Arquivo diário: 23 de maio de 2011

Riqueza e religião

Um rapaz chamado Daniel Fraga, vlogger e palpiteiro já comentado em outra postagem, aparentemente não se cansa de mentir e ser desonesto em seus vídeos, cujo conteúdo revela uma trágica falta de conhecimento sobre os assuntos que ele mais frequentemente trata em seu canal. Sempre com um clichê neo-ateísta na manga, um dos últimos vídeos dele despertou a atenção de muitos teístas, que ficaram indignados com a desonestidade intelectual do sujeito, enquanto, curiosamente, a maioria dos ateus disse: “Amém”.
Vamos a análise do conteúdo. Segundo pesquisa feita em 114 países, divulgada pela Gallup, “quanto mais religioso, mais pobre tende a ser um país” (http://www1.folha.uol.com.br/quanto-mais-religioso-mais-pobre-tende-a-ser-um-pais.shtml). O próprio artigo atenta para detalhes importantes na interpretação dos dados levantados. Nele lemos: “Desde o século 19, a sociologia tem preferido apostar na tese de que a pobreza facilita a expansão da religião”, e essa frase é muito importante para que não se construa, a partir da pesquisa, uma argumentação equivocada sobre a relação entre a pobreza e a religião. Aí sugere-se que a pobreza facilita a expansão da religião, e não que a religião facilita a expansão – ou é a causa – da pobreza.
Citemos alguns exemplos práticos dessa realidade. Philip Jenkins, em A Próxima Cristandade, expõe alguns dados interessantes: Há um século, menos de 10% da África era cristã, mas hoje esse número subiu para 50% – dez milhões, em 1900, para trezentos e cinquenta milhões, hoje. Vale ressaltar que esse crescimento não se deu em consequência da colonização europeia no continente africano, no século XVIII, mas após o fim dessa colonização. De modo geral, a África não tem crescido economicamente, mas a religião, em contra-partida, tem crescido de forma implacável, e, mais importante, pela livre e espontânea vontade de seu povo; em alguns casos, mesmo em face de terríveis perseguições, comuns em regiões majoritariamente islâmicas. Dinesh D’Souza escreve que, “enquanto os pregadores ocidentais normalmente imploram às pessoas que venham à Igreja aos domingos ocupar os bancos, alguns pregadores africanos pedem a seus membros que se limitem a participar dos cultos a todo segundo ou terceiro domingo, a fim de darem oportunidade para que outros ouçam a mensagem” (Dinesh D’Souza, A Verdade Sobre o Cristianismo, pág. 29).

