Arquivo mensal: março 2012

“É possível acreditar em Deus usando a razão”, afirma William Lane Craig

“É possível acreditar em Deus usando a razão”, afirma William Lane Craig

O filósofo e teólogo defende o cristianismo, a ressurreição de Jesus e a veracidade da Bíblia a partir de construção lógica e racional, e se destaca em debates com pensadores ateus

Marco Túlio Pires, de Águas de Lindóia
William Lane Craig: "Sem Deus, não é possível explicar a existência de valores e deveres morais objetivos"William Lane Craig: “Sem Deus, não é possível explicar a existência de valores e deveres morais objetivos” (Divulgação)

“Se você acha que a religião é um conto de fadas, não acredite. Mas se o cristianismo é a verdade — como penso que é — temos que acreditar nele independente das consequências. É o que as pessoas racionais fazem, elas acreditam na verdade. A  via contrária é o pragmatismo. ‘Isso Funciona? Não importa se é verdade, quero saber se funciona'”

William Lane Craig

Quando o escritor britânico Christopher Hitchens, um dos maiores defensores do ateísmo, travou um longo debate nos Estados Unidos, em abril de 2009, com o filósofo e teólogo William Lane Craig sobre a existência de Deus, seus colegas ateus ficaram tensos. Momentos antes de subir ao palco, Hitchens — que morreu em dezembro de 2011. aos 62 anos — falou a jornalistas sobre a expectativa de enfrentar Craig.

“Posso dizer que meus colegas ateus o levam bem a sério”, disse. “Ele é considerado um adversário muito duro, rigoroso, culto e formidável”, continuou. “Normalmente as pessoas não me dizem ‘boa sorte’ ou ‘não nos decepcione’ antes de um debate — mas hoje, é o tipo de coisa que estão me dizendo”. Difícil saber se houve um vencedor do debate. O certo é que Craig se destaca pela elegância com que apresenta seus argumentos, mesmo quando submetido ao fogo cerrado.

O teólogo evangélico é considerado um dos maiores defensores da doutrina cristã na atualidade. Craig, que vive em Atlanta (EUA) com a esposa, sustenta que a existência de Deus e a ressurreição de Jesus, por exemplo, não são apenas questões de fé, mas passíveis de prova lógica e racional. Em seu currículo de debates estão o famoso químico e autor britânico Peter Atkins e o neurocientista americano Sam Harris (veja lista com vídeos legendados de Craig). Basta uma rápida procura no Youtube para encontrar uma vastidão de debates travados entre Craig e diversos estudiosos. Richard Dawkins, um dos maiores críticos do teísmo, ainda se recusa a discutir com Craig sobre a existência de Deus.

Em artigo publicado no jornal inglês The Guardian, Dawkins afirma que Craig faz apologia ao genocídio, por defender passagens da Bíblia que justificam a morte de homens, mulheres e crianças por meio de ordens divinas. “Vocês apertariam a mão de um homem que escreve esse tipo de coisa? Vocês compartilhariam o mesmo palco que ele? Eu não, eu me recuso”, escreveu. Na entrevista abaixo, Craig fala sobre o assunto.

Autor de diversos livros —  entre eles Em Guarda – Defenda a fé cristã com razão e precisão (Ed. Vida Nova), lançado no fim de 2011 no Brasil, — Craig é doutor em filosofia pela Universidade de Birmingham, na Inglaterra, e em teologia pela Universidade de Munique, Alemanha. O filósofo esteve no Brasil para o 8º Congresso de Teologia da Editora Vida Nova, em Águas de Lindóia, entre 13 e 16 de março. Durante o simpósio, Craig deu palestras e dedicou a última apresentação a atacar, ponto a ponto, os argumentos de Richard Dawkins sobre a inexistência de Deus.

Perfil

Nome: William Lane Craig
Profissão: Filósofo, teólogo e professor universitário na Universidade de Biola, Califórnia
Nascimento: 23 de agosto de 1949
Livros destacados: Apologética Contemporânea – A veracidade da Fé Cristã; Em Guarda, Defenda a fé cristã com razão e precisão; ambos publicados no Brasil pela editora Vida Nova
Principal contribuição para a filosofia: Craig foi responsável por reformular o Argumento Cosmológico Kalam (variação do argumento cosmológico que defende a existência de uma primeira causa para o universo) nos seguintes termos: 1) Tudo que começa a existir tem uma causa de existência. 2) O universo começou a existir. 3) Portanto, o universo tem uma causa para sua existência.
Informações pessoais: William Lane Craig é conhecido pelo trabalho na filosofia do tempo e na filosofia da religião, especificamente sobre a existência de Deus e na defesa do teísmo cristão. Escreveu e editou mais de 30 livros, é doutor em filosofia e teologia em universidades inglesa e alemã e desde 1996 é pesquisador e professor de filosofia na Universidade de Biola, na Califórnia. Atualmente vive em Atlanta, nos EUA, com a esposa. Craig pratica exercícios regularmente como forma de combater a APM (Atrofia Peronial Muscular) uma doença degenerativa do sistema nervoso que lhe causou atrofiamento dos nervos das mãos e pernas. Especialista em debates desde o ensino médio, o filósofo passa a maior parte do tempo estudando.

Por que deveríamos acreditar em Deus? Porque os argumentos e evidências que apontam para a Sua existência são mais plausíveis do que aqueles que apontam para a negação. Vários argumentos dão força à ideia de que Deus existe. Ele é a melhor explicação para a existência de tudo a partir de um momento no passado finito, e também a para o ajuste preciso do universo, levando ao surgimento de vida inteligente. Deus também é a melhor explicação para a existência de deveres e valores morais objetivos no mundo. Com isso, quero dizer valores e deveres que existem independentemente da opinião humana.

Se Deus é bondade e justiça, por que ele não criou um universo perfeito onde todas as pessoas vivem felizes? Acho que esse é o desejo de Deus. É o que a Bíblia ensina. O fato de que o desejo de Deus não é realizado implica que os seres humanos possuem livre-arbítrio. Não concordo com os teólogos que dizem que Deus determina quem é salvo ou não. Parece-me que os próprios humanos determinam isso. A única razão pela qual algumas pessoas não são salvas é porque elas próprias rejeitam livremente a vontade de Deus de salvá-las.

Alguns cientistas argumentam que o livre-arbítrio não existe. Se esse for o caso, as pessoas poderiam ser julgadas por Deus? Não, elas não poderiam. Acredito que esses autores estão errados. É difícil entender como a concepção do determinismo pode ser racional. Se acreditarmos que tudo é determinado, então até a crença no determinismo foi determinada. Nesse contexto, não se chega a essa conclusão por reflexão racional. Ela seria tão natural e inevitável como um dente que nasce ou uma árvore que dá galhos. Penso que o determinismo, racionalmente, não passa de absurdo. Não é possível acreditar racionalmente nele. Portanto, a atitude racional é negá-lo e acreditar que existe o livre-arbítrio.

