Arquivo mensal: janeiro 2011

Cristianismo: a vitória da inteligência sobre o mundo das religiões

Por Bento XVI

Ao final do segundo milênio, o cristianismo encontra-se, no próprio lugar da sua difusão originária, na Europa, em crise profunda, baseada na crise da sua pretensão à verdade. Esta crise tem uma dupla dimensão: em primeiro lugar, perguntam-nos com insistência cada vez maior se é certo, no fundo, aplicar a noção de verdade à religião; em outras palavras, se é dado ao homem conhecer a verdade propriamente dita sobre Deus e as coisas divinas. O homem contemporâneo reconhece-se muito melhor na parábola budista do elefante e dos cegos: uma vez, um rei da Índia do Norte reuniu num lugar todos os habitantes cegos da cidade. Em seguida fez passar um elefante diante deles. Deixou que uns tocassem na cabeça, e disse: «Um elefante é assim». Outros puderam tocar na orelha ou na presa, na tromba, nas costas, na perna, no traseiro, nos pelos da cauda. Depois disso, o rei perguntou a cada um deles: «Como é um elefante?». E, conforme a parte que tivessem tocado, respondiam: «É como uma cesta trançada…», «é como um vaso…», «é como o cabo de um arado…», «é como um depósito…», «é como uma coluna…», «é como um morteiro…», «é como uma escova…». Então – continua a parábola – começaram a discutir, aos berros: «O elefante é assim», «não, é assim», se atiraram uns sobre os outros e trocaram pancadas, para grande divertimento do rei. A disputa entre as religiões parece aos homens de hoje como essa disputa entre cegos de nascença. Porque diante do mistério de Deus nascemos cegos, ao que parece. Para o pensamento contemporâneo, o cristianismo não se acha absolutamente numa situação mais favorável em relação às outras religiões, pelo contrário: com a sua pretensão à verdade, parece ser particularmente cego diante do limite de todo nosso conhecimento do divino, caracterizado por um fanatismo particularmente insensato, que incorrigivelmente toma pelo todo a parte tocada na sua própria experiência.

Esse ceticismo generalizado em relação à pretensão à verdade em matéria religiosa é ulteriormente reforçado pelas questões que a ciência moderna levantou no que se refere às origens e aos conteúdos do cristianismo. A teoria da evolução parece ter superado a doutrina da criação, os conhecimentos que se referem à origem do homem parecem ter superado a doutrina do pecado original; a crítica exegética relativiza a figura de Jesus e coloca pontos de interrogação sobre a sua consciência filial; a origem da Igreja em Jesus parece duvidosa, e assim por diante. O “fim da metafísica” tornou problemático o fundamento filosófico do cristianismo, os métodos históricos modernos colocaram as suas bases históricas sob uma luz ambígua. Assim, é fácil reduzir os conteúdos cristãos a símbolos, não lhes atribuir nenhuma verdade maior do que a dos mitos da história das religiões, considerá-los uma modalidade de experiência religiosa que deveria colocar-se humildemente ao lado das outras. Neste sentido, pode-se ainda – ao que parece – permanecer cristão; continuamos a nos servir das formas expressivas do cristianismo, cuja pretensão, porém, é radicalmente transformada: aquela verdade que fora para o homem uma força imperiosa e uma promessa confiável passa a ser uma expressão cultural da sensibilidade religiosa geral, expressão que seria óbvia para nós em razão da nossa origem européia.

Ernst Troeltsch, no início deste século, formulou filosófica e teologicamente esta desistência por parte do cristianismo da sua pretensão originalmente universal, que só podia fundamentar-se na pretensão à verdade. Chegara à convicção de que as culturas são insuperáveis e a religião está ligada às culturas. O cristianismo é, portanto, só o lado do rosto de Deus voltado para a Europa. As «características particulares ligadas à cultura e às raças» e «as características das suas grandes formações religiosas que abarcam um contexto mais amplo» assumem a condição de última instância: «Quem se arriscaria a formular juízos de valor realmente categóricos a este respeito? Isso é algo que só Deus poderia fazer, Ele que está na origem dessas diferenças». Um cego de nascença sabe que não nasceu para ser cego e conseqüentemente não desistirá de se interrogar sobre o porquê da sua cegueira e sobre como dela sair. Só aparentemente o homem se resignou ao veredito de ter nascido cego para o que lhe pertence, para a única realidade que em última instância conta na nossa vida. A titânica tentativa de tomar posse do mundo inteiro, de extrair da nossa vida e para a nossa vida todo o possível, mostra, assim como a explosão de um culto do êxtase, da transgressão e da destruição de si, que o homem não se contenta com tal juízo. Porquê, se não sabe de onde vem e por que existe, não é ele talvez, em todo o seu ser, uma criatura fracassada? O adeus aparentemente indiferente à verdade sobre Deus e sobre a essência do nosso eu, a aparente satisfação por não ter mais de se ocupar com tudo isso, são ilusórios. O homem não pode resignar-se a ser e permanecer, quanto ao que é essencial, um cego de nascença. O adeus à verdade nunca pode ser definitivo.

Neste estado de fato, é necessário repropor a pergunta fora de moda sobre a verdade do cristianismo, por mais que a muitos possa parecer supérflua e insolúvel. Mas como? Com certeza, a teologia cristã deverá examinar atentamente, sem temor de se expor, as diversas instâncias que foram levantadas contra a pretensão do cristianismo à verdade no campo da filosofia, das ciências naturais, da história natural. Mas, por outro lado, é preciso também que ela busque adquirir uma visão de conjunto do problema referente à autêntica essência do cristianismo, a sua posição na história das religiões e o seu lugar na existência humana. Gostaria de dar um passo nesta direção, mostrando como, nas suas origens no Kosmos das religiões, o próprio cristianismo viu esta sua pretensão.

Que eu saiba, não existe nenhum texto do cristianismo antigo que lance sobre a questão tanta luz quanto a discussão de Agostinho com a filosofia religiosa do «mais erudito dos romanos», Marco Terêncio Varrão (127-16 a. C.). Varrão compartilhava a imagem estóica de Deus e do mundo; definiu Deus como animam motu ac ratione mundum gubernantem (como «a alma que rege o mundo através do movimento e da razão»), em outras palavras: como a alma do mundo, que os gregos chamam kosmos:hunc ipsum mundum esse deum. Essa alma do mundo, porém, não recebe culto. Não é objeto de religio. Ou seja: verdade e religião, conhecimento racional e ordem cultual situam-se em dois planos totalmente diferentes. A ordem cultual, o mundo concreto da religião, não pertence à ordem da res, da realidade como tal, mas à dos mores – dos costumes. Não foram os deuses que criaram o Estado, foi o Estado que instituiu os deuses, cuja veneração é essencial para a ordem do Estado e para o bom comportamento dos cidadãos. A religião é essencialmente um fenômeno político. Varrão distingue, assim, três tipos de “teologia”, entendendo por teologia a ratio, Quae de diis explicatur – a compreensão e a explicação do divino, como poderíamos traduzir. São estes a theologia mythica, a theologia civilis e atheologia naturalis. Por meio de quatro definições, ele explica então o que se deve entender por estas “teologias”. A primeira definição refere-se aos três teólogos associados a essas três teologias: os teólogos da teologia mítica são os poetas, pois compuseram cantos acerca dos deuses e são, assim, cantores da divindade. Os teólogos da teologia física (natural) são os filósofos, ou seja, os eruditos, os pensadores, que, indo além dos hábitos, interrogam-se sobre a realidade, sobre a verdade; os teólogos da teologia civil são os “povos”, que optaram por não aliar-se aos filósofos (à verdade), mas aos poetas, às suas visões poéticas, imagens e figuras.

A segunda definição diz respeito aos lugares a que, na realidade, estão associadas cada uma das teologias. À teologia mítica corresponde o teatro, que tinha de fato um estatuto religioso, cultual; segundo a opinião comum, os espetáculos haviam sido instituídos em Roma por ordem dos deuses. À teologia política corresponde a urbs. O espaço da teologia natural seria o kosmos.

A terceira definição designa o conteúdo das três teologias: a teologia mítica teria por conteúdo as fábulas sobre os deuses, criadas pelos poetas; a teologia de Estado, o culto; a teologia natural responderia à pergunta sobre quem são os deuses. Vale a pena agora prestar maior atenção: «Se – como em Heráclito – eles [os deuses] são feitos de fogo ou – como em Pitágoras – de números, ou – como em Epicuro – de átomos, e outras coisas ainda que os ouvidos podem suportar mais facilmente entre os muros escolares do que fora deles, na praça pública», segue-se com absoluta clareza que esta teologia natural é uma desmitologização, ou melhor, uma racionalidade, que considera criticamente o que há por trás da aparência mítica e a dissolve por meio do conhecimento científico-natural. Culto e conhecimento ficam separados um do outro. O culto permanece necessário na medida em que é uma questão de utilidade política; o conhecimento tem um efeito destruidor sobre a religião e não deveria, portanto, ser levado à praça pública.

Há, enfim, a quarta definição. O conteúdo das diversas teologias é constituído por que tipo de realidade? A resposta de Varrão é a seguinte: a teologia natural ocupa-se da “natureza dos deuses” (que de fato não existem), as outras duas teologias tratam dos divina instituta hominum – das instituições divinas dos homens. Segue-se daí que toda a diferença se reduz à que existe entre a física em seu significado antigo, por um lado, e a religião cultual, por oultro. «A teologia civil não tem, em última análise, nenhum deus, só a “religião”; a “teologia natural” não tem religião, mas só uma divindade». Sem dúvida, não pode ter nenhuma religião, pois ao seu deus (fogo, números, átomos) não se pode dirigir a palavra em termos religiosos. Assim, religio (termo que designa essencialmente o culto) e realidade, o conhecimento racional do real, configuram-se como duas esferas separadas, uma ao lado da outra. A religio não tira a sua justificação da realidade do divino, mas da sua função política. È uma instituição de que o Estado precisa para a sua existência.

Encontramo-nos aqui, sem dúvida, diante de uma fase tardia da religião, na qual é rompida a ingenuidade da postura religiosa e, portanto, se inicia a sua dissolução. Mas o laço essencial da religião com a estrutura estatal penetra decisivamente muito mais fundo. O culto é, em última instância, uma ordem positiva que, como tal, não pode ser medido com base no problema da verdade. Enquanto Varrão, em seu tempo, em que a função política da religião ainda estava suficientemente forte para justificá-la como tal, ainda podia defender uma concepção um tanto crua da racionalidade e da ausência de verdade do culto motivado politicamente, o neoplatonismo logo buscará uma outra saída para a crise, sobre a qual o imperador Juliano baseou mais tarde o seu esforço para restabelecer a religião romana de Estado. O que os poetas dizem são imagens que não devem ser entendidas fisicamente; mas são, de qualquer forma, imagens que exprimem o inexprimível para todos os homens para os quais o caminho principal da união mística está fechado. Embora não sejam verdadeiras como tais, as imagens são justificadas como abordagens de algo que sempre deve permanecer inexprimível.

Com isso antecipamos algo do que diremos. A posição neoplatônica, de fato, por seu lado, já é uma reação contra a tomada de posição cristã sobre o problema da fundação cristã do culto e do lugar da fé que está na sua base, na tipologia das religiões. Voltemos, pois, a Agostinho. Onde é que ele situa o cristianismo na tríade varroniana das religiões? O espantoso é que, sem a mínima exitação, Agostinho atribui ao cristianismo o seu lugar no âmbito da “teologia física”, no âmbito da racionalidade filosófica. Acha-se, assim, em perfeita continuidade com os primeiros teólogos do cristianismo, os Apologetas do século II, e também com a posição que Paulo atribui ao cristianismo no primeiro capítulo da Epístola aos Romanos, que, por sua vez, baseia-se na teologia veterotestamentária da Sabedoria e remonta, para além dela, aos Salmos, que zombam dos deuses. O cristianismo tem, sob este aspecto, os seus precursores e a sua preparação na racionalidade filosófica, não nas religiões. O cristianismo não se baseia, de fato, segundo Agostinho e a tradição bíblica, que para ele é normativa, em imagens e pressentimentos míticos, cuja justificação se encontra, em última análise, na sua utilidade política, mas reivindica aquele divino que pode ser percebido a partir da análise racional da realidade. Ou seja: Agostinho identifica o monoteísmo bíblico com as perspectivas filosóficas sobre a fundação do mundo que se formaram, segundo diversas variantes, na filosofia antiga. É isto que se entende quando o cristianismo, a partir do discurso paulino do Areópago em diante, se apresenta com a pretensão de ser a religio vera. O que significa: a fé cristã não se baseia na poesia e na política, essas duas grandes fontes da religião; baseia-se no conhecimento. Venera aquele Ser que está no fundamento de tudo o que existe, ou “verdadeiro Deus”. No cristianismo, a racionalidade se tornou religião e não mais o seu adversário. Para que isso acontecesse, para que o cristianismo se compreendesse como a vitória da desmitologização, a vitória do conhecimento e com ela da verdade, devia necessariamente considerar-se universal e ser levado a todos os povos: não como uma religião específica que reprime as outras em razão de uma espécie de imperialismo religioso, mas como a verdade que torna supérflua a aparência. E é justamente isso que, na vasta tolerância dos politeísmos, devia necessariamente parecer intolerável, ou até como inimigo da religião, como “ateísmo”. Não se fundamentava na relatividade e na convertibilidade das imagens; perturbava, portanto, sobretudo a utilidade política das religiões, e punha assim em perigo os fundamentos do Estado, no qual não queria ser uma religião entre as outras, mas a vitória da inteligência sobre o mundo das religiões.

