Arquivo diário: 20 de junho de 2011

Mitos anti-católicos sobre as Cruzadas

O perito historiador Dr. Paul F. Crawford do Departamento de História e Ciências Políticas da Universidade de Pensilvânia (Estados Unidos), desmente quatro mitos anti-católicos sobre as Cruzadas, como por exemplo que os participantes teriam se fartado de riquezas quando na verdade aconteceu é que muitos terminaram na ruína financeira.

O investigador das Cruzadas assinala em um artigo publicado em abril deste ano que com frequência “as cruzada são mostradas como um episódio deploravelmente violento no qual libertinos ocidentais, que não tinham sido provocados, assassinavam e roubavam muçulmanos sofisticados e amantes da paz, deixando padrões de opressão escandalosa que se repetiriam na história subsequente”.

“Em muitos lugares da civilização ocidental atual, esta perspectiva é muito comum e demasiado óbvia para ser rebatida”, prossegue.

Entretanto, precisa o perito autor do livro “The Templar of Tyre”, a “unanimidade não é garantia de precisão. O que todo mundo ‘sabe’ sobre as cruzadas poderia, de fato, não ser certo”.

Seguidamente rebate, um por um, quatro mitos que terminam por mostrar algo que, em realidade, não foram as Cruzadas.

Primeiro mito: “as cruzadas representaram um ataque não provocado de cristãos ocidentais contra o mundo muçulmano”

Crawford assinala que “nada poderia estar mais longe da verdade, e inclusive uma revisão cronológica esclareceria isso. No ano 632, Egito, Palestina, Síria, Ásia Menor, o norte da África, Espanha, França, Itália e as ilhas da Sicília, Sardenha e Córsega eram todos territórios cristãos. Dentro dos limites do Império Romano, que ainda era completamente funcional no Mediterrâneo oriental, o cristianismo ortodoxo era a religião oficial e claramente majoritária”.

Por volta do ano 732, um século depois, os cristãos tinham perdido a maioria desses territórios e “as comunidades cristãs da Arábia foram destruídas completamente em ou pouco tempo depois do ano 633, quando os judeus e os cristãos de igual maneira foram expulsos da península. Aqueles na Pérsia estiveram sob severa pressão. Dois terços do território que tinha sido do mundo cristão eram agora regidos por muçulmanos”.

O que aconteceu, explica o perito, a maioria das pessoas sabem mas só lembra quando “recebem um pouco de precisão”: “A resposta é o avanço do Islã. Cada uma das regiões mencionadas foi tomada, no transcurso de cem anos, do controle cristão por meio da violência, através de campanhas militares deliberadamente desenhadas para expandir o território muçulmano a custa de seus vizinhos. Mas isto não deu por concluído o programa de conquistas do Islã”.

Os ataques muçulmanos contra os cristãos seguiram já não só nessa região mas contra a Europa, especialmente Itália e França, durante os séculos IX, X e XI, o que fez que os bizantinos, os cristãos do Império Romano do Oriente, solicitassem ajuda aos Papas. Foi Urbano II quem enviou as primeiras cruzadas no século XI, depois de muitos anos de ter recebido o primeiro pedido.

Para o Dr. Crawford, “longe de não terem sido provocadas, então, as cruzadas realmente representam o primeiro grande contra-ataque do Ocidente cristão contra os ataques muçulmanos que se deram continuamente desde o início do Islã até o século XI, e que seguiram logo quase sem cessar”.

Quanto a este primeiro mito, o perito faz uma singela afirmação para entender um pouco melhor o assunto: “basta perguntar-se quantas vezes forças cristãs atacaram Meca. A resposta é obvia: nunca”.

Segundo mito: “os cristãos ocidentais foram às cruzadas porque sua avareza os motivou a saquear os muçulmanos para ficarem ricos”

“Novamente –explica– não é verdade”. Alguns historiadores como Fred Cazel explicam que “poucos cruzados tinham suficiente dinheiro para pagar suas obrigações em casa e manter-se decentemente nas cruzadas”.