O senhor defende em seu site uma passagem do Velho Testamento em que Deus ordena a destruição da cidade de Canaã, inclusive autorizando o genocídio, argumentando que os inocentes mortos nesse massacre seriam salvos pela graça divina. Esse não é um argumento perigosamente próximo daqueles usados por terroristas motivados pela religião? A teoria ética desses terroristas não está errada. Isso, contudo, não quer dizer que eles estão certos. O problema é a crença deles no deus errado. O verdadeiro Deus não ordena atos terroristas e, portanto, eles estariam cometendo uma atrocidade moral. Quero dizer que se Deus decide tirar a vida de uma pessoa inocente, especialmente uma criança, a Sua graça se estende a ela.

Se o terrorista é cristão o ato terrorista motivado pela religião é justificável, por ele acreditar no Deus ‘certo’? Não é suficiente acreditar no deus certo. É preciso garantir que os comandos divinos estão sendo corretamente interpretados. Não acho que Deus dê esse tipo de comando hoje em dia. Os casos do Velho Testamento, como a conquista de Canaã, não representam a vontade normal de Deus.

O sr. está querendo dizer que Deus também está sujeito a variações de humor? Não é plausível esperar que pelo menos Ele seja consistente? Penso que Deus pode fazer exceções aos comandos morais que dá. O principal exemplo no Velho Testamento é a ordem que ele dá a Abraão para sacrificar seu filho Isaque. Se Abraão tivesse feito isso por iniciativa própria, isso seria uma abominação. O deus do Velho Testamento condena o sacrifício infantil. Essa foi uma das razões que o levou a ordenar a destruição das nações pagãs ao redor de Israel. Elas estavam sacrificando crianças aos seus deuses. E, no entanto, Deus dá essa ordem extraordinária a Abraão: sacrificar o próprio filho Isaque. Isso serviu para verificar a obediência e fé dele. Mas isso é a exceção que prova a regra. Não é a forma normal com que Deus conduz os assuntos humanos. Mas porque Deus é Deus, Ele tem a possibilidade de abrir exceções em alguns casos extremos, como esse.

O sr. disse que não é suficiente ter o deus certo, é preciso fazer a interpretação correta dos comandos divinos. Como garantir que a sua interpretação é objetivamente correta? As coisas que digo são baseadas no que Deus nos deu a conhecer sobre si mesmo e em preceitos registrados na Bíblia, que é a palavra d’Ele. Refiro-me a determinações sobre a vida humana, como “não matarás”. Deus condena o sacrifício de crianças, Seu desejo é que amemos uns ao outros. Essa é a Sua moral geral. Seria apenas em casos excepcionalmente extremos, como o de Abraão e Isaque, que Deus mudaria isso. Se eu achar que Deus me comandou a fazer algo que é contra o Seu desejo moral geral, revelado na escritura, o mais provável é que eu tenha entendido errado. Temos a revelação do desejo moral de Deus e é assim que devemos nos comportar.

O sr. deposita grande parte da sua argumentação no conteúdo da Bíblia. Contudo, ela foi escrita por homens em um período restrito, em uma área restrita do mundo, em uma língua restrita, para um grupo específico de pessoas. Que evidência se tem de que a Bíblia é a palavra de um ser sobrenatural? A razão pela qual acreditamos na Bíblia e sua validade é porque acreditamos em Cristo. Ele considerava as escrituras hebraicas como a palavra de Deus. Seus ensinamentos são extensões do que é ensinado no Velho Testamento. Os ensinamentos de Jesus são direcionados à era da Igreja, que o sucederia. A questão, então, se torna a seguinte: temos boas razões para acreditar em Jesus? Ele é quem ele diz ser, a revelação de Deus? Acredito que sim. A ressurreição dos mortos, por exemplo, mostra que ele era quem afirmava.

Existem provas que confirmem a ressurreição de Jesus? Temos boas bases históricas. A palavra ‘prova’ pode ser enganosa porque muitos a associam com matemática. Certamente, não temos prova matemática de qualquer coisa que tenha acontecido na história do homem. Não temos provas, nesse sentido, de que Júlio César foi assassinado no senado romano, por exemplo, mas temos boas bases históricas para isso. Meu argumento é que se você considera os documentos do Novo Testamento como fontes da história antiga, — como os historiadores gregos Tácito, Heródoto ou Tucídides — o evangelho aparece como uma fonte histórica muito confiável para a vida de Jesus de Nazaré. A maioria dos historiadores do Novo Testamento concorda com os fatos fundamentais que balizam a inferência sobre a ressurreição de Cristo. Coisas como a sua execução sob autoridade romana, a descoberta das tumbas vazias por um grupo de mulheres no domingo depois da crucificação e o relato de vários indivíduos e grupos sobre os aparecimentos de Jesus vivo após sua execução. Com isso, nos resta a seguinte pergunta: qual é a melhor explicação para essa sequência de acontecimentos? Penso que a melhor explicação é aquela que os discípulos originais deram — Deus fez Jesus renascer dos mortos. Não podemos falar de uma prova, mas podemos levantar boas bases históricas para dizer que a ressurreição é a melhor explicação para os fatos. E como temos boas razões para acreditar que Cristo era quem dizia ser, portanto temos boas razões para acreditar que seus ensinamentos eram verdade. Sendo assim, podemos ver que a Bíblia não foi criação contingente de um tempo, de um lugar e de certas pessoas, mas é a palavra de Deus para a humanidade.

O textos da Bíblia passaram por diversas revisões ao longo do tempo. Como podemos ter certeza de que as informações às quais temos acesso hoje são as mesmas escritas há 2.000 anos? Além disso, como lidar com o fato de que informações podem ser perdidas durante a tradução? Você tem razão quanto a variedade de revisões e traduções. Por isso, é imperativo voltar às línguas originais nas quais esses textos foram escritos. Hoje, os críticos textuais comparam diferentes manuscritos antigos de modo a reconstruir o que os originais diziam. O Novo Testamento é o livro mais atestado da história antiga, seja em termos de manuscritos encontrados ou em termos de quão próximos eles estão da data original de escrita. Os textos já foram reconstruídos com 99% de precisão em relação aos originais. As incertezas que restam são trivialidades. Por exemplo, na Primeira Epístola de João, ele diz: “Estas coisas vos escrevemos, para que o vosso gozo se cumpra”. Mas alguns manuscritos dizem: “Estas coisas vos escrevemos, para que o nosso gozo se cumpra”. Não temos certeza se o texto original diz ‘vosso’ ou ‘nosso’. Isso ilustra como esse 1% de incerteza é trivial. Alguém que realmente queira entender os textos deverá aprender grego, a língua original em que o Novo Testamento foi escrito. Contudo, as pessoas também podem comprar diferentes traduções e compará-las para perceber como o texto se comporta em diferentes versões.

É possível explicar a existência de Deus apenas com a razão? Qual o papel da ciência na explicação das causas do universo? A razão é muito mais ampla do que a ciência. A ciência é uma exploração do mundo físico e natural. A razão, por outro lado, inclui elementos como a lógica, a matemática, a metafísica, a ética, a psicologia e assim por diante. Parte da cegueira de cientistas naturalistas, como Richard Dawkins, é que eles são culpados de algo chamado ‘cientismo’. Como se a ciência fosse a única fonte da verdade. Não acho que podemos explicar Deus em sua plenitude, mas a razão é suficiente para justificar a conclusão de que um criador transcendente do universo existe e é a fonte absoluta de bondade moral.