The Christian Martyrs’ Last Prayer, de Leon Gerome
E não se pode esquecer que o próprio surgimento e crescimento do cristianismo se deu entre os humildes, leigos, que também foram duramente perseguidos. Ser cristão nos primeiros séculos era saber que a própria vida corria grande risco – muitas vezes era a certeza de uma sentença de morte -, mas isso não impediu que o número de cristãos crescesse de forma inexplicável, tornando insignificante o efeito de qualquer perseguição contra o povo, que ao invés de amedrontar as pessoas, parecia dar-lhes uma coragem sobrenatural. Se o sr. Daniel Fraga supõe que associando pobreza ao cristianismo está desferindo aos seus seguidores um golpe doloroso, é porque desconhece a verdadeira história dessa religião que tanto despreza.
Mas, voltando à pesquisa, o próprio título já revela uma forma desonesta de expor o que foi pesquisado, uma vez que o mais adequado seria Quanto mais pobre, mais religioso tende a ser um país, o que para os leigos palpiteiros seria extremamente esclarecedor e evitaria muita bobagem em consequência de uma desonestidade que já começou na mídia (que surpresa!). Para melhorar, a notícia da Folha apresenta algo que, para pessoas sérias, só pode ser entendido como uma piada de mal gosto: não daquelas que incomodam, mas que fazem gargalhar de verdade. Falo da opinião de Daniel Sottomaior, presidente da ATEA, cujas declarações revelam um sujeito que, longe de conhecer o mínimo do assunto ali abordado, faz papel de garoto propaganda de uma causa que só pessoas igualmente ingênuas seriam capazes de abraçar.
Segundo ele, a própria religião é a causa da pobreza; ele chega a chamá-la de “fator ópio do povo”, e diz que “ela promove o fatalismo e o deus-dará”. Ora, essa ideia de que os teístas devem se auto-definir como seres inúteis que devem esperar que a intervenção divina seja o motor de suas vidas é um dos clichês ateístas mais repetidos nos últimos tempos; o que, de forma alguma, o torna verdadeiro. Analisemos, portanto, a afirmação do sr. Sottomaior à luz de alguns exemplos contra essa ideia de “sentar e esperar”. Especialmente para os cristãos, agir em benefício de toda a espécie humana em vez de esperar que um milagre aconteça levou-os a presentear todos os seres humanos com uma das práticas mais bem-vistas no mundo: a caridade. Qual é o sentido em juntar pessoas e arrecadar fundos para ajudar os necessitados, se basta esperarmos que um milagre aconteça? Não é mais fácil ajoelhar-se e pedir a Deus que alimente o faminto, que efetivamente ir até o faminto e alimentá-lo o mais rápido possível? É óbvio que os cristãos confiam e esperam em Deus, mas não é por isso que se projetam como seres passivos cuja vida limita-se a pedir que recebam um milagre; pelo contrário, é justamente por confiarem e esperarem em Deus que projetam-se como o próprio milagre, e por conta própria – e inspirados por Deus – tentam fazer a diferença para os que deles precisam.
Voltaire, conhecido pelo seu rígido anti-catolicismo, declarou: “Talvez não haja nada maior na terra que o sacrifício da juventude e da beleza com que belas jovens, muitas vezes nascidas em berço de ouro, se dedicam a trabalhar em hospitais pelo alívio da miséria humana, cuja vista causa tanta aversão à nossa sensibilidade. Tão generosa caridade tem sido imitada, mas de modo imperfeito, por gente afastada da religião de Roma” (Michael Davies, For Altar and Throne: The Rising in the Vendée, pág. 13). Será que é plausível crer que a religião causa nas pessoas essa característica de sentar e não agir por conta própria, como sugere o presidente da ATEA? Vamos mais longe: segundo William Lecky, “não se pode sustentar nem na prática, nem na teoria, nem nas instituições fundadas, nem no lugar que a ela foi atribuído na escala dos deveres, que a caridade ocupasse na Antiguidade um lugar comparável àquele que atingiu no cristianismo” (William E.H. Lecky, History of European Morals from Augustus to Charlemagne, vol. 1, pág. 83).
Cristo nos manda que amemos uns aos outros, inclusive os nossos inimigos. Ele nos manda que amemos a todos os seres humanos, e amor é algo muito maior que uma expressão banalizada pelos jovens do século XXI; é o mais nobre dos sentimentos humanos, capaz de levar alguém a dar a própria vida pelo bem de outro, e o bem dos outros é urgente, pois nenhum ser humano que tem amor pelo próximo consegue sentir conforto com a miséria alheia e esperar que essa miséria desapareça magicamente. Quem ama o próximo só se alegra quando toda a tristeza do próximo está aliviada, e não há sentido em esperar que este alívio venha milagrosamente se ele pode vir através dos nossos próprios atos. E que não pensem que estas palavras tentam excluir o papel de Deus em todas as coisas, pois, como já exposto antes, por que esperarmos pelo milagre se, de certa forma, podemos ser o milagre – ainda que não literalmente?

Que Daniel Sottomaior guarde suas propagandas para os associados da ATEA, porque é isso que ele revela em suas afirmações: apenas propaganda. Outros exemplos desse caráter propagandístico do rapaz já foram expostos e desmascarados no Quebrando o Encanto do Neo-Ateísmo (campanha-atea-porto-alegre-e-salvador/; campanha-atea-nao-vai-mais-circular/).

