Técnica: Se a Bíblia não for toda literal, como saber o que é e o que não é?

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Essa técnica normalmente é aplicada quando um neo-ateu faz alguma piadinha do tipo “Ahn, cadê os dinossauros então? kkkk” e avisamos que a Bíblia não é toda literal. Ele fica fulo ou se faz de confuso e apela para algo como “Se não for literal, como saberíamos o que é e o que não é alegórico?”. Esse é mais um estratagema de confusão, cuja base se fundamenta na idéia de é impossível determinar os sentidos dos textos bíblicos o que, por extensão, nos levaria a dotar uma visão 100% literal do livro.

A reclamação pode vir de uma maneira parecida com essa:

  • “Se a bíblia é tão cheia de metáforas e parábolas, como diferenciar o que é e o que não é?  Se há partes que vocês consideram literais, então porque as outras não seriam?”

Para entender essa questão, precisamos entender que tipo de texto é o bíblico. A Bíblia não  é um livro científico: ela não foi feita para descrever sistematicamente o mundo natural, como fazem as pessoas nos laboratórios. O objetivo principal da Bíblia é possibilitar uma aproximação do homem com Deus.

E para realizar essa aproximação, o escritor bíblico pode utilizar dos vários sentidos que encontramos na Escritura, como o moral (orientando os valores e os costumes – por exemplo, ao lermos o mandamento “Não matarás”, entendemos que esse trecho possui um sentido moral), o alegórico ou metafórico (que servem de auxílio para descobrirmos os significados das coisas complexas ou ocultas), o literal (relatando fatos históricos que realmente aconteceram) e o anagógico (que é focado no encaminhamento das realidades transcendentais).

Ao sabermos da existência desses quatro sentidos, pegamos um trecho bíblico e o analisamos com uma série de perguntas, tendo por base  como:

  • As palavras de quem estão sendo relatadas?
  • Quem foi o autor desse livro?
  • Qual seu propósito ao escrever esse livro?
  • A qual gênero literário o livro/trecho escrito pertence?
  • Qual o significado que os principais termos utilizados tinham à época? (para não cairmos no anacronismo de julgarmos com a nossa visão dos termos o que foi escrito antes);
  • Em qual cultural e em qual momento histórico ele estava inserido quando escreveu tal livro?

Entre outras.

E não se trata de “desculpa”, pois esse tipo de interpretação é feita para QUALQUER livro. Por isso, um cristão está justificado ao agir assim também com a Bíblia.

Por exemplo:

Vamos pegar Mateus 13: estão sendo relatadas as palavras de Jesus Cristo, segundo um dos seus seguidores. O contexto era o contexto judaico do século I. A intenção desses seguidores era produzir relatos HISTÓRICOS do que havia acontecido com Jesus. Ou seja, os relatos feitos pelos seus seguidores, aqui, não devem ser entendidos como alegóricos. Já a parábola que Jesus conta nesse capítulo, essa sim não deve ser entendida como algo que realmente aconteceu, mas como uma história metafórica que visa passar um ensinamento.

Nos relatos de guerras no Velho Testamento, vez por outra um personagem (israelita ou não) diz que “Devemos não deixar nada de pé”. Mas sabemos, pela análise comparada dos textos do mesmo período, que esse era só um estilo de “engrandecer” o discurso, não uma descrição literal. Até porque, na época, os exércitos muitas vezes sequer tinham os recursos para conseguir derrubar toda uma cidade, por exemplo.

E esse hábito de diferenciação e pesquisa não é de agora. A interpretação da Bíblia já existe há muito tempo. Os próprios “Pais da Igreja” (conforme Robert C. Hill)  mencionavam que devemos levar em conta, ao ler a bíblia, aspecto como o “skopos” (ou propósito)  do autor ao compor seu trabalho bíblico, sua “hypothesis” (tema ou cenário narrativo), sua “dianoia (seu sentido geral), a “ermeneia” (interpretação), a “lexis” (o texto ou as palavras bíblica), até o “istorikon” (o elemento factual), e a “theoria” (discernimento feito pelo leitor de um nível mais elevado de significado).