Por que o cristianismo deveria ser mais importante do que outras religiões que ensinam as mesmas questões fundamentais, como o amor e a caridade? As pessoas não entendem o que é o cristianismo. É por isso que alguns ficam tão ofendidos quando se prega que Jesus é a única forma de salvação. Elas pensam que ser cristão é seguir os ensinamentos éticos de Jesus, como amar ao próximo como a si mesmo. É claro que não é preciso acreditar em Jesus para se fazer isso. Isso não é o cristianismo. O evangelho diz que somos moralmente culpados perante Deus. Espiritualmente, somos separados d’Ele. É por isso que precisamos experimentar Seu perdão e graça. Para isso, é preciso ter um substituto que pague a pena dos nossos pecados. Jesus ofereceu a própria vida como sacrifício por nós. Ao aceitar o que ele fez em nosso nome, podemos ter o perdão de Deus e a limpeza moral. A partir disso, nossa relação com Deus pode ser restaurada. Isso evidencia por que acreditar em Cristo é tão importante. Repudiá-lo é rejeitar a graça de Deus e permanecer espiritualmente separado d’Ele. Se você morre nessa condição você ficará eternamente separado de Deus. Outras religiões não ensinam a mesma coisa.

A crença em Deus é necessária para trazer qualidade de vida e felicidade? Penso que a crença em Deus ajuda, mas não é necessária. Ela pode lhe dar uma fundação para valores morais, propósito de vida e esperança para o futuro. Contudo, se você quiser viver inconsistentemente, é possível ser um ateu feliz, contanto que não se pense nas implicações do ateísmo. Em última análise, o ateísmo prega que não existem valores morais objetivos, que tudo é uma ilusão, que não há propósito e significado para a vida e que somos um subproduto do acaso.

Por que importa se acreditamos no deus do cristianismo ou na ‘mãe natureza’ se na prática as pessoas podem seguir, fundamentalmente, os mesmos ensinamentos? Deveríamos acreditar em uma mentira se isso for bom para a sociedade? As pessoas devem acreditar em uma falsa teoria, só por causa dos benefícios sociais? Eu acho que não. Isso seria uma alucinação. Algumas pessoas passam a acreditar na religião por esse motivo. Já que a religião traz benefícios para a sociedade, mesmo que o indivíduo pense que ela não passa de um ‘conto de fadas’, ele passa a acreditar. Digo que não. Se você acha que a religião é um conto de fadas, não acredite. Mas se o cristianismo é a verdade — como penso que é — temos que acreditar nele independente das consequências. É o que as pessoas racionais fazem, elas acreditam na verdade. A  via contrária é o pragmatismo. “Isso Funciona?”, perguntam elas. “Não importa se é verdade, quero saber se funciona”. Não estou preocupado se na Suécia alguns são felizes sem acreditar em Deus ou se há alguma vantagem em acreditar n’Ele. Como filósofo, estou interessado no que é verdade e me parece que a existência desse ser transcendente que criou e projetou o universo, fonte dos valores morais, é a verdade.

Fonte:http://veja.abril.com.br/noticia/ciencia/e-possivel-acreditar-em-deus-usando-a-razao-afirma-william-lane-craig

Técnica: Deus é um velho de barba

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Voltando a ler as técnicas neo-ateístas no blog do SnowBall , e li um que ainda não havia lido e achei muito interessante pelo fato de apresentar como a mentalidade ateísta vê Deus ¨como um velho barbudo¨  mas porém está mentalidade não está só na mente de ateus mas sim de muitos leigos, como é uma visão metafórica de Deus não à nada de mal desde que não façamos disso uma verdade absoluta. Então achei interessante postar esse texto para que os Cristãos também entendem claramente a visão real de Deus e não caiam nesses truques baratos do militantes seculares (neo-ateus).
Vamos ao post:

Nessa técnica, o neo-ateu continuará com a inversão psicótica, dizendo, basicamente, que o oponente acredita em algo como um velhinho vestido de branco, sentando em uma nuvem, manipulando o Universo. Como a ideia é ridícula, segue que Deus não existe.

Vejamos a aplicação que um neo-ateu dá a essa técnica em um caso prático:

Se for pra acreditar num ser com poderes mágicos, que deduzem ser um velhinho vestido de branco, porque estar escrito em um livro de varias paginas de forma pomposa, então Gandalf e o meu Deus

Aqui temos um combo de técnicas: a primeira é a definição de Deus como um velhinho humano. A segunda é a mesma técnica utilizada ao dizer que “Quadrinhos provam o Super-Homem” ou “Harry Potter prova a mágica”. Sobre essa, já falei aqui Outros truques (resumo) – Parte I [Bíblia x Harry Potter] e não vou me alongar nela nesse post, para evitar repetição.

Sobre a nova técnica, ela consiste em dar características materiais para Deus (como velho e vestido) e FINGIR que essa é a visão que o oponente (um teísta tradicional) acredita. Essa fraude intelectual é uma aplicação direta da falácia do espantalho e é facilmente refutável.

A definição de Deus é de um ser IMATERIAL. Se Deus é imaterial, não pode ter características materiais como ser velho. Além disso, a Filosofia também pode demonstrar a imaterialidade de Deus.  Com os vários argumentos para a existência de Deus podem nos garantir inferências sobre a natureza dEle.

No Argumento Cosmológico, por exemplo, fala-se de uma causa primeira para o Universo. Se o Universo representa toda classe material existente, então algo que o causou deve ser imaterial. Motivo: se a causa fosse material, então o que entendemos por Universo (realidade material e física) já existiria, caindo em contradição ao falar de “causa para o Universo’. Existir uma matéria anterior ao surgimento da matéria é, obviamente, uma contradição lógica. Portanto, se há uma causa primeira, que é o que os religiosos entendem por Deus, ela deve ser imaterial.

Também sabemos que uma das características de Deus também é ser onipotente. Mas onipotência implica em imaterialidade, como eu argumentei no seguinte post: Deus – características (Final). Vejamos o que eu disse por lá:

Mas se o ser onipotente é material, então ele é materialmente limitado em sua constituição. Vamos pensar, por exemplo, que esse ser é um ser do formato de uma bola de 1cm³. Logo, esse ser não seria capaz de estar presente em locais que excedam sua limitação material. Mas estar presente é um tipo de potência – e o mesmo serve para qualquer outro tipo de limitação material. Logo, um ser onipotente é um ser que não é limitado materialmente na sua composição; isto é, é imaterial. Um ser imaterial é um ser cuja composição não é limitada de nenhuma forma material; e também é um ser onipotente e onisciente sabe tudo sobre qualquer coisa e é capaz de tomar toda ação possível em qualquer lugar, simultaneamente. Então ele está exercendo seu poder e sabedoria sobre todos os lugares, sem nenhum tipo de limitação em presença. Disso, tiramos que ele é, na verdade, um ser imaterial onipresente.

Então, pela filosofia, sabemos que Deus é imaterial. Logo, os predicados materiais que o neo-ateu tentou aplicar a ele estão excluídos automaticamente.

