração devida aos santos que está enraizada em duas coisas: pedir-lhes por intercessão e súplica, e ser inspirado a seguir o exemplo deles. Nós podemos adicionar uma terceira que é, honrá-los. Nós os glorificamos quando nós os veneramos. E por quê? Porque nós ficamos entediados após dez ou quinze horas honrando a Cristo? Não. É precisamente porque nós honramos a Cristo. É precisamente porque nós imitamos Cristo. Nós imitamos Cristo, então se O vemos honrando aqueles que morreram pela verdade, aqueles que professaram a fé com muito sofrimento, nós fazemos aquilo que Cristo faz e glorificamos aqueles que Ele glorifica. Aqueles que Ele bendiz, nós bendizemos.

É bem simples. Só quando inconscientemente reduzimos a fé cristã a um relacionamento individualista – Jesus e eu – é que começa a se tornar uma coisa tipicamente americana auto-centrada. Quero dizer, encaremos: a familia americana não é um grande exemplo de laços fortes de comunicação atualmente. E tem sido assim por séculos. Você sabia que Daniel Boone era um dos piores pais? … Grandes heróis americanos, fortes individualistas, não eram grandes homens de família. Você devia ouvir o que a mulher de John Adams tem a dizer – uma feminista radical… Ela não estava mais preocupada com o matrimônio, com a família, o lar e a América. Ela estava preocupada com os direitos do indivíduo que ela pudesse exercer e que outros pudessem exercer e, caso contrário, que eles pudessem conseguir a força. Este é o jeito americano.

Como se costumava dizer no século 18: “Não servimos a nenhum governante”; nenhum rei, e reis eram sempre figuras paternas. Eu não estou argumentando a favor de monarquia política e política natural porque o pecado humano é o que é. Mas nós temos uma monarquia sobrenatural, um reino celeste, uma figura paterna distante do pecado que concede sua vida e graça pura aos nossos irmãos e irmãs mais velhos, seus filhos. E este reino é o Reino do Céu. E isto nos inspira de uma forma muito maior a servir a nosso Soberano e a servir ao seu gabinete de ministros e príncipes e princesas que ele nos outorga.

Você percebe como é difícil para os americanos pensar e agir deste modo?2 Quando tudo em nossa cultura segue na direção contrária? A quem nos curvamos em nossa sociedade? Ninguém. E mesmo quando dizemos: “Your Honor” (=Vossa Excelência) para um juiz ou “Your Excellency” (=Vossa Eminência) para um arcebispo, parece uma coisa não natural, nos arrepiamos, não arrepiamos? Não é americano. “Quem você pensa que é?”

Mas o fato é que numa família, não é a pessoa tanto quanto o ofício que nós veneramos e honramos. E é isto que fazemos quando nós veneramos os santos. Nós estamos imitando Cristo que os honra. Por nossa vez, nós queremos imitar os santos no serviço à Cristo.

“We Are Family” (=Somos uma família) – constumava cantar o grupo Sister Sledge muitos anos atrás (final dos anos 70). Nós somos a família de Deus. Nenhum pai vai se sentir traído ou ignorado ou rejeitado quando os irmãos e irmãs se amam e inspiram uns aos outros no sacrifício e serviço corajoso pelo nome da família. É até mesmo bobo quando se coloca desta forma, mas que outros termos bastariam para o que a Santíssima Trintada, a Família Divina, têem feito por toda a história? É a única forma que faz sentido. É a única forma que engloba toda a Biblia. É a única razão pela qual Paulo em 1Tim 2, 5 considera um mediador e ainda diz o que diz em 1Tim 2, 1-4: “Pois, porque há um só mediador, nós podemos fazer orações, súplicas e pedidos com uma confiança maior, por todos os homens”, até mesmo para os reis, para os ricos e prósperos, e para os corruptos. Por quê? Porque só há um mediador, o Homem-Deus, Jesus Cristo.

Poderíamos enlouquecer fazendo orações como jamais tínhamos feito antes. Por quê? Porque só há um mediador. Será que isto significa que não haja outros intercessores, outros a quem fazer súplicas? Não! Claro que não. Só há um mediador e porque nosso mediador é o mais fabuloso que nós podemos imaginar, nós temos agora a capacidade de interceder como sacerdotes no Sacerdote, como filhos no Filho, como pastores no único Pastor. Nós obtemos vida Dele. “Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim. Longe de Cristo nada posso fazer”. Mas comigo, diz Jesus, você pode tudo. “Para Deus tudo é possivel”.

Apoio bíblico para o fato de que Deus ouve os clamores dos santos

Precisamos ajustar nosso pensamento. Isto não é novo. Desde o Genesis, existe um tipo de alusão misteriosa ao fato de que Deus está em contato com as necessidades dos mártires. Em Gen 4, 10, Deus diz a Caim: “Ouço o sangue de seu irmão, do solo, clamar para mim!” Agora, você acha que se você saisse no campo e encontrasse o lugar onde todo aquele sangue foi derramado, colocasse seus ouvidos no chão, você ouviria uma voz? Não, eu acho que não. Não, isso é um dispositivo literário. O sangue de Abel é a alma de Abel que tinha acabado de morrer. Ela não estaria clamando por coisa alguma a não ser que Abel tenha sido justificado por Deus de alguma maneira. De alguma maneira que nós desconhemos, pode ser o seio de Abraão, como nós vemos em Lucas 16, 23.

Deus ouve, a qualquer preço, o clamor daqueles santos martirizados desde o princípio. O sangue é a vida, a vida é a alma e a alma clama por vingança e Deus responde. É por isso que Hebreus 12, 24 refere-se a isto comparando o sangue de Abel clamando por vingança ao sangue jorrado de Jesus que fala mais eloquentemente do que o de Abel. Agora, falaria o sangue de Jesus conosco? Bem, de certa forma, não. Não é o sangue, mas a vida da alma representada pelo sangue que está falando “misericordia, misericordia, misericordia” em nosso favor. Não vingança, mas perdão, porque Cristo não foi morto por um irmão no meio do campo contra a sua vontade. Cristo entregou Sua própria vida como resgate de todos. Assim, o Seu sangue fala da mesma forma que o sangue de Abel, mas ele fala de uma maneira maior e mais eloqüente.

Agora eu gostaria de sugerir que o tipo de pregação que encontramos em Lucas 16 não teria vindo dos lábios de Jesus se este ponto de vista não fosse comum. Vejamos Lucas 16, 19-31. Ali, é claro, nós encontramos a famosa estória de Lázaro e o homem rico. Ela nos diz que Lázaro era bastante pobre, e que os cães lambiam suas feridas quando ele se sentava na porta do rico; ao morrer foi carregado ao seio de Abraão. O outro homem, o rico, foi carregado em meio a tormentos, à mansão dos mortos. Ele exclamou: “Pai Abraão, tem piedade de mim”. Isto não é exatamente o clamor da alma desprezível, condenável, endemoniada cuja maldade e pecado são só aperfeiçoados. “Tem piedade de mim, Pai”: ele sabe que pertence àquele lugar, mas agora ele não pede por justiça, mas por misericórdia. Ele não está dizendo: “Me tira daqui, este não é o meu lugar. Me tira daqui. Eu tenho que voltar. Eu mereço uma segunda chance”.

Ele diz: “Manda que Lázaro molhe a ponta do dedo para me refrescar a língua, pois sou torturado nesta chama”. É por isso que eu sugiro que isto pode muito bem se referir, não ao fogo do inferno e ao tormento eterno, mas ao fogo do purgatório da alma que por negligência das obras corporais de misericórdia termina no curso de verão por um longo tempo3. Ele exclama: “Pai Abraão, tem piedade de mim”. E Abraão responde: “Filho”; ele não diz: “seu condenado maldito”, “filho de Satanás”, “verme desprezível”, “sua víbora”. Não, “Filho”, é o que Abraão responde. “Lembra-te de que recebestes teus bens durante tua vida”. E o homem não diz: “O que você quer dizer com, ‘lembra-te’?”. Quando a alma morre, ela não se lembra de nada. Ela não se lembra de ninguém. Mas ele se lembra do que Abraão estava falando; ele se lembra.

E continuando no versículo 27: “Pai, eu te suplico, envia então Lázaro até à casa de meu pai”. Ele se lembra da casa de seu pai! “… pois tenho cinco irmãos”. Ele não somente se lembra que tem cinco irmãos; ele está bastante preocupado com eles. Ele está intercedendo em favor dos cinco irmãos, “para que (Lázaro) leve a eles seu testemunho, para que não venham eles também para este lugar de tormento”. Ele não diz: “Abraão, você pode dar uma amostra aos meus irmãos do meu destino torturante aqui nas chamas?” Ele diz: “Você ressuscitará Lázaro. Você o mandará de volta dos mortos?” Que pequeno favor a se pedir da parte de Lázaro! Certamente seria uma justificação para o pobre homem, não seria?

Mas Abraão diz: “Eles têm Moisés e os Profetas; que os ouçam”. E ele responde: “Não, pai Abraão, mas se alguém dentre os mortos for procurá-los, eles se arrependerão”. E Abraão responde: “Se não escutam nem a Moisés nem aos Profetas, mesmo que alguém ressuscite dos mortos, não se convencerão”. Fim da estória. Agora, você pode dizer: “Então, eles podem fazer orações no purgatório, mas elas não são atendidas”. Mas observe uma coisa. Jesus ressuscitou um homem chamado Lázaro depois de quatro dias. Esta pode ser uma parábola, mas Jesus não disse “Deixe-me contar-lhes uma parábola”. Não existe nenhuma evidência de que seja uma parábola. Você pode não querer acreditar, mas em nenhum lugar, em nenhuma parábola de Jesus ele dá nome aos personagens.

Aqui Ele dá nome ao homem e Ele dá a ele o nome de um de Seus melhores amigos, Seu único amigo que ele ressuscitou dos mortos. Um homem que estava doente – que coincidência! Talvez sim, talvez não. Mas eu gostaria de sugerir que, se um homem em tormento pode se comunicar de acordo com suas próprias necessidades, quanto pode Lázaro ajudar? Em outras palavras, aqui nós temos uma situação onde o homem pode comunicar-se e interceder por aqueles que ele quer ajudar.

Agora, se um homem nas chamas pode fazer isso, o quanto podemos presumir que Lázaro tem uma lembrança clara de sua amada família na terra e que ele provavelmente tem uma percepção clara das suas necessidades? E com um amor perfeito, ele teria uma capacidade maior de interceder por estas necessidades. Talvez você negue isto, mas que passagem da Escritura você mostra para negar isto? Eu não consegui encontrar nenhuma quando eu pensava assim também.