Por outro lado, a esta posição do cristianismo no kosmos de religião e filosofia remonta também a força de penetração do cristianismo. Já antes do início da missão cristã, alguns círculos cultos da antiguidade haviam procurado na figura do “temente a Deus” o laço com a fé judaica, que lhes parecia uma figura religiosa do monoteísmo filosófico correspondente às exigências da razão e ao mesmo tempo à necessidade religiosa do homem. Necessidade esta a que a filosofia sozinha não podia satisfazer: não se reza a um deus apenas pensado. Ali, porém, onde o Deus achado pelo pensamento se deixa encontrar no coração da religião como um Deus que fala e age, o pensamento e a fé são reconciliados.

Naquele laço com a sinagoga ainda havia algo que não satisfazia: o não judeu, de fato, permanecia sempre como um estrangeiro, não podia jamais chegar a uma total pertença. Esse nó é desatado no cristianismo pela figura de Cristo, tal como a interpretou Paulo. Só então o monoteismo religioso do judaísmo se tornou universal, e, portanto, a unidade entre pensamento e fé, a religio vera, se tornou acessível a todos.

Justino, o filósofo, Justino, o mártir (+167), pode servir de figura sintomática deste acesso ao cristianismo: estudara todas as filosofias e por fim reconhecera no cristianismo a vera philosophia. Estava convencido de que ao se tornar cristão não renegara a filosofia, mas só então se tornara filósofo de verdade. A convicção de que o cristianismo seja uma filosofia, a filosofia perfeita, aquela que conseguiu penetrar até a verdade, permanecerá em vigor ainda por muito tempo depois da época patrística. Era ainda absolutamente atual no século XIV, na teologia bizantina de Nicolas Cabasilas. Sem dúvida, não se entendia a filosofia como uma disciplina acadêmica de natureza puramente teórica, mas também e sobretudo, num plano prático, como a arte de bem viver e de bem morrer, que porém só pode ter bom êxito à luz da verdade.

A união da racionalidade e da fé que se realizou no desevolvimento da missão cristã e na construção da teologia cristã trouxe, porém, correções decisivas à imagem filosófica de Deus, duas das quais devem ser principalmente mencionadas. A primeira consiste no fato de que o Deus em que os cristão crêem e que veneram, ao contrário dos deuses míticos e políticos, é realmente natura Deus; nisto ele satisfaz as exigências da racionalidade filosófica. Mas ao mesmo tempo vale o outro aspecto: non tamen omnis natura est Deus; nem tudo o que é natureza é Deus. Deus é Deus por sua natureza, mas a natureza como tal não é Deus. Cria-se uma separação entre a natureza universal e o Ser que a fundamenta, que lhe da a sua origem. Só então a física e a metafísica chegam a uma clara distinção uma da outra. Só o verdadeiro Deus que podemos reconhecer por meio do pensamento na natureza é objeto de oração. Mas é mais que a natureza. Precede-a, ela é a sua criatura. A esta separação entre a natureza e Deus acrescenta-se uma segunda descoberta, ainda mais decisiva: não se podia rezar a deus, à natureza, à alma do mundo ou ao que quer que fosse; não era um “deus religioso”, como vimos. Agora, e é o que já diz a fé do Antigo Testamento e mais ainda a do Novo Testamento, aquele Deus que antecede a natureza voltou-se para os homens. Não é um Deus silencioso, justamente porque não é só natureza. Entrou na história, veio ao encontro do homem, e assim agora o homem pode encontrá-lo. Pode ligar-se a Deus porque Deus se ligou ao homem. As duas dimensões da religião, que estavam sempre separadas uma da outra, a natureza eternamente dominadora e a necessidade de salvação do homem que sofre e luta, são ligadas uma à outra. A racionalidade pode tornar-se religião, porque o Deus da racionalidade entrou ele próprio na religião. O elemento que a fé reivindica como próprio, a Palavra histórica de Deus, é de fato o pressuposto para que a religião possa agora voltar-se para o deus filosófico, que não é mais um deus puramente filosófico e que tampouco repugna ao conhecimento da filosofia, mas o assume. Aqui se manifesta algo espantoso: os dois princípios fundamentais do cristianismo, aparentemente em contraste, o laço com a metafisica e o laço com a história, se condicionam e se relacionam um com o outro; constituem juntos a apologia do cristianismo enquanto religio vera.

Se, portanto, se pode dizer que a vitória do cristianismo sobre as religiões pagãs se tornou possível não por último pela sua pretensão à razoabilidade, cumpre acrescentar que a este está ligado um segundo motivo da mesma importância. Consiste, antes de tudo, para falar de um modo absolutamente geral, na seriedade moral do cristianismo, característica que, de resto, Paulo já havia igualmente relacionado com a razoabilidade da fé cristã: aquilo a que, no fundo, tende a lei, as exigências essenciais reveladas pela fé cristã, de um Deus único para a vida do homem, corresponde àquilo que o homem, cada homem, traz escrito no coração, de tal modo que quando se apresenta a ele, reconhece-o como Bem. Corresponde ao que «é bom por natureza» (Rm 2, 14s). A alusão à moral estóica, à sua interpretação ética da natureza, é aqui manifesta tanto quanto em outros textos paulinos, por exemplo na Epístola aos Filipenses (Fil 4, 8: «Tudo o que é verdadeiro, nobre, justo, puro, amável, honrado, o que é virtude e merece louvor, tudo isto seja objeto dos vossos pensamentos»).

Assim, a fundamental (embora crítica) unidade com a racionalidade filosófica, presente na noção de Deus, se confirma e se concretiza agora na unidade, também ela crítica, com a moral filosófica. Como no campo do religioso o cristianismo superava os limites de uma escola de sabedoria filosófica justamente pelo fato de que o Deus pensado se deixava encontrar como um Deus vivo, assim também houve aqui uma superação da teoria ética numa práxis moral, comunitariamente vivida e concretizada, na qual a perspectiva filosófica era transcendida e transposta na ação real, em particular graças ao fato de concentrar toda a moral no duplo mandamento do amor de Deus e do próximo. O cristianismo, poderíamos dizer simplificando, convencia graças ao vínculo da fé com a razão e graças à orientação da ação para a caritas, o cuidado amoroso dos que sofrem, dos pobres e dos fracos, para além de toda diferença de condição. Que fosse esta a força íntima do cristianismo pode-se ver com segurança e clareza no modo como o imperador Juliano procurou restabelecer o paganismo sob uma forma renovada. Ele, o pontifex maximus da restabelecida religião dos antigos deuses, tratou de instituir, o que nunca existira antes, uma hierarquia pagã, composta de sacerdotes e metropolitas. Os sacerdotes deviam ser exemplos de moralidade; deviam dedicar-se ao amor de deus (a divindade suprema entre os deuses) e do próximo. Eram obrigados a realizar atos de caridade para com os pobres, não lhes era mais permitido ler as comédias licenciosas e os romances eróticos, e deviam pregar nos dias de festa sobre um tema filosófico para instruir e formar o povo. Teresio Bosco diz corretamente, a este respeito, que o imperador procurava assim, na realidade, não restabelecer o paganismo, mas cristianizá-lo numa síntese, limitada ao culto dos deuses, de racionalidade e religião.

Voltando o olhar para trás, podemos dizer que a força que transformou o cristianismo numa religião mundial consistiu na sua síntese entre razão, fé e vida; é precisamente esta síntese que é sintetizada na expressão religio vera. E com maior razão se impõe então a pergunta: por que essa síntese não convence mais hoje? Por que a racionalidade e o cristianismo são, ao contrário, considerados hoje contraditórios e até reciprocamente excludentes? Que mudou na racionalidade? Que mudou no cristianismo?

Certa vez o neoplatonismo, em particular Porfírio, opusera à síntese cristã um outra interpretação da relação entre filosofia e religião, uma interpretação que pretendia ser uma refundação filosófica da religião politeísta. Hoje é justamente esse modo de harmonizar a religião e a racionalidade que parece impor-se como a forma de religiosidade adaptada à consciência moderna.

Porfírio assim formula a sua primeira idéia fundamental: Latet omne verum – a verdade esconde-se. Lembremo-nos da parábola do elefante, marcada justamente por essa concepção em que budismo e neoplatonismo se encontram. Na base da qual não há nenhuma certeza sobre a verdade, sobre Deus, mas tão só opiniões. Na crise romana de fins do século IV, o senador Símaco – imagem especular de Varrão e da sua teoria da religião – expôs a concepção neoplatônica em algumas fórmulas simples e pragmáticas, que podemos encontrar no discurso pronunciado no ano de 384 diante do imperador Valentiniano II, em defesa do paganismo e em favor da recolocação da deusa Vitória no Senado de Roma. Cito apenas a frase decisiva, que se tornou célebre: «È o mesmo o que todos nós veneramos, uma só coisa o que pensamos, contemplamos as mesmas estrelas, um só é o céu que está sobre nós, é o mesmo o mundo que nos circunda; que importam os diversos tipos de sabedoria através dos quais cada um busca a verdade? Não se pode chegar a um mistério tão grande por um único caminho».

È exatamente isso que hoje a racionalidade afirma: não conhecemos a verdade enquanto tal; nas imagens mais diversas, no fundo, visamos à mesma coisa. Tão grande mistério, o divino, não pode ser reduzido a uma única figura que exclua todas as outras, a um único caminho que vincule a todos. Há muitos caminhos, há muitas imagens, todas refletem algo do todo e nenhuma delas o todo. O ethos da tolerância pertence a quem reconhece em cada uma delas uma parte de verdade, a quem não coloca a sua mais alto do que as outras e se insere tranqüilamente na sinfonia polimorfa do eterno Inacessível. Este, na realidade, esconde-se atrás de símbolos, mas esses símbolos parecem ser a nossa única possibilidade de chegar de certa maneira à divindade.

A pretensão do cristianismo a ser a religio vera seria, pois, superada pelo progresso da racionalidade? Vê-se pois obrigado a reduzir as suas pretensões e a inserir-se na visão neoplatônica ou budista ou hindu da verdade e do símbolo, a contentar-se, como propusera Ernst Troeltsch, em mostrar da face de Deus a parte voltada para a Europa? Deve-se talvez dar um passo a mais do que Troeltsch, que ainda considerava o cristianismo a religião adequada à Europa, levando em conta o fato de que hoje a própria Europa duvida que ela seja adequada? Esta é a verdadeira pergunta que hoje a Igreja e a teologia devem enfrentar. Todas as crises dentro do cristianismo que observamos nos dias de hoje se baseiam de fato apenas secundariamente em problemas institucionais.

Os problemas das instituições, assim como os das pessoas na Igreja, derivam em última instância desta questão e do enorme peso que ela tem. Ninguém espera, no fim do segundo milênio cristão, que esta provocação fundamental encontre, mesmo apenas de longe, resposta definitiva numa conferência. Não pode absolutamente receber respostas puramente teóricas, assim como a religião, enquanto atitude última do homem, nunca é apenas teoria. Exige aquela combinação de conhecimento e de ação, sobre a qual se fundava a força persuasória do cristianismo dos Padres.

Isto não significa de modo nenhum que possamos furtar-nos à urgência que o problema tem do ponto de vista intelectual, remetendo à necessidade da prática. Buscarei, para terminar, apenas abrir uma perspectiva que poderia indicar a direção. Vimos que a originária unidade relacional, jamais porém completamente adquirida, entre racionalidade e fé, à qual enfim Tomás de Aquino deu uma forma sistemática, foi dilacerada menos pelo desenvolvimento da fé do que pelos novos progressos da racionalidade. Como etapas desta mútua separação poderíamos citar Descartes, Spinoza, Kant. A nova síntese englobante tentada por Hegel não restitui à fé o seu lugar filosófico, mas tende a convertê-la em razão e eliminá-la como fé. A esta absolutização do espírito, Marx opõe a unicidade da matéria; a filosofia deve então ser completamente reduzida à ciência exata. Só o conhecimento científico exato é conhecimento. Com isso é despedida a idéia do divino.

A profecia de Auguste Comte, que disse que um dia haveria uma física do homem e as grandes perguntas até hoje entregues à metafisica no futuro seriam tratadas “positivamente” como tudo o que já é hoje ciência positiva, deixou um eco impressionante no nosso século, nas ciências humanas. A separação entre a física e a metafísica realizada pelo pensamento cristão ficou cada vez mais abandonada. Tudo deve voltar a ser “física”.