Talvez ele contra-argumente dizendo: “Ok, Deus, como causa primeira e como ser onipotente, deve ser imaterial. E barba e idade são características materiais que um ser material não pode ter. Mas isso é Filosofia. Na Bíblia, Deus é descrito como um corpo”. Para provar, ele pode citar o Ancião dos Dias referido no livro de Daniel:

Depois disto eu continuei olhando nas visões da noite, e eis aqui o quarto animal, terrível e espantoso, e muito forte, o qual tinha dentes grandes de ferro; ele devorava e fazia em pedaços, e pisava aos pés o que sobejava; era diferente de todos os animais que apareceram antes dele, e tinha dez chifres.

Estando eu a considerar os chifres, eis que, entre eles subiu outro chifre pequeno, diante do qual três dos primeiros chifres foram arrancados; e eis que neste chifre havia olhos, como os de homem, e uma boca que falava grandes coisas.

Eu continuei olhando, até que foram postos uns tronos, e um ancião de dias se assentou; a sua veste era branca como a neve, e o cabelo da sua cabeça como a pura lã; e seu trono era de chamas de fogo, e as suas rodas de fogo ardente.

Um rio de fogo manava e saía de diante dele; milhares de milhares o serviam, e milhões de milhões assistiam diante dele; assentou-se o juízo, e abriram-se os livros.

Isso demonstra que Deus é material? Obviamente não. Todo o livro de Daniel é claramente simbólico (o quarto animal, dez chifres, olhos, rio de fogo, etc) e as imagens aí descritas não são feitas para serem tomadas literalmente, mas lidas por interpretação. E é até fácil entender o simbolismo em relação ao “Rei Ancião”. A descrição de “ancião” é um simbolismo para a eternidade divina, enquanto o trono reflete a soberania de Deus. A própria Bíblia confirma, em Óseias, que os profetas devem ser entendidos em termos de metáforas: “Falarei aos profetas e multiplicarei as visões, e pelos profetas falarei em parábolas”.

Mas a Bíblia está certa ao utilizar comparações corporais para falar de Deus? Aí vamos a Tomás de Aquino (que já dava chineladas nos neo-ateus 700 anos antes de eles existirem, diga-se de passagem). Diz ele na Suma Teológica:

RESPONDO: Convém a Escritura Sagrada nos transmitir verdades divinas e espirituais mediante a comparação com imagens corporais. Deus provê tudo de acordo com a capacidade da natureza de cada um. Ora, é natural ao homem elevar-se do sensível ao inteligível, pois todo nosso conhecimento se origina a partir dos sentidos. É, então, conveniente que na Escritura Sagrada as realidades espirituais nos sejam transmitidas por meio de metáforas corporais. (…) Além disso, sendo a Escritura proposta à todos, (…) é lhe conveniente apresentar as realidades espirituais mediante as imagens corporais, a fim de que as pessoas simples a compreendam; elas que não estão aptas a aprender por si mesmas as realidades inteligíveis”.

Ou seja, ela não só está certa, como até deve utilizar esse tipo de metáfora, pois isso facilita a assimilação de quem Deus é de uma forma geral. Não há problemas com esse tipo de comparação.

Algum desonesto (e eles estão na rede em profusão) poderá dizer que isso é só uma adaptação aos tempos modernos e que Deus nunca foi visto como um ser imaterial, sendo somente agora que estamos adaptando por algum motivo qualquer.

Essa informação é, obviamente, falsa. A Bíblia JÁ concordava com a descrição. Em João 4, 21, se lê que “Deus é um espírito, e os que o adoram devem adorá-lo em espírito e verdade”. E em São Paulo vemos “Só a Deus, rei dos séculos e invisível” (1 Tm 1, 17) e “As coisas invisíveis de Deus tornam-se visíveis por meio das coisas criadas” (Rm 1, 20). Se o neo-ateu quiser utilizar o entendimento de Deus como uma pessoa material baseado na Bíblia (que, para um adulto, é digno de retardo mental), o problema é dele, pois esse é um país livre. Mas isso não significa que ele terá fundamentos intelectuais honestos para isso.

Enfim, parar refutá-lo, lembre disso:

  • (1) A definição de Deus é de um ser além de toda matéria. Como “Barba” e “Velho” são aspectos materiais de um ser, Deus não pode ser material;
  • (2) A definição de Deus como imaterial é a posição teológica padrão, advinda tanto da filosofia como da interpretação correta da Bíblia (no caso dos cristãos);
  • (3) Quando a Bíblia utiliza qualidades corporais para falar de Deus, isso é para facilitar a assimilação de um simbolismo, coisa que é feita em todo tipo de literatura (e excluir só a Bíblia de ser passível desse tipo de análise seria picaretagem);

Com esses pontos em mãos, o erro ficará neutralizado.

Fonte:http://teismo.net/quebrandoneoateismo/2011/05/27/tcnica-deus-um-velho-de-barba/

M.I.S.S.A: evento ofensivo à Igreja se realiza no Rio, bloggers católicos pedem reação

RIO DE JANEIRO, 21 Mar. 12 / 05:27 pm (ACI)

No próximo sábado, 24 de março, no Rio de Janeiro, será promovido novamente o evento M.I.S.S.A. (a sigla para Movimento dos Interessados em Sacudir a Sua Alma), que ofende os sentimentos e a simbologia católicos vestindo de padres os DJs e as recepcionistas de freiras, em claras e desrespeitosas alusões a símbolos religiosos católicos contrariando ademais o art. 208 do Código Penal que tipifica a conduta de “vilipendiar publicamente ato ou objeto de culto religioso” como crime.

A festa já aconteceu em vários pontos do país causando indignação dos católicos por onde passou, como já foi denunciado anteriormente por ACI Digital.

O evento já foi condenado uma vez pela Justiça do próprio Estado do Rio em 2011, mas vem se realizando em distintos estados brasileiros, apesar das manifestações contrárias por parte de grupos católicos brasileiros. Se bem agora os organizadores tomam maiores precauções para não ofender o catolicismo, a essência do evento segue sendo ofensiva aos católicos, denunciou recentemente o Guia de Blogs Católicos em uma postagem.

Em dezembro de 2011, a Associação Arquidiocesana Tarde com Maria, do Rio de Janeiro, conseguiu uma liminar para impedir que os organizadores da festa M.I.S.S.A., prevista para ocorrer no Vivo Rio na ocasião, se burlassem de símbolos e vestimentas em alusão à Igreja Católica. A associação entrou com uma ação na Justiça e conseguiu, na noite de quarta-feira, no plantão judiciário, com uma decisão favorável do desembargador Adolpho Andrade Mello.

Pouco antes do início do evento, houve um acordo e os organizadores retiraram uma enorme cruz de LED instalada próximo ao DJ, que usaria uma roupa semelhante à batina de um padre. De acordo com o advogado da organização, Renato Brito Neto, o evento não teve o objetivo de ofender a imagem da Igreja Católica.

Segundo a denúncia O Guia de bloggers católicos, o art. 208 do Código Penal tipifica a conduta de “vilipendiar publicamente ato ou objeto de culto religioso” como crime. Eventos como o M.I.S.S.A, portanto, podem ser denunciados à justiça.