Os católicos precisam ter uma percepção balanceada sobre o que significa a veneração dos santos

Continuando… Antes de olhar em algumas passagens, deixe-me perguntar, e pense a respeito disto quando você estiver conversando com não-católicos: porque eu devo confessar e me desculpar por todas as vezes que meus irmãos e irmãs não-católicos, apesar de separados, mas irmãos e irmãs pelo batismo, eu tenho que me desculpar porque eles ficam sabendo de muitos católicos que fazem coisas estranhas, como um ex-católico cuja mãe tem uma imagem de Maria em tamanho natural que ela veste e desveste todo dia. Ela não tem nenhuma vida de oração. Ela nunca lê a Bíblia, mas ela constantemente veste e desveste sua imagem.

Agora, eu não vou fazer nenhum julgamento final sobre este comportamento, mas vou dizer que se isto é tudo o que você tem, está desforme. E com frequência católicos não só não tem uma percepção equilibrada do que é a veneração dos santos com relação a Cristo como eles têem pouca capacidade de articular o que eles realmente estão fazendo caso tenham um percepção equilibrada. Por que eles de fato fazem isto?

Diga a um não-católico: “Você tem família? Você os ama? Você carrega as fotos deles na sua carteira? Estas imagens são ídolos?”“Bem,” – eles podem dizer – “eles não são estátuas. Eles não são pinturas. Eu não as beijo”. Bom, mas, fotografia é uma tecnologia moderna que faz com seja mais fácil e móvel, você sabe, de tal maneira que se pode ter na carteira as imagens de uma família; mas o meu ponto é que ninguém cultua a foto. Explique desta maneira. Você não adora a foto. Você nem mesmo a glorifica. Percebe? Nós não glorificamos estátuas. Nós não veneramos pinturas ou ícones. Nós glorificamos e veneramos as pessoas reais que estão representadas pelas estátuas, pinturas e ícones.

Bem, mas eles estão mortos! Não, eles estão mortos em Cristo e portanto estão vivos e são benditos. Apocalipse 14 nos conta que eles são benditos se eles morrem em Cristo. Jesus prometeu a Pedro as chaves do Reino que tem poder sobre os portões do Inferno. Assim, a Igreja pode exercer esta jurisdição não somente em liberando as almas pelos méritos que Cristo derrama em seu Corpo Místico mas também reconhecendo e pronunciando oficialmente o fato de que estas almas morreram em Cristo e que podem ser veneradas, e que elas são beatificadas porque são abençoadas por Cristo.

Católicos não adoram estátuas e pinturas e ícones. A estátua é somente um pedaço de gesso ou mármore, se for realmente boa. Elas são apenas dispositivos artísticos, úteis para nos relembrar da pessoa, o acontecimento, a ocasião representada; para nos conectar em comunhão, para nos inspirar pelo seus exemplos. Assim sendo, a Escritura ensina que não há comunhão entre os santos que estão em Cristo no céu e os santos que estão em Cristo aqui na terra? Ou melhor, a doce comunhão mística que nós temos com aqueles que descansam é uma comunhão real? Claro que é. A Escritura ensina que depois da morte os santos perdem toda a memória da vida terrena, das relações e necessidades terrenas, ensina que eles perdem o interesse e a preocupação? Que eles estão tão em êxtase e focalizados em Cristo que eles nem mesmo se enxergam? A Escritura não ensina isso. A Escritura não ensina que eles perdem toda a capacidade de fazer orações, de interceder e de suplicar por nós.

Arqueólogos têm evidências sobre a Veneração dos Santos no Primeiro Século

A Escritura nos mostra que os santos se recordam de suas vidas aqui na terra e fazem orações por aqueles com os quais eles viveram? Os santos nos cercam como membros de uma família numa multidão como vimos em Hebreus 12. Eu vou apenas mencionar o fato de que inscrições nas catacumbas do primeiro século encontradas por arqueólogos neste século, que datam desde o tempo da segunda e terceira geração depois de Cristo e dos apóstolos, dão um testemunho claro deste costume antigo de venerar e pedir a intercessão dos santos. Uma inscrição diz “Pedro e Paulo, rogai por Victor”. Uma outra: “Pedro e Paulo, lembrai-vos de Zozamon”. Existem várias outras iguais a estas. Elas não são estranhas. Elas não são esquisitas. Elas são típicas.

A Escritura mostra que os Santos se lembram de suas vidas na terra e fazem orações por aqueles com os quais eles viveram

Observe no livro do Apocalipse que existem três classes de santos que são destacados como tendo um papel especial no rito celestial. Primeiro de todos, os mártires com vestes brancas. Segundo, as virgens e terceiro, os confessores. Por exemplo, em Apocalipse 6, 11, começando no versículo 9: “Quando abriu o quinto selo, vi sob o altar as vidas dos que tinham sido imolados por causa da Palavra de Deus e do testemunho que dela tinham prestado. E eles clamaram em alta voz: ‘Até quando, ó Senhor santo e verdadeiro, tardarás a fazer justiça, vingando nosso sangue contra os habitantes da terra?'”. Eles estão pedindo por justiça. Eles têm comunhão com Deus. Eles estão defendendo a causa do Corpo Místico de Cristo.

“A cada um deles foi dada, então, uma veste branca e foi-lhes dito, também, que repousassem por mais um pouco de tempo, até que se completasse o número dos seus companheiros e irmãos, que iriam ser mortos como eles”. Em outras palavras, foi lhes dito sobre o que estava acontecendo, na terra. Não só sobre o que estava acontecendo naquele momento, mas o que iria acontecer no futuro. Isto é, vocês serão justificados em pouco tempo mas mais martírios precisam primeiro acontecer. Pelo menos eles tem algum tipo de consciência geral de que existe um pequeno período de tempo no qual mais mártires serão reunidos e então no fim desde pequeno período de tempo, a justificação virá. Eles têm conhecimento. Eles têm preocupação. Eles têm a capacidade de interceder e eles também têm um conhecimento maior do que o povo na terra e este conhecimento vem de Deus. Por quê? Porque eles são benditos. Apocalipse 22, 14 nos conta isso.

No final do Apocalipse esta beatitude é pronunciado sobre eles: “Felizes os que lavam suas vestes”. O que quer dizer “lavam suas vestes”? Em outras palavras, eles tiveram tempo para ir até a lavanderia antes que Deus os chamasse? Claro que não. “Felizes os que lavam suas vestes”, se refere a Apocalipse 7, 13. Eu sei que eu estou fazendo vocês folhearem a Bíblia pra frente e pra trás. Mas os cristãos não-católicos realmente conhecem a Bíblia deles. Nós temos que aprender a nossa.

Apocalipse 7, 13: “Um dos Anciãos tomou a palavra e disse-me: ‘Estes que estão trajados com vestes brancas, quem são e de onde vieram?’ Eu lhe respondi: ‘Meu Senhor, és tu quem o sabe!’ Ele, então, me explicou: ‘Estes são os que vêm da grande tribulação: lavaram suas vestes e alvejaram-nas no sangue do Cordeiro. É por isso que estão diante do trono de Deus, servindo-o dia e noite em seu templo”. Por isso, nós sabemos que existe um serviço litúrgico no templo celestial. O nosso é apenas uma reflexão pálida que mal se compara com o serviço litúrgico que acontece lá e este pessoal todo serve dia e noite no templo celestial.

Mas eles não têm permissão para fazer orações por nós, certo? Dá um tempo! Deus vai ficar zangado? Vai ficar ofendido? Claro que eles fazem orações por nós! Como é que eles servem? Veja no capítulo 8, 3: “Outro Anjo veio postar-se junto ao altar, com um turíbulo de ouro. Deram-lhe uma grande quantidade de incenso para que o oferecesse com as orações de todos os santos, sobre o altar de outro que está diante do trono”.

Os santos de quem se fala aqui devem ser interpretados contextualmente como sendo os santos que foram martirizados e que agora servem no céu. Agora, nós podemos ter uma aplicação secundária que incluiria, é claro, também os santos terrestres; mas contextualmente aqui se fala dos anjos celestes. E o que eles estão fazendo? Rezando. E estas orações são oferecidas com incenso pelo anjo no altar de Deus, no altar de ouro que está diante do trono, que estava bem em frente ao Santo dos Santos no templo terrestre como no templo celeste. “E da mão do Anjo, a fumaça do incenso com as orações dos santos subiu diante de Deus”.

E o que acontece? Deus em resposta às orações dos santos age. Ele chama os sacerdotes celestes para que peguem suas trombetas e se preparem para tocar. Isto desencadeia as sete trombetas que por sua vez desencadeiam todo tipo de ativitidade terrestre que justifica os santos e vinga seu sangue e derruba os orgulhos e presunçosos diante de Deus. Você percebe o poder do serviço litúrgico? As pessoas dizem: “Bem, é preciso se envolver”. Eu digo: “Exatamente, precisamos nos envolver. Precisamos fazer realmente as coisas que mudariam as injustiças da terra a começar com um bom serviço litúrgico”. Porque se você ler o Apocalipse e entender a mensagem, você vai ver que existe uma coisa acima de todas as outras que muda as más coisas. E é adorando a Deus com todo o seu coração, mente, alma e força.

Isto libera todas as coisas que o povo na terra necessita de Deus em resposta às orações dos santos. Não se discute. Não se debate. Não é demonstrado logicamente. É assumido e descrito graficamente. E o que nós rezamos? “Seja feita a vossa vontade assim na terra como no céu”. Nosso serviço litúrgico é uma imitação do serviço celete. Nossa intercessão é uma imitação da intercessão deles. Mas como podemos fazer isso se não temos nenhuma idéia do que eles estão fazendo e eles não têm nenhuma idéia do que nós estamos fazendo? Isto não é comunhão e isto também não é o que o Apocalipse descreve.

Volte um pouquinho na Bíblia. Você pode ver isso no Apocalipse 5, 8: “…os vinte e quatro Anciãos prostraram-se diante do Cordeiro, cada um com uma cítara e taças de ouro cheias de incenso, que são as orações dos santos, cantando um cântico novo”. Eles não só tocam instrumentos, mas eles cantam cânticos e eles dão louvores ao Cordeiro. Depois eles fazem orações para as pessoas que estão em necessidade. E o que faz Cristo depois de suas orações? Ele por acaso diz: “Hei pessoal, as minhas orações não são o suficiente? O fato de eu ser o Sumo Sacerdote não é o suficiente para todas as necessidades do meu povo na terra como no céu? Acabem logo com isso e relaxem”?