A teoria da evolução foi cristalizando-se como o caminho para fazer desaparecer definitivamente a metafísica, para tornar supérflua a «hipótese de Deus» (Laplace) e formular uma explicação do mundo estritamente “científica”. Uma teoria da evolução que explique de modo global o conjunto de todo o real tornou-se uma espécie de “filosofia primeira” que representa, por assim dizer, o autêntico fundamento da compreensão racional do mundo. Toda tentativa de pôr em jogo causas diferentes das que uma teoria “positiva” elabora, toda tentativa de “metafísica” parece necessariamente uma recaída aquém da razão, um decair da pretensão universal da ciência. Mesmo a idéia cristã de Deus é necessariamente considerada não científica. A esta idéia não corresponde mais nenhuma theologiaphysica: a única theologia naturalis é, nesta visão, a doutrina evolucionista, e ela não conhece nenhum Deus, nenhum Criador no sentido do cristianismo (do judaísmo e do islã), nem nenhuma alma do mundo ou dinamismo interior no sentido da Stoa. Eventualmente se poderia, em sentido budista, considerar o mundo inteiro como uma aparência, e o nada como a autêntica realidade, e justificar neste sentido as formas místicas de religião, que pelo menos não estão em direta concorrência com a razão.

Fica assim dita a última palavra? A razão e o cristianismo ficam assim definitivamente separados uma do outro? Estejam as coisas como estiverem, não é discutido o alcance da doutrina evolucionista como filosofia primeira e a exclusividade do método positivo como único tipo de ciência e de racionalidade. É preciso que esta discussão seja iniciada por ambas as partes, com serenidade e disponibilidade a escutar, o que até agora só aconteceu de maneira insatisfatória. Ninguém poderia duvidar seriamente das provas científicas dos processos microevolutivos. Reinhard Junker e Sieghfried Scherer dizem a este respeito em seu Kritisches Lehrbuch sobre a evolução: «Tais fenômenos [os processos microevolutivos] são bem conhecidos a partir dos processos naturais de variação e de formação. O seu exame por meio da biologia evolutiva levou a conhecimentos significativos acerca da extraordinária capacidade de adaptação dos sistemas vivos». Dizem, neste sentido, que se pode com razão caracterizar a pesquisa sobre a origem como a disciplina rainha da biologia. A pergunta que um crente pode colocar-se diante da razão moderna não é sobre isso, mas sobre a extensão de uma philosophiauniversalis que ambiciona tornar-se uma explicação geral do real e tende a não consentir mais nenhum outro nível de pensamento. Na própria doutrina evolucionista, apresenta-se o problema quando se passa da micro à macroevolução, passagem acerca da qual Szamarthy e Maynard Smith, ambos defensores de uma teoria evolucionista abrangente, admitem também: «Não há motivos teóricos que permitam pensar que as linhas evolutivas aumentem em complexidade com o tempo; não há sequer provas empíricas de que isso aconteça».

A pergunta que agora é necessário propor vai mais em profundidade: trata-se de saber se a doutrina evolucionista pode apresentar-se como uma teoria universal de todo o real, além da qual as ulteriores perguntas acerca da origem e da natureza das coisas não sejam mais lícitas nem necessárias, ou se as perguntas últimas do gênero não ultrapassam o campo da pura pesquisa científico-natural. Gostaria de propor a pergunta de modo ainda mais concreto. Diz realmente tudo uma resposta como a que encontramos, por exemplo, na seguinte formulação de Popper: «A vida, tal como a conhecemos, consiste em “corpos” físicos (ou melhor: em processos e estruturas) que resolvem problemas. Que as diversas espécies tenham “aprendido” através da seleção natural, ou seja, através do método de reprodução mais variação; método que, por sua vez, foi aprendido segundo o mesmo método. È uma regressão, mas não é infinita…»? Realmente não creio. Afinal de contas, trata-se de uma alternativa que não se pode mais resolver simplesmente nem no nível das ciências naturais nem, no fundo, tampouco no da filosofia. Trata-se de saber se a razão, ou o racional, se acha ou não no princípio de todas as coisas e em seu fundamento. Trata-se de saber se o real nasceu com base no acaso e na necessidade (ou, com Popper, de acordo com o Butier de Luck and Cunning [acaso feliz e previsão]), e portanto daquilo que é sem razão, se, em outras palavras, a razão é um produto casual e marginal do irracional, insignificante, enfim, no oceano do irracional, ou se permanece verdadeira aquela que é a convicção fundamental da fé cristã e da sua filosofia: In principio erat Verbum – no princípio de todas as coisas está a força criadora da razão. A fé cristã é hoje como ontem a opção pela prioridade da razão e do racional. Esta pergunta última não pode mais, como já ficou dito, ser resolvida através de argumentos tirados das ciências naturais, e o próprio pensamento filosófico aqui se vê bloqueado. Neste sentido, não se pode fornecer nenhuma prova última da opção cristã fundamental. Mas pode a razão, em última instância, sem renegar a si mesma, renunciar à prioridade do racional sobre o irracional, ao Logos como princípio primeiro? O modelo hermenêutico proposto por Popper, que aparece sob diversas formas em outras apresentações da “filosofia primeira”, demonstra que a razão não pode deixar de pensar mesmo o irracional segundo a sua medida, e, portanto, racionalmente (resolver problemas, elaborar métodos!), restabelecendo assim, implicitamente, o primado contestado da razão. Com a sua opção a favor do primado da razão, o cristianismo permanece ainda hoje “racionalidade”, e acho que uma racionalidade que se desfizesse desta opção necessariamente significaria, contrariamente às aparências, não uma evolução, mas uma involução da racionalidade.

Vimos anteriormente que na concepção do primeiro cristianismo as noções de natureza, homem, Deus,ethos e religião estavam indissoluvelmente ligadas uma à outra e que esse nexo justamente ajudara o cristianismo a ver claro na crise dos deuses e na crise da antiga racionalidade. O orientar-se da religião rumo a uma visão racional do real, o ethos como parte desta visão e a sua aplicação concreta sob o primado do amor, associaram-se um ao outro. O primado do Logos e o primado do amor revelaram-se idênticos. O Logos não apareceu mais só como razão matemática na base de todas as coisas, mas como amor criador, até tornar-se com-paixão para com a criatura. A dimensão cósmica da religião que venera o Criador na potência do ser, e a sua dimensão existencial, a questão da redenção, se compenetraram e se tornaram uma só coisa. De fato, uma explicação do real que não pode de modo sensato e compreensivo fundar um ethos permanece necessariamente insuficiente. Ora, é um fato que a teoria evolucionista, quando ameaça ampliar-se como philosophia universalis, tenta fundar um novoethos com base na evolução. Mas esse ethos evolucionista, que encontra inelutavelmente a sua noção chave no modelo da seleção e, portanto, na luta pela sobrevivência, na vitória do mais forte, na adaptação bem-sucedida, tem pouco de consolador a oferecer. Mesmo quando tentam embelezá-lo de vários modos, ele permanece em última análise um ethos cruel. O esforço por distilar o racional a partir de uma realidade insensata em si mesma fale aqui de modo evidente. Tudo isso bem pouco serve para aquilo de que precisamos: uma ética de paz universal, do amor prático do próximo e do necessário ir além do particular.

A tentativa de devolver, nesta crise da humanidade, um sentido compreensível à noção de cristianismo como religio vera deve, por assim dizer, apontar igualmente para a ortopraxia e para a ortodoxia. No nível mais profundo, o seu conteúdo deverá consistir, hoje – como sempre, em última análise -, no fato de que o amor e a razão coincidem enquanto verdadeiras colunas fundamentais do real: a razão verdadeira é o amor, e o amor é a razão verdadeira. Na sua unidade são eles o verdadeiro fundamento e finalidade de todo o real.

Fonte:http://www.angelfire.com/ult/bentoxvi/Vitoria.html

Retirado do Site:Teismo.net

Santo Agostinho[2010] O filme

Entendendo a Inquisição I: – A Igreja após a queda de Roma

Antes de falarmos diretamente sobre Inquisição, é preciso que entendamos como a Igreja estabeleceu-se de maneira tão profunda na cultura européia.

É sabido por artigos anteriores que os primeiros católicos foram severamente perseguidos por Roma nos primeiros séculos da era cristã. Motivados pelo fato de os cristãos não aderirem aos cultos pagãos (em sua maioria a própria figura divinizada do imperador) e professarem uma fé universal (por isso católica) em Cristo Jesus, os romanos atiravam cristãos aos leões nos circos e arenas promovendo espetáculos que tinham intuito de promover entendimento e coibir a conversão ao cristianismo.

Porem, como disse o escritor Tertuliano, convertido ao cristianismo depois de muitos anos combatendo-o veementemente, “O sangue dos mártires é a semente dos cristãos”. Assim, cumpria-se cada vez mais a promessa de Nosso Senhor a Pedro, garantindo que as portas do inferno não prevaleceriam e nem prevalecerão sobre a Igreja (Mt 16,18).

O fruto desta Santa Resistência foi colhido apenas no século IV, quando o imperador Constantino no ano de 313 declarou licito o culto cristão e além disso o tornou religião oficial do Estado.

Porem, crises financeiras e muitas disputas internas e externas por poder faziam com que o império se enfraquecesse. Os frutos deste enfraquecimento foram diversas guerras internas que inicialmente dividiram o império romano em dois. O Ocidental, com capital em Roma e um Oriental, com capital em Constantinopla.

Este enfraquecimento fez com que diversas invasões de povos Bárbaros (palavra oriunda de blá-blá-blá, ou seja, povos que falavam línguas que não se compreendia em Roma) vindos de todas as direções e que avançavam aos poucos pelas fronteiras do Império Romano Ocidental.

Godos, ostrogodos, visigodos, suevos, francos, germânicos, eslavos (compreendendo centenas etnias e tribos diferentes), vândalos, saxões, anglos, unos são exemplos de tribos bárbaras que aos poucos foram conquistando a Europa, reduzindo assim as fronteiras até o ponto de tomarem a capital romana oriental em 476 dc, o bárbaro Odorico depôs Rômulo Augusto e proclamou-se “patrício” dos romanos.

Um longo processo de modificação do império teve inicio, sempre embaixo de guerras sangrentas, cruéis perseguições, massacres, intolerância que moldaram o que viria a ser a sociedade medieval dos séculos seguintes.

Você pode estar se perguntando, como a Igreja se enquadrou neste turbilhão de transformações politicas, sociais, ideológicas e religiosa.

Sem duvida nenhuma se hoje você está lendo este artigo, seja você católico ou não, deve muito a Santa Igreja de Cristo. O fato de ela ser Católica (professa a mesma fé da mesma maneira em todos os lugares, ou seja, universal) foi vital para que a sociedade ocidental que conhecemos hoje se estabelecesse.

Todos esses povos que citamos acima, estavam longe de viverem em harmonia entre si. É fato conhecido que inúmeras e violentas guerras entre estas tribos foram travadas e a ação pacificadora da Igreja foi fundamental para que a paz fosse estabelecida entre esses povos.

Outra coisa que é importante lembrar é que todos esses povos eram nômades, isto é, viviam em acampamentos temporários, consumindo os recursos de uma determinada região e quando estes se esgotavam, dirigiam-se para outro lugar, o que gerava conflitos com possíveis grupos que por acaso já estivesses na região. Não havia cultura entre esses povos. Arte e ciências eram extremamente escassas, assim como tratamentos de saúde, educação, e serviços básicos que os romanos já a muito gozavam.

Neste cenário, o conhecimento arreigado pela Igreja de agricultura, letras, ciências e medicina propiciaram que esses povos se fixassem em um local (sedentarismo), extinguindo a necessidade de deslocamentos e guerras por territórios provisórios.

Já no século III, um movimento maravilhoso surgiu no seio da igreja. O monaquismo (vida em regime monastico, ou seja, como um monge). Porem foi no século IV e V que o movimento se expandiu com força extraordinária, muito em função de um gigante da Igreja e com certeza uma das pessoas mais influentes e importantes da história humana. Este homem foi São Bento (480-547) que com sua humildade, cultura extraordinária e sua Regra propiciaram a crianção de um método simples e muito efetivo de evangelização e educação dos povos bárbaros, unindo-os pela fé no Cristo e na Santa Igreja.

Foram os Beneditinos (Monges Seguidores da regra de São Bento) que literalmente colonizaram a Europa, aplacando conflitos e divergencias sociais.

Em nossos dias, podemos ver que diversas cidades européias tem seu marco zero um mosteiro, uma paróquia ou uma catedral (Pariz – Notre-Dame; Londres –Canterbury; Cassino – Abadia Monta Cassino, dentre outras) . Isto acontecia pelo fato desses monastérios possuirem escolas, hospitais, artes e catequese acessíveis a todos os níveis sociais.

Os monges ensinaram os bárbaros o cultivo da terra, leitura, escrita, artes, mossonaria (arte de construir com blocos de pedra, tijolos e alvenaria), ciência naturais e exatas (engenharia, geometria e matemática).