Assim, os bloggers animam os católicos a protestarem contra o evento manifestando seu desacordo aos patrocinadores e organizadores do M.I.S.S.A. em suas páginas no Facebook:

Facebook: Mural de Smirnoff do Brasil (http://www.facebook.com/SmirnoffBrasil)
Facebook: Mural de DHP Produções e Eventos (http://www.facebook.com/dhpprod?sk=wall)
Facebook: Mural de Melt Bar e Restaurante (http://www.facebook.com/melt.leblon?ref=ts)

Fonte: http://www.acidigital.com/noticia.php?id=23330

Técnica: Fé é, por definição, crer contra ou sem evidências

Esse truque é clássico. Certamente, na época em que eu debatia, ele era um dos mais frequentes em termos de aplicação (como sempre, faço a ressalva: você não precisa acreditar nessa informação. Mas dou uma dica: estude e DEBATA. O crescimento e a experiência que você ganha com o debate direto é impressionante). A estrutura do truque é simples: o neo-ateu dirá que você, por ser cristão, tem fé (o que é verdade). Em seguida, definirá a fé como a “crença contra as evidências” ou ainda “crença sem evidências”. Como o vocábulo ‘fé’ significa isso e, você tem fé, então sua crença é contra as evidências ou, no mínimo, ausente delas. Aí ele sairá cantando vitória e jogando para a torcida a sua “superioridade” contra o “crente” que “aceita acreditar sem evidências”.

Que a malandragem desse truque passa de quaisquer limites aceitáveis, não há dúvidas. Mas isso não é motivo para ficarmos calados e sim MAIS UM motivo para refutá-lo incisivamente.

A técnica se baseia no truque erístico da homonímia sutil. Isso ocorre quando duas pessoas, em um mesmo debate, utilizam um certo vocábulo e, aparentemente, estão falando da mesma coisa, quando na verdade a definição por trás do signo utilizado por ambos (nesse caso, ‘fé’) é completamente diferente. Vamos a um exemplo: eu chego num debate e afirmo “Eu acredito em Deus”. Ao ouvir isso, o neo-ateu dificilmente pensará que eu acredito no Puro Ato, no ‘esse ipsum subsistens’ (para utilizar a fórmula clássica), o ser perfeito sem nenhuma composição de ato ou potência, matéria e forma, essência e existência, mas sim em algum tipo de monstro super-humano e super-complexo que, de alguma forma, teve a sorte de (supostamente) ser o primeiro ser e iniciar seus caprichos quando deu na telha (isso se ele não acreditar que Deus está localizado em alguma parte do espaço). Nós dois estaremos fazendo uso do termo ‘Deus’ no debate, mas as nossas concepções sobre o que é Deus são praticamente opostas. A partir daí, ele utilizará a concepção (falsa) dele para me atacar de forma sistemática.

E o mesmo se dá no caso da fé. O neo-ateu tem a crença de que “fé” é “acreditar contra as evidências” (e essa crença possivelmente foi imposta a ele por meio de toneladas de propaganda em vídeos do youtube, imagens, livros de Dawkins, etc). Quando ele te perguntar se você tem fé e você responder “sim”, não importa o que você tinha em mente ao responder; ele se guiará pelo framework conceptual dele e começará a te atacar e ridicularizar imediatamente.

Para neutralizar essa técnica, lembre-se disso: ele JAMAIS pode proceder e DEFINIR o que significa o termo quando você é perguntado se acredita naquilo. Quem tem que fazer isso é VOCÊ. “Eu acredito nisso, mas isso significa TAL e TAL coisa para mim”. Assim, basta deixar CLARO, desde o início, o que significa “fé”, não deixando espaços para a difamação subsequente.

“Mas, Snow, então o que significa fé?” Isso é o que eu explicarei agora, na segunda parte do artigo (a primeira introduz o estratagema e ensina como neutralizar o truque, conforme exposto acima).

No dia a dia, “fé” significa simplesmente a confiança que temos em alguém ou algo. Por exemplo, imagine que o blogueiro Luciano Ayan fosse convidado para um debate contra uma figurinha carimbada da esquerda e um dos seus leitores, nos comentários, escrevesse: “Eu tenho fé que o Luciano fará um bom trabalho refutando o esquerdista”. Se convertermos essa frase para “Eu confio que o Luciano fará um bom trabalho refutando o esquerdista” NÃO há perda de significado. (Não sou filólogo, mas já li inclusive que a formação da palavra “confiança” se deu, na origem, exatamente pela a união dos termos “com” e “fides” [fé, em latim], o que explica a igualdade de sentido).

Esse pode ser um dos significados usados para definir a fé. Como eu disse em outro artigo, o contato da pessoa com o Cristianismo normalmente se desenvolve através de tentativas “DIRETAS” de relação com Deus. A partir daí, surge a fé na religião, que é a CONFIANÇA que Deus se relaciona com ela por aqueles meios. Se a pessoa nunca teve um pedido atendido ou nunca teve uma experiência religiosa, por exemplo, então é plausível pensar que a fé dela não vai ser alta. E o inverso também é verdadeiro.

Mais tradicionalmente, há uma definição teológica para a fé. Segundo Parente, Piolanti e Garofalo, no Dicionário de Teologia Dogmática, fé é “a adesão do intelecto, sobre a influência da graça de Deus, a uma verdade revelada por Deus, não por sua evidência intrínseca mas na base da autoridade que a revelou”.

Uma leitura superficial pode dar a impressão de que os neo-ateus estavam corretos, pois, afinal, a adesão do intelecto não se dá na base “da evidência intrínseca”. Mas uma observação detalhada demonstra que a história NÃO é bem assim.

O conhecimento pode ser descrito como a união do intelecto com o objeto inteligível (talvez essa definição necessite de algumas correções, mas isso não é o de interesse no momento). Uma verdade só nos é inteligível na medida em que ela se torna evidente para nós;  essa evidência pode vir de várias formas, como de forma imediata ou mediata. Entre as coisas imediatamente conhecidas, estão, por exemplo, a lei da não contradição e verdades matemáticas simples (como 1+1=2). Em relação a outras verdades, nós não a conhecemos de forma direta, mas ATRAVÉS de uma outra verdade que conhecemos. Por exemplo: eu não sou cientista e não tenho vergonha de dizer que não entendo profundamente a estrutura molecular das bactérias. Mas suponha que eu vá a uma conferência de cientistas certificados na matéria e verifique que o consenso, entre eles, é de que a estrutura molecular das bactérias é composta pelos elementos “XYZ”. Eu sei que a referida comunidade científica é confiável e sei que eles me informam esse último dado; logo, meu intelecto adere à verdade revelada por eles.

E como se deu essa adesão do meu intelecto? Não na base da evidência intrínseca do fato (que eles conhecem, mas eu, um leigo, não), mas na base da autoridade (a comunidade científica) que a revelou. Como a autoridade é humana e falível, esse conhecimento também é falível. Mesmo assim, ele não deixa de ser racional. Crer em algo não pela evidência intrínseca, mas pela evidência indireta que justifica essa crença é algo ABSOLUTAMENTE natural. Rejeitar tal forma de adesão do intelecto a uma verdade é, em resumo, rejeitar todo empreendimento científico.