Não, ele não disse isso. O que ele faz? Versículo 10: “Deles fizeste, para nosso Deus, uma Realeza e Sacerdotes; e eles reinarão sobre a terra”. O reinado deles se estende do céu para a terra. Cristo fez deles um reino de sacerdotes. Em outras palavras, o que Deus ofereceu no Monte Sinai, Exodo 19, 6 e que eles se recusaram e que depois Deus continuamente oferece através de Davi e Salomão, e eles recusam; Deus oferece através de Jesus e dos Apóstolos e Jesus aceita e estabelece, portanto, uma nova aliança baseada nesta aceitação. E através de seu poder, ele faz o que Adão, Noé, Abraão, Moisés e Davi juntos multiplicado por 100, jamais puderam fazer – um reino de sacerdotes, se recebermos na fé e cooperarmos com esta graça.

Nós somos um reino de sacerdotes. Isto enfraquece nosso Rei? Isto tira a autoridade sacerdotal de Jesus? Não. Isto manifesta-a. Como luz pura batendo num prisma mostra a beleza intrínsica oculta desta luz conforme os raios são refratados, você vê o que existe o tempo todo na luz mas não podia ver antes que fosse refratada no prisma. Esta é a beleza de Cristo, refratado pelos seus santos e suas orações de intercessão. E eles cantam a canção sobre o Cordeiro e ele falam sobre como ele recebeu o poder e a riqueza e a sabedoria e a força e a honra e a glória e o louvor. Mas o que faz Cristo com tudo isso? Ele se volta e dá isto à nós.

Eles têm tronos e coroas e o que eles fazem? Eles prostam suas coroas. Cristo as pega e as devolve a eles e diz: “Sentem-se nos tronos. Vocês são meus sacerdotes. Vocês são meus reis…” Pode-se ver isto no capítulo 4, 4: “vinte e quatro tonos, e neles assentavam-se vinte e quatro Anciãos, vestidos de branco e com coroas de ouro sobre a cabeça”. Por que isso? Por que Cristo não é o suficiente? Não. Por que Cristo está longe? Claro que não. Pelo contrário, é porque estes santos confiam que a graça de Cristo é suficiente, a mesma graça que eles agora possuem como santos martirizados glorificados no céu.

Apocalipse 14, 13 diz tudo: “Ouvi então uma voz do céu, dizendo: ‘Escreve: felizes os mortos, os que desde agora morrem no Senhor. Sim, diz o Espírito, que descansem de suas fadigas, pois suas obras os acompanham.'”. Agora, nós não adoramos os santos benditos que foram martirizados e elevados e glorificados no céu. Nós não os adoramos. Na verdade, Apocalipse 19, 10 nos diz para não os adorarmos – onde o anjo aparece para João e João se prostra e o que ele diz? “Caí então a seus pés para adorá-lo, mas ele me disse: ‘Não! Não o faças! Sou servo como tu e como teus irmãos que têm o testemunho de Jesus.'” Preste atenção, ouça: “É a Deus que deves adorar!” Este é o único que adoramos. E então o que fazemos? Porque nós adoramos a Deus e porque nós tentamos imitá-Lo, nós louvamos aqueles que Ele louvou. Nós honramos aqueles que Ele honra. É assim que funciona a aliança. Esta foi sempre a forma da aliança, como veremos.

Três Classes de Santos

Por todo o Apocalipse existem três classes de santos: os mártires, as virgens e os confessores, que são consistentemente mostrados como exemplo para nós. Por exemplo, Apocalipse 14, 4. No versículo 1 deste capítulo nos é dito sobre o número 144.000. As doze tribos de Israel todas doam 12.000 santos. Que tipo de santos? Nos é dito que eles cantam um cântico novo diante do trono do Cordeiro. É um cântico que ninguém podia aprender a não ser os 144.000 que foram resgatados da terra. Eu acho que deve ter sido um cântico judaico. Só os Judeus das 12 tribos de Israel é que podem cantar.

“Estes são os que não se contaminaram com mulheres pois são castos”, diz a minha bíblia não-católica e nas notas de rodapé diz, “Grego: virgens”. Então por que não traduzir usando “virgens”? O que são eles? Nós ousamos não dizer esta palavra muito alto, com muita frequência em nossa sociedade. Por quê? O intercurso sexual é errado? De forma alguma. É o que consuma a aliança matrimonial. É o que faz o sacramento legalmente indissolúvel. É o que traz uma nova vida, e nos tornamos co-criadores com Deus pela graça de Cristo. O intercurso é mal? Não, é bom. O casamento é mal? Não, é sagrado. É um sacramento na Igreja Católica. Ele confere a graça de Cristo ex opere operato.

Mas Deus reserva bençãos especiais para aqueles que renunciam bens terrenos que são muito bons por bens celestiais ainda melhores. 1 Corintios 7, 32: São Paulo diz, “Eu quisera que estivésseis isentos de preocupações. Quem não tem esposa, cuida das coisas do Senhor e do modo de agradar ao Senhor. Quem tem esposa, cuida das coisas do mundo e do modo de agradar à esposa, e fica dividido. Da mesma forma, a mulher não casada e a virgem cuidam das coisas do Senhor, a fim de serem santas de corpo e de espírito. Mas a mulher casada cuida das coisas do mundo; procura como agradar ao marido”. Todas as pessoas casadas digam: “Amém”.

Isto significa que não podemos servir o Senhor? Claro que não. Nós podemos servir o Senhor mas nós também temos que cuidar das coisas do mundo, temporárias e passageiras. Tudo bem. Deus usará estas coisas como meios de graça. Mas elas não são permanentes e nossas famílias aqui não são permanentes porque elas estão ligadas pelos laços da carne e sangue de Adão que terão que morrer e ressuscitar em Cristo e serem membros da família da Nova Aliança.

Isto significa que a familia é algo ruim? Não, é sagrada. Nós devemos ser sacerdotes em nossa igreja doméstica. Pais, abençoem seus filhos à noite antes deles dormirem. Cantem canções na mesa de jantar. Façam orações, eu desafio vocês a fazerem orações espontâneas de vez em quando. Isto não é um monopolio protestante. Nós podemos fazer orações tiradas de nosso coração de filhos de Deus e devemos fazê-las.

Mas São Paulo, o inspirado apostolo sem erros, está comunicando aqui o que Deus quer comunicar porque o Espírito Santo é o autor principal até mesmo destas palavras. “Digo-vos isto em vosso próprio interesse, não para vos armar cilada”. Nos é permitido o casamento e ele é glorioso. “Mas para que façais o que é mais nobre e possais permanecer junto ao Senhor sem distração”. E depois no versículo 38: “Portanto, procede bem aquele que casa a sua virgem; e aquele que não a casa, procede melhor ainda”.

Um bom amigo meu, ex-católico e agora anti-católico me disse: “Bem, Paulo não quer dizer para a vida toda”. Eu disse: “Ok, me mostra onde é que este caso se aplica”. Nós olhamos e procuramos e olhamos de novo em vão. Então eu disse: “Sabe, quando se olha novamente em Apocalipse 14, 4, aqueles 144.000 virgens não eram virgens temporários. Deus faz de nós todos virgens temporários e faz de alguns virgens permanentes, mas no casamento todos nós devemos ser virgens, certo?” Não, isto não é o que a Biblia está dizendo. Nós colocamos palavras na boca de Cristo e na boca de São Paulo? Estas pessoas morreram virgens. Agora se alguém dissesse. “Bem, na Israel antiga não havia nenhuma tradição costumeira que exaltasse a virgindade”. É muito triste dizer que entre os Fariseus isto é verdadeiro. Não havia tal costume. Mas você teria que pelo menos negar o que é obvio e evidente nos Manuscritos do Mar Morto e na comunidade dos Essênios de Qumram, porque eles louvavam a virgindade. Agora, se você for casado, você também pode ser um membro santo da comunidade. Flavius Josephus e Philo e outros Judeus, apesar de não serem Essênios; eles podem ter sido Fariseus, Saduceus, Zelotas; ainda assim, todos os outros grupos de Judeus sabiam que os Essênios eram os mais justos e santos.

Eram eles que louvavam a virgindade. Isto não é novidade. Maria se refere implicitamente a esta promessa de virgindade, quando ela diz: “Como é que vai ser isso, se eu eu não conheço homem algum?” O anjo poderia ter dito simplesmente: “Em alguns meses quando você se casar, vocês farão amor e vocês terão um filho”. Quero dizer, ela não conhecia fatos básicos de anatomia e biologia? Como sempre disseram os primeiros Pais da Igreja, implícito naquele texto, o único sentido para ela não estar dizendo algo insensato, é ela, como os Essênios, estar entrando no casamento com um reconhecimento total da glória e santidade do matrimônio e do amor matrimonial, amor físico e sexual, mas com uma benção superior ainda maior se Deus conferisse a graça de viver virginalmente no casamento.

E é sobre isto que São Paulo fala em Corintios 7 quando ele diz: “Se seu ardor por sua noiva é muito grande” – literalmente a tradução seria “se seu ardor pela sua virgem”. Algumas traduções dizem que é filha, outras que é noiva, será que é a irmã ou o quê, afinal? Bem, São Paulo estava dizendo algo que ele supõe que os cristãos de Corinto entendem claramente. E desde o começo as pessoas imitavam Maria e José, e até antes de Maria e José este costume era encontrado no judaismo entre os mais santos. Deve ser uma pílula dura de engolir para os americanos porque nós gostamos de fazer sexo de todas as maneiras diferentes possíveis. Esta é a melhor maneira de vender livros e filmes e o que quer que seja. Além do que sexo não é ruim mas é bom.

Sexo no matrimônio é sagrado. É o meio pelo qual a vida natural é co-criada com Deus. Mas existe algo ainda maior. Nós temos que fazer orações por nossos padres e religiosos, irmãos e irmãs. Eu não estou certo de que tenha existido uma cultura que tenha tão seriamente colocado-os à prova e em tentação. Nós temos que fazer orações para que eles, também, possam de alguma forma se unir aos 144.000 e nós também nos juntaremos a eles, porque junto com os 144.000, existem aqueles que lavaram suas vestes no sangue do Cordeiro, uma grande multidão que nenhum homem pode contar. E eles cantam e adoram o Cordeiro. Eles são sacerdotes e reis. Deus não mostra parcialidade. São Paulo diz a Timoteo: “Se com Cristo sofres, com Ele reinarás”. Se sofreres. E são estes que vemos reinando com Cristo no Livro no Apocalipse.

É por isso que na Ladainha de Loretto, por exemplo, temos Nossa Senhora com que títulos? Rainha dos mártires, Rainha das virgens e Rainha dos confessores e depois, Rainha dos santos, rogai por nós. Isto é tirado do Apocalipse. Nós também podemos ver em Apocalipse 20, 4-6, a mesma idéia. “Feliz e santo aquele que foi martirizado. Eles estão sentados nos tronos celestes”. O que mais? “Vi então tronos, e aos que neles se sentaram foi dado o poder de julgar”.