À luz da História, é falso que a religião “não apenas não gera valor como sequestra bens, dinheiro e mentes que deixam de ser empregados em atividades econômicas e de desenvolvimento”. Aliás, sendo para os ateus tão importante insistir na questão econômica e no desenvolvimento, cabe refletir sobre o papel da religião nesses aspectos fundamentais à sociedade. Comecemos por um gigante: a agricultura. O papel dessa arte prática ao longo da História é facilmente reconhecido por todas as pessoas, não só pelo que representou no passado, bem como pelo que representa ainda hoje, mas o que poucos sabem é da relação que os monges tiveram com tal prática. Segundo o historiador francês François Guizot, “os monges beneditinos foram os agricultores da Europa; transformaram-na em terras de cultivo em larga escala, associando agricultura e oração” (John Henry Newman, Essays and Sketches, vol. 3, págs. 264-5). Henry Goodell declarou, no início do século XX: “Eles salvaram a agricultura quando ninguém mais poderia fazê-lo. Praticavam-na no contexto de uma nova forma de vida e de novas condições, quando ninguém mais ousava empreendê-la” (Henry H. Goodell, The Influence of the Monks in Agriculture, discurso em 23/08/1901).
O historiador Thomas E. Woods escreve: “Aonde quer que tenham ido, os monges introduziram plantações, indústrias ou métodos de produção desconhecidos do povo. Aqui introduziam a criação de gado e de cavalos, ali a elaboração de cerveja, a criação de abelhas ou a produção de frutas. Na Suécia, o comércio de cereais deve a sua existência aos monges; em Parma, a produção de queijo; na Irlanda, a pesca do salmão e, em muitos lugares, as vinhas de alta qualidade. Os monges represavam as águas das nascentes a fim de distribuí-las em tempos de seca. Foram os monges dos mosteiros de Saint Laurent e Saint Martin que, observando as águas das fontes espalharem-se inutilmente pelos prados de Saint Gervais e Belleville, as canalizaram para Paris. Na Lombardia, os camponeses aprenderam dos monges a irrigação, o que contribuiu poderosamente para tornar a região tão famosa em toda a Europa pela sua fertilidade e riqueza (Thomas E. Woods, Como a Igreja Católica Construiu a Civilização Ocidental, págs.32-3). É necessário ressaltar que este parágrafo descreve muito pouco das contribuições dos monges à civilização: para um aprofundamento mais detalhado, consultar o capítulo 3 do livro referido.
Mais notável é que esses monges compõem apenas um dos vários grupos cristãos que contribuíram de forma louvável ao Ocidente. Aqui os uso apenas como exemplo para questionar as alegações de Sottomaior, já mostradas falsas. Negligenciar o papel dos monges no desenvolvimento da Europa é apenas uma das várias formas de admitir para o público, ainda que não de forma explícita, que naquelas declarações não há preocupação com a verdade, mas com um mero marketing ateísta.
Quando se fala em economia, a situação termina ainda mais embaraçosa para os ateus, especialmente para Daniel Fraga, que tanto discorreu sobre a riqueza em seu vídeo. A própria ciência econômica possui raízes no pensamento cristão, em que destacam-se os escolásticos. Jean Buridan (1300-1358) demonstrou que o dinheiro surgiu livre e espontaneamente no mercado, como meio de simplificar as trocas (Murray N. Rothbard, An Austrian Perspective on the History of Economic Thought, vol. 1, págs. 73-4), o que veio a ser confirmado pelo grande economista Ludwig von Mises, no século XX. Nicolau Oresme (1325-1382) escreveu Um tratado sobre a origem, natureza e transformação do dinheiro, considerado “um marco na ciência monetária”. Oresme foi chamado “o pai e fundador da ciência monetária” (Jörg Guido Hülsmann, Nicholas Oresme and the First Monetary Treatise, http://mises.org/daily/1516). Schumpeter escreveu sobre os escolásticos: “Foram eles, mais do que qualquer outro grupo, os que chegaram mais perto de ser os fundadores da ciência econômica” (Joseph A. Schumpeter, History of Economic Analysis, pág. 97). Aqui também é preciso ressaltar que, não só os escolásticos contribuíram muito mais à Economia do que esta descrito no parágrafo, como contribuíram abundantemente a várias outras disciplinas.
