Arquivo diário: 9 de junho de 2011

Por que é inadequado dizer que o padre celebra “de costas para o povo” na missa tridentina?

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Autor: Marcio Antonio Campos
Extraído de: http://www.veritatis.com.br/article/4047
Publicação original: Novembro de 2006

É quase automático: quando se fala na Missa celebrada no rito tridentino, anterior à reforma litúrgica de 1969, as duas primeiras idéias que vêm à cabeça da maioria das pessoas é “missa em latim” e “padre de costas para o povo” – normalmente essas idéias são seguidas de algum gesto ou expressão de repúdio, como se rezar em latim e vendo só as costas do padre fosse praticamente o inferno na terra.

Em seu livro “Introdução ao Espírito da Liturgia”, o então cardeal Joseph Ratzinger dedicou um capítulo inteiro para explicar por que a expressão “de costas para o povo” é inadequada quando se fala da orientação do sacerdote no rito tridentino (lembrando que essa possibilidade se manteve no rito de Paulo VI, embora na maioria das vezes o padre celebre voltado para o povo). O texto é uma aula de história e de teologia, e por isso apresentamos um breve resumo, organizado em tópicos. A versão usada é a publicada em inglês pela editora Ignatius Press (The Spirit of the Liturgy, p. 74-84).

1. O cardeal começa dizendo que rezar voltado para o oriente tem sido a tradição cristã desde o começo do Cristianismo, mas o homem moderno perdeu um pouco o sentido dessa orientação (aliás, a própria palavra “orientação” vem de “oriente”). No mundo ocidental, o conceito de que Deus está em todo lugar levou a um questionamento da necessidade de se estar voltado a um determinado lugar ou direção. No fundo, os católicos acabaram adotando o “tanto faz” litúrgico, enquanto judeus e muçulmanos continuam virados para o ponto central da Revelação, o Deus que se revelou a nós.

2. Se é verdade que Deus está em todo lugar, também é verdade que Ele se fez carne e esse é um ponto fundamental da fé. Por isso, como cristãos, deveríamos nos voltar justamente ao Deus encarnado.

3. A confusão sobre para onde o padre devia se voltar começou quando alguns liturgistas “muderrrrninhos” resolveram se debruçar sobre a Basílica de São Pedro, que tinha uma característica diferente das outras igrejas. Por causa de razões topográficas, ela era (e continua sendo) voltada para o ocidente, e não para o oriente. Então, se o padre queria celebrar voltado para o oriente, ele precisava ficar de frente para o povo.

4. A partir dessa observação, os liturgistas avançadinhos do século 20 disseram que a coisa tinha era de ser feita desse jeito, que só com padre e povo virados um para o outro que se formaria a “comunidade celebrante” (e hoje sabemos pela Ecclesia de Eucharistia que esse conceito é errado), que teríamos “participação ativa”, que reproduziríamos o modelo da Última Ceia, enfim, que o autêntico sentido da liturgia católica só poderia ser obtido desse jeito, com a liturgia versus populum (padre e povo frente a frente).

5. Mesmo que o Concílio Vaticano II não tenha dito nada sobre celebração “versus populum” (e não disse mesmo), logo depois do Concílio começaram a se construir igrejas seguindo essa nova corrente litúrgica, o que deu a entender que isso tinha sido fruto do Concílio (mas não foi). A maior conseqüência disso, diz Ratzinger, não foi arquitetônica, mas sim espiritual: a essência da liturgia passou a ser de “refeição comunal”, em vez do sacrifício de Jesus.

6. no entanto, existem alguns aspectos que os liturgistas “muderrrrninhos” esqueceram ou quiseram esquecer:

a. Nunca houve no começo do Cristianismo missa em que as pessoas ficavam voltadas umas para as outras.
b. Mesmo na Última Ceia, e em outras refeições daquela época, o anfitrião não ficava de frente para os convidados. Eles ficavam todos de um lado da mesa enquanto o outro lado era deixado para o serviço. A característica “comunal” das refeições vinha justamente do fato de que estavam todos do mesmo lado da mesa!
c. Apesar da Eucaristia ter sido instituída durante uma refeição judaica de Páscoa, os cristãos sempre entenderam que a Eucaristia se referia à Cruz, mais do que à Ceia.
d. No caso da Basílica de São Pedro, e de outras igrejas voltadas ao ocidente, quando o padre rezava voltado para o oriente, não só ele fazia isso: toda a assembléia também se voltava para a mesma direção. Ou seja, era o povo que “dava as costas” para o padre, e até para o altar.
7. Justamente porque todos esses fatos caíram no esquecimento é que surgiram expressões como “celebrar virado para a parede” e “de costas para o povo”, e o versus Deum se tornou algo praticamente inaceitável para os liturgistas “muderrrrnos”.