Jesus Cristo é o verdadeiro juiz. Ele está sentado no grande trono branco que é descrito em Apocalipse 20, 11. Mas então Ele tem tronos auxiliares. Por quê? Porque Ele dá a eles o poder de julgar. São Paulo diz aos Corintios: “Não sabeis que julgaremos os anjos?” Eles estão sentado nos tronos com o poder divino de julgar confiado a eles. Eles executam o julgamento de Cristo para Sua glória; por Cristo, em Cristo e com Cristo.

Então deixem que eles julguem. Deixem que eles passem a sentença. Deixem que eles descubram que coisas precisam de julgamento. Deixem que eles saibam. Façam orações a eles e peçam pela intercessão deles no único mediador porque eles são os sacerdotes de Deus e de Cristo que nos é dito neste texto no versículo 6: “Eles serão sacerdotes de Deus e de Cristo, e com ele reinarão”. Amém. Obrigado Jesus. Por quê? Porque o sacerdócio de Cristo não é o suficiente? Não, porque Cristo é um doador generoso e Ele dá uma participação a todos nós que cooperamos com esta graça.

Sugestões para conversas com não-católicos

Eu devo-lhes dizer que sempre que conversarem com não-católicos ou até mesmo alguns católicos confusos ou ex-católicos, vocês têm que alicerçar isto em Cristo. Vocês têm que colocar as raízes disso tudo em Cristo. É a vida Dele, é a graça Dele, é a santificacão Dele e na Sua beatitude que participamos. A razão pela qual os mortos são benditos em 14, 13, a razão pela qual os martires são benditos em 22, 14 é porque eles estão em Cristo; mas eles são benditos.

Quando Cristo vos abençoa, garantido o resto, você está abençoado! E é por isso que Nossa Senhora pode dizer em Lucas 1, 48: “Doravante as gerações todas me chamarão de bem-aventurada”. Nós só estamos demonstrando que ela está certa e que tudo o que fazemos é nos juntar aos anjos porque, o que disseram os anjos? “Ave, cheia de graça, bendita és tu entre as mulheres”. E quando clamamos a mãe de Deus, é praticamente o que Isabel diz: “A mãe do meu Senhor me visita”.

Então por que o rosário é tão ofensivo? A primeira parte nada mais é do que a Escritura: “Ave-Maria, cheia de graça. O Senhor é convosco. Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto de vosso ventre, Jesus. Santa Maria,” (porque Cristo a fez santa) “Mãe de Deus,” (Isabel declarou que ela era mãe do Senhor,) “rogai por nós, pecadores,” (o que estamos confessando? Estamos confessando nossa própria corrupção; quero dizer, a doutrina do pecado) “Rogai por nós, pecadores,” (agora porque somos fracos e dependentes) “e na hora de nossa morte,”

(quando formos para a presença de Deus). Veja toda a boa teologia que existe aí.

Nós temos a doutrina do pecado. Temos a doutrina da salvação. Temos a doutrina da graça. Temos até mesmo a escatologia, a “hora de nossa morte”. Quero dizer, raramente se encontra um parágrafo num livro de teologia que tenha tanta doutrina e passagens corretas. E tudo o que estamos fazendo é ecoar o anjo e tudo o que ele estava fazendo era ecoar Jesus porque tudo o que ele é, é um mensageiro de Deus, com a mensagem de Deus.

Nós bendizemos Deus que é bendito acima de todos e depois bendizemos aqueles que ele bendiz porque esta é a natureza da aliança. Sempre foi. Genesis 27,29 fala sobre a benção de Israel: “Que os povos te sirvam, que nações se prostrem diante de ti! Sê um senhor para teus irmãos, que se prostrem diante de ti os filhos de tua mãe! Maldito seja quem te amaldiçoar! Bendito seja quem te abençoar!” – esta foi a benção de Isaac sobre Israel.

É isto que fazemos ao venerar os santos. Nós bendizemos aqueles que Deus abençoou. “Bendito seja quem te abençoar”. É esta a natureza da aliança nos Tempos Antigos e as bençãos não enfraquecem a Nova Aliança. Pelo contrário. Assim, se você é abençoado quando abençoa aqueles que Deus abençoou no passado, quanto mais você será quando bendizer aqueles que Deus abençoou em Cristo? É por fim a benção de Cristo.

Nós não fazemos orações para os santos ao invés de para Cristo. Nós rezamos através dos santos à Deus em Cristo. Mas você pode dizer isso de várias maneiras ou você pode ter significados secundários que podem estar corretos, mas por fim, os santos não atendem nossas orações. Eles ecoam nossas orações com profundidade, discernimento e amor maiores. “A oração fervorosa do justo tem grande poder!” Isto não é encontrado somente no Novo Testamento, mas é basicamente testemunhado por toda a Escritura. Não só os justos da terra mas os justos em geral, onde quer que estejam. Eles podem fazer orações e elas tem grande poder.

A palavra alemã para benção é “segnum”. Ela é na verdade derivada do latim “signare”, que quer dizer “fazer o sinal da cruz”. A cruz é a fonte de todas as bençãos. Nós não tiramos o mérito da cruz quando bendizemos os santos que Cristo abençoa. Nós sustentamos a cruz. Nós exemplificamos a cruz. Exemplificamos a obra de Cristo. 2 Timoteo 2, 11-12: “Se com ele morremos, com ele viveremos. Se com ele sofremos, com ele reinaremos”.

Nós imitamos Cristo. É este o chamado do cristão. Nós honramos aqueles que Cristo honra e da mesma forma. Este é a primeira e talvez a razão mais fundamental mas em segundo lugar, nós desejamos seguir o exemplo heróico deles ao imitarem Cristo. Eu sei, pois tenho visto muitas famílias onde se o primeiro filho é bom, os outros podem seguir seu exemplo. Eu sei por experiência própria que se o primeiro filho extravia, as chances são muito maiores de que os outros se extraviem, como aconteceu comigo. Graças a Deus, ele nos alcança não importa onde estamos ou quem somos ou o que fazemos, mas o fato é que os exemplos, especialmente os exemplos heróicos ajudam bastante.

Tudo o que fazemos é celebrar a obra de Cristo, as obras-primas de Cristo, especialmente quando se trata da Santíssima Virgem Maria. Adore a Deus e somente a Deus, mas venere, honre, bendiga aqueles que ele honra e aqueles que ele bendiz. Só estamos imitando Cristo e estamos somente nos ajudando e ajudando a outros a seguirem o exemplo heróico de Sua virtude e de Seu sacrifício.

Conclusão

Antes que eu termine, eu quero tirar uma espécie de tangente final. Talvez eu devesse tê-la feito ontem, mas eu falei bastante sobre Maria tanto hoje de manhã como ontem. Eu focalizei em Nossa Senhora ontem, então você pode pensar que eu não devesse focalizar nela nesta manhã, mas eu gosto de focalizar nela todo dia. Em particular existe uma questão que já surgiu, pelo menos implicitamente. Nós falamos sobre ela e a Igreja ensina a dulia, a veneração e a honra aos santos, mas para aquela que é a Rainha de todos os santos, devemos a hiperdulia, que não é a mesma coisa que latria, que é adoração.

Eles são finitos. Eles são criaturas. Eles estariam perdidos e mortos no pecado se não fosse pela graça de Cristo. Só Deus é infinito, eterno. Só Ele possui auto-existência. Eles têm existência. Ele é a própria existência. Jamais nos esqueçamos disto. Ajudemos outros perceberem a que jamais nos esquecemos disto e que deixamos esta distinção bem clara. E façamos de nossa adoração a Deus o melhor possível para que nossa dulia seja distinta de nossa latria.

Mas e sobre a virgindade perpétua de Maria? Nós falamos sobre Maria e hiperdulia. Falamos sobre a virtude da virgindade. Por que existe a doutrina da virgindade perpétua? Por que isto é definido “de fide” (=de fé) como algo que os católicos devem crer estar de acordo com a Igreja? Bem, por uma razão porque é verdade. Segundo, porque a Igreja sempre aceitou isto e a Igreja sempre ensinou isto. O Credo de Santo Epifanio, em 374, afirma: “Maria, sempre virgem”. O Segundo Concílio de Constantinopla em 553 bem como o Concílio de Latrão em 649, também afirma: “Maria, sempre virgem”. Santo Agostinho sempre insistiu nisso. Junto com Santo Agostinho, S, Jerônimo escreveu um livro sobre a Virgindade Perpétua da Santissima Virgem Maria em resposta a Helvidio, que em 380 foi a primeira pessoa nos registros verdadeiramente a negar a virgindade perpétua de Maria e a sugerir que os irmãos de Jesus eram irmãos de sangue e filhos de Maria.

S. Jeronimo nem mesmo queria escrever o livro. Ele achava Helvidio bastante esquisito. Ele disse, “isto é uma novidade maldosa e uma afronta ousada para a fé de todo o mundo”. Lutero acreditava nela. Calvino afirmou-a e Zwinglio, todos eles, falaram de “Maria, sempre virgem” em seus escritos. Bem, então como é que se lida com as passagens bíblicas?

Façamos isto apenas brevemente. A irmandade de Cristo é provavelmente o maior obstáculo. Mateus 1, 25: “Mas não a conheceu até o dia em que ela deu à luz um filho”. Eu já disse que a palavra “até” pode ser conjuntiva. O que eu quero dizer é que “até” nem sempre significa algo como: “Ela era virgem até depois de dar a luz um filho e depois ela deixou de ser virgem”. Nem sempre significa isso. Por exemplo, 2Samuel 6, 23: “E Micol, filha de Saul, não teve filhos até o dia de sua morte”; obviamente não significa que ela teve gêmeos após o funeral. Deuteronomio 34, 6 fala sobre o enterro de Moisés, que aparentemente foi Deus quem fez: “e até hoje ninguém sabe onde é a sua sepultura”. Isso não significa que quando o Deuteronômio foi escrito, eles a encontraram. Eles nuncam a acharam.

Assim, a tradução de Knox de Mateus 1, 25 é que ele não a conheceu em nenhum tempo antes dela dar a luz ao primogênito. Bom, e sobre a palavra “primogenito”? Isto não sugere que houve um segundo e um terceiro? Não, claro que não, e todo mundo que conhece o Antigo Testamento percebe isto porque primogenito em Exodo 13, 2 e Exodo 34 é na verdade um termo técnico para a criança que “inaugura o ventre materno”. O primogenito é consagrado automaticamente ao Senhor. Mesmo se você tiver muitos outros, aquele primogênito é consagrado e é especial.