No aspecto teológico, a fé é vista de forma semelhante. A fé envolve crer em alguma coisa da qual não podemos ter o conhecimento direto, mas que sabemos que devemos acreditar pois Deus, que é onisciente e infalível, nos revelou. Ela é baseada nas evidências (ao contrário do que o neo-ateu diria) na medida em que o fato de que Deus revelou tal e tal verdade, na visão tradicional, tanto pode quanto É justificado racionalmente de forma independente.

É por esse mesmo motivo que, tradicionalmente, existe a diferença entre os “artigos de fé” e os “preâmbulos da fé”. Os artigos são os objetos específicos que, em tese, só podemos conhecer através da Revelação de Deus. Os Preâmbulos da Fé são constituídos do conhecimento natural que JUSTIFICA a adesão do intelecto aos artigos de fé. É por isso que, ao comentar a existência de Deus, São Tomás de Aquino, na Suma Teológica (Parte I, Questão 2, Resposta à Objeção 1) diz que “A existência de Deus e outras verdades a Seu respeito que podem ser conhecidas pela razão natural não são artigos de fé, mas preâmbulos aos artigos, pois a fé pressupõe o conhecimento natural, assim como a graça pressupõe a natureza e a perfeição supõe algo que pode ser aperfeiçoado.” Como diz Edward Feser, “Em resumo, a razão nos diz que Deus existe e que ele revelou tais-e-tais verdades; fé é, então, uma questão de acreditar naquilo que a razão demonstrou que Deus revelou. Nesse sentido, a fé não só não está em conflito com a razão como ela está baseada nela”.

Observe que eu não inventei nada. Eu somente expus a visão que, pela minha pesquisa, é considerada a mais tradicional no seio do Cristianismo. Se algum neo-ateu vier e falar que “Ah, mas o pastor João da minha Igreja que começou na semana passada disse que fé é acreditar sem razões e ele é cristaum por isso voce nao pode dar essa definicao no seu artigo seu mentirosos!!!!!” ele vai estar COMPLETAMENTE fora do ponto. É óbvio que uma pessoa menos sofisticada pode ter aquele entendimento da fé, mas se estamos falando da versão mais sofisticada do Cristianismo, temos que ir ATÉ os cristãos mais sofisticados para ver o que eles dizem (caso contrário, fica configurada a técnica Seleção Interessada de Representantes da Religião).

Em resumo:

  • (1) O truque consiste em ele usar a PRÓPRIA definição de fé para dizer naquilo que VOCÊ acredita (e se é você que acredita, então é você que sabe qual a definição utilizada que constitui o objeto de sua crença);
  • (2) Portanto, para refutá-lo, deixe claro DESDE O INÍCIO o que significa “fé” no sentido que você adere;
  • (3) No sentido mais simples (do dia-a-dia), “fé” é o mesmo que “confiança” em algo ou alguém, e é, possivelmente, gerada pela relação direta que a pessoa desenvolve (ou pensa desenvolver) com Deus através de práticas cristãs que lhe dão a sensação de o Cristianismo é digno de confiança e, portanto, verdadeiro;
  • (4) No sentido mais sofisticado, a fé é definida como “a adesão do intelecto, sob a influência da graça de Deus, a uma verdade não pela evidência intrínseca, mas na base da autoridade que a revelou”. A adesão é gerada por evidências indiretas, o que não faz a fé ser a “crença sem evidências”, pois ela está baseado nos PREÂMBULOS, que a justificam anteriormente;

Enfim, a desonestidade intelectual é a de sempre. E em relação a esse truque específico, você já tem a base para refutá-lo.

Fonte:http://teismo.net/quebrandoneoateismo/2012/02/21/tcnica-f-por-definio-crer-contra-ou-sem-evidncias/

A Quaresma e a Campanha da Fraternidade 2012

https://i0.wp.com/www.blogdocelio.com/wp-content/uploads/2012/02/Campanha-Fraternidade-Site.jpgSeguindo a tradição quaresmal de todos os anos escrever sobre o tema da Campanha da Fraternidade, proposta pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil “para melhor vivermos este tempo de penitência” – o que nem sempre de fato acontece -, proponho-me a fazer uma breve reflexão a respeito da “Fraternidade e Saúde Pública”.

Com efeito, neste ano de 2012, é este o tema ao qual será dado enfoque especial: a saúde pública. Pergunta-se: Como seria possível viver bem este tempo da Quaresma e, ao mesmo tempo, propor-nos a olhar com especial atenção esta Campanha da Fraternidade? Antes de mais nada, aconselhamos que seja lida a mensagem do nosso Santo Padre ao Cardeal Raymundo Damasceno Assis, presidente da CNBB, justamente por ocasião da CF 2012. Em poucas linhas, o Papa Bento XVI explica que, especialmente para nós, católicos, o lema da campanha – “Que a saúde se difunda sobre a terra” (cf. Eclo 38, 8) – “é uma lembrança de que a saúde vai muito além de um simples bem estar corporal”. Destaco:

“No episódio da cura de um paralítico (cf. Mt 9, 2-8), Jesus, antes de fazer com que esse voltasse a andar, perdoa-lhe os pecados, ensinando que a cura perfeita é o perdão dos pecados, e a saúde por excelência é a da alma, pois ‘que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro, mas perder a sua alma?’ (Mt 16, 26). Com efeito, as palavras saúde e salvação têm origem no mesmo termo latino salus e não por outra razão, nos Evangelhos, vemos a ação do Salvador da humanidade associada a diversas curas: ‘Jesus andava por toda a Galiléia, ensinando em suas sinagogas, pregando o Evangelho do Reino e curando todo o tipo de doença e enfermidades do povo’ (Mt 4, 23).”

Convém, portanto, primeiramente, que lembremo-nos da “cura perfeita”: “o perdão dos pecados”. O tempo da Quaresma é especial para buscarmos o Sacramento da Penitência. Nele, através de um sincero arrependimento de nossas faltas, achegamo-nos ao tribunal da misericórdia do Altíssimo e imploramo-Lo a cura de nossa alma, a nossa saúde espiritual, cuja importância supera – é o Papa quem o diz – a saúde física.

Aqui, faz-se importante traçar algumas rápidas considerações a respeito do que infelizmente a Campanha da Fraternidade tem se tornado em muitas paróquias pelo Brasil afora. Ao invés de convidar os cristãos a um tempo de penitência e oração, em muitas igrejas este apelo litúrgico é substituído pela lembrança de temas que, da maneira como são abordados, não colaboram – nem de longe – para fazer nascer no coração dos fiéis o espírito de jejum, mortificação e ascese. Por isto a necessidade de ler esta última mensagem do Papa. Ela impede – ou pelo menos tenta evitar – que os teólogos da libertação façam da Campanha da Fraternidade apenas mais um “movimento de conscientização social” ou de “mobilização popular”; ao mesmo tempo, recorda aos pastores da Igreja que uma CF verdadeiramente católica não deve dar atenção especial às coisas deste mundo, perecíveis, mas sim àquilo que de fato importa: a glória de Deus, a salvação das almas, a conversão da Igreja.