Desde o começo mesmo, recorda o Dr. Paul F. Crawford, “as considerações financeiras foram importantes no planejamento da cruzada. Os primeiros cruzados venderam muitas de suas posses para financiar suas expedições que geraram uma estendida inflação”.

“Embora os seguintes cruzados levaram esta consideração em conta e começaram a economizar muito antes de embarcar nesta empresa, o gasto seguia estando muito perto do proibitivo”, acrescenta.

Depois de recordar que o que alguns estimavam que as Cruzadas iam custar era “uma meta impossível de ser alcançada”, o historiador assinala que “muito poucos se enriqueceram com as cruzadas, e seus números foram diminuídos sobremaneira pelos que empobreceram. Muitos na idade Média eram muito conscientes disso e não consideraram as cruzadas como uma maneira de melhorar sua situação financeira”.

Terceiro mito: “os cruzados foram um bloco cínico que em realidade não acreditava nem em sua própria propaganda religiosa, senão que tinham outros motivos mais materiais”

Este, assinala o perito historiador em seu artigo, “foi um argumento muito popular, ao menos desde Voltaire. Parece acreditável e inclusive obrigatório para gente moderna, dominada pela perspectiva do mundo materialista”.

Com uma taxa de mortes que chegava perto de 75 por cento dos que partiam, com uma expectativa de voltar financeiramente quebrado e não poder sobreviver, como foi que a predicação funcionou de tal forma que mais pessoas se unissem?, questiona o historiador.

Crawford responde explicando que “as cruzada eram apelantes precisamente porque era uma tarefa dura e conhecida, e porque empreender uma cruzada pelos motivos corretos era entendido como uma penitência aceitável pelo pecado. Longe de ser uma empresa materialista, a cruzada não era prática em termos mundanos, mas valiosa para a alma”.

“A cruzada era o exemplo quase supremo desse sofrimento complicado, e por isso era uma penitência ideal e muito completa”, acrescenta.

O historiador indica logo que “com o complicado que pode ser para que as pessoas na atualidade acreditem, a evidência sugere fortemente que a maioria dos cruzados estavam motivados pelo desejo de agradar a Deus, expiar seus pecados e colocar suas vidas ao serviço do ‘próximo’, entendido no sentido cristão”.

Quarto mito: “os cruzados ensinaram aos muçulmanos a odiar e atacar a cristãos”

Última Cruzada – derrota cristã
Outra vez, esclarece Paul Crawford, que nada está mais afastado da verdade. O historiador assinala que “até muito recentemente, os muçulmanos recordavam as cruzadas como uma instância na que tinham derrotado um insignificante ataque ocidental cristão”.

A primeira história muçulmana sobre as cruzadas não apareceu senão até 1899. Por isso então, o mundo muçulmano estava redescobrindo as cruzadas, “mas o fazia com um giro aprendido dos ocidentais”.

“Ao mesmo tempo, o nacionalismo começou a enraizar-se no mundo muçulmano. Os nacionalistas árabes tomaram emprestada a ideia de uma longa campanha europeia contra eles da escola europeia antiga de pensamento, sem considerar o fato de que constituía realmente uma má representação das cruzadas, e usando este entendimento distorcido como uma forma para gerar apoio para suas próprias agendas”.

Então, precisa o Dr. Crawford, “não foram as cruzadas as que ensinaram o Islã a atacar e odiar os cristãos. Os fatos estão muito longe disso. Essas atividades tinham precedido as cruzadas por muito tempo, e nos conduzem até à origem do Islã. Em vez disso, foi o Ocidente quem ensinou o Islã a odiar as Cruzadas. A ironia é grande”.