8. Curiosamente, diz Ratzinger, uma conseqüência dessa nova maneira de celebrar foi uma clericalização: o padre (ou “presidente da celebração”, como gostam de dizer, para desgosto de muitos católicos) vira o ponto central e a referência da liturgia: tudo depende dele, temos de vê-lo, responder a ele, depender da sua criatividade. Só que, para compensar, os liturgistas “muderrrnos” resolveram entupir o presbitério de leigos para criar “participação ativa”. Em duas frases traduzidas literalmente do livro: “Cada vez mais Deus sai de cena”, e “Com o padre voltado para o povo, a comunidade virou um círculo fechado em si mesma”.

9. E aí o cardeal explica por que dizer “de costas para o povo” é uma expressão inadequada. Celebrar versus Deum não quer dizer que estamos voltados para a parede, ou que o padre dá as costas ao povo. Nem padre nem povo deviam ser tão importantes a esse ponto de ser referência de alguma coisa. Quando padre e povo estão voltados para a mesma direção, eles sabem que estão em uma procissão dirigindo-se para Deus, diz Ratzinger. Eles não ficam se fechando em um círculo, não ficam olhando um para o outro, mas sim se tornam o Povo de Deus peregrino que se dirige ao oriente, de onde vem a Luz.

10. No entanto, observa o cardeal, não é possível simplesmente clonar o passado. Cada época precisa descobrir a essência da liturgia (que não muda) de acordo com sua maneira. Por exemplo, a liturgia da Palavra, sim, tem a ver com falar e responder, e aí um cara-a-cara entre leitor e povo faz sentido. Mas na liturgia eucarística é essencial (essa palavra é do cardeal Ratzinger) uma orientação comum em direção ao oriente. Olhar o padre não interessa. O que interessa é olhar para Deus.

11. Das objeções a esses argumentos todos, talvez a mais importante seja de ordem prática: vamos ter que rearrumar as igrejas outra vez? Ratzinger admite que ficar mudando tudo de lugar não é bom, mas encontra alternativas. Onde não for possível que padre e povo se voltem para a mesma direção (eu particularmente acho que esses casos seriam exceções bem raras, já que quase sempre existe um bom espaço na frente do altar), seria possível criar um “Oriente interior”, da fé – por meio do crucifixo, que deveria estar bem no meio do altar e ser o foco das atenções do padre e do povo (pergunto, em quantas igrejas vemos isso hoje?).

12. Ah, mas hoje existem aqueles crucifixos de procissão, que ficam lá do lado do altar, alguém poderia dizer. Então Ratzinger responde, e com esta citação finalizo o artigo: “mover a cruz do altar para a lateral para dar ao povo uma visão do padre sem interferência é algo que eu classifico como um dos grandes absurdos das últimas décadas. A cruz atrapalha a missa? O padre é mais importante que o Senhor? Esse erro deve ser corrigido o quanto antes, e pode ser feito sem necessidade de reformas. O Senhor é o ponto de referência.”

Nota do editor (site “Veritatis Splendor”): A reforma litúrgica de Paulo VI não mudou a posição do sacerdote durante a Missa. Há, isso sim, uma permissão para celebrar o Santo Sacrifício versus populum, mantendo-se, entretanto, a posição versus Deum como normativa. Das próprias rubricas do Missal Romano de Paulo VI encontramos as informações que abonam essa prática: o padre deve, segundo tais textos, durante a Liturgia Eucarística, “voltar-se para o povo” para algumas cerimônias e atos; isto significa que, se deve voltar-se ao povo, é porque antes estava voltado ad Orientem. “Estes avisos que em certos momentos o sacerdote esteja `voltado para o povo’ seriam supérfluos, se o sacerdote durante toda a celebração ficasse atrás do altar e frente ao povo.” (RUDROFF, Pe. Francisco. Santa Missa, Mistério de nossa Fé. 1996, Serviço de Animação Eucarística Mariana, Anápolis, com apresentação de Dom Manoel Pestana Filho, Bispo Diocesano de Anápolis, p. 110, nota 37; cf. ELLIOTT, Mons. Peter. Cerimonies of the Modern Roman Rite, 1995, Ignatius Press, San Francisco, p. 23) Publicada em 1993, no seu boletim Notitiae, uma nota da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos reafirma a licitude tanto da celebração versus populum quanto da versus Deum. Assim, mesmo no chamado “rito novo”, é perfeitamente possível a Missa “de costas”.

Fonte: http://www.reinodavirgem.com.br/liturgia/versus-Deum.html

A Santa Missa é uma festa?

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É comum escutarmos hoje que “a Santa Missa é uma festa”. Seria adequada tal definição?