Bom, mas você pode dizer: “Não é natural ela não ter tido relações com José”. Bem, não se ela fez uma promessa sagrada que aparentemente era um costume da época, até mesmo se fosse raro. Mas vamos continuar. “Muito bem, não é natural ser casada e não ter relações com seu parceiro, mas também não é natural conceber a segunda pessoa da Divindade em seu ventre e ter seu útero transformado no tabernáculo último e cósmico da salvação para todos os filhos de Deus. Para ser posto a parte para o propósito mais sagrado imaginável em toda a história da humanidade”.

Quero dizer, nós não usamos a nossa melhor porcelana para fazer pic-nic no fundo do quintal, usamos? Portanto, se Deus usou este recipiente para o propósito mais sagrado imaginável ao homem, José deve ter tido um senso de decência sobre outros usos que não deixam de ser sagrados em si mesmos, da mesma forma que copos e pratos de plástico não são profanos, mas as coisas têm o seu lugar próprio. Não é natural dar a luz à Segunda Pessoa da Trindade, ensinar a andar, a falar e a rezar, o Deus que te criou. Não seria inatural, eu penso, se você se achar nesta situação, não seria improvável devotar-se tão completamente ao serviço de Deus nesta oportunidade tão absolutamente única, espetacular e estranha.

Não se trata somente de uma família normal. A Sagrada Família é um exemplo, mas não é uma família típica porque nem todas as pessoas têm por um filho ou um irmão o Logos eterno. Isto é único. Assim, o casamento deles também era único.

E sobre aqueles que eram chamados especificamente de irmãos de Jesus? Pegue por exemplo, Tiago. Tiago, nos é dito ser o irmão de Jesus. Mas espere um pouco, se você estudar a cena da cruz, você pode entender o que isto significa. Mateus 27, 56 fala de Maria ao pé da cruz que é a mãe de Tiago e de José. Marcos 15, 40, descreve Maria como a mãe de Tiago o Menor. E depois em João 19, 25 lemos sobre Maria, mãe de Jesus e no próximo parágrafo, “Maria mulher de Cleofas”.

Fica óbvio quando se correlaciona estes três textos, Mateus 27, 56; Marcos 15, 40 e João 19, 25, que Maria, a mulher de Cleofas, diferente de Maria, a mãe de Jesus, é a mãe de Tiago. Mas só depois de ter correlacionado estes três textos. Alguém pode dizer: “Mas espere aí. Mateus 10, 3 descreve Tiago como filho de Alfeu”, mas a grande maioria dos estudiosos diz que provavelmente Cleofas é o nome grego para o mesmo homem que é chamado de Alfeu, porque era bem típico ter um nome aramaico, como Alfeu, e ao mesmo tempo tomar um nome grego para as pessoas de origem grega em sua comunidade, como por exemplo Cleofas. Como Saulo, o fariseu; Saulo é o seu nome judeu. Deus não disse, “Eu vou mudar seu nome para Paulo”; este já era seu nome romano legal. Isto era comum naquela época.

Eu gostaria de sugerir que considerássemos João 19 no pé da cruz. Se Jesus tivesse outros irmãos, irmãos mais velhos, como em João 7 – um monte de pessoas sustenta o fato de que ele parece ter irmãos mais velhos – então a quem você acha que ele confiaria sua mãe? A João, o discipulo amado? E se você fizer um estudo mais aprofundado a este respeito, você irá descobrir que Tiago e João eram primos de Jesus, então o que Jesus estava fazendo era confiar sua mãe a um de seus primos, o discípulo amado. Pelo menos é isto o que incontáveis estudiosos têm sustentado. O que seria bastante natural se você não tivesse nenhum irmão de sangue mas tivesse primos. E na língua hebraica não existe palavra para primo. A palavra que é usada é irmão, não só para primos mas para sobrinhos também.

Temos exemplos em abundância. Genesis 14, 14: Lot é chamado de irmão de Abraão. Tecnicamente Abraão era tio de Lot. Genesis 29, 15 fala sobre Tio Labão como sendo irmão de Jacó. Na verdade, eu acho que o oposto, Jacó é irmão de Labão. É um relacionamento de sobrinho mas em hebraico não existe palavra que represente primo. Assim, o Antigo Testamento Grego não está traduzindo o “primo” de Genesis 14, 14, mas está transliterando-o para “adelphos” ou irmão, mesmo o tradutor sabendo que se está falando sobre um primo ou um sobrinho. E o que parece acontecer no Novo Testamento é algo semelhante. Ou seja, este costume foi transferido para os livros do Novo Testamento.

“Adelphos” é usado com frequencia para denotar aqueles que podemos provar serem primos, e não “anepsios” que não é usado com frequencia porque não estava de acordo com o costume hebraico. Nós podemos continuar olhando para outros exemplos e outras provas. Mas deixe-me dizer novamente que quando esta nova descoberta, quando esta doutrina novinha de que Jesus tinha irmãos e irmãs foi introduzida por Helvidio em 380, quase quatro séculos depois de Cristo, tudo o que S. Jerônimo podia dizer é que isto é uma novidade maldosa e uma afronta ousada para a fé de todo o mundo.

Nós, irmãos e irmãs, temos um péssimo caso de amnésia. Nós esquecemos aquilo que precisamos lembrar. E não só precisamos lembrar disto, precisamos viver e amar, partilhar e aumentar o nosso conhecimento a este respeito. Afinal, você pode dizer: “Eu não tenho tempo. Não tenho energia”, mas veja bem, nós temos 60, 70, 80 anos, alguns 30, 40, 50. Que melhor maneira de usar nosso tempo do que usá-lo para conhecer a Santíssima Trindade e tudo o que Cristo tem feito para nos salvar e para fazer de nós sua família? Você consegue pensar em coisas melhores para fazer com o seu tempo? Eu não.

Temos que nos preparar para uma eternidade junto de Deus. Temos que aprender a amar a adoração. Temos que aprender a amar os santos. Temos que praticá-la para que quando cheguemos lá, isto não seja tão novo e estranho. O que será estranho e novo é contemplar a glória de Cristo em suas faces, mas os laços fraternais serão fortalecidos por esta vida nos preparando para aquela reunião grandiosa, para aquele grande retorno. Porque o céu é o nosso lar. A Santíssima Trindade é a primeira família e todos os santos são nossos irmãos e irmãs.

Assim, nós imitamos Cristo. Nos mantemos firmes na antiga fé da Igreja ao venerarmos os santos, especialmente a Santissima Virgem Maria.


1Aqui Scott Hahn faz uma comparação com o baseball que eu vou tentar simplicar para o futebol…
2Aqui o autor descreve uma situação relativa ao povo americano.
3Aqui ele faz uma alegoria ao exame de época, quando não se passa no exame final.

Artigo publicado originalmente no site AgnusDei depois incorporado ao Veritatis Splendor. Tradução de Sandra Katzman. 

Fonte:http://www.veritatis.com.br/apologetica/imagens-santos/870-a-veneracao-dos-santos-atraves-de-uma-perspectiva-biblica

A Inquisição

Estevão Bettencourt.

A Inquisição não foi criada de uma só vez, nem procedeu do mesmo modo no decorrer dos séculos. Por isto distinguem-se:

1) A lnquisição Medieval, voltada contra as heresias cátara e valdense nos séculos XII-XIII e contra falsos misticismos nos séculos XIV-XV;

2) A lnquisição Espanhola, instituída em 1.478 por iniciativa dos reis Fernando e Isabel; visando principalmente aos judeus e muçulmanos, tornou-se poderoso instrumento do absolutismo dos monarcas espanhóis até o século XIX, a ponto de quase não poder ser considerada instituição eclesiástica (não raro a lnquisição Espanhola procedeu independentemente de Roma, resistindo à intervenção da Santa Sé, porque o rei de Espanha a esta se opunha);

3) A lnquisição Romana (também dita Santo Ofício) instituída em 1.542 pelo Papa Paulo III, em vista do surto do protestantismo.

Apesar das modalidades próprias, a Inquisição Medieval e a Romana foram movidas por princípios e mentalidade características. Passamos a examinar essa mentalidade e os procedimentos de tal instituição, principalmente como nos são transmitidos por documentos medievais.

Antecedentes da Inquisição contra os hereges a Igreja antiga aplicava penas espirituais, principalmente a excomunhão; não pensava em usar a força bruta. Quando, porém, o Imperador romano se tornou cristão, a situação dos hereges mudou. Sendo o Cristianismo religião de Estado, os Césares quiseram continuar a exercer para com este os direitos dos imperadores romanos (Pontífices maximi) em relação à religião pagã; quando arianos, perseguiam os católicos; quando católicos, perseguiam os hereges. A heresia era tida como um crime civil, e todo atentado contra a religião oficial como atentado contra a sociedade; não se deveria ser mais clemente para com um crime cometido contra a Majestade Divina do que para com os crimes de lesa-majestade humana.

As penas aplicadas, do século IV em diante, eram geralmente a proibição de fazer testamento, a confiscação dos bens, o exílio. A pena de morte foi infligida, pelo poder civil, aos maniqueus e aos donatistas; aliás, já Diocleciano em 300 parece ter decretado a pena de morte pelo fogo para os maniqueus, que eram contrários à matéria e aos bens materiais.

Agostinho, de início, rejeitava qualquer pena temporal para os hereges. Vendo, porém, os danos causados pelos donatistas (circumcelliones) propugnava os açoites e o exílio, não a tortura nem a pena de morte. Já que o Estado pune o adultério, argumentava, deve punir também a heresia, pois não é pecado mais leve a alma não conservar fidelidade (fides, fé) a Deus do que a mulher trair o marido (epist. 185, n. 21, a Bonifácio). Afirmava, porém, que os infiéis não devem ser obrigados a abraçar a fé, mas os hereges devem ser punidos e obrigados ao menos a ouvir a verdade.

As sentenças dos Padres da lgreja sobre a pena de morte dos hereges variavam. São João Crisóstomo (- 407) Bispo de Constantinopla, baseando-se na parábola do joio e do trigo, considerava a execução de um herege como culpa gravíssima; não excluía, porém, medidas repressivas. A execução de Prisciliano, prescrita por Máximo Imperador em Tréviris (385) foi geralmente condenada pelos porta-vozes da lgreja, principalmente por São Martinho e Santo Ambrósio.

Das penas infligidas pelo Estado aos hereges não constava a prisão; esta parece ter tido origem nos mosteiros, donde foi transferida para a vida civil. Os reis merovíngios e carolíngios castigavam crimes eclesiásticos com penas civis assim como aplicavam penas eclesiásticas a crimes civis.

Chegamos assim ao fim do primeiro milênio. A Inquisição teria origem pouco depois.