Não é dificil assim vermos que toda sociedade a partir da alta idade média (476-1000 DC) foi construída sobre as bases fundamentais do cristianismo católico e sem ele, a sociedade bárbara iria se auto-destruir por seus métodos violentos e desumanos.

É importante ver que muitos destes resquicios, apensar dos grandes esforços da Igreja, continuaram por muitos e muitos séculos subsequentes, impelindo a Igreja a combater tais costumes de maneira veemente e incansável.

Ficamos por aqui. Espero que este artigo seja de muita utilidade para você amigo leitor intender a importância da Santa Igreja de Cristo para a história do mundo ocidental e os motivos pelo qual o Estado e a Igreja eram tão interligados. Afinal, sem a universalidade(catolicismo) da igreja, provavelmente o mundo seria bem diferente do que conhecemos hoje.

No próximo artigo, abordaremos o comportamento social, politico e judicial na Idade Média. Iremos abordar a mentalidade popular deste período, costume e ver descobrir por quê alguns métodos jurídicos e penais atribuídas de maneira erronea a Igreja na Inquisição eram na verdade costumes bárbaros cuja Igreja era veemente contrária e feroz combatente, ao ponto de excomungar reis e membros do alto escalão da nobresa da época.

Um abraço a todos e até o próximo artigo. Que o amor do Pai, a comunhão do Filho e a fortaleza do Espirito Santo estejam com todos vocês!!!

Fontes:CARDINI, Franco – Atlas Histórico do Cristianismo para Jovens – Editora Cidade Nova – São Paulo – 2007.Wikipedia: http://wikipedia.org.brWoods, Thomas E. – How the Catholic Church Built the Western Civilization – Ragnery Publishing Inc – 2005
Fontes:

* CARDINI, Franco – Atlas Histórico do Cristianismo para Jovens – Editora Cidade Nova – São Paulo – *

* 2007.Wikipedia: http://wikipedia.org.br

*Woods, Thomas E. – How the Catholic Church Built the Western Civilization – Ragnery Publishing Inc – 2005
Autor:RODOLPHO NICOLAU DA LUZ LORETO
Editor:Pardal

Fonte:http://www.veritatis.com.br/apologetica/artigospapaprimado/963-entendendo-a-inquisicao-i–a-igreja-apos-a-queda-de-roma

A cegueira na inteligência dos protestantes

Me entristeço cada vez mais quando troco email com irmãos protestantes acerca das coisas da fé. Os argumentos deles continuam baseados em “achismos”, teses fantásticas, ginásticas mentais e outros tantos recursos que uma mente obscurecida da razão se utiliza para fundamentar o infundamentável e defender e o indefensável.

Vejamos alguns exemplos desta loucura:

– Embora os cristãos que ouviram a pregação do Evangelho da boca dos próprios Apóstolos, foram seus seguidores e discípulos, tenham deixado para nós o testemunhho da fé da Igreja Primitiva, eles preferem o testemunho dos Reformadores que nasceram 1500 anos depois e que nem conheceram os Apóstolos.

– Embora mostremos através de documentos históricos, escritos antigos, que a Igreja Católica sempre teve autoridade para definir questões de fé e moral para todos os cristãos (um exemplo são as definições dos Concílios Ecumênicos) , eles dizem que somente a Bíblia possui esta autoridade, como podem dizer isto, quando sabem que foi a Igreja Católica que definiu a Bíblia através da autoridade que eles dizem que a Igreja não tem?

– Todos já ouviram falar sobre os Concílios Ecumênicos (eram as reuniões dos Bispos do mundo inteiro para tratar de alguma divergência doutrinária surgida no ceio da Igreja) e sabem que a Igreja Antiga utilizava dos Concílios para resolver questões de fé e moral. No entanto alegam que a Igreja não tem qualquer autoridade para defnir questões de fé e moral, que isto é papel da Bíblia, sabendo que esta foi definida nos Concílios Ecumênicos pela Autoridade que dizem que a Igreja não tem.

– Alegam (de forma totalmente arbitrária) que a Igreja Católica definiu a Bíblia nos Concílios para fazer dela a única Regra de fé e não aceitam 7 livros do AT que constam na Bíblia que a Igreja definiu.

– Para os protestantes históricos, as confissões protestantes históricas possuem autoridade para definir seu corpo doutrinário, mas a Igreja Católica que sempre definiu questões de fé e moral para todos os cristãos, como foi muito bem registrado na história dos Concílios, não tem esta autoridade.

– Consideram a Igreja Católica traídora do Evangelho e quando vivem dentro do Protestantismo uma verdadeira Babel Bíblica.

– Alegam que a Igreja deve ser sempre legitimada pela Bíblia quando sabem que a legitimação da Bíblia dependeu da Igreja.

– Sabem que desde o Concílio Regional de Hipona (393 d.C) e do Concílio Ecumênico de Cartago (431 dC) a Igreja Católica reconhece os livros 7 livros deuterocanônicos do AT como canônicos, mas continuam afirmando que a Igreja incluiu estes livros na Bíblia durante o Concílio de Trento.

– Sabem que os 7 livros deuterocanônicos do AT constam na Bíblia de Guttember (primeiro livro impresso da história. 1460 dC) que é anterior à Reforma, e dizem que estes livros nunca estiveram na Bíblia e que foram incluídos pela Igreja durante o Concílio de Trento.

– Embora alguns tenham a oportunidade de conhecer os escritos dos primeiros cristãos e que 90 % destes escritos dêem testemunho de que a Tradição dos Apóstolos e o Magistério da Igreja sempre foram considerados também como Palavra de Deus, preferem ficar com os 10% que aparentam fundamentar a fé na Sola Scritpura.

– Embora demonstremos que qualquer ponto doutrinário da fé católica apresenta seu paralelo na fé da Igreja Primitiva (mostrando a fé Primitiva através dos escritos dos primeiros Cristãos), preferem ficar com o que entenderam da Bíblia e ainda alegam que este entendimento é a autência fé Primitiva.

Quem lê os itens acima vai pensar que é coisa de doido, mas eu acho isso náo é doidice não… é bem mais grave. Me lembra algo que aconteceu no tempo do Profeta Isaías:

“O boi conhece o seu possuidor, e o asno, o estábulo do seu dono; mas Israel não conhece nada, e meu povo não tem entendimento.” (Is 1,3)

Algo fechou o entendimento de nossos irmãos protestantes para a Verdade. Faz-se oportuno aqui transcrever um trecho de uma bela obra:

“A naja é uma serpente terrível. Ela cospe seu veneno a dois metros de distância. Apontando para os olhos da vítima, cega-a, temporária ou definitivamente, e assim essa se torna presa fácil.

Desde as nossas origens, a serpente tem o triste privilégio de representar o demônio, em razão da malícia e da mordida mortal que a caracteriza. Parece no entanto que, passados alguns séculos, a técnica demoníaca evoluiu. Não contente em nos morder o calcanhar, como a víbora, descobriu um veneno que nos cega. A víbora tornou-se naja. Vejamo-lo.

No início do Cristianismo, o demônio atacava a fé suscitando heresias. Mas a Igreja valeu-se dessas negações fazendo delas ocasiões para proclamar seus dogmas, ainda com mais clareza. “Oportet haeresses esse”, é preciso [conveniente] que haja heresias (1 Cor. 11, 19). Para fazer surgir almas e uma Igreja negadoras do objeto da fé, seria preciso cegar a inteligência humana, tornar-lhe impossível qualquer contato com o verdadeiro. Assim fazendo, a fé se diluiria no relativismo, as almas se perderiam sem o saber.

Como é fácil de constatar, o atentado obteve êxito.

Quem nunca fez a seguinte experiência: falar durante uma hora com uma pessoa com o propósito de levá-la de volta à Igreja; argumentar com toda a sabedoria; responder claramente a todas as suas objeções; e, no entanto, ouvi-la dizer ao desperdir-se: “Tudo o que você disse é interessante, mas é a sua verdade. O que importa é estar bem onde nos encontramos”? Ou: “Muito bem… tudo isso é verdade… no passado”.

Essas reflexões revelam um mal profundo e universal. De fato, dizer que a verdade é subjetiva é atentar contra a nossa própria inteligência, na sua estrutura íntima e nos seu exercício natural. É interditar qualquer conhecimento verdadeiro.

Nesta análise, seguiremos o Papa S. Pio X na sua Encíclica Pascendi (8 de dezembro de 1907). Sua Santidade enxergou numa falsa teoria do conhecimento – o agnosticismo – o ponto de partida do modernismo (§6). E assim resume suas causas: “Trata-se da aliança da falsa filosofia com a fé [cega], as quais, ao se misturarem, formam uma massa [densa, opaca, gigantesca e mostruosa] cheia de erros, danificando o sistema da fé” (§58).

Entre os remédios contra o modernismo, S. Pio X destaca, como “o melhor”, “o ensino da filosofia que nos legou o Doutor Angélico” (Santo Tomás). E advertiu os professores “de que desprezar Santo Tomás, sobretudo nas questões metafísicas, traz prejuízos graves” (§63). “.

(A VERDADE , Ir. Jean-Dominique, O.P., Edições Santo Tomás, 2003.)

Aí está, meus irmãos, o drama moderno que nós vivemos. Como falar a alguém que está lesado no seu “DNA da inteligência”?

Mais uma vez, tenho que dar razão ao meu amigo e professor Carlos: “Onde não há virtudes naturais a graça não pode operar”.

Fonte:http://www.veritatis.com.br/apologetica/protestantismo/778-a-cegueira-na-inteligencia-dos-protestantes

Como entender a Frase “Fora Da Igreja Não Há Salvação” ?

Devido a muitas dúvidas levantadas por alguns protestantes e afirmações feitas por alguns tradicionalistas radicais que excluem a graça de Cristo na vida daqueles que O buscam seguir, resolvi postar aqui está matéria que explica de forma simples, usando as mesmas palavras e atitudes de um Papa tido como notável para os tradicionalistas, explicar esta frase titulo do texto.

Quem explicará será um Bispo muito Sábio Dom Henrique Sores, bispo auxíliar de aracajú.

—————————————————————————————————————————————————

O  caso de excomunhão por parte de Pio XII .

Aqui vão os detalhes: Pelos anos 40 do século passado, alguns membros do St. Benedict’s Center e do Boston College interpretavam de modo contrário ao sentir da Igreja a fórmula da Tradição “Fora da Igreja não há salvação”. Segundo esses, todas as pessoas que não fossem católicas estariam excluídas da salvação eterna. O Santo Padre Pio XII condenou tal pensamento na Encíclica Mystici Corporis e excomungou o teólogo Leonard Feeney, em 1953, por manter teimosamente tal pensamento. Eis alguns trechos da Carta do Santo Ofício ao Arcebispo de Boston, sobre o assunto, escrita sob a autoridade de Pio XII. Vou comentá-la…


Entre as coisas que a Igreja sempre pregou e nunca deixará de pregar está também a afirmação infalível que nos ensina que “fora da Igreja não há salvação”. Este dogma, porém, deve ser entendido no sentido em que a própria Igreja o entende. Com efeito, não é ao juízo privado que nosso Salvador confiou a explicação do que está contido no depósito da fé, mas ao magistério eclesiástico.

Ninguém será salvo se, sabendo que a Igreja foi divinamente instituída por Cristo, todavia não aceita submeter-se à Igreja ou recusa obediência ao Romano Pontífice, vigário de Cristo na terra.

Na sua infinita misericórdia, Deus quis que os efeitos necessários para a salvação provenientes destes meios de salvação… fossem também obtidos, em certas circunstâncias, quando este meios são acionados só pelo voto ou desejo… Pois, para que alguém obtenha a salvação eterna não é sempre necessário que seja efetivamente incorporado à Igreja como membro, mas requerido é que lhe esteja unido por voto e desejo. Todavia, não é sempre necessário que este voto seja explícito… mas, quando o homem é vítima de ignorância invencível, Deus aceita também o voto implícito, chamado assim porque incluído na boa disposição de alma pela qual essa pessoa quer conformar sua vontade à vontade de Deus… (Denz 3866-3872).

Não se pode compreender como um religioso, a saber, o Pe. Feeney, se pode apresentar como “defensor da fé”, se ao mesmo tempo não hesita em combater a instrução catequética proposta pelas autoridades legítimas.. (Denz 3873).


Observação minha:

1. Fiz questão de citar este texto porque é do pontificado do Santo Padre Pio XII, o herói dos tradicionalistas e, no ver deles, o último papa autêntico e sério.

2. Observem bem como o texto adverte que ninguém deve pretender interpretar os textos do Magistério modificando o sentido que o próprio Magistério lhes dá! Isso os tradicionalistas deveriam aprender, eles que ficam citando textos magisteriais fora do contexto, como os protestantes fundamentalistas fazem com as Escrituras. É clara a queixa do documento aprovado por Pio XII: “Não se pode compreender como um religioso, a saber, o Pe. Feeney, se pode apresentar como ‘defensor da fé’, se ao mesmo tempo não hesita em combater a instrução catequética proposta pelas autoridades legítimas…”

3. Vamos à doutrina ensinada aqui: Pio XII ensina que a fórmula “Fora da Igreja não há salvação” é dogma de fé. É verdade! Mas, adverte que não pode ser compreendida no sentido restritivo: quem não é católico não se salva. Eis a explicação: O meio ordinário, meio querido por Deus, para a salvação é entrar e permanecer na Igreja católica. Mas, todo aquele que sem culpa, está fora da Igreja, pode se salvar pela imensa misericórdia de Deus. O próprio Concílio de Trento, ao tratar do Batismo e da Penitência, já havia acenado para tal possibilidade, pois nunca foi fé da Igreja que quem não é católico não se salva. Tal interpretação é herética!