Fonte: http://www.regina-apostolorum.com/2011/06/mitos-anti-catolicos-sobre-as-cruzadas.html

Técnica: Onisciência contra Livre-Arbítrio

Uma das questões que, por vezes, os adversários (intelectuais) levantam é sobre uma suposta incompatibilidade entre onisciência e livre-arbítrio. Se Deus sabe antes que eu vou fazer algo, então eu não tomei a decisão de fazer esse algo livremente. Portanto, onisciência entra em conflito com livre-arbítrio.

Para discutir esse problema, alguns pontos devem estar em mente. De forma fundamental, precisamos esclarecer três pontos: aquilo que é a onisciência,  o que é uma ação livre e a nossa visão da relação de Deus e o tempo.

Em primeiro lugar, vamos com a onisciência. Podemos defini-la da seguinte maneira:

  • O: Uma pessoa S é onisciente se e somente se S sabe toda e qualquer verdade;

Talvez essa não seja a definição última de onisciência, mas é útil para o trabalho e vamos utilizá-la. Podemos trabalhar com uma definição de ato livre como em:

  • L: Um ato é livre se não é suficientemente causado por nenhum agente externo ao agente;

Novamente, talvez ela não seja a versão definitiva do termo, mas nos dá uma base para prosseguir. Se sou EU que decido sair para jantar (e não um conjunto de leis da natureza externas sobre as quais eu não tenho nenhum poder que determinaram meu agir), então meu ato foi livre.

Na Filosofia do Tempo, as coisas nunca foram exatamente muito claras. Assim, era de se esperar que a relação de Deus com o tempo também não fosse das mais evidentes. Isso levou a algumas polêmicas entre os filósofos teístas e algumas posições diferentes emergiram, historicamente, dessas disputas. Basicamente, temos três modelos de relação de Deus com o tempo, que seriam:

  • (1) Deus é atemporal;
  • (2) Deus é atemporal (contingentemente), depois temporal;
  • (3) Deus é eterno e temporal;

Talvez a primeira visão seja defendida por Tomás de Aquino; a segunda é defendida por William Lane Craig e a terceira é defendida por filósofos como Richard Swinburne. Notei que os leitores do blog normalmente pensam em Deus como atemporal de uma forma definitiva.  Mas isso não é consensual, sendo disputa de vários argumentos. Richard Swinburne dá uma pincelada da seguinte maneira sobre essa questão em um dos seus papers:

‘Deus como atemporal tem sido a visão teológica  dominante de pelo menos a partir do quarto século. No entanto, a meu ver, os autores bíblicos pensam em Deus como eterno e a eternidade de Deus não foi objeto de definição dogmática. O conhecido livro de Nelson Pike “God e Timelessness” (London: Routledge e Kegan Paul, 1970) termina com a observação de que ele não foi capaz de “encontrar qualquer base para [a doutrina da atemporalidade divina] na literatura bíblica ou na literatura confessional de qualquer das Igrejas, seja Católica ou Protestante’ (Richard Swinburne, God as The Simplest Explanation of The Universe)

Todas as visões são plausíveis, embora obviamente só uma esteja correta. Meu ponto, hoje, não é discutir qual dessas visões é a certa; somente vou focar no tema principal do post, falando sobre as alternativas e deixando você pensar qual é a melhor.

Na visão (1) – atemporalista – não faz sequer sentido dizer que se Deus acreditava “antes”, pois para Deus não haveria antes e depois. No atemporalismo, Deus viveria num momento indiferenciado de momentos e instantes. Ele têm uma visão privilegiada, de onde Ele vê todos os eventos que para nós constituem o “presente” de uma vez só. Como diz Aquino na Suma Teológica, “Deus vê as coisas tudo de uma vez só, não sucessivamente”. Assim, quando Deus sabe que eu estou escrevendo esse post, é porque ele vê no meu presente que eu estou escrevendo esse post (ou que eu estou sentado). E a necessidade de estar sentado não é a necessidade de um objeto necessariamente ter que estar sentado, mas sim a necessidade de tudo que está sentado, está sentado.