Uma interpretação que eu já havia colocado em outro post, mas que mostra como poderiamos realizá-la dentro desse modelo:

Na linguagem da Bíblia os números não têm a mesma importância nem o mesmo significado que têm para nós. Quando damos um número, procuramos ser matematicamente exatos; interessa-nos a quantidade real. Para os judeus os números tinham todo um significado simbólico, indicava o sentido dos acontecimentos ou as qualidades das pessoas. A idade dos patriarcas, cem ou mais anos, não era contada em razão dos anos realmente vividos, mas em razão da veneração que mereciam, do quanto eram queridos por Deus. No capítulo quinto do Gênesis encontramos uma série de dez gerações desde Adão até o patriarca Noé. Dez era apenas o número que indicava uma série completa e final. Falando de dez patriarcas, o hagiógrafo queria abarcar todos os acontecimentos, todas as gerações entre Adão e Noé, fossem lá quais e quantos fossem. Não estava, de modo algum, querendo ensinar que de fato tinha havido apenas uma série de dez gerações. De modo semelhante Jesus fala das “dez virgens”; S. Paulo menciona os “dez adversários” que nos tentam separar do Cristo (Rom 8,38s), e os “dez vícios” que nos podem excluir do Reino de Deus (1Cor 6,9s). Os meses do ano são doze. Por isso esse número também significava a perfeição, a totalidade.

Para interpretar, a Bíblia, então, usamos um método simples, que poderia ser:

  1. A Bíblia não é um livro científico, pois não foi feito para descrever o mundo natural (que é o papel da Ciência), mas para aproximar o homem de Deus;
  2. Existem vários meios de fazer essa aproximação, que são expressos nos sentidos dos textos, seja no sentidos moral, literal, alegórico ou no sentido anagógico;
  3. Para descobrir qual desses sentidos prevalece, fazemos trabalhos filológicos e históricos para interpretar o tipo de livro que foi escrito, o propósito do autor, quem ele era, o sentido específico que aquelas palavras tinham na época, em qual cultura ele estava inserido, como ele passaria aquela mensagem desejada e por aí vai;
  4. Assim sabemos, por exemplo, que os Evangelhos tradicionais foram escritos como relatos históricos, embora os ensinamentos de Jesus muitas vezes fossem expressos dentro do gênero das parábolas, que não se referem a eventos reais, mas sim eventos alegóricos com a finalidade de passar uma mensagem;
  5. Esse mesmo método de pesquisa vai sendo utilizado para o restante dos textos, até entendermos bem qual é o seu sentido;
     

Pronto.

Levando esses aspectos em conta, já dá para diferenciar o que é e o que não é literal. Talvez não seja fácil, mas a preguiça intelectual não justifica a exigência de uma interpretação 100% literal de tudo que está escrito na Bíblia – pedir isso é como querer justificar um crime com base na própria torpeza.

Conclusão

O que tem ser feito, por um cristão, é uma análise literária baseada nos princípios acima. Assim, os vários sentidos do texto bíblico são desvendados. E nada dessa bobagem de “se uma parte for literal, todo o restante tem obrigatoriamente que ser também”. Se existe um método para diferenciar, então não cabe mais as reclamações dos neo-ateus.

Fonte:http://quebrandooencantodoneoateismo.wordpress.com/2011/01/13/tcnica-se-a-bblia-no-for-toda-literal-como-saber-o-que-e-o-que-no/

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Publicado em 15 de janeiro de 2011, em Comunicados aos Cristãos, Neo ateísmo. Adicione o link aos favoritos. 2 Comentários.

  1. O’Que você pensa dos ateus? eu não sou ateu.

    • Contra ateus (esponjas)não tenho nada contra porem sou contra a desonestidade dos neo-ateus militantes!
      E por que um Cristão precisaria mentir ou esconder seu e-mail?afinal voce só queria uma informação não é?

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