Craig responde: Liberdade e a Habilidade de Escolher o Mal

Liberdade e a Habilidade de Escolher o Mal

Tradução: Fabrs

Pergunta:

Dr. Craig,

Um conhecido meu recentemente me perguntou por que é necessário que sejamos aptos a escolher o mal pra termos livre-arbítrio, enquanto não é necessário que Deus seja apto a escolher o mal para que Ele tenha livre-arbítrio. Ele pensa que não há resposta para sua questão, e que, portanto, identificou uma inconsistência lógica dentro do teísmo que conta contra sua veracidade.

Eu respondi questionando seu entendimento de liberdade, bem como o seu pressuposto de que a verdadeira liberdade da vontade implica a capacidade de escolher o mal. Escrevi o seguinte:

“Sua objeção assume que um requisito necessário para a liberdade da vontade é a capacidade de escolher tanto o mal quanto o bem. Não vejo nenhuma razão para aceitar isso como verdade, não só de Deus, mas também dos seres humanos. Embora seja de fato verdade que a liberdade da nossa vontade inclui a nossa capacidade de escolher o mal, isso não é verdade necessariamente. Pois a vontade ser livre exige apenas que as nossas escolhas não sejam determinadas por fatores causais fora do nosso próprio poder volitivo. Uma pessoa pode ser livre, mesmo se só possa escolher o bem, e não o mal.

William Lane Craig oferece uma experiência de pensamento perspicaz para demonstrar que não é preciso ser capaz de escolher B para fazer sua escolha de A ser livre e significativa:

‘Imagine um homem com eletrodos secretamente implantados em seu cérebro que é apresentado a uma escolha entre fazer A ou B (para nossos propósitos, vamos definir A como bem e B como mal). Os eletrodos ficam inativos desde que o homem escolha A; mas se ele for escolher B, então os eletrodos são ligados e o forçarão a escolher A. Se os eletrodos se ativarem, levando-o a escolher A, sua escolha de A claramente não será uma escolha livre. Mas suponha que o homem realmente queria A e escolhe tal opção por sua própria vontade. Nesse caso, sua escolha de A é totalmente livre, mesmo que o homem seja literalmente incapaz de escolher B, já que os eletrodos não funcionaram e não tiveram efeito em sua escolha por A. O que faz sua escolha livre é a ausência de quaisquer fatores causando sua escolha por A. Essa concepção de liberdade libertária [N.T.: “libertarian freedom”, no original] tem a vantagem de explicar como a escolha de Deus em ser bom é livre, mesmo sendo impossível a Deus escolher o pecado: sua escolha não ser determinada por restrições causais. Assim, a liberdade libertária da vontade não requer a habilidade de escolher outra opção além daquela escolhida.’

Uma limitação no leque de escolhas não é o mesmo que não ter escolha alguma. Se A, B e C são boas escolhas, e D, E e F são más escolhas, a inaptidão de alguém para escolher D, E e F não nega o fato de que ele ainda pode escolher A, B ou C. Quando vou ao supermercado comprar sorvete, eles podem ter disponíveis apenas 15 dos 100 sabores de sorvete existentes. O fato de eu não poder escolher 85 dos sabores não nega o fato de que eu ainda posso escolher livremente dentre os 15. Da mesma forma, a falta de aptidão de Deus para escolher o mal não significa que Deus não tenha livre-arbítrio. No máximo, significa que sua gama de escolhas é mais restrita do que a nossa.”

Embora pareça certo para mim que a liberdade humana não exige a capacidade de escolher o mal, isto conflitua com a teodicéia do livre-arbítrio (que eu sempre achei convincente). A teodicéia do livre-arbítrio argumenta que é logicamente impossível para Deus criar um mundo em que humanos desfrutam do livre-arbítrio, e ainda são incapazes de usá-lo para escolher o mal. Por conta disso, a capacidade de escolher o mal não é verdade só fatualmente, mas necessariamente. Mas, como afirmei acima, parece-me que Deus poderia ter-nos feito livres, sem a capacidade de escolher o mal.

Onde está o erro? Está no meu argumento de que a liberdade humana não necessita da capacidade de escolher o mal? Está no meu entendimento da teodicéia do livre-arbítrio? Em ambos? Gostaria muito de receber uma resposta.