4. O Concílio Vaticano II, seguindo os passos da antiga Tradição, expressa nas Escrituras, nos primeiros Santos Padres, como São Justino e Santo Irineu, bem como no magistério de Pio XII, desenvolveu de modo mais orgânico e completo esta doutrina: Cristo é o Salvador de todos e não há salvação fora dele. Todo aquele que se salva – mesmo que, sem culpa, não reconheça o Cristo como Salvador – somente será salvo porque Cristo morreu por todos, de modo que, fora de Cristo não há salvação. Ora, a Igreja, como Corpo de Cristo, é ministra de tal salvação. Toda salvação possível dá-se pelo ministério da Igreja. Assim, todo aquele que, sem culpa, não entre ou não permanece na Igreja, se for reto de consciência e verdadeiramente buscar a Deus do melhor modo que lhe for possível, pode, graças à salvação que Cristo obteve e a Igreja ministra, alcançar a salvação.

5. Com tal doutrina, o Concílio, seguindo a Tradição da Igreja, mantém unidas duas afirmações: 1) A Igreja é necessária para a salvação e todos são chamados a ela; e 2) É possível para um não-católico ou não-cristão sincero a salvação por meios que só Deus conhece, pois que Cristo, cabeça da Igreja, morreu por todos.

Fonte:http://sadoutrina.wordpress.com/2011/01/07/como-entender-a-frase-fora-da-igreja-nao-ha-salvacao/

Por que sou católico

A dificuldade em explicar “Por que eu sou Católico” é que há dez mil razões para isso, todas se resumindo a uma única: o catolicismo é verdadeiro. Eu poderia preencher todo o meu espaço com sentenças separadas, todas começando com as palavras, “É a única coisa que …” Como, por exemplo, (1) É a única coisa que previne um pecado de se tornar um segredo. (2) É a única coisa em que o superior não pode ser superior; no sentido da arrogância e do desdém. (3) É a única coisa que liberta o homem da escravidão degradante de ser sempre criança. (4) É a única coisa que fala como se fosse a verdade; como se fosse um mensageiro real se recusando a alterar a verdadeira mensagem. (5) É o único tipo de cristianismo que realmente contém todo tipo de homem; mesmo o respeitável. (6) É a única grande tentativa de mudar o mundo desde dentro; usando a vontade e não as leis; etc.

Ou posso tratar o assunto de forma pessoal e descrever minha própria conversão; acontece que tenho uma forte impressão de que esse método faz a coisa parecer muito menor do que realmente é. Homens muito melhores, em muito maior número, se converteram a religiões muito piores. Preferiria tentar dizer, aqui, coisas a respeito da Igreja Católica que não se podem dizer mesmo sobre suas mais respeitáveis rivais. Em resumo, diria apenas que a Igreja Católica é católica. Preferiria tentar sugerir que ela não é somente maior que eu, mas maior que qualquer coisa no mundo; que ela é realmente maior que o mundo. Mas, como neste pequeno espaço, disponho apenas de uma pequena seção, abordarei sua função como guardiã da verdade.

Outro dia, um conhecido escritor, muito bem informado em outros assuntos, disse que a Igreja Católica é uma eterna inimiga das novas idéias. Provavelmente não ocorreu a ele que sua própria observação não é exatamente uma nova idéia. É uma daquelas noções que os católicos têm de refutar continuamente, porque é uma idéia muito antiga. Na realidade, aqueles que reclamam que o catolicismo não diz nada novo, raramente pensam que seja necessário dizer alguma coisa nova sobre o catolicismo. De fato, o estudo real da História mostrará que isso é curiosamente contrário aos fatos. Na medida em que as idéias são realmente idéias, e na medida em que tais idéias são novas, os católicos têm sofrido continuamente por apoiarem-nas quando elas são realmente novas; quando elas eram muito novas para encontrar alguém que as apoiasse. O católico foi não só o pioneiro na área, mas o único; e até hoje não houve ninguém que compreendesse o que se tinha descoberto lá.

Assim, por exemplo, quase duzentos anos antes da Declaração de Independência e da Revolução Francesa, numa era devotada ao orgulho e ao louvor aos príncipes, o Cardeal Bellarmine e Suarez, o Espanhol, formularam lucidamente toda a teoria da democracia real. Mas naquela era do Direito Divino, eles somente produziram a impressão de serem jesuítas sofisticados e sanguinários, se insinuando com adagas para assassinarem os reis. Então, novamente, os casuístas das escolas católicas disseram tudo o que pode ser dito e que constam de nossas peças e romances atuais, duzentos anos antes de eles serem escritos. Eles disseram que há sim problemas de conduta moral, mas eles tiveram a infelicidade de dizê-lo muito cedo, cedo de dois séculos. Num tempo de extraordinário fanatismo e de uma vituperação livre e fácil, eles foram simplesmente chamados de mentirosos e trapaceiros por terem sido psicólogos antes da psicologia se tornar moda. Seria fácil dar inúmeros outros exemplos, e citar o caso de idéias que são ainda muito novas para serem compreendidas. Há passagens da Encíclica do Papa Leão sobre o trabalho [conhecida como Rerum Novarum, publicada em 1891] que somente agora estão começando a ser usadas como sugestões para movimentos sociais muito mais novos do que o socialismo. E quando o Sr. Belloc escreveu a respeito do Estado Servil, ele estava apresentando uma teoria econômica tão original que quase ninguém ainda percebeu do que se trata. E então, quando os católicos apresentam objeções, seu protesto será facilmente explicado pelo conhecido fato de que católicos nunca se preocupam com idéias novas.

Contudo, o homem que fez essa observação sobre os católicos quis dizer algo; e é justo fazê-lo compreender muito mais claramente o que ele próprio disse. O que ele quis dizer é que, no mundo moderno, a Igreja Católica é, de fato, uma inimiga de muitas modas influentes; muitas delas ainda se dizem novas, apesar de algumas delas começarem a se tornar um pouco decadentes. Em outras palavras, na medida em que diz que a Igreja freqüentemente ataca o que o mundo, em cada era, apóia, ele está perfeitamente certo. A Igreja sempre se coloca contra a moda passageira do mundo; e ela tem experiência suficiente para saber quão rapidamente as modas passam. Mas para entender exatamente o que está envolvido, é necessário tomarmos um ponto de vista mais amplo e considerar a natureza última das idéias em questão, considerar, por assim dizer, a idéia da idéia.

Nove dentre dez do que chamamos novas idéias são simplesmente erros antigos. A Igreja Católica tem como uma de suas principais funções prevenir que os indivíduos comentam esses velhos erros; de cometê-los repetidamente, como eles fariam se deixados livres. A verdade sobre a atitude católica frente à heresia, ou como alguns diriam, frente à liberdade, pode ser mais bem expressa utilizando-se a metáfora de um mapa. A Igreja Católica possui uma espécie de mapa da mente que parece um labirinto, mas que é, de fato, um guia para o labirinto. Ele foi compilado a partir de um conhecimento que, mesmo se considerado humano, não tem nenhum paralelo humano.

Não há nenhum outro caso de uma instituição inteligente e contínua que tenha pensado sobre o pensamento por dois mil anos. Sua experiência cobre naturalmente quase todas as experiências; e especialmente quase todos os erros. O resultado é um mapa no qual todas as ruas sem saída e as estradas ruins estão claramente marcadas, todos os caminhos que se mostraram sem valor pela melhor de todas as evidências: a evidência daqueles que os percorreram.

Nesse mapa da mente, os erros são marcados como exceções. A maior parte dele consiste de playgrounds e alegres campos de caça, onde a mente pode ter tanta liberdade quanto queira; sem se esquecer de inúmeros campos de batalha intelectual em que a batalha está eternamente aberta e indefinida. Mas o mapa definitivamente se responsabiliza por fazer certas estradas se dirigirem ao nada ou à destruição, a um muro ou ao precipício. Assim, ele evita que os homens percam repetidamente seu tempo ou suas vidas em caminhos sabidamente fúteis ou desastrosos, e que podem atrair viajantes novamente no futuro. A Igreja se faz responsável por alertar seu povo contra eles; e disso a questão real depende. Ela dogmaticamente defende a humanidade de seus piores inimigos, daqueles grisalhos, horríveis e devoradores monstros dos velhos erros. Agora, todas essas falsas questões têm uma maneira de parecer novas em folha, especialmente para uma geração nova em folha. Suas primeiras afirmações soam inofensivas e plausíveis. Darei apenas dois exemplos. Soa inofensivo dizer, como muitos dos modernos dizem: “As ações só são erradas se são más para a sociedade.” Siga essa sugestão e, cedo ou tarde, você terá a desumanidade de uma colméia ou de uma cidade pagã, o estabelecimento da escravidão como o meio mais barato ou mais direto de produção, a tortura dos escravos pois, afinal, o indivíduo não é nada para o Estado, a declaração de que um homem inocente deve morrer pelo povo, como fizeram os assassinos de Cristo. Então, talvez, voltaremos às definições da Igreja Católica e descobriremos que a Igreja, ao mesmo tempo que diz que é nossa tarefa trabalhar para a sociedade, também diz outras coisas que proíbem a injustiça individual. Ou novamente, soa muito piedoso dizer, “Nosso conflito moral deve terminar com a vitória do espiritual sobre o material.” Siga essa sugestão e você terminará com a loucura dos maniqueus, dizendo que um suicídio é bom porque é um sacrifício, que a perversão sexual é boa porque não produz vida, que o demônio fez o sol e a lua porque eles são materiais. Então, você pode começar a adivinhar a razão de o cristianismo insistir que há espíritos maus e bons; e que a matéria também pode ser sagrada, como na Encarnação ou na Missa, no sacramento do casamento e na ressurreição da carne.

Não há nenhuma outra mente institucional no mundo que está pronta a evitar que as mentes errem. O policial chega tarde, quando ele tentar evitar que os homens cometam erros. O médico chega tarde, pois ele apenas chega para examinar o louco, não para aconselhar o homem são a como não enlouquecer. E todas as outras seitas e escolas são inadequadas a esse propósito. E isso não é porque elas possam não conter uma verdade, mas precisamente porque cada uma delas contém uma verdade; e estão contentes por conter uma verdade. Nenhuma delas pretende conter a verdade. A Igreja não está simplesmente armada contra as heresias do passado ou mesmo do presente, mas igualmente contra aquelas do futuro, que podem estar em exata oposição com as do presente. O catolicismo não é ritualismo; ele poderá estar lutando, no futuro, contra algum tipo de exagero ritualístico supersticioso e idólatra. O catolicismo não é ascetismo; ele, repetidamente no passado, reprimiu os exageros fanáticos e cruéis do ascetismo. O catolicismo não é mero misticismo; ele está agora mesmo defendendo a razão humana contra o mero misticismo dos pragmatistas. Assim, quando o mundo era puritano, no século XVII, a Igreja era acusada de exagerar a caridade a ponto da sofisticação, por fazer tudo fácil pela negligência confessional. Agora que o mundo não é puritano mas pagão, é a Igreja que está protestando contra a negligência da vestimenta e das maneiras pagãs. Ela está fazendo o que os puritanos desejariam fazer, quando isso fosse realmente desejável. Com toda a probabilidade, o melhor do protestantismo somente sobreviverá no catolicismo; e, nesse sentido, todos os católicos serão ainda puritanos quando todos os puritanos forem pagãos.

Assim, por exemplo, o catolicismo, num sentido pouco compreendido, fica fora de uma briga como aquela do darwinismo em Dayton. Ele fica fora porque permanece, em tudo, em torno dela, como uma casa que abarca duas peças de mobília que não combinam. Não é nada sectário dizer que ele está antes, depois e além de todas as coisas, em todas as direções. Ele é imparcial na briga entre fundamentalistas e a teoria da Origem das Espécies, porque ele se funda numa origem anterior àquela Origem; porque ele é mais fundamental que o Fundamentalismo. Ele sabe de onde veio a Bíblia. Ele também sabe aonde vão as teorias da Evolução. Ele sabe que houve muitos outros evangelhos além dos Quatro Evangelhos e que eles foram eliminados somente pela autoridade da Igreja Católica. Ele sabe que há muitas outras teorias da evolução além da de Darwin; e que a última será muito provavelmente eliminada pela ciência mais recente. Ele não aceita, convencionalmente, as conclusões da ciência, pela simples razão de que a ciência ainda não chegou a uma conclusão. Concluir é se calar; e o homem de ciência dificilmente se calará. Ele não acredita, convencionalmente, no que a Bíblia diz, pela simples razão de que a Bíblia não diz nada. Você não pode colocar um livro no banco das testemunhas e perguntar o que ele quer dizer. A própria controvérsia fundamentalista se destrói a si mesma. A Bíblia por si mesma não pode ser a base do acordo quando ela é a causa do desacordo; não pode ser a base comum dos cristãos quando alguns a tomam alegoricamente e outros literalmente. O católico se refere a algo que pode dizer alguma coisa, para a mente viva, consistente e contínua da qual tenho falado; a mais alta consciência do homem guiado por Deus.

