Técnica: Onisciência contra Livre-Arbítrio

Uma das questões que, por vezes, os adversários (intelectuais) levantam é sobre uma suposta incompatibilidade entre onisciência e livre-arbítrio. Se Deus sabe antes que eu vou fazer algo, então eu não tomei a decisão de fazer esse algo livremente. Portanto, onisciência entra em conflito com livre-arbítrio.

Para discutir esse problema, alguns pontos devem estar em mente. De forma fundamental, precisamos esclarecer três pontos: aquilo que é a onisciência,  o que é uma ação livre e a nossa visão da relação de Deus e o tempo.

Em primeiro lugar, vamos com a onisciência. Podemos defini-la da seguinte maneira:

  • O: Uma pessoa S é onisciente se e somente se S sabe toda e qualquer verdade;

Talvez essa não seja a definição última de onisciência, mas é útil para o trabalho e vamos utilizá-la. Podemos trabalhar com uma definição de ato livre como em:

  • L: Um ato é livre se não é suficientemente causado por nenhum agente externo ao agente;

Novamente, talvez ela não seja a versão definitiva do termo, mas nos dá uma base para prosseguir. Se sou EU que decido sair para jantar (e não um conjunto de leis da natureza externas sobre as quais eu não tenho nenhum poder que determinaram meu agir), então meu ato foi livre.

Na Filosofia do Tempo, as coisas nunca foram exatamente muito claras. Assim, era de se esperar que a relação de Deus com o tempo também não fosse das mais evidentes. Isso levou a algumas polêmicas entre os filósofos teístas e algumas posições diferentes emergiram, historicamente, dessas disputas. Basicamente, temos três modelos de relação de Deus com o tempo, que seriam:

  • (1) Deus é atemporal;
  • (2) Deus é atemporal (contingentemente), depois temporal;
  • (3) Deus é eterno e temporal;

Talvez a primeira visão seja defendida por Tomás de Aquino; a segunda é defendida por William Lane Craig e a terceira é defendida por filósofos como Richard Swinburne. Notei que os leitores do blog normalmente pensam em Deus como atemporal de uma forma definitiva.  Mas isso não é consensual, sendo disputa de vários argumentos. Richard Swinburne dá uma pincelada da seguinte maneira sobre essa questão em um dos seus papers:

‘Deus como atemporal tem sido a visão teológica  dominante de pelo menos a partir do quarto século. No entanto, a meu ver, os autores bíblicos pensam em Deus como eterno e a eternidade de Deus não foi objeto de definição dogmática. O conhecido livro de Nelson Pike “God e Timelessness” (London: Routledge e Kegan Paul, 1970) termina com a observação de que ele não foi capaz de “encontrar qualquer base para [a doutrina da atemporalidade divina] na literatura bíblica ou na literatura confessional de qualquer das Igrejas, seja Católica ou Protestante’ (Richard Swinburne, God as The Simplest Explanation of The Universe)

Todas as visões são plausíveis, embora obviamente só uma esteja correta. Meu ponto, hoje, não é discutir qual dessas visões é a certa; somente vou focar no tema principal do post, falando sobre as alternativas e deixando você pensar qual é a melhor.

Na visão (1) – atemporalista – não faz sequer sentido dizer que se Deus acreditava “antes”, pois para Deus não haveria antes e depois. No atemporalismo, Deus viveria num momento indiferenciado de momentos e instantes. Ele têm uma visão privilegiada, de onde Ele vê todos os eventos que para nós constituem o “presente” de uma vez só. Como diz Aquino na Suma Teológica, “Deus vê as coisas tudo de uma vez só, não sucessivamente”. Assim, quando Deus sabe que eu estou escrevendo esse post, é porque ele vê no meu presente que eu estou escrevendo esse post (ou que eu estou sentado). E a necessidade de estar sentado não é a necessidade de um objeto necessariamente ter que estar sentado, mas sim a necessidade de tudo que está sentado, está sentado.