Quanto ao tema deste ano – “Fraternidade e Saúde Pública” – consideremos o seguinte: a saúde pública de nosso país presta auxílio aos enfermos, e a Igreja, neste tempo de Quaresma, chama os fiéis a praticarem a esmola. O chamado parte do próprio Cristo no Evangelho da Quarta-Feira de Cinzas. Pois bem, aqui está: por que não unir a preocupação que a Igreja desde o princípio manifestou para com os doentes e moribundos a uma ação efetiva de caridade, virtude fora da qual definitivamente não é possível viver uma boa Quaresma?

“Saúde pública”! Esta expressão infelizmente nos remete aos últimos discursos dos defensores da legalização do aborto em nosso país… Sob o lema “Aborto é questão de saúde pública”, os detratores da vida humana fazem um estardalhaço, minimizam o valor da dignidade do ser humano – chegando a compará-lo a um mosquito -, banalizam a benção que é a criança na vida de uma família – merece nota esta feminista que, além de odiar crianças, declara que seria capaz de matar um bebê para que calasse a boca – e, por fim, chegam a manipular dados e estatísticas para defender suas ideias. Esta verdadeira guerra que os servos da “cultura de morte” fazem contra o ser humano, criado à imagem e semelhança de Deus, só mostra como o tema “saúde pública” pode ser distorcido em favor de ideias tirânicas e homicidas.

Esta Quaresma é oportunidade para que travemos este difícil combate, que é, acima de tudo, espiritual. Por meio da esmola, do jejum, da oração – e também do apostolado pró-vida -, é possível, sim, entrar no deserto da preparação para a Páscoa de nosso Senhor e viver, com fruto, a Campanha da Fraternidade deste ano.

Nossa Senhora da Conceição Aparecida nos dê vivenciarmos uma santa Quaresma; e, ao mesmo tempo, livre nossa nação da maldição do aborto.

Graça e paz.
Salve Maria Santíssima!

O caso Galileu: 350 anos depois

Introdução

O caso Galileu é comumente utilizado para afirmar que a Igreja Católica é inimiga do progresso científico. Por tanto, chama-me a atenção que diversos católicos, inclusive sacerdotes, religiosos e outras pessoas que têm conhecimento teológico, conheçam esse caso de um modo bastante superficial e, por vezes, equivocado.

Há alguns anos, estava em Roma ministrando um curso de doutorado. Em uma aula falei sobre o caso Galileu. Ao concluir, um sacerdote que estava trabalhando em sua tese de doutorado veio falar comigo. Estava muito contrariado e me dizia: “como é possível que eu, sacerdote católico, que passei anos em um Seminário e agora trabalho em minha tese de doutorado em Roma, soube apenas hoje que a Inquisição não matou Galileu?” Tinha toda razão em se sentir desnorteado. Visto que tenho experiências semelhantes com certa freqüência, decidi escrever este artigo, no qual pretendo resumir, brevemente, os aspectos centrais do caso Galileu: o que sabemos com segurança que aconteceu ou não aconteceu, quais temas continuam sendo discutidos, qual é, definitivamente, o estado atual da questão em seus pontos principais.

As causas da ignorância e confusão existentes em torno ao caso Galileu é um tema que mereceria ser estudado. Em parte pode ser devido ao uso demasiado partidarista que muitas vezes se fez neste caso: alguns, desejando atacar a Igreja, acentuaram excessivamente o que lhes interessava ou deformaram os fatos, e outros, ao defender a Igreja, por vezes utilizaram-se de uma apologética demasiado fácil, desconhecendo a complexidade do caso. Atualmente, há muitos estudos rigorosos sobre Galileu, de modo que é possível estabelecer com objetividade o que sabemos e o que desconhecemos. A Igreja católica mostrou, por meio do seu representante maior, o Papa, um desejo claro de esclarecer o tema, e não encontrou inconveniente em reconhecer, sem paliativos, os erros que os seus representantes puderam cometer com Galileu, pedindo inclusive perdão por eles. Parece que estamos em um bom momento para propor um resumo desapaixonado do famoso caso.

1. Como morreu Galileu?

O primeiro ponto que deveria ficar claro é que a Inquisição não matou a Galileu, nem a ninguém. Morreu de morte natural. Galileu nasceu na terça-feira, 15 de fevereiro de 1564 em Pisa, e morreu na quarta-feira, 8 de janeiro de 1642, em sua casa, uma vila em Arcetri nas imediações de Florença. Portanto quando morreu tinha quase 78 anos (é possível encontrar uma diferença de um ano inclusive em documentos oficiais, porque então, em Florença, os anos começavam a contar em 25 de março, data da Encarnação do Senhor). Conta Vicenzo Viviani, um jovem discípulo de Galileu que permaneceu continuamente junto a ele nos últimos trinta meses, que sua saúde estava muito debilitada: tinha uma grave artrite desde os 30 anos e a isto se unia uma irritação constante e quase insuportável nas pálpebras e outros achaques que traz consigo uma idade tão avançada, sobretudo quando consumida em muito estudo e vigília.

Acrescenta que, apesar de tudo, seguia cheio de projetos de trabalho, até que por fim lhe assaltou uma febre que o foi consumindo lentamente e uma forte palpitação, com a qual ao longo de dois meses foi se extenuando cada vez mais, e por fim, uma quarta-feira, 8 de janeiro de 1642, às quatro horas da manhã, morreu com firmeza filosófica e cristã, aos setenta e sete anos de idade, dez meses e vinte dias. Portanto, não existiu a fogueira nem nada parecido.

Tampouco foi condenado à morte. O único processo em que foi condenado ocorreu em 1633, e ali foi condenado à prisão que em vista de suas boas disposições, foi comutada imediatamente por prisão domiciliar, de modo que nunca chegou a ingressar em um cárcere. durante o processo deveria ter estado na prisão da Inquisição, segundo as normas comuns, mas de fato nunca esteve lá: antes de começar o processo se alojou na embaixada de Toscana em Roma, situada no Palazzo Firenze, onde vivia o embaixador; durante o processo foi exigido em alguns momentos que se alojasse no edifício da Inquisição, mas então lhe habilitaram umas estâncias que estavam reservada para os eclesiásticos que trabalhavam ali, permitindo que lhe levassem comida da embaixada Toscana; e ao acabar o processo foi permitido que estivesse alojado na Vila Médici, uma das melhores vilas de Roma, com esplêndidos jardins, propriedade do Grande Duque de Toscana. Tudo isto se explica porque Galileu era oficialmente o primeiro matemático e filósofo do Grande Duque de Toscana, território importante (inclui Florença, Pisa, Livorno, Siena, etc.) e tradicionalmente bem relacionado com a Santa Sé, e as autoridades de Toscana exerceram bons ofícios para que em Roma Galileu fosse tratado o melhor possível, como de fato sucedeu. O embaixador de Toscana, Francesco Niccolini, apreciava muitíssimo a Galileu, e colocou todos os meios para que sofresse o menos possível com o processo, e para que não fosse preso. Niccolini conseguiu que, ao fim do processo, a pena de prisão que se impôs fosse comutada por confinamento na Vila Médici. Depois de poucos dias foi permitido que se trasladasse a Siena, onde se alojou no palácio do arcebispo, monsenhor Ascanio Piccolomini; este era um grande admirador e amigo de Galileu, e o tratou esplendidamente durante os vários meses em que esteve em sua casa, de modo que ali se recuperou do trauma que sem dúvida, supôs o processo (em 1633, quando ocorreu o processo, Galileu tinha 69 anos). Depois, foi permitido que se trasladasse à casa que tinha fora de Florença, e ali permaneceu até a morte, já velho, de morte natural. Acabou sua obra mais importante, e a publicou, em 1638, depois do processo.