As origens da lnquisição

No antigo Direito Romano, o juiz não empreendia a procura dos criminosos; só procedia ao julgamento depois que Ihe fosse apresentada a denúncia. Até à Alta ldade Média, o mesmo se deu na Igreja; a autoridade eclesiástica não procedia contra os delitos se estes não Ihe fossem previamente apresentados. No decorrer dos tempos, porém, esta praxe mostrou-se insuficiente. Além disto, no séc. XI apareceu na Europa nova forma de delito religioso, isto é, uma heresia fanática e revolucionária, como não houvera até então: O catarismo (do grego katharós, puro) ou o movimento dos albigenses (de Albi, cidade da França meridional, onde os hereges tinham seu foco principal).

Considerando a matéria por si os cátaros rejeitavam não somente a face visível da lgreja, mas também instituições básicas da vida civil — o matrimônio, a autoridade governamental, o serviço militar — e enalteciam o suicídio. Destarte constituíam grave ameaça não somente para a fé cristã, mas também para a vida pública.

Em bandos fanáticos, às vezes apoiados por nobres senhores, os cátaros provocavam tumultos, ataques às igrejas etc., por todo o decorrer do séc. XI até 1.150 aproximadamente, na França, na Alemanha, nos Países-Baixos… O povo, com a sua espontaneidade, e a autoridade civil, se encarregavam de os reprimir com violência: Não raro o poder régio da França, por iniciativa própria e a contra-gosto dos bispos, condenou à morte pregadores albigenses, visto que solapavam os fundamentos da ordem constituída.

Foi o que se deu, por exemplo, em Orleães (1.017) onde o Rei Roberto, informado de um surto de heresia na cidade, compareceu pessoalmente, procedeu ao exame dos hereges e os mandou lançar ao fogo; a causa da civilização e da ordem pública se identificava com a fé! Entrementes a autoridade eclesiástica limitava-se a impor penas espirituais (excomunhão, interdito, etc.) aos albigenses, pois até então nenhuma das muitas heresias conhecidas havia sido combatida por violência física; Santo Agostinho (- 430) e antigos bispos, São Bernardo (- 1.154), S. Norberto (- 1.134) e outros mestres medievais eram contrários ao uso da forma (“Sejam os hereges conquistados não pelas armas, mas pelos argumentos“, admoestava São Bernardo, In Cant, serm. 64).

Não são casos isolados os seguintes:

Em 1.144 na cidade de Lião o povo quis punir violentamente um grupo de inovadores que aí se introduzira; o clero, porém, os salvou, desejando a sua conversão, e não a sua morte.

Em 1.077 um herege professou seus erros diante do bispo de Cambraia; a multidão de populares lançou-se então sobre ele, sem esperar o julgamento, encerrando-o numa cabana, à qual atearam o fogo!

Contudo, em meados do século XII, a aparente indiferença do clero se mostrou insustentável: Os magistrados e o povo exigiam colaboração mais direta na repressão do catarismo.

Muito significativo, por exemplo, é o episódio seguinte: O Papa Alexandre III, em 1.162, escreveu ao Arcebispo de Reims e ao Conde de Flândria, em cujo território os cátaros provocavam desordens: “Mais vale absolver culpados do que, por excessiva severidade, atacar a vida de inocentes… A mansidão mais convém aos homens da Igreja do que a dureza.. Não queiras ser justo demais (noli nimium esse iustus).” Informado desta admoestação pontifícia, o Rei Luís VII de França, irmão do referido arcebispo, enviou ao Papa um documento em que o descontentamento e o respeito se traduziam simultaneamente: “Que vossa prudência dê atenção toda particular a essa peste (a heresia) e a suprima antes que possa crescer. Suplico-vos para bem da fé cristã, concedei todos os poderes neste Campo ao Arcebispo (do Reims) ele destruirá os que assim se insurgem contra Deus, sua justa severidade será louvada por todos aqueles que nesta terra são animados de verdadeira piedade. Se procederdes de outro modo, as queixas não se acalmarão facilmente e desencadeareis contra a Igreja Romana as violentas recriminações da opinião pública.” (Martene, Amplissima Collectio II 638 s)

As conseqüências deste intercâmbio epistolar não se fizeram esperar muito: O Concílio Regional de Tours em 1.163, tomando medidas repressivas contra a heresia, mandava inquirir (procurar) os seus agrupamentos secretos. Por fim, a assembléia de Verona (Itália) à qual compareceram o Papa Lúcio III, o Imperador Frederico Barba-roxa, numerosos bispos, prelados e príncipes, baixou, em 1.184, um decreto de grande importância: O poder eclesiástico e o civil, que até então haviam agido independentemente um do outro (aquele impondo penas espirituais, este recorrendo à força física) deveriam combinar seus esforços em vista de mais eficientes resultados: Os hereges seriam doravante não somente punidos, mas também procurados (inquiridos); cada bispo inspecionaria, por si ou por pessoas de confiança uma ou duas vezes por ano, as paróquias suspeitas; os condes, barões e as demais autoridades civis os deveriam ajudar sob pena de perder seus cargos ou ver o interdito lançado sobre as suas terras; os hereges depreendidos ou abjurariam seus erros ou seriam entregues ao braço secular, que lhes imporia a sanção devida.

Assim era instituída a chamada “Inquisição episcopal”, a qual, como mostram os precedentes, atendia a necessidades reais e a clamores exigentes tanto dos monarcas e magistrados civis como do povo cristão; independentemente da autoridade da lgreja, já estava sendo praticada a repressão física das heresias. No decorrer do tempo, porém, percebeu-se que a inquisição episcopal ainda era insuficiente para deter os inovadores; alguns bispos, principalmente no sul da França, eram tolerantes; além disto, tinham seu raio de ação limitado às respectivas dioceses, o que lhes vedava uma campanha eficiente. À vista disto, os Papas, já em fins do século XII, começaram a nomear legados especiais, munidos de plenos poderes para proceder contra a heresia onde quer que fosse.

Destarte surgiu a “Inquisição Pontifícia” ou “legatina“, que a princípio ainda funcionava ao lado da episcopal, aos poucos, porém, a tornou desnecessária. A Inquisição papal recebeu seu caráter definitivo e sua organização básica em 1.233, quando o Papa Gregório IX confiou aos dominicanos a missão de Inquisidores; havia doravante, para cada nação ou distrito inquisitorial, um Inquisidor-Mor, que trabalharia com a assistência de numerosos oficiais subalternos (consultores, jurados, notários…) em geral independentemente do bispo em cuja diocese estivesse instalado. As normas do procedimento inquisitorial foram sendo sucessivamente ditadas por Bulas pontifícias e decisões de Concílios.

Entrementes a autoridade civil continuava a agir, com zelo surpreendente contra os sectários. Chama a atenção, por exemplo, a conduta do Imperador Frederico II, um dos mais perigosos adversários que o Papado teve no séc. XIII. Em 1.220 este monarca exigiu de todos os oficiais de seu governo prometessem expulsar de suas terras os hereges reconhecidos pela lgreja; declarou a heresia crime de lesa-majestade, sujeito à pena de morte e mandou dar busca aos hereges. Em 1.224 publicou decreto mais severo do que qualquer das leis citadas pelos reis ou Papas anteriores: As autoridades civis da Lombardia deveriam não somente enviar ao fogo quem tivesse sido comprovado herege pelo bispo, mas ainda cortar a língua aos sectários a quem, por razões particulares, se houvesse conservado a vida. E possível que Frederico II visasse a interesses próprios na campanha contra a heresia; os bens confiscados redundariam em proveito da coroa.

Não menos típica é a atitude de Henrique II, rei da Inglaterra: Tendo entrado em luta contra o arcebispo Tomás Becket, primaz de Cantuária, e o Papa Alexandre III, foi excomungado. Não obstante, mostrou-se um dos mais ardorosos repressores da heresia no seu reino: Em 1185, por exemplo, alguns hereges da Flândria tendo-se refugiado na Inglaterra, o monarca mandou prendê-los, marcá-los com ferro em brasa na testa e expô-los, assim desfigurados, ao povo; além disto, proibiu aos seus súditos lhes dessem asilo ou Ihes prestassem o mínimo serviço.

Estes dois episódios, que não são únicos no seu gênero, bem mostram que o proceder violento contra os hereges, longe de ter sido sempre inspirado pela suprema autoridade da Igreja, foi não raro desencadeado independentemente desta, por poderes que estavam em conflito com a própria lgreja. A inquisição, em toda a sua história, se ressentiu dessa usurpação de direitos ou da demasiada ingerência das autoridades civis em questões que dependem primeiramente do foro eclesiástico.

Em síntese, pode-se dizer o seguinte:

1) A Igreja, nos seus onze primeiros séculos, não aplicava penas temporais aos hereges, mas recorria às espirituais (excomunhão, interdito, suspensão …). Somente no século XII passou a submeter os hereges a punições corporais. E por quê?

2) As heresias que surgiram-no século XI (as dos cátaros e valdenses), deixavam de ser problemas de escola ou academia, para ser movimentos sociais anarquistas, que contrariavam a ordem vigente e convulsionavam as massas com incursões e saques. Assim tornavam-se um perigo público.

3) O Cristianismo era patrimônio da sociedade, à semelhança da prática e da família hoje. Aparecia como o vínculo necessário entre os cidadãos ou o grande bem dos povos; por conseguinte, as heresias, especialmente as turbulentas, eram tidas como crimes sociais de excepcional gravidade.

4) Não é, pois, de estranhar que as duas autoridades – a civil e a eclesiástica tenham finalmente entrado em acordo para aplicar aos hereges as penas reservadas pela legislação da época aos grandes delitos.

5) A lgreja foi levada a isto, deixando sua antiga posição, pela insistência que sobre ela exerceram não somente monarcas hostis, como Henrique II da Inglaterra e Frederico Barba-roxa da Alemanha, mas também reis piedosos e fiéis ao Papa, como Luís VII da França.

6) De resto, a Inquisição foi praticada pela autoridade civil mesmo antes de estar regulamentada por disposições eclesiásticas. Muitas vezes o poder civil se sobrepôs ao eclesiástico na procura de seus adversários políticos.

7) Segundo as categorias da época, a Inquisição era um progresso para melhor em relação ao antigo estado de coisas, em que as populações faziam justiça pelas próprias mãos. E de notar que nenhum dos Santos medievais (nem mesmo S. Francisco de Assis, tido como símbolo da mansidão) levantou a voz contra a Inquisição, embora soubessem protestar contra o que Ihes parecia destoante do ideal na lgreja.