Mas talvez alguém não seja um atemporalista, como Aquino; talvez ele seja mais como Craig e Swinburne e acredite que Deus está relacionado com o tempo de uma maneira similar a que nós estamos. Pode essa pessoa arranjar uma solução para o problema do post?

Ao que tudo indica, sim. Há duas soluções. Lembre-se, primeiro, da nossa definição de onisciência:

  • O: Uma pessoa S é onisciente se e somente se S sabe toda e qualquer verdade;

Isso é a mesma coisa que, basicamente, dizer que para toda proposição p, Deus sabe se p é verdade ou não. Mas futuros eventos contingentes não possuiriam valor de verdade. Pense um pouco: hoje, não seria nem verdade nem mentira de a frase “(A) Snowball vai aceitar um comentário amanhã”. A verdade depende de COMO eu vou agir amanhã – e só vira verdade ou não no futuro. Então, Deus não pode acreditar hoje que (A), pois Deus só acredita em verdades e só vai ser verdade ou não no momento em que eu tomar essa decisão no dia de amanhã. Como observou Peter Van Inwagen, isso não diminui a onisciência de Deus, pois não é possível para um ser saber proposições que não têm valor de verdade. Ele ainda seria metafisicamente o maior ser possível com o maior conhecimento possível dentre desse framework. Então Deus novamente não acredita “antes” que eu vou tomar uma decisão tal no futuro.

Existe uma segunda alternativa na visão temporalista. Nela, trabalhamos com a noção de mundos possíveis. A idéia básica de um mundo possível é um modo como as coisas poderiam ter sido. É uma descrição completa ou máxima da uma mundo. Nesse modelo, Deus teria aquilo que se chama de conhecimento médio das ações livres das criaturas. Sabendo de todas as circunstâncias, Deus saberia como uma pessoa S iria livremente escolher entre as opções disponíveis estando em um mundo possível. Algo como:

  • (CM) Se uma pessoa S estivesse na circunstância C, então S livremente escolheria X;

E (CM) tem valor de verdade. Portanto, Deus sabe disso. Pensando em um exemplo:

  • (CM) Se uma Raquel estivesse na circunstância C, então Raquel livremente aceitaria a proposta de casamento de Rafael;

A circunstância C engloba toda a descrição de um mundo possível. Claro que C também possui vários detalhamentos, como:

  • (1) Raquel desejava, no momento da proposta, casar com Rafael;
  • (2) Os pais de Raquel adoram Rafael;
  • (3) Rafael possui um bom emprego;
  • (4) Rafael nunca tratou mal Raquel;
  • (5) Raquel deseja ter filhos e considera que Rafael seria um bom pai;
  • (6) Etc;

E o fato de Deus saber qual seria a decisão livre de Raquel impede que essa decisão seja livre, i.e., tenha sido tomada por Raquel? Não é o caso. Liberdade não é a mesma coisa que impredictibilidade. É logicamente possível que alguém seja capaz de prever ações livres. Somente perderíamos a liberdade se a crença de Deus fosse causalmente determinante da ação. Mas é justamente o contrário. A relação da crença de Deus com Raquel é no máximo uma relação semântica. É Raquel, quem ela é, como ela toma suas decisões, etc, que causa a crença de Deus e não o inverso.

Seria como um goleiro muito bom que quase sempre acerta o canto no pênalti. O batedor sempre vai escolher livremente e o goleiro sempre tem o palpite certo. Mas isso não significa que ele determinou o canto ao pular. Não foi ele que determinou o canto; ele somente adivinha muito bem. E o mesmo iria para um goleiro que sempre acerta. Assim como aquele que quase sempre acerta, seu pulo não determina a ação livre do batedor.

Existem outras soluções, mas preferi comentar só essas três. Enfim, deve-se escolher um modelo e avaliar sua coerência. Mas a conjunção de “Deus é onisciente” e “Algumas criaturas fazem atos livres”, de acordo com as explicações, está de pé.

Fonte: http://quebrandoneoateismo.com.br/2011/06/20/tcnica-oniscincia-contra-livre-arbtrio/

Publicado em 20 de junho de 2011, em Comunicados aos Cristãos, Neo ateísmo. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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