Definitivamente, Galileu não foi condenado à morte, mas a uma prisão que não chegou a se executar porque foi comutada: primeiro, por uma estância de vários dias na Vila Médici, em Roma; depois, por uma estância de vários meses no palácio de seu amigo arcebispo de Siena; e a continuação (fins de 1633), foi-lhe permitido residir, em uma espécie de prisão domiciliar, em sua própria casa, na Vila do Gioiello, em Arcetri, nas imediações de Florença, onde viveu e trabalhou até sua morte.

Galileu nunca foi submetido a tortura ou a maus tratos físicos. Sem dúvida, fazê-lo ir a Roma vindo de Florença para ser julgado, tendo 69 anos, supõe mau trato, e o mesmo se pode dizer da tensão psicológica que teve de suportar durante o processo e na condenação final, seguida de uma abjuração forçada. É certo. Desde o ponto de vista psicológico, com a repercussão que isto pode ter na saúde, Galileu teve que sofrer por estes motivos e, de fato, quando chegou a Siena depois do processo, se encontrava em más condições. Mas é igualmente certo que não foi nenhum objeto dos maus tratos físicos típicos da época. Algum autor afirmou que, durante o processo, ao final, em uma ocasião, foi submetido a tortura; entretanto, autores de todas as tendências estão de acordo, com praticamente unanimidade, que isto realmente não aconteceu. Na fase conclusiva do processo, em uma ocasião, encontra-se uma ameaça de tortura por parte do tribunal, mas todos os dados disponíveis estão a favor de que se tratou de pura formalidade que, devido aos regulamentos da Inquisição, o tribunal devia mencionar, mas sem intenção de levá-la à prática e sem que, de fato, fosse realizada (consta, além disso, que em Roma não se praticava a tortura com pessoas da idade de Galileu). Depois da condenação, em Siena, Galileu se recuperou. Logo sofreu diversas doenças, mas eram as mesmas que já sofria habitualmente desde muitos anos antes e que foram se agravando com a idade. Chegou a ficar completamente cego, mas nada teve a ver com o processo.

2. Porque Galileu foi condenado?

O que mais chama a atenção não são os maus tratos físicos que como acabamos de ver, não existiram, mas o fato em si mesmo de que Galileu foi condenado, com as tensões e sofrimentos que isto implica. Desde logo, não era homicida, nem ladrão, nem malfeitor em nenhum sentido habitual da palavra. Então, porque foi condenado? Qual foi a condenação?

Costuma-se falar de dois processos contra Galileu: o primeiro em 1616, e o segundo em 1633. Às vezes só se fala do segundo. O motivo é simples: o primeiro processo realmente existiu, porque Galileu foi denunciado à Inquisição romana e o processo foi adiante, mas Galileu não chegou a ser convocado diante do tribunal: o denunciado se inteirou de que existia a denúncia e o processo através de comentários de outras pessoas, mas o tribunal nunca lhe disse nada, nem o convocou, nem o condenou. Por isso com freqüência não se considera que se tratou de um autêntico processo, ainda que de fato a causa se abriu e se desenvolveram algumas diligências processuais durante meses. Ao contrário, o de 1633 foi um processo a toda regra: Galileu foi intimado a comparecer diante do tribunal da Inquisição de Roma, teve que se apresentar e declarar diante desse tribunal, e finalmente foi condenado. Tratam-se de dois processos muito diferentes, separados por muitos anos; mas estão relacionados, porque o que aconteceu no de 1616 condicionou em grande parte o que aconteceu em 1633.

2.1. O processo de 1616

Em 1616 Galileu era acusado de postular o sistema heliocêntrico proposto na Antigüidade pelos pitagóricos e na época moderna por Copérnico: afirmava que a Terra não está quieta no centro do mundo, como geralmente se acreditava, mas que gira sobre si mesma e ao redor do Sol, da mesma forma que os outros planetas do Sistema Solar. Isto parecia ir contra textos da Bíblia onde se diz que a Terra está quieta e o Sol se move, de acordo com a experiência; além disso, a Tradição da Igreja assim havia interpretado a Bíblia durante séculos, e o Concílio de Trento havia insistido em que os católicos não deveriam admitir interpretações da Bíblia que se afastassem das interpretações unânimes dos Santos Padres.

Os acontecimentos de 1616 acabaram com dois atos extra-judiciais. Por um lado, publicou-se um decreto da Congregação do Index, datado de 5 de março de 1616, pelo qual se incluíram no índice de livros proibidos três livros: Sobre as revoluções do cônego polaco Nicolau Copérnico, publicado em 1543, onde se expunha a teoria heliocêntrica de modo científico; um comentário do agostiniano espanhol Diego de Zúñiga, publicado em Toledo em 1584 e em Roma em 1591, onde se interpretava alguma passagem da Bíblia de acordo com o copernicanismo; e um opúsculo do carmelita italiano Paolo Foscarini, publicado em 1615, onde defendia-se que o sistema de Copérnico não está contra a Sagrada Escritura. Ficava afetado pelas mesmas censuras qualquer outro livro que ensinasse as mesmas doutrinas. O motivo que se dava no decreto para essas censuras era de que a doutrina que defende que a Terra se move e o Sol está em repouso é falsa e completamente contrária à Sagrada Escritura. Por outro lado, Galileu foi admoestado pessoalmente para que abandonasse a teoria heliocêntrica e se abstivesse de defendê-la.

O opúsculo de Foscarini foi proibido absolutamente. Ao contrário, os livros de Copérnico e de Zúñiga somente foram suspendidos até que se corrigissem algumas passagens. No caso de Zúñiga, o que deveria se modificar era muito breve. No caso de Copérnico tratavam-se de diversas passagens onde deveria explicar que o heliocentrismo não era uma teoria verdadeira, mas só um artifício útil para os cálculos astronômicos. De fato, essas correções foram preparadas e aprovadas ao fim de quatro anos, em 1620.

Podemos nos perguntar por que se dava tanta importância a algo que, hoje em dia, parece simples: quando a Bíblia fala de questões científicas, com freqüência adota o modo de falar próprio da cultura, da época ou simplesmente da experiência ordinária. De fato este foi um dos argumentos que Galileu utilizou em sua Carta a Benedetto Castelli, que circulou em cópias à mão (Castelli era um beneditino, amigo e discípulo de Galileu, professor de matemática na Universidade de Pisa), e com maior extensão em sua Carta à Grande Duquesa de Toscana, Cristina