Cresce a cada momento, para nós, a necessidade moral por tal mente imortal. Devemos ter alguma coisa que suportará os quatro cantos do mundo, enquanto fazemos nossos experimentos sociais ou construímos nossas Utopias. Por exemplo, devemos ter um acordo final, pelo menos em nome do truísmo da irmandade dos homens, que resista a alguma reação da brutalidade humana. Nada é mais provável, no momento presente, que a corrupção do governo representativo solte os ricos de todas as amarras e que eles pisoteiem todas as tradições com o mero orgulho pagão. Devemos ter todos os truísmos, em todos os lugares, reconhecidos como verdadeiros. Devemos evitar a mera reação e a temerosa repetição de velhos erros. Devemos fazer o mundo intelectual seguro para a democracia. Mas na condição da moderna anarquia mental, nem um nem outro ideal está seguro. Tal como os protestantes recorreram à Bíblia contra os padres e não perceberam que a Bíblia também podia ser questionada, assim também os republicanos recorreram ao povo contra os reis e não perceberam que o povo também podia ser desafiado. Não há fim para a dissolução das idéias, para a destruição de todos os testes da verdade, situação tornada possível desde que os homens abandonaram a tentativa de manter uma Verdade central e civilizada, de conter todas as verdades e identificar e refutar todos os erros. Desde então, cada grupo tem tomado uma verdade por vez e gastado tempo em torná-la uma mentira. Não temos tido nada, exceto movimentos; ou em outras palavras, monomanias. Mas a Igreja não é um movimento e sim um lugar de encontro, um lugar de encontro para todas as verdades do mundo.

Fonte:CHESTERTON, G.K. Por que sou católico. Chesterton Brasil. [Traduzido por Antonio Emilia Angueth de Araujo]. Disponivel em: http://www.chestertonbrasil.org/
Copiado de:http://www.veritatis.com.br/apologetica/testemunhos/964-gk-chesterton

A história da imagem de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro

Video que explica resumidamente a História da imagem de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro!

Fonte:http://www.veritatis.com.br/

Técnica: Se a Bíblia não for toda literal, como saber o que é e o que não é?

image

Essa técnica normalmente é aplicada quando um neo-ateu faz alguma piadinha do tipo “Ahn, cadê os dinossauros então? kkkk” e avisamos que a Bíblia não é toda literal. Ele fica fulo ou se faz de confuso e apela para algo como “Se não for literal, como saberíamos o que é e o que não é alegórico?”. Esse é mais um estratagema de confusão, cuja base se fundamenta na idéia de é impossível determinar os sentidos dos textos bíblicos o que, por extensão, nos levaria a dotar uma visão 100% literal do livro.

A reclamação pode vir de uma maneira parecida com essa:

  • “Se a bíblia é tão cheia de metáforas e parábolas, como diferenciar o que é e o que não é?  Se há partes que vocês consideram literais, então porque as outras não seriam?”

Para entender essa questão, precisamos entender que tipo de texto é o bíblico. A Bíblia não  é um livro científico: ela não foi feita para descrever sistematicamente o mundo natural, como fazem as pessoas nos laboratórios. O objetivo principal da Bíblia é possibilitar uma aproximação do homem com Deus.

E para realizar essa aproximação, o escritor bíblico pode utilizar dos vários sentidos que encontramos na Escritura, como o moral (orientando os valores e os costumes – por exemplo, ao lermos o mandamento “Não matarás”, entendemos que esse trecho possui um sentido moral), o alegórico ou metafórico (que servem de auxílio para descobrirmos os significados das coisas complexas ou ocultas), o literal (relatando fatos históricos que realmente aconteceram) e o anagógico (que é focado no encaminhamento das realidades transcendentais).

Ao sabermos da existência desses quatro sentidos, pegamos um trecho bíblico e o analisamos com uma série de perguntas, tendo por base  como:

  • As palavras de quem estão sendo relatadas?
  • Quem foi o autor desse livro?
  • Qual seu propósito ao escrever esse livro?
  • A qual gênero literário o livro/trecho escrito pertence?
  • Qual o significado que os principais termos utilizados tinham à época? (para não cairmos no anacronismo de julgarmos com a nossa visão dos termos o que foi escrito antes);
  • Em qual cultural e em qual momento histórico ele estava inserido quando escreveu tal livro?

Entre outras.

E não se trata de “desculpa”, pois esse tipo de interpretação é feita para QUALQUER livro. Por isso, um cristão está justificado ao agir assim também com a Bíblia.

Por exemplo:

Vamos pegar Mateus 13: estão sendo relatadas as palavras de Jesus Cristo, segundo um dos seus seguidores. O contexto era o contexto judaico do século I. A intenção desses seguidores era produzir relatos HISTÓRICOS do que havia acontecido com Jesus. Ou seja, os relatos feitos pelos seus seguidores, aqui, não devem ser entendidos como alegóricos. Já a parábola que Jesus conta nesse capítulo, essa sim não deve ser entendida como algo que realmente aconteceu, mas como uma história metafórica que visa passar um ensinamento.

Nos relatos de guerras no Velho Testamento, vez por outra um personagem (israelita ou não) diz que “Devemos não deixar nada de pé”. Mas sabemos, pela análise comparada dos textos do mesmo período, que esse era só um estilo de “engrandecer” o discurso, não uma descrição literal. Até porque, na época, os exércitos muitas vezes sequer tinham os recursos para conseguir derrubar toda uma cidade, por exemplo.

E esse hábito de diferenciação e pesquisa não é de agora. A interpretação da Bíblia já existe há muito tempo. Os próprios “Pais da Igreja” (conforme Robert C. Hill)  mencionavam que devemos levar em conta, ao ler a bíblia, aspecto como o “skopos” (ou propósito)  do autor ao compor seu trabalho bíblico, sua “hypothesis” (tema ou cenário narrativo), sua “dianoia (seu sentido geral), a “ermeneia” (interpretação), a “lexis” (o texto ou as palavras bíblica), até o “istorikon” (o elemento factual), e a “theoria” (discernimento feito pelo leitor de um nível mais elevado de significado).

Uma interpretação que eu já havia colocado em outro post, mas que mostra como poderiamos realizá-la dentro desse modelo:

Na linguagem da Bíblia os números não têm a mesma importância nem o mesmo significado que têm para nós. Quando damos um número, procuramos ser matematicamente exatos; interessa-nos a quantidade real. Para os judeus os números tinham todo um significado simbólico, indicava o sentido dos acontecimentos ou as qualidades das pessoas. A idade dos patriarcas, cem ou mais anos, não era contada em razão dos anos realmente vividos, mas em razão da veneração que mereciam, do quanto eram queridos por Deus. No capítulo quinto do Gênesis encontramos uma série de dez gerações desde Adão até o patriarca Noé. Dez era apenas o número que indicava uma série completa e final. Falando de dez patriarcas, o hagiógrafo queria abarcar todos os acontecimentos, todas as gerações entre Adão e Noé, fossem lá quais e quantos fossem. Não estava, de modo algum, querendo ensinar que de fato tinha havido apenas uma série de dez gerações. De modo semelhante Jesus fala das “dez virgens”; S. Paulo menciona os “dez adversários” que nos tentam separar do Cristo (Rom 8,38s), e os “dez vícios” que nos podem excluir do Reino de Deus (1Cor 6,9s). Os meses do ano são doze. Por isso esse número também significava a perfeição, a totalidade.

Para interpretar, a Bíblia, então, usamos um método simples, que poderia ser:

  1. A Bíblia não é um livro científico, pois não foi feito para descrever o mundo natural (que é o papel da Ciência), mas para aproximar o homem de Deus;
  2. Existem vários meios de fazer essa aproximação, que são expressos nos sentidos dos textos, seja no sentidos moral, literal, alegórico ou no sentido anagógico;
  3. Para descobrir qual desses sentidos prevalece, fazemos trabalhos filológicos e históricos para interpretar o tipo de livro que foi escrito, o propósito do autor, quem ele era, o sentido específico que aquelas palavras tinham na época, em qual cultura ele estava inserido, como ele passaria aquela mensagem desejada e por aí vai;
  4. Assim sabemos, por exemplo, que os Evangelhos tradicionais foram escritos como relatos históricos, embora os ensinamentos de Jesus muitas vezes fossem expressos dentro do gênero das parábolas, que não se referem a eventos reais, mas sim eventos alegóricos com a finalidade de passar uma mensagem;
  5. Esse mesmo método de pesquisa vai sendo utilizado para o restante dos textos, até entendermos bem qual é o seu sentido;
     

Pronto.

Levando esses aspectos em conta, já dá para diferenciar o que é e o que não é literal. Talvez não seja fácil, mas a preguiça intelectual não justifica a exigência de uma interpretação 100% literal de tudo que está escrito na Bíblia – pedir isso é como querer justificar um crime com base na própria torpeza.

Conclusão

O que tem ser feito, por um cristão, é uma análise literária baseada nos princípios acima. Assim, os vários sentidos do texto bíblico são desvendados. E nada dessa bobagem de “se uma parte for literal, todo o restante tem obrigatoriamente que ser também”. Se existe um método para diferenciar, então não cabe mais as reclamações dos neo-ateus.

Fonte:http://quebrandooencantodoneoateismo.wordpress.com/2011/01/13/tcnica-se-a-bblia-no-for-toda-literal-como-saber-o-que-e-o-que-no/

SOBRE A BÍBLIA SAGRADA. EDIÇÃO PASTORAL

 

Revista: “PERGUNTE E RESPONDEREMOS”

D. Estevão Bettencourt, osb.

Nº 342 – Ano 1990 – Pág. 514

 

 

Em síntese: A “Bíblia. Edição Pastoral”, em tradução e notas de Ivo Storniolo e Euclides Balancin, não preenche a finalidade que se propõe. Inspirada por ideologia marxista, deturpa as concepções da história sagrada e da teologia; a leitura materialista aplicada ao texto sagrado torna a mensagem imanentista, fazendo-a perder o seu caráter transcendental. O Vocabulário do fim do volume e as notas de rodapé dão as chaves de interpretação dos livros bíblicos; a própria tradução portuguesa, num ou noutro ponto, deturpa o sentido do texto sagrado. Em conseqüência, deve-se lamentar a difusão de tal obra nos ambientes eclesiásticos do Brasil. A Pastoral não significa incitamento à luta de classes e às divisões entre os homens.

 As Edições Paulinas publicaram uma nova tradução da Bíblia dita “Pastoral” (BP), acompanhada de notas de rodapé e Vocabulário, que vêm suscitando perplexidade: há os que defendem tal edição, devida a Ivo Storniolo e Euclides Martins Balancin, como sendo “o livro ideal” (ver “Jornal de Opinião”, 1-7/7/90, p. 3). Mas há também os que a impugnam com argumentos sérios, mostrando graves falhas na inspiração básica e na confecção de tal tarefa. O assunto já foi abordado em PR 337/1990, pp. 285s. Voltamos ao problema, aduzindo novas observações, provenientes, em grande parte, de D. João Evangelista Martins Terra S. J., Bispo  Auxiliar de Olinda-Recife, Membro da Equipe Teológica do CELAM e da Pontifícia Comissão Bíblica.

 

1.    Três observações básicas

 

A tradução do texto bíblico da Edição Pastoral é aceitável com algumas ressalvas, que indicaremos à p. 523s deste artigo. Todavia, as notas de pé de página e o Vocabulário, encontrado às pp. 1616-23, pretendendo dar a chave de leitura e interpretação da Bíblia, são alheios à Tradição bíblica judeo-cristã e distorcem a mensagem sagrada para o setor da ideologia sócio-político-econômica. Sem o perceber, o leitor desprevenido vai absorvendo uma concepção filosófica não cristã sob a capa de Palavra de Deus. Isto se depreende facilmente desde que se dê um pouco de atenção ao Vocabulário dessa Edição.