Ora, não se pode alcançar riqueza sem que se proponham meios adequados para fazê-lo. Entra aí, mais uma vez, o papel fundamental da religião, e novamente o cristianismo mostra-se indispensável. É sabido que tanto católicos quanto protestantes contribuíram para o desenvolvimento do pensamento econômico, e caso o sr. Fraga não ache justo negligenciar a História como ela é, deveria reconhecer esse papel e rever seus conceitos ao tentar rivalizar o progresso e a religião. Ela não é a causa da pobreza, e é fácil até para uma criança entender que a Europa está se tornando menos religiosa conforme sua população apega-se mais vigorosamente às conquistas materiais, e não conquistando algo a mais por tornar-se menos religiosa.
Dizer que os Estados Unidos são uma exceção, e que, portanto, é irrelevante ao caso abordado é a prova definitiva da ignorância do sujeito. Ora, se um país religioso não é necessariamente pobre, fica claro que não é, pois, a religião a causa da pobreza, e que essa causa precisa ser averiguada em outra pesquisa. Aliás, os EUA não são o único exemplo de país rico e religioso, e o próprio gráfico da pesquisa mostra isso. O salto lógico de Daniel Fraga – a religião é a causa da pobreza – é insustentável perante os próprios dados fornecidos pela pesquisa, e muito mais sob uma análise devida dos argumentos por ele expostos. Esta era a ideia central que precisava ser refutada; o resto do vídeo consiste na apresentação de vários red herrings, como a tentativa de expor como inimigas a razão e a religião, considerando que a razão é o motor do progresso, e não a religião. A razão é, de fato, o motor do progresso, mas a religião é o motor da razão e, portanto, a incoerência só existe na cabeça do sr. Fraga. A cereja do bolo vem em frases de efeito de velhos conhecidos nossos, como Richard Dawkins e Ayn Rand. Não se pode dizer que o sujeito não é divertido, afinal…
Em resposta às alegações acima analisadas, foi postado um vídeo bastante interessante, por Leonardo Bruno, do blog http://cavaleiroconde.blogspot.com/:
Não é necessário comentar o vídeo, mas é bom atentar para o que o próprio Daniel Fraga comentou ali. Vejam: a religião, em países pobres, é a causa da pobreza, porém, em países comunistas, o ateísmo não tinha nada a ver com nada; a culpa era apenas do comunismo. Concordo com ele, o ateísmo não é a causa do atraso em países comunistas, mas, pela lógica dele mesmo, é possível concluir que o ateísmo seja essa causa – não por ter sido, de fato, mas por que a lógica é falha. Não se chega a uma conclusão verdadeira dispondo de premissas falsas. Quando Daniel Fraga diz que a razão é a fonte do progresso, supõe que a religião é inimiga da razão, e, portanto, inimiga do progresso. Mas a religião não é inimiga da razão, e por isso foi fácil mostrar que também não é inimiga do progresso.
Ademais, se ele não se confundiu com as palavras, admitiu que a religião foi, historicamente, o motor do desenvolvimento, ressaltando, no entanto, que poderia ter sido diferente. Agora, perguntemo-nos o seguinte: devemos nos basear na realidade como ela é ou em como ela poderia ter sido? Para alguém que repete exaustivamente a importância da razão, não convém aceitar a realidade objetiva, em vez de propor realidades hipotéticas para negligenciar o papel de algo com o qual não se parece simpatizar?
A religião é o motor do progresso, bem como o ateísmo é o motor do comunismo. Historicamente foi e continua sendo assim, então, qual o sentido em propor algo que poderia ser diferente, se, efetivamente, a especulação pode seguir qualquer caminho, mas jamais possuir evidências que corrobore para nenhum? Que não se conclua, também, como é comum entre os ateus, que dizer que o ateísmo é parte fundamental do comunismo implica em dizer que todo ateu é comunista ou coisas relacionadas. De fato, é muito difícil para os ateus admitirem que o ateísmo era fundamental ao comunismo, principalmente para aqueles que gostam de culpar as religiões pacíficas pelo terrorismo de Bin Laden, por exemplo. Se o ateu aplica a si mesmo o seu próprio critério, estará chamando para si a responsabilidade que obviamente não é dele, mas que, pela própria incoerência, acaba o afetando.
Seja como for, fiquemos atentos às típicas desonestidades ateístas, principalmente com essas que parecem encontrar fundamentos em dados autênticos, publicados por institutos de pesquisa sérios, etc. Saber interpretar os dados é fundamental, mas mais importante é saber identificar as fraudes intelectuais de pessoas desonestas que tentam ofender descaradamente a própria sensatez humana, independente do humano que a defende. A argumentação neo-ateísta é aquela de sempre, e quando o debate já está perdido, nada tão eficaz quanto apelar para a ridicularização somada ao ataque em bando…