Procedimentos da Inquisição

As táticas utilizadas pelos Inquisidores são-nos hoje conhecidas, pois ainda se conservaram manuais de instruções práticas entregues ao uso dos referidos oficiais. Quem lê tais textos, verifica que as autoridades visavam a fazer dos juizes inquisitoriais autênticos representantes da justiça e da causa do bem. Bernardo de Gui (séc. XIV) por exemplo, tido como um dos mais severos inquisidores, dava as seguintes normas aos seus colegas: “O Inquisidor deve ser diligente e fervoroso no seu zelo pela verdade religiosa, pela salvação das almas e pela extirpação das heresias. Em meio às dificuldades permanecerá calmo, nunca cederá à cólera nem à indignação… Nos casos duvidosos, seja circunspeto, não dê fácil crédito ao que parece provável e muitas vezes não é verdade; também não rejeite obstinadamente a opinião contrária, pois o que parece improvável freqüentemente acaba por ser comprovado como verdade… O amor da verdade e a piedade que devem residir no coração de um juiz, brilhem em seus olhos, a fim de que suas decisões jamais possam parecer ditadas pela cupidez e a crueldade.” (Prática VI p… ed. Douis 232 s). Já que mais de uma vez se encontram instruções tais nos arquivos da Inquisição, não se poderia crer que o apregoado ideal do Juiz Inquisidor, ao mesmo tempo eqüitativo e bom, se realizou com mais freqüência do que comumente se pensa? Não se deve esquecer, porém (como adiante mais explicitamente se dirá) que as categorias pelas quais se afirmava a justiça na Idade Média, não eram exatamente as da época moderna…

Além disto, levar-se-á em conta que o papel do juiz, sempre difícil, era particularmente árduo nos casos da Inquisição: O povo e as autoridades civis estavam profundamente interessados no desfecho dos processos; pelo que, não raro exerciam pressão para obter a sentença mais favorável a caprichos ou a interesses temporais; às vezes, a população obcecada aguardava ansiosamente o dia em que o veredictum do juiz entregaria ao braço secular os hereges comprovados. Em tais circunstâncias não era fácil aos juízes manter a serenidade desejável. Dentre as táticas adotadas pelos Inquisidores, merecem particular atenção a tortura e a entrega ao poder secular (pena de morte).

A tortura estava em uso entre os gregos e romanos pré-cristãos que quisessem obrigar um escravo a confessar seu delito. Certos povos germânicos também a praticavam. Em 866, porém, dirigindo-se aos búlgaros, o Papa Nicolau I a condenou formalmente. Não obstante, a tortura foi de novo adotada pelos tribunais civis da Idade Média nos inícios do séc. XII, dado o renascimento do Direito Romano. Nos processos inquisitoriais, o Papa Inocêncio IV acabou por introduzi-la em 1.252, com a cláusula: “Não haja mutilação de membros nem perigo de morte para o réu“. O Pontífice, permitindo tal praxe, dizia conformar-se aos costumes vigentes em seu tempo (Bullarum amplissima collectio II 326).

Os Papas subseqüentes, assim como os Manuais dos lnquisidores, procuraram restringir a aplicação da tortura; só seria lícita depois de esgotados os outros recursos para investigar a culpa e apenas nos casos em que já houvesse meia-prova do delito ou, como dizia a linguagem técnica, dois “índices veementes” deste, a saber: O depoimento de testemunhas fidedignas, de um lado e, de outro lado, a má fama, os maus costumes ou tentativas de fuga do réu. O Concílio de Viena (França) em 1.311 mandou outrossim que os Inquisidores só recorressem a tortura depois que uma comissão julgadora e o bispo diocesano a houvessem aprovado para cada caso em particular. Apesar de tudo que a tortura apresenta de horroroso, ela tem sido conciliada com a mentalidade do mundo moderno … ainda estava oficialmente em uso na França do séc. XVIII e tem sido aplicada até mesmo em nossos dias… Quanto à pena de morte, reconhecida pelo antigo Direito Romano, estava em vigor na jurisdição civil da Idade Média. Sabe-se, porém, que as autoridades eclesiásticas eram contrárias à sua aplicação em casos de lesa-religião. Contudo, após o surto do catarismo (séc. XII) alguns canonistas começaram a julgá-la oportuna, apelando para o exemplo do Imperador Justiniano, que no Séc. VI a infligira aos maniqueus. Em 1.199 o Papa Inocêncio III dirigia-se aos magistrados de Viterbo nos seguintes termos: “Conforme a lei civil, os réus de lesa-majestade são punidos com a pena capital e seus bens são confiscados. Com muito mais razão, portanto, aqueles que, desertando a fé, ofendem a Jesus, o Filho do Senhor Deus, devem ser separados da comunhão cristã e despojados de seus bens, pois muito mais grave é ofender a Majestade Divina do que lesar a majestade humana.” (Epist. 2,1). Como se vê, o Sumo Pontífice com essas palavras desejava apenas justificar a excomunhão e a confiscação de bens dos hereges; estabelecia, porém, uma comparação que daria ocasião a nova praxe… O Imperador Frederico II soube deduzir-lhe as últimas conseqüências: Tendo lembrado numa Constituição de 1.220 a frase final de Inocêncio III, o monarca, em 1.224, decretava francamente para a Lombaria a pena de morte contra os hereges e, já que o Direito antigo assinalava o fogo em tais casos, o Imperador os condenava a ser queimados vivos. Em 1.230 o dominicano Guala, tendo subido à cátedra episcopal de Bréscia (Itália), fez aplicação da lei imperial na sua diocese. Por fim, o Papa Gregório IX, que tinha intercâmbio freqüente com Guala, adotou o modo de ver deste bispo: Transcreveu em 1230 ou 1231 a constituição imperial de 1.224 para o Registro das Cartas Pontifícias e em breve editou uma lei pela qual mandava que os hereges reconhecidos pela Inquisição fossem abandonados ao poder civil, para receber o devido castigo, castigo que, segundo a legislação de Frederico II, seria a morte pelo fogo. Os teólogos e canonistas da época se empenharam por justificar a nova praxe; eis como fazia S. Tomás de Aquino: “É muito mais grave corromper a fé, que é a vida da alma, do que falsificar a moeda que é um meio de prover à vida temporal Se, pois, os falsificadores de moedas e outros malfeitores são, a bom direito, condenados à morte pelos príncipes seculares, com muito mais razão os hereges, desde que sejam comprovados tais, podem não somente ser excomungados, mas também em toda justiça ser condenados à morte.” (Suma Teológica II/II 11,3c)

A argumentação do Santo Doutor procede do princípio (sem dúvida, autêntico em si) de que a vida da alma mais vale do que a do corpo; se, pois, alguém pela heresia ameaça a vida espiritual do próximo, comete maior mal do que quem assalta a vida corporal; o bem comum então exige a remoção do grave perigo (veja-se também S. Teol. II/II 11,4c).

Contudo as execuções capitais não foram tão numerosas quanto se poderia crer. Infelizmente faltam-nos estatísticas completas sobre o assunto; consta, porém, que o tribunal de Pamiers, de 1.303 a 1.324, pronunciou 75 sentenças condenatórias, das quais apenas cinco mandavam entregar o réu ao poder civil (o que equivalia à morte); o lnquisidor Bernardo de Gui, em Tolosa, de 1.308 a 1.323, proferiu 930 sentenças, das quais 42 eram capitais; no primeiro caso, a proporção é de 1/15; no segundo caso, de 1/22. Não se poderia negar, porém, que houve injustiças e abusos da autoridade por parte dos juízes inquisitoriais. Tais males se devem a conduta de pessoas que, em virtude da fraqueza humana, não foram sempre fiéis cumpridoras da sua missão.

Os Inquisidores trabalhavam a distâncias mais ou menos consideráveis de Roma, numa época em que, dada a precariedade de correios e comunicações, não podiam ser assiduamente controlados pela suprema autoridade da lgreja. Esta, porém, não deixava de os censurar devidamente, quando recebia notícia de algum desmando verificado em tal ou tal região. Famoso, por exemplo, é o caso de Roberto, o Bugro, Inquisidor-Mor de França no século XIII.

O Papa Gregório IX a princípio muito o felicitava por seu zelo. Roberto, porém, tendo aderido outrora à heresia, mostrava-se excessivamente violento na repressão da mesma. Informado dos desmandos praticados pelo lnquisidor, o Papa o destituiu de suas funções e o mandou encarcerar. Inocêncio IV, o mesmo Pontífice que permitiu a tortura nos processos da inquisição, e Alexandre IV, respectivamente em 1.246 e 1.256, mandaram aos Padres Provinciais e Gerais dos Dominicanos e Franciscanos, depusessem os lnquisidores de sua Ordem que se tornassem notórios por sua crueldade.

O Papa Bonifácio VIII (1.294-1.303) famoso pela tenacidade e intransigência de suas atitudes, foi um dos que mais reprimiram os excessos dos inquisidores, mandando examinar, ou simplesmente anulando, sentenças proferidas por estes. O Concílio regional de Narbona (França) em 1.243 promulgou 29 artigos que visavam a impedir abusos do poder. Entre outras normas, prescrevia aos lnquisidores só proferissem sentença condenatória nos casos em que, com segurança, tivessem apurado alguma falta, “pois mais vale deixar um culpado impune do que condenar um inocente.” (cânon 23) Dirigindo-se ao Imperador Frederico II, pioneiro dos métodos inquisitoriais, o Papa Gregório IX aos 15 de julho de 1.233 lhe lembrava que “a arma manejada pelo Imperador não devia servir para satisfazer aos seus rancores pessoais, com grande escândalo das populações, com detrimento da verdade e da dignidade imperial.” (ep. saec. XIII 538-550).

Avaliação

Procuremos agora formular um juízo sobre a Inquisição Medieval. Não é necessário ao católico justificar tudo que, em nome desta, foi feito. É preciso, porém, que se entendam as intenções e a mentalidade que moveram a autoridade eclesiástica a instituir a Inquisição. Estas intenções, dentro do quadro de pensamento da Idade Média, eram legítimas e, diríamos até, deviam parecer aos medievais inspiradas por santo zelo. Podem-se reduzir a quatro os fatores que influíram decisivamente no surto e no andamento da Inquisição:

1) Os medievais tinham profunda consciência do valor da alma e dos bens espirituais. Tão grande era o amor à fé (esteio da vida espiritual) que se considerava a deturpação da fé pela heresia como um dos maiores crimes que o homem pudesse cometer (notem-se os textos de São Tomás e do Imperador Frederico II atrás citados); essa fé era tão viva e espontânea que dificilmente se admitiria viesse alguém a negar com boas intenções um só dos artigos do Credo.

2) As categorias de justiça na Idade Média eram um tanto diferentes das nossas: Havia muito mais espontaneidade (que as vezes equivalia a rudez) na defesa dos direitos. Pode-se dizer que os medievais, no caso, seguiam mais o rigor da lógica do que a ternura do sentimentos; o raciocínio abstrato e rígido neles prevalecia por vezes sobre o senso psicológico (nos tempos atuais verifica-se quase o contrário: Muito se apela para a psicologia e o sentimento, pouco se segue a lógica; os homens modernos não acreditam muito em princípios perenes; tendem a tudo julgar segundo critérios relativos e relativistas, critérios de moda e de preferência subjetiva).