1.1.        O elenco do Vocabulário

 

Eis os principais verbetes que interessam aos estudos e ao linguajar bíblicos ou os principais vocábulos da mensagem bíblica tomada como tal: Aarão, Abel, Abraão, Ação de graças, Adão, Adoração, Adultério, Água, Alma, Anjo…

 

Bem diferentes são os verbetes do Léxico da Edição Pastoral dispostos segundo a ordem alfabética: Aliança, Alienação, Amor, Autoridade, Auto-suficiência, Campo, Celebração, Cidade, Comércio, Compaixão, Comunidade, Conflito, Consciência, Conversão, Corrupção, Dinheiro, Direito, Discernimento, Dominação, Educação, Encarnação, Escravidão, Esperança, Exploração, Fé, Fraternidade, Gratidão, Herança, História, Idolatria, Injustiça, Integridade, Javé, Jesus, Julgamento, Justiça, Lei, Liberdade, Libertação, Liderança, Lucro, Memória,… Poder,…Produção, Projeto de Deus, Prosperidade,… Repressão,… Riqueza, Roubo, Tributo,… Violência… Estes vocábulos têm sua repercussão nas notas de rodapé, inspirando uma doutrina que já não é bíblica, mas preponderantemente marxista. Os próprios vocábulos tipicamente bíblicos que ocorrem no Léxico Pastoral, são esvaziados de seu conteúdo próprio e característico para assumir significação ideológica. Assim, por exemplo:

  •  “Aliança: É o centro da Bíblia. Deus se alia com os pobres e oprimidos para construir uma sociedade e uma história voltadas para a vida”.

 

Ora é de notar que a Aliança de Deus com os homens não começa na época dos pobres e oprimidos, mas é universal ou destinada a todos desde o início; o segundo Adão, Jesus Cristo, Mediador da nova e definitiva Aliança, tem sua imagem ou seu esboço no primeiro Adão, pai de toda a humanidade, conforme Rm 5, 14; é com os primeiros pais que Deus trava a primeira Aliança, voltada para todos os homens, conforme Eclo 17, 10.

 

  • “Amor: Mistério de Deus e do homem. Gera a relação de onde brotam a liberdade e a vida”.
  • “Celebração: Reunião  do povo para comemorar os fatos centrais da vida e conservar a lembrança dos acontecimentos que marcaram a caminhada do povo”.


Este conceito se aplica às celebrações cívicas, não, porém, às celebrações litúrgicas, nas quais se torna presente e atuante a Páscoa (morte e Ressurreição) de Jesus Cristo para fazer que os homens participem da obra da Redenção.

 

  • “Esperança: Dinamismo que mantém o povo aberto para realizar plenamente o projeto de Deus. A esperança leva o povo a buscar transformações econômicas, políticas, sociais e religiosas”.

 

Silencia-se o objeto supremo da esperança cristã, que é a vida eterna com a visão de Deus face-à-face.

 

  • “Fraternidade: … Relação igualitária, onde todos, como irmãos, podem participar das decisões que constroem a sociedade, e juntos usufruir dos bens que cada um produz”.
  •  “Javé: É o misterioso Deus vivo que se manifesta respondendo ao clamor dos pobres e oprimidos para os libertar dos exploradores e opressores. Ele é a fonte e a meta da liberdade e da vida. Por isto é aliado daqueles que buscam  liberdade e vida, opondo-se a todas as pessoas e estruturas que produzem escravidão e morte”.
  •  “Justiça: Realização do projeto de Deus. A justiça se concretiza na partilha e na fraternidade, dirigindo-se a sociedade para a solidariedade e a paz. Exige, para todos, a distribuição igualitária dos bens e a possibilidade de participar das decisões que regem a vida e a história do povo. Na Bíblia a justiça é eminentemente partidária, visando a defender a causa dos indefesos”.

 Como se vê, os conceitos bíblicos são todos analisados em chave sócio-política, que supõe a luta de classes na sociedade.

 

Duas noções  merecem especial atenção.

 

1.2.        A Revelação

 

Eis como a apresenta o Vocabulário: 

  • “Revelação: Manifestação de Deus através das realidades da vida e dos acontecimentos da história. Mostra o caminho que o povo deve seguir. Exige a atenção do homem, pois Deus está continuamente se revelando”.

 

O conceito de Revelação que até hoje se prolonga, é ambíguo. A fé católica distingue:

1) A Revelação de Deus normativa que manifesta  o desígnio de Deus e os meios de salvação; encerra-se com Jesus Cristo, como diz a própria S. Escritura: “Outrora muitas vezes e de muitos modos Deus falou aos pais  pelos Profetas. No período final, em que estamos, falou-nos por meio do Filho” (Hb 1,1s).

 

2) Após Jesus Cristo, não há Revelação normativa; Deus proporciona “os sinais dos tempos” que reavivam no homem a consciência das verdades da fé, mas  nada acrescentam de novo; estamos nos últimos tempos relativamente à doutrina (cf. 1Jo 2, 18).

 

O Papa Pio X condenou explicitamente a proposição modernista que dizia:

 

“A Revelação que constitui o objeto da fé católica, não se encerrou com os Apóstolos” (Denzinger-Schönmetzer, Enchiridion n.º 3421 [2021]).

 

O Concílio do Vaticano II reafirmou a clássica doutrina:

 

“Jesus  Cristo aperfeiçoa e completa a Revelação e a confirma com o testemunho divino de que Deus está conosco… A economia cristã, como aliança nova e definitiva, jamais passará, e não há que esperar nova revelação pública antes da gloriosa manifestação de Nosso Senhor Jesus Cristo (cf. 1Tm 6,14 e Tt 2,13)”  (Const. Dei Verbum n.º 4).

 

Vê-se pois, que o Vocabulário da Bíblia Pastoral está longe do genuíno pensamento católico.

 

1.3.        Projeto de Deus

 

Todo o Vocabulário e as notas de rodapé são perpassadas pela noção de projeto de  Deus, que dá o sentido aos demais verbetes. Ocorre mais de seiscentas vezes na Edição Pastoral, e até mesmo cinco ou seis vezes na mesma frase.

 

Ora “projeto de Deus” no contexto dessa obra não é uma noção teológica; não significa nem Providência nem desígnio de Deus, mas, sim, algo de tipicamente marxista, como se depreende a seguir:

  • “Projeto de Deus: Aliando-se aos que são marginalizados pelo sistema injusto. Deus entra na história com novo caminho: promover a liberdade e a vida para todos. Todavia esse projeto está sempre em conflito com o projeto das nações que alicerçam sua riqueza e poder sobre a escravidão e a morte do povo. A luta para manter vivo dentro da história o projeto de Deus é o ponto de honra do povo de Deus”.

 Como dito, a expressão “projeto de Deus” entra na composição de muitos outros verbetes do Vocabulário como um chavão ideológico. Eis alguns espécimens:

 

  • “Comércio: Atividade econômica fundamental da cidade, destinada… a gerar lucro, exploração e riqueza. No projeto de Deus, o comércio é superado pela partilha e gratuidade”.
  • “Conflito: Choque entre grupos que têm objetivos e interesses diferentes. Na Bíblia, o principal conflito aparece entre o projeto de Deus para a vida e os projetos da auto-suficiência, que geram a morte”.
  • “Consciência: Compreensão que o povo tem da realidade, a partir do projeto de Deus. Ela demitiza a ideologia da classe dominante, e cria discernimento para se construir uma sociedade fundada na justiça e na fraternidade”.
  • “Educação: Relação entre gerações (pais-filhos), na qual se transmite a memória das lutas do povo, a fim de que a nova  geração aprenda com os erros e acertos de seus pais. Dessa forma, a nova geração poderá criar caminhos novos e alternativos para realizar o projeto de Deus na história. As tradições da Bíblia se conservaram graças a esse processo”.
  • “Encarnação: Deus encarna-se na vida e na história humanas, mostrando o valor inestimável que elas têm diante dele. A coerência com a fé exige que nos encarnemos também para que o projeto de Deus transforme as estruturas políticas e econômicas, dirigindo a história para a liberdade e a vida”.
  • “Propriedade: O direito de propriedade é sagrado, e o mundo deve ser igualitariamente distribuído entre todos. A acumulação de propriedade, formando latifúndios, e a especulação imobiliária são contrárias ao projeto de Deus”.
  • “Ressurreição: Passagem da morte para a vida. Não se refere apenas à morte física, mas a todas as mortes geradas por projetos contrários ao projeto de Deus”.
  • “Sociedade: Grupo humano que realiza um projeto em comum, organizado em nível econômico, político, social e ideológico. Nem sempre a sociedade vive o seu projeto de acordo com o projeto de Deus, que provoca transformações  profundas nas relações sociais”.

Estes poucos espécimens mostram que a mensagem bíblica é toda repensada e posta estritamente a serviço de transformações sócio-político-econômicas imanentes, sem que haja acenos à transcendência para a qual devem caminhar o homem e a história. A justiça e a reta ordem social neste mundo são germens do Reino de Deus, que só estará consumado no fim dos tempos ou no Além, jamais no decorrer da história. O materialismo marxista é que julga poder prometer a plena realização das aspirações dos homens no decurso da história mediante a redistribuição dos meios de produção material.

 

2.    A filosofia subjacente

 

Quem lê atentamente os verbetes do Vocabulário e as notas de rodapé da BP verifica que são devedores ao que se chama “a leitura materialista da Bíblia”. Esta não nega  Deus e os valores espirituais, mas julga que são “super-estrutura” ou derivados da “infra-estrutura” ou do jogo dos bens materiais no curso da história. Com outras palavras: supõe que os fatores decisivos da história sejam de ordem material (econômica) e política; a  procura de posse dos bens materiais e do poder moveria todos os acontecimentos da história e condicionaria a crença em Deus, o culto religioso e a definição das normas morais. Adotando teses do marxismo, os fautores da leitura materialista da Bíblia contrapõem entre si campo e cidade, como, aliás, fazem I. Storniolo e E. Balancin:

  • “Campo: É o polo fundamental da produção  que sustenta a vida. É explorado pela cidade”.
  • “Cidade: Lugar da riqueza e do poder, que se concentram na mão de poucos, produzindo conflitos, principalmente com o campo” (p. 1616).

 Partindo destes conceitos, os autores das notas da BP comentam o texto bíblico de maneira artificial e deformante:

 

Assim, por exemplo, o livro do Gênesis refere que Lote se separou de Abraão, ficando aquele com as cidades, e este com os campos. A nota a Gn 13,1-18 diz então o seguinte: “Ló escolhe a região onde estão as cidades; assim ele entra no âmbito de uma estrutura que se sustenta graças à exploração e opressão do povo. Abraão, ao invés, fica aberto para uma história nova, fundada unicamente no projeto de Deus” (p. 26).

 

O comentário de Js 4,1-24 justifica a partilha da terra de Canaã pelos filhos de Israel nos seguintes termos:

  • “Antes da instalação de Israel, Canaã era um conjunto de cidades-Estado que oprimiam e empobreciam a população camponesa, através do sistema tributário. A conquista realizada por Israel derrotou esse sistema e implantou o sistema das  doze tribos…, visando construir uma sociedade justa e igualitária… A nova geração deve ser educada a não voltar para trás, reproduzindo o sistema social injusto” (p. 244).

 Vejam-se as notas paralelas:

  • “Só existe verdadeira paz quando se erradica completamente o sistema injusto que explora e oprime o povo” (p. 253).
  • “A conquista da terra… destrói um sistema classista injusto” (p. 255).
  • “As  Cidades-Estado de Canaã justificavam a política opressora e exploradora dos seus reis” (p. 272)
  • “Sem poder mais explorar os camponeses e suas terras, tais cidades não conseguiram oferecer sacrifício… seus armazéns ficaram vazios por falta de trigo. Enquanto isso, os camponeses vitoriosos conseguiram livrar-se dos tributos e puderam gozar da fartura” (p. 274).
  • “Para uma volta ao projeto de Javé, é necessário romper… o sistema opressor das cidades” (p. 276).

 A leitura materialista da Bíblia, julgando que as cidades se enriquecem mediante o tributo cobrado dos camponeses, afirma que os tempos religiosos vêm a ser centros econômicos e políticos nos quais se deposita o lucro resultante da exploração comercial e tributária. É por isto que na p. 1237 se lê em rodapé: 

  • “No tempo de Jesus o templo (de Jerusalém) possui imensas riquezas e toda a cúpula governamental age a partir daí. Desse modo a casa de oração e ofertas a Deus se torna um imenso Banco e lugar de poder político. Em outras palavras, a religião se torna instrumento de exploração e opressão do povo”.

 Desnecessário é dizer que esta descrição  fantástica do Templo no tempo de Jesus carece de toda base histórica. Esse Templo, devido ao rei Herodes, ainda estava em fase de acabamento na época de Jesus; as obras de  decoração demoravam por falta de recursos, como descreve pormenorizadamente o historiador judeu contemporâneo de Jesus, Flávio José (Antigüidades Judaicas 15, 380-425).


Pelos mesmos motivos é despropositado o comentário feito em rodapé a Mc 11,15 (expulsão dos vendilhões do Templo):

  • “Acusando e atacando o comércio existente dentro do Templo, Jesus retira as bases sobre as quais se apoiava toda uma sociedade. Com efeito, era com esse comércio que se sustentava grande parte da economia do país. O gesto de Jesus mexe não só com um modo de vida religiosa, mas com toda uma estrutura que usa a religião para estabelecer e assegurar privilégios de uma classe e sustentar uma visão mesquinha de salvação. Por isso, os que se favorecem desse sistema, pensam em matar Jesus, mas temem o povo” (p. 1298).