Primeiramente, tenhamos em mente o que o Sagrado Magistério de nossa Santa Mãe Igreja nos ensina à respeito da Santa Missa: ela é a renovação do Sacrifício de Nosso Senhor Jesus Cristo, que sendo verdadeiro Deus e verdadeiro homem, pagou pelos nossos pecados na cruz. Tal Sacrifício se torna presente na Santa Missa no momento em que o pão e vinho tornam-se verdadeiramente o Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Nosso Senhor (Catecismo da Igreja Católica, 1373-1381). O Santo Sacrifício da Missa é incruento (ou seja, sem sofrimento nem derramamento de sangue), ou seja, é o mesmo e único Sacrifício do Calvário, tornando-se verdadeiramente presente na Santa Missa para que possamos receber os seus frutos e nos alimentar da Carne e do Sangue de Nosso Senhor. Por isso nos ensina o Sagrado Magistério nos ensina que “o sacrifício de Cristo e o sacrifício da Eucaristia são um único sacrifício.” (Catecismo da Igreja Católica, 1367)

Conseqüentemente, a Santa Missa não absolutamente é uma festa no sentido popular do termo, pois a Santa Missa não é um encontro social para onde as pessoas se dirigem para comemorar algo, para confraternizarem, para comer e para dançar. A Santa Missa tem a finalidade de oferecer ao Pai o Único e Eterno Sacrifício de Nosso Senhor, e a nossa participação nele (no sentido de nos unirmos ao mistério que o sacerdote celebra no altar) nos propicia os frutos deste Sacrifício. Embora a Santa Missa tenha uma dimensão de banquete e ceia, é um banquete essencialmente sacrifical, que perde totalmente o sentido se não reconhecermos nele a dimensão de Sacrifício. Pois na Santa Missa não nos alimentamos de uma comida qualquer como em um banquete ou ceia comuns, mas sim da Carne e do Sangue de Nosso Senhor, escondidos sob a aparência do pão e do vinho.

Por outro lado, não seria errado se afirmássemos que a Santa Missa é uma festa em um sentido místico profundo, pois nela, no Santo Sacrifício de Nosso Senhor, acontece a nossa salvação. Por isso, na Santa Missa toda a Santa Igreja triunfante, padecente e militante – o que inclui a Virgem Santíssima, os santos anjos, os santos do purgatório e os santos da terra – se alegra e festejam a alegria da nossa salvação. Mas o fazem em profunda reverência, solenidade e adoração.

Olhemos para nosso povo, que vivendo em uma sociedade “descristianizada”, como declarou o saudoso Papa João Paulo II (Veritatis Splendor, 106), ignora o que seja realmente a Santa Missa. Mesmo, muitos que freqüentam a Santa Missa semanalmente ignoram este mistério, pois falta ao nosso povo noções básicas da catequese católica – o que por sua vez é conseqüência da má formação do clero; o Cardeal Ratzinger, hoje Papa bento XVI, não poupa palavras para dizer que “o que nós precisamos é de uma nova educação litúrgica, especialmente também os padres.” (“O Sal da Terra”, p.141) O problema aumenta por grande parte das celebrações da Santa Missa não manifestarem externamente a sua dignidade, ao desobedecer as normas litúrgicas e ignorar a solenidade que o Sagrado Magistério recomenda para que se viva na Santa Missa – e assim se combate o ato solene de receber Nosso Senhor diretamente na boca e de joelhos, se utiliza sem real necessidade os ministros extraordinário da comunhão eucarística, sacerdotes não utilizam a casula para celebrar sem um motivo justo para isso, e assim por diante.

Historicamente falando, os protestantes não crêem na Presença Real de Nosso Senhor no Santíssimo Sacramento e no Santo Sacrifício da Missa. Por isso, na tentativa de atender a ordem de Nosso Senhor (“fazei isto em memória de mim”), procuram realizar novamente última ceia apenas como “banquete”, comendo pão e bebendo vinho – e nem poderia ser diferente, pois os protestantes romperam com a sucessão apostólica, e portanto, não poderiam celebrar a Santa Missa nem se quisessem.

Mesmo caminho, posteriormente, tomaram os “católicos” ditos “progressistas”, que negam Presença Real de Nosso Senhor e o Santo Sacrifício da Missa, tendo eles como estratégia natural para disseminar suas crenças heréticas, afirmar que a Santa Missa é simplesmente “banquete”, “ceia” a “festa”, onde “se celebra a vida, a fraternidade e a partilha”, e assim obscurecer a sua essência, que é sacrifical.

O saudoso Papa João Paulo II, em sua última encíclica, escreveu à este respeito: “As vezes transparece um compreensão muito redutiva do mistério eucarístico. Despojado do seu valor sacrifical, é vivido como se em nada ultrapassasse o sentido e o valor de um encontro fraterno ao redor da mesma. Além disso, a necessidade do sacerdócio ministerial, que se fundamenta na sucessão apostólica, fica às vezes obscurecida, e a sacramentalidade da Eucaristia é reduzida à simples eficácia do anúncio. (…) Como não manifestar profunda mágoa por tudo isto? A Eucaristia é um Dom demasiadamente grande para suportar ambigüidades e reduções.” (EE 10)

Por isso mesmo, concluímos que referir-se a Santa Missa simplesmente como festa é perigoso em um meio onde o povo não é suficientemente catequizado e faz parte da estratégia dos adversários da Santa Igreja. Ao invés disso, voltemos a afirmar com clareza, juntamente com o sumo Pontífice Gloriosamente Reinante – o Papa Bento XVI – a verdadeira essência da Santa Missa: o Único e Eterno Sacrifício de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Fonte:http://www.reinodavirgem.com.br/liturgia/missafesta.html