3) A intervenção do poder secular exerceu profunda influência no desenvolvimento da inquisição. As autoridades civis anteciparam-se na aplicação da forma física e da pena de morte aos hereges; instigaram a autoridade eclesiástica para que agisse energicamente; provocaram certos abusos motivados pela cobiça de vantagens políticas ou materiais. De resto, o poder espiritual e o temporal na Idade Média estavam, ao menos em tese, tão unidos entre si que lhes parecia normal, recorressem um ao outro em tudo que dissesse respeito ao bem comum. A partir dos inícios do Séc. XIV a lnquisição foi sendo mais explorada pelos monarcas, que dela se serviam para promover seus interesses particulares, subtraindo-a às diretivas do poder eclesiástico, até mesmo encaminhando-a contra este; é o que aparece claramente no Processo Inquisitório dos Templários, movido por Filipe o Belo da França (1.285-1.314) à revelia do Papa Clemente V. (cf. capítulo 25)

4) Não se negará a fraqueza humana de Inquisidores e de oficiais seus colaboradores. Não seria Iícito, porém, dizer que a suprema autoridade da Igreja tenha pactuado com esses fatos de fraqueza; ao contrário, tem-se o testemunho de numerosos protestos enviados pelos Papas e Concílios a tais ou tais oficiais, contra tais leis e tais atitudes inquisitoriais. As declarações oficiais da Igreja concernentes à Inquisição se enquadram bem dentro das categorias da justiça medieval; a injustiça se verificou na execução concreta das leis. Diz-se, de resto, que cada época da história apresenta ao observador um enigma próprio na Antigüidade remota, o que surpreende são os desumanos procedimentos de guerra. No Império Romano, é a mentalidade dos cidadãos, que não conheciam o mundo sem o seu Império (oikouméne — orbe habitado — Imperium) nem concebiam o Império sem a escravatura. Na época contemporânea, é o relativismo ou ceticismo público; é a utilização dos requintes da técnica para “lavar o crânio”, desfazer a personalidade, fomentar o ódio e a paixão. Não seria então possível que os medievais, com boa fé na consciência, tenham recorrido a medidas repressivas do mal que o homem moderno, com razão, julga demasiado violentas? Quanto à Inquisição Romana, instituída no Séc. XVI, era herdeira das leis e da mentalidade da Inquisição Medieval. No tocante à Inquisição Espanhola, sabe-se que agiu mais por influência dos monarcas da Espanha do que sob a responsabilidade da suprema autoridade da Igreja.

Origem da Inquisição Espanhola

Os reis Fernando e Isabel, visando a plena unificação de seus domínios, tinham consciência de que existia uma instituição eclesiástica, a Inquisição, oriunda na Idade Média com o fim de reprimir um perigo religioso e civil dos séculos XI/XII (a heresia cátara ou albigense); a este perigo pareciam assemelhar-se as atividades dos marranos (judeus) e mouriscos (árabes) na Espanha do século XV.

1) A Inquisição Medieval, que nunca fora muito ativa na península ibérica, achava-se a mais ou menos adormecida na segunda metade do Séc. XV Aconteceu, porém, que durante a Semana Santa de 1.478 foi descoberta em Sevilha uma conspiração de marranos, a qual muito exasperou o público. Então lembrou-se o rei Fernando de pedir ao Papa, reavivasse na Espanha a antiga Inquisição, e a reavivasse sobre novas bases, mais promissoras para o reino, confiando sua orientação ao monarca espanhol. Sixto IV, assim solicitado, resolveu finalmente atender ao pedido de Fernando (ao qual, depois de hesitar algum tempo, se associara Isabel). Enviou, pois, aos reis da Espanha o Breve de 19 de novembro de 1.478, pelo qual “conferia plenos poderes a Fernando e Isabel para nomearem dois ou três Inquisidores, arcebispos, bispos ou outros dignitários eclesiásticos, recomendáveis por sua prudência e suas virtudes, sacerdotes seculares ou regulares, de quarenta anos de idade ao menos, e de costumes irrepreensíveis, mestres ou bacharéis em Teologia, doutores ou licenciados em Direito Canônico, os quais deveriam passar de maneira satisfatória por um exame especial. Tais lnquisidores ficariam encarregados de proceder contra os judeus batizados reincidentes no judaísmo e contra todos os demais culpados de apostasia. o Papa delegava a esses oficiais eclesiásticos a jurisdição necessária para instaurar os processos dos acusados conforme o Direito e o costume; além disto, autorizava os soberanos espanhóis a destituir tais Inquisidores e nomear outros em seu lugar, caso isto fosse oportuno.” (L.Pastor, Histoire des Papes IV 370) Note-se bem que, conforme este edito, a lnquisição só estenderia sua ação a cristãos batizados, não a judeus que jamais houvessem pertencido a lgreja; a instituição era, pois, concebida como órgão promotor de disciplina entre os filhos da Igreja, não como instrumento de intolerância em relação às crenças não-cristãs.

Procedimentos da Inquisição Espanhola

Apoiados na Licença Pontifícia, os reis da Espanha aos 17 de setembro de 1.480 nomearam lnquisidores, com sede em Sevilha, os dois dominicanos Miguel Morillo e Juan Martins, dando-lhes como assessores dois sacerdotes seculares. os monarcas.promulgaram também um compêndio de “Instruções”, enviado a todos os tribunais da Espanha, constituindo como que um código da Inquisição, a qual assim se tornava uma espécie de órgão do Estado civil. Os Inquisidores entraram logo em ação, procedendo geralmente com grande energia. Parecia que a lnquisição estava a serviço não da Religião propriamente, mas dos soberanos espanhóis, os quais procuravam atingir criminosos mesmo de categoria meramente política. Em breve, porém, fizeram-se ouvir em Roma queixas diversas contra a severidade dos Inquisidores. Sixto IV então escreveu sucessivas cartas aos monarcas da Espanha, mostrando-lhes profundo descontentamento por quanto acontecia em seu reino e baixando instruções de moderação para os juízes tanto civis como eclesiásticos. Merece especial destaque neste particular o Breve de 2 de agosto de 1.482, que é o Papa, depois de promulgar certas regras coibitivas do poder dos Inquisidores, concluía com as seguintes palavras: “Visto que somente a caridade nos toma semelhantes a Deus, rogamos e exortamos o Rei e a Rainha, pelo amor de Nosso Senhor Jesus Cristo, a fim de que imitem Aquele de quem é caracteristico ter sempre compaixão e perdão. Queiram, portanto, mostrar-se indulgentes para com os seus súditos da cidade e da diocese de Sevilha que confessam o erro e imploram a misericórdia.” Contudo, apesar das freqüentes admoestações pontifícias, a Inquisição Espanhola ia-se tornando mais e mais um órgão poderoso de influência e atividade do monarca nacional. Para comprovar isto, basta lembrar o seguinte: A Inquisição no território espanhol ficou sendo instituto permanente durante três séculos a fio. Nisto diferia bem da Inquisição Medieval, a qual foi sempre intermitente, tendo em vista determinados erros oriundos em tal ou tal localidade. A manutenção permanente de um tribunal inquisitório impunha avultadas despesas, que somente o Estado podia tomar a seu cargo; foi o que se deu na Espanha: Os reis atribuíam a si todas as rendas materiais da Inquisição (impostos, multas, bens confiscados) e pagavam as respectivas despesas; conseqüentemente alguns historiadores, referindo-se à Inquisição Espanhola, denominaram-na “Inquisição Régia“.

Teologia da libertação-Nosso Senhor Jesus Cristo: Redentor ou Revolucionário?

Bem, lembro, de início, que esta interpretação da Teologia da Libertação é frontalmente oposta ao magistério eclesiástico, desde o início da Igreja até nossos dias, nenhum pontífice defendeu essa visão. Muito pelo contrário, existem diversos documentos em que fica patente que Deus criou os homens desiguais entre si.

O que ensina a Igreja sobre a desigualdade? Ensina que os homens são iguais em sua essência, mas desiguais em seus acidentes. Dessas desigualdades, como inteligência, força, saúde etc, decorre uma natural hierarquia social, que deve ser proporcional e harmônica.

Analisando a vida de Nosso Senhor, vocês veram que o seu melhor amigo, Lázaro, era um homem rico, dono de terras e de casas diversas. Nunca foi repreendido por isso.

“Não é o servo maior do que o Senhor” também é uma frase em que a existência da hierarquia fica patente.

A própria humildade pregada por Nosso Senhor, em toda a sua vida, transparece uma posição de alma oposta ao comunismo. Só pode ter humildade aquele que se coloca pequeno diante dos outros e de Deus. Nunca é humilde aquele que quer derrubar os seus superiores ou quer explorar os seus inferiores.

O fato de existirem abusos na hierarquia, nunca justifica uma revolta contra a criação hierárquica de cada ser.

Santo Tomás de Aquino explica, magistralmente, porque Deus desejou criar os seres de forma desigual. Aconselho-os a ler o capítulo da “Suma Teológica” que trata desse assunto.

A Teologia da Libertação acusa Nosso Senhor de ser um defensor da igualdade. Agora, que tal procurar uma só passagem dos evangelhos onde Ele teria defendido uma sociedade igualitária, sem propriedade, sem autoridade?

Na própria Igreja ele estabeleceu uma hierarquia, onde escolheu um dos discípulos para ser um monarca absoluto!

Acho que o problema de fundo da Teologia da Libertação se me permite dizer, é uma visão muito particular do que seja “amar a Deus sobre todas as coisas”. Vejamos bem, Deus é superior a todos nós, nós somos suas criaturas. O igualitarismo, em última instância, acaba por nivelar o próprio homem à Deus, através da teoria gnóstica, muito em moda atualmente.

O que não pode ocorrer, se é essa o problema da Teologia da Libertação, é uma “exploração” de um homem sobre outro, quer seja pela sua autoridade, quer seja através de uma revolução igualitária.

Deve haver, na sociedade, um princípio de caridade verdadeiro, isto é, amor de Deus, que faça com que cada um, de acordo com sua vocação, procure cumprir com suas obrigações, quer com o próximo, quer com Deus.

Nesse sentido, nós teríamos o que Santo Agostinho chamou de “A Cidade de Deus” (Civitas Dei), onde todos amam a Deus mais do que a si próprios.

O comunismo(idéia que há na Teologia da Libertação), ao contrário, é um sistema onde cada homem busca amar a si mesmo, não aceitando a superioridade de outros, pois cada um quer ser o seu próprio senhor.

Fiquem com Deus