Jason

Resposta do Dr. Craig:

Acho que posso resolver seu dilema, Jason! Mas primeiro deixe-me dizer que belo trabalho você fez ao responder à questão do seu amigo. Quero fazer apenas um pequeno ajuste.

Deixe-me dizer, também, que a ilustração que dei não é originalmente minha, e sim ideia do filósofo Harry Frankfurt, cujo trabalho tem gerado uma grande discussão de ilustrações desse tipo. Observe, também, quão útil é a análise da liberdade libertária no entendimento da liberdade de Cristo ao resistir à tentação. Como a segunda pessoa da Trindade, Cristo foi impecável (i.e. incapaz de pecar). No entanto, ele resistiu à tentação livremente. Como isso é possível? Afinal, em seu estado de humilhação (seu estado encarnado pré-ressureição) ele experimentou limites cognitivos consistentes com uma genuína consciência humana e por isso sentiu o fascínio da tentação. Mas a isso ele livremente resistiu por seu próprio poder sem influência causal externa.

Agora, como isso é compatível com a afirmação da teodicéia do livre-arbítrio de que “é logicamente impossível para Deus criar um mundo no qual humanos gozam de livre-arbítrio, e ainda são incapazes de usar essa liberdade para escolher o mal”? Observe que a teodicéia do livre-arbítrio não comporta essa afirmação. É consistente com a teodicéia do livre-arbítrio que, embora existam mundos possíveis como você descreveu, eles tenham outras deficiências que os fazem menos preferíveis a mundos nos quais os humanos podem escolher tanto o bem quanto o mal. O ateísmo deve provar que, necessariamente, Deus iria preferir um mundo sem mal (por qualquer motivo) a qualquer mundo com o mal se ele quiser provar que Deus e o mal são logicamente incompatíveis.

No entanto, eu acho duvidoso que Deus poderia criar uma criatura que tem a capacidade de escolher livremente somente o bem. Essa possibilidade parece pertencer adequadamente apenas a uma natureza que tem a propriedade de perfeição moral, uma propriedade que pertence somente a Deus. Um ser livre, que possui uma natureza que se caracteriza por menos que a perfeição moral completa (N.B. [nota bene, veja bem] que a perfeição moral difere da mera inocência!) não tem o poder de escolher infalivelmente o bem. Para Deus, criar um ser que tem a capacidade de escolher infalivelmente o Bom seria, com efeito, criar outro Deus, o que é logicamente impossível, uma vez que Deus é essencialmente sem causa, e, claro, a onipotência não implica a capacidade de fazer o logicamente impossível.

Isso não é dizer que é logicamente impossível que, de fato, seres humanos escolham sempre o bem e nunca pequem. Esse é um mundo logicamente possível. Pelo contrário, é melhor dizer que seres humanos tem a capacidade inerente de escolher o mal, ou melhor, falta a capacidade de escolher infalivelmente o bem. Mesmo que eles não pequem, eles podem.

Em resposta a esta posição, você expressa a preocupação “Desde que somos necessariamenete finitos, segue disso que nossa capacidade de escolher o mal é necessária, também. Enquanto isso salva a teodicéia da vontade, isso conflitua com meu argumento de que a capacidade de escolher o mal não é necessária para uma verdadeira liberdade da vontade”. Não, não conflitua! Você respondeu ao seu amigo “questionando seu entendimento de liberdade, assim como sua suposição de que a liberdade verdadeira necessita da capacidade de escolher o mal”. Ambos os desafios permanecem. Então você só precisa ajustar as sentenças no seu parágrafo de abertura, no qual você afirma que humanos podem ter a habilidade de escolher só o Bom. Você respondeu à objeção do seu amigo mostrando que a liberdade da vontade por si só não necessita de liberdade para escolher o mal e explicando por que é que, no caso de pessoas finitas como seres humanos, liberdade para fazer escolhas significativamente morais necessariamente implica na habilidade de escolher o mal tanto quanto o bem.

Fonte: Quebrando o Encanto do Neo-Ateísmo

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Publicado em 19 de maio de 2011, em Comunicados aos Cristãos. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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