 Este comentário fica longe da realidade histórica. O que ocorria no tempo de Jesus, era o seguinte: como em todos os santuários (ou mesmo como em todos os lugares onde se aglomera muita gente), no Templo de Jerusalém acorriam, nos dias  de festa, camelôs e vendedoras ambulantes que armavam suas bancas para vender alimentos, objetos para o culto (vítimas), lembranças ou para fazer o câmbio das moedas estrangeiras. Esses pequenos comerciantes prestavam serviço aos milhares de peregrinos que afluíam ao Templo nas grande solenidades; mas o acúmulo de gente, com suas necessidades, dava ocasião propícia à ganância e à exploração. Entende-se então que Jesus tenha reagido contra esses abusos; tal reação, porém, não teve, em absoluto, as proporções que a Bíblia Pastoral lhe atribui:

  • “Acusando e atacando o comércio existente no Templo, Jesus retira as bases sobre as quais toda uma sociedade se apoiava. De fato, era com esse comércio que se sustentava grande parte da economia do país. O gesto de Jesus abala não apenas um sistema de vida religiosa, mas toda  uma estrutura que usa da religião para estabelecer e assegurar privilégios de uma classe e para sustentar uma visão mesquinha de salvação. Jesus é apresentado como o rei legítimo, centro de nova aliança: ele… é aclamado pelas crianças como o Messias. Aqueles que são privados de apoio oficial e de poder, estão prontos para receber Jesus, enquanto as autoridades o rejeitam” (p. 1267).

 Eis alguns espécimens da leitura materialista realizada pelos responsáveis da BP. Não se encontra nesta alguma alusão aos Santos Padres, à Tradição e ao Magistério da Igreja; o que aí se incute, é a perspectiva de uma sociedade estruturada segundo o marxismo e não a imagem do Reino de Deus em demanda de sua consumação escatológica.

  • “Mc 8,27-33: A ação messiânica de Jesus consiste em criar um mundo plenamente humano, onde tudo é de todos e repartido entre todos. Esse messianismo destrói a estrutura de uma sociedade injusta, onde há ricos à custa de pobres, e poderosos à custa de fracos. Por isto, essa sociedade vai matar Jesus antes que ele a destrua”.

 É este o comentário a uma passagem evangélica que fala da morte e ressurreição de Jesus. Estas são simplesmente silenciadas pelos comentadores, como se  não tivessem, antes do mais, importância transcendental.

 Além de se ressentir de inspiração ideológica marxista, a Edição Pastoral comete seus erros teológicos e exegéticos, como se verá a seguir.

 

3.    Erros doutrinários

 

1. No tocante à vida póstuma, os autores das notas parecem professar a ressurreição dos corpos logo após a morte do indivíduo, em desacordo com a doutrina oficial da Igreja e dos textos da própria Bíblia. Com efeito, eis o que se lê à p. 1476:

  • “Em Corinto alguns pensam que, depois da morte, a alma imortal continua vivendo sozinha… Outros pensam que tudo termina com a morte… Paulo mostra que ambas as opiniões são contrárias ao núcleo da fé cristã”.

 Na verdade, a própria S. Escritura (ou o próprio São Paulo) professa a sobrevivência da alma sem o corpo, ficando  a ressurreição da carne reservada para o fim dos tempos. Ver, por exemplo:

 1Cor 15, 22-24a : “Assim como todos morrem em Adão, em Cristo todos receberão a vida. Cada um, porém, em sua ordem: como primícias, Cristo; aqueles que pertencem a Cristo, por ocasião da sua vinda (parusia). A seguir, haverá o fim”.

 

1Ts 4,16s: “Quando o Senhor, ao sinal dado, à voz do arcanjo e ao som da trombeta divina, descer do céu, então os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro; em seguida, nós, os vivos que estivermos lá, seremos arrebatados com eles nas nuvens para o encontro com o Senhor nos ares”.

 

Estes dois textos situam a ressurreição dos mortos no momento da parusia ou da segunda vinda de Cristo. – Entre a morte  do corpo e a ressurreição no fim dos tempos, a alma separada do corpo goza da sua sorte eterna (bem-aventurada, se a pessoa morreu em graça):

 

2Cor 5,8: “Estamos cheios de confiança, e preferimos deixar a mansão deste corpo para ir morar junto do Senhor”.

 

Fl 1,23: “Meu desejo é partir e estar com Cristo, pois isto me é muito melhor”.

 

Lc 23, 43: Disse Jesus ao bom ladrão pouco antes de morrer: “Em verdade eu te digo: Hoje estarás comigo no paraíso”.

 

A Congregação para a Doutrina da Fé explicitou esta doutrina numa Instrução datada de 17/05/1979, onde se lê:

 

“…3) A Igreja afirma a sobrevivência e a subsistência, depois da morte, de um elemento espiritual, dotado de consciência e de vontade, de tal modo que o “eu humano” subsista, mesmo sem corpo. Para designar esse elemento, a Igreja emprega a palavra  “alma”, consagrada pelo uso que dela fazem a Sagrada  Escritura e a Tradição. Sem ignorar que este termo é tomado na Bíblia em diversos significados, Ela julga, não obstante, que não existe qualquer razão séria para o rejeitar e considera mesmo ser absolutamente indispensável um instrumento verbal para sustentar a fé dos cristãos…

 

5) A Igreja, em conformidade com a Sagrada Escritura, espera a gloriosa manifestação de nosso Senhor Jesus Cristo, que Ela considera como distinta e diferida em relação àquela condição própria do homem imediatamente depois da morte.

 

6) A Igreja, ao expor a sua doutrina sobre a sorte do homem após a morte, exclui qualquer explicação que tirasse o sentido à Assunção de Nossa Senhora naquilo que ela tem de único; ou seja, o fato de ser a glorificação corporal da Virgem Santíssima uma antecipação da glorificação que está destinada a todos os outros eleitos”.

 

2. Algumas vezes as notas de rodapé da BP, de índole histórica, são derivadas da Bíblia de Jerusalém. Mas nem sempre de modo inteligente. Assim, por exemplo, no comentário de Ex 23, 14-19 a Bíblia Pastoral repete o mesmo erro que já ocorria na Bíblia de Jerusalém em português, afirmando que a festa das Semanas era celebrada durante sete semanas ou cinqüenta dias (p. 96). Ora a Festa das Semanas, chamada Pentecostes em grego, era celebrada cinqüenta dias após o começo da colheita, como explicam Dt 16,9 e Lv 23,16, mas não durava cinqüenta dias; durava um dia apenas!

 

3. A  BP traduz 1Cor 7, 36-38 nos seguintes termos:

  • “Se alguém, transbordando de paixão, acha que não conseguirá respeitar a noiva, e que as coisas devem seguir o seu curso, faça o que quiser. Não peca; que se casem. Ao contrário, se alguém, por firme convicção, sem constrangimento e no plano uso de sua vontade, resolve respeitar a sua noiva, está agindo bem. Portanto, quem se casa com sua noiva faz bem; e quem não se casa, procede melhor ainda”.

 

Ora o texto grego original fala de virgem (parthénos), e não de noiva (nymphe). A tradução clássica é apresentada pela Bíblia de Jerusalém:

 

“Se alguém julga agir de modo inconveniente para com a sua virgem, deixando-a passar da flor da idade, e que portanto deve casá-la, faça o que quiser; não peca. Que se realize o casamento! Mas aquele que, no seu coração, tomou firme propósito, sem coação e no pleno uso da própria vontade, e em seu íntimo decidiu conservar a sua virgem, esse procede bem. Portanto procede bem aquele que casa a sua virgem; e aquele que não a casa, procede melhor ainda”.

 

Em nota a Bíblia de Jerusalém alude à tradução adotada pela BP como sendo pouco habitual. A BP prefere a nova maneira de traduzir, sem dar informações sobre o seu caráter muito hipotético.

 

4.    Conclusão

 

É louvável a intenção de tornar o texto bíblico acessível e compreensível ao maior  número possível de leitores. Isto, porém, não significa incutir determinada opção ideológica, de mais a mais que a ideologia marxista se apresenta ao mundo de hoje como fracassada e ultrapassada. A Justiça Social é sumamente desejável, sim; ela decorre da própria mensagem bíblica que a Doutrina Social da Igreja, através das encíclicas papais, vem desenvolvendo e aplicando aos nossos tempos. A Igreja não precisa de recorrer a sistemas heterogêneos para propor aos homens a autêntica mensagem da salvação.

 

Notemos a grande responsabilidade que toca a tradutores e editores da Bíblia: a linguagem do texto sagrado penetra e forma a mentalidade do povo que a lê. A tradução de Lutero plasmou a língua alemã. Permita Deus que a sua santa Palavra não sirva de instrumento para levar o povo cristão à deterioração e a desvios da fé!

 

Fonte:http://blog.cancaonova.com/felipeaquino/2009/08/04/sobre-a-biblia-sagrada-edicao-pastoral/

Cinco perguntas a que nenhum protestante consegue responder (mas qualquer católico consegue)

1 – Por favor, diga-me uma razão para aceitar a Bíblia que um muçulmano não poderia usar para considerar o Corão inspirado por Deus.

R – Os católicos aceitamos a Bíblia como Palavra de Deus porque a Igreja que Cristo fundou e confiou a São Pedro (Mt 16,18), e que é a Coluna e Firmamento da Verdade (1Tim 3,15), diz que a Bíblia é Palavra de Deus. Como dizia Santo Agostinho, “creio nos Evangelhos porque a Santa Madre Igreja me diz para crer neles”.

2 – Por favor, diga-me porquê você aceita apenas uma parte da Bíblia (afinal, a lista de livros que compõem o Novo e o Antigo Testamento foi determinada ao mesmo tempo – aliás,  junto com o título de Mãe de Deus para Nossa Senhora – e você aceita apenas parte do Antigo Testamento), e com que autoridade você o faz.

R – Os católicos aceitamos a Bíblia em sua íntegra porque a lista de livros que a compõem foi definida pela Igreja em 397 d.C., sob a autoridade do Sucessor de Pedro Papa São Dâmaso I.

3 – Por favor, diga-me porque a Bíblia teria precisado de quase 1600 anos para ser entendida corretamente, se ela é teoricamente algo que qualquer um pode ler e entender.

R – Os católicos sabemos que a Bíblia não é algo que qualquer um pode ler e entender sem ajuda (2Pd 3,16, At 8,31), e sabemos que Cristo confiou a São Pedro, o primeiro Papa,  a tarefa de tomar conta de Seu rebanho, a Igreja (Jo 21,15-17). Nós seguimos o que os Sucessores de Pedro nos transmitem.

4 – Por favor, explique como alguém pode saber se entendeu a Bíblia corretamente, se ele só pode confiar na Bíblia, e em mais nada; afinal existem cerca de 30.000 seitas protestantes no mundo, cada uma entendendo a Bíblia de maneira diferente e todas achando que estão certas.

R – Os católicos sabemos que é a Igreja que Cristo fundou e confiou a São Pedro (Mt 16,18), e que é a Coluna e Firmamento da Verdade (1Tim 3,15), quem tem a missão de ensinar (Mt 28,19), e que as Escrituras não devem sofrer interpretação particular (2Pd 2,20), pois quem o faz comete erros que o conduzem à perdição (2 Pd 3,16). Assim, sabemos que a explicação feita pela Igreja está certa, e está errada qualquer interpretação diferente desta.

5 – Por favor, prove usando apenas a Bíblia que ela é o que você considera que ela seja (ou seja, a única fonte de Verdade Revelada, composta pelos livros que você aceita, todos eles e só eles). Claro que todo mundo sabe que a Bíblia é Palavra de Deus, boa para o ensino, etc. e tal, mas por favor, tente provar que ela é a única fonte de Palavra de Deus, composta pelos livros que você aceita, todos eles e só eles.

R – Ao contrário dos protestantes, que acreditam na heresia chamada “Sola Scriptura”, segundo a qual apenas a Bíblia é Palavra de Deus, os católicos sabemos que além da Bíblia, que não tem toda a Palavra de Deus e não está completa, (Jo 20,30-31; Jo 21,25; 2Ts 2,14), há ainda a Tradição Oral, também revelada por Deus, que deve ser seguida (2 Ts 2,15; 2Ts 3,6; 2Tm 1,13; 1 Cor 11,2; Gl 1,14, 1Tm 6,20; 2Tm 1,14; 2Tm 2,2, etc.). O próprio São Paulo, em At 20,35, cita palavras de Cristo que não estão em nenhum dos Evangelhos , dizendo aos bispos de Éfeso que eles devem lembrar-se delas. Sabemos ainda que os livros que compõem a Sagrada Escritura são os que a Igreja determinou em 397 d.C., mais de mil anos antes dos primeiros protestantes arrancarem sete livros de suas bíblias em 1517 d.C.

Autor: Prof. Carlos Ramalhete (Livre cópia e difusão do texto em sua íntegra com menção do autor)
Saiba mais: Catecismo da Igreja Católica, 74-100

Fonte:Reino da Virgem Mãe de Deus