Mas talvez alguém não seja um atemporalista, como Aquino; talvez ele seja mais como Craig e Swinburne e acredite que Deus está relacionado com o tempo de uma maneira similar a que nós estamos. Pode essa pessoa arranjar uma solução para o problema do post?

Ao que tudo indica, sim. Há duas soluções. Lembre-se, primeiro, da nossa definição de onisciência:

  • O: Uma pessoa S é onisciente se e somente se S sabe toda e qualquer verdade;

Isso é a mesma coisa que, basicamente, dizer que para toda proposição p, Deus sabe se p é verdade ou não. Mas futuros eventos contingentes não possuiriam valor de verdade. Pense um pouco: hoje, não seria nem verdade nem mentira de a frase “(A) Snowball vai aceitar um comentário amanhã”. A verdade depende de COMO eu vou agir amanhã – e só vira verdade ou não no futuro. Então, Deus não pode acreditar hoje que (A), pois Deus só acredita em verdades e só vai ser verdade ou não no momento em que eu tomar essa decisão no dia de amanhã. Como observou Peter Van Inwagen, isso não diminui a onisciência de Deus, pois não é possível para um ser saber proposições que não têm valor de verdade. Ele ainda seria metafisicamente o maior ser possível com o maior conhecimento possível dentre desse framework. Então Deus novamente não acredita “antes” que eu vou tomar uma decisão tal no futuro.

Existe uma segunda alternativa na visão temporalista. Nela, trabalhamos com a noção de mundos possíveis. A idéia básica de um mundo possível é um modo como as coisas poderiam ter sido. É uma descrição completa ou máxima da uma mundo. Nesse modelo, Deus teria aquilo que se chama de conhecimento médio das ações livres das criaturas. Sabendo de todas as circunstâncias, Deus saberia como uma pessoa S iria livremente escolher entre as opções disponíveis estando em um mundo possível. Algo como:

  • (CM) Se uma pessoa S estivesse na circunstância C, então S livremente escolheria X;

E (CM) tem valor de verdade. Portanto, Deus sabe disso. Pensando em um exemplo:

  • (CM) Se uma Raquel estivesse na circunstância C, então Raquel livremente aceitaria a proposta de casamento de Rafael;

A circunstância C engloba toda a descrição de um mundo possível. Claro que C também possui vários detalhamentos, como:

  • (1) Raquel desejava, no momento da proposta, casar com Rafael;
  • (2) Os pais de Raquel adoram Rafael;
  • (3) Rafael possui um bom emprego;
  • (4) Rafael nunca tratou mal Raquel;
  • (5) Raquel deseja ter filhos e considera que Rafael seria um bom pai;
  • (6) Etc;

E o fato de Deus saber qual seria a decisão livre de Raquel impede que essa decisão seja livre, i.e., tenha sido tomada por Raquel? Não é o caso. Liberdade não é a mesma coisa que impredictibilidade. É logicamente possível que alguém seja capaz de prever ações livres. Somente perderíamos a liberdade se a crença de Deus fosse causalmente determinante da ação. Mas é justamente o contrário. A relação da crença de Deus com Raquel é no máximo uma relação semântica. É Raquel, quem ela é, como ela toma suas decisões, etc, que causa a crença de Deus e não o inverso.

Seria como um goleiro muito bom que quase sempre acerta o canto no pênalti. O batedor sempre vai escolher livremente e o goleiro sempre tem o palpite certo. Mas isso não significa que ele determinou o canto ao pular. Não foi ele que determinou o canto; ele somente adivinha muito bem. E o mesmo iria para um goleiro que sempre acerta. Assim como aquele que quase sempre acerta, seu pulo não determina a ação livre do batedor.

Existem outras soluções, mas preferi comentar só essas três. Enfim, deve-se escolher um modelo e avaliar sua coerência. Mas a conjunção de “Deus é onisciente” e “Algumas criaturas fazem atos livres”, de acordo com as explicações, está de pé.

Fonte: http://quebrandoneoateismo.com.br/2011/06/20/tcnica-oniscincia-contra-livre-arbtrio/