A perda da dignidade de Stephen Hawking: “Paraíso é para quem tem medo do escuro”

Stephen Hawking, físico inglês, voltou a destilar seu veneno e sua ignorância em assuntos que não entende.

Explico: Hawking agora resolveu alegar,  em entrevista ao The Guardian, que o paraíso é somente um escapismo para pessoas com medo do escuro.

Reproduzo a notícia abaixo:

Um dos mais renomados físicos do mundo, Stephen Hawking causou polêmica em uma entrevista publicada no jornal britânico “Guardian” ao dizer que não existe paraíso após a morte. Hawking, que tem a maior parte de seu corpo paralisado pela esclerose lateral amiotrófica, já havia afirmado no passado que não acredita na existência de Deus.

“Acredito que o cérebro é um computador que para de funcionar quando todos os seus componentes falham. Não existe nenhum paraíso ou vida após a morte para computadores quebrados; isso é um conto de fadas para pesssoas com medo do escuro”, disse o cientista.

(…) Em 2010, o físico recebeu críticas de líderes religiosos ao afirmar que não existia a necessidade de um criador para explicar a existência do Universo. Na entrevista desta semana ao Guardian, ele disse que o “universo é governado pela ciência”. Como “conselho”, disse que a humanidade deve “procurar o maior valor para nossas ações”.

http://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2011/05/em-entrevista-fisico-stephen-hawking-diz-que-nao-existe-paraiso.html

O fato é que Hawking (depois do aviso para nos protegermos de alienigienas, e declarações de pura propaganda como “A Ciência vai vencer a religião, pois a ciência funciona” e “A Filosofia está morta”) já deve estar ficando fora da casinha.

Essa sua besteira de “O Paraíso é um conto de fadas para pessoas com medo do escuro” entra na mesma lista de pérolas.

A existência do paraíso é baseada em um argumento LÓGICO.

Se eu aceito o Argumento Moral ou o Argumento Ontológico, então eu tenho uma base para afirmar não só que Deus existe, mas também que ele é o próprio locus de toda moral. Ou seja, a própria natureza de Deus é a fonte dos valores morais na realidade.

E, naturalmente, um dos valores morais é a justiça. Deus é naturalmente justo. Sendo naturalmente justo, iria corrigir as injustiças que existem no mundo depois da ida de cada um. E isso é o que normalmente se entende por “Paraíso” e “Inferno”: justiça aplicada aos bons e aos maus.

Bertrand Russel expôs esse argumento (como se fosse válido por si só) na sua palestra “Por que não sou Cristão”:

Há uma outra forma muito curiosa de argumento moral, que é a seguinte: dizem que a existência de Deus é necessária a fim de que haja justiça no mundo. Na parte do universo que conhecemos há grande injustiça e, não raro, os bons sofrem e os maus prosperam, e a gente mal sabe qual dessas coisas é mais molesta; mas, para que haja justiça no universo como um todo, temos de supor a existência de uma vida futura para reparar a vida aqui na Terra. Assim, dizem que deve haver um Deus, e que deve haver céu e inferno, a fim de que, no fim, possa haver justiça

Concordo que o argumento analisado em si mesmo não se sustenta. Mas como continuação do Argumento Moral, é um argumento bastante coerente.

Agora vejamos o absurdo do argumento reproduzido na notícia:

  • (1) Acredito que o cérebro é um computador;
  • (2) Não há paraísos para computadores quebrados;
  • (3) O céu é um conto de fadas para pessoas com medo do escuro;

Só o fato de ele utilizar o Argumento da Incredulidade Pessoal na primeira premissa já seria o suficiente para mandá-lo de volta para casa no primeiro semestre de Filosofia. A pífia tentativa da técnica Ateus são fortes, Teístas São Fracos [Crença por necessidade] na terceria premissa também mostra sua “qualidade intelectual” no assunto.

Isso não impediu que um forista do Orkut, anti-religioso até a medula, comemorasse pateticamente a notícia, é claro:

Não gostou? Prefere as palavras do papa ou dos desconhecidos que escreveram a bíblia? Se quiser pode reclamar com o autor do pensamento, o magnífico cientista Stephen Hawking.

Detalhe: desde quando o “magnífico cientista” tem autoridade para falar no assunto? Essa é a falácia ad verecundiam/magister dixit.
Em questões como a existência do Paraíso, Hawking é tão especialista quanto Einstein era em Economia. Seria o mesmo que chamar o Papa para analisar a Física Quântica ou o Dalai Lama para opinar sobre o fluxo do dinheiro na minha conta bancária.
As opiniões dessas pessoas simplesmente não tem valor argumentativo nessas áreas.
Comemorar a opinião de Hawking é comportamento de cheerleader, não de um debatedor com honestidade intelectual.

Diante de declarações absurdas como essa, líderes religiosos estão perdendo tempo em dar revides histórico, similarmente ao que sugeriu Luciano Ayan no caso Bolsonaro. Seria a hora de um líder religioso, de evidência internacional, ir à imprensa e dizer:

Minha crença no Paraíso é só um conto de fadas para pessoas com medo no escuro? Pois eu desafio Stephen Hawking a vir aqui e VALIDAR sua alegação, sob monitoramente de câmeras e diante de uma bancada de filósofos e céticos. Se Hawking não conseguir, sua fala deverá ser tratada como aquilo a que ficará prova: pura difamação.

Não há mais como defender Hawking.

E o que justamente falta, diante disso, é uma resposta a altura que o coloque em seu devido lugar.

Fonte:Quebrando o Encanto do Neo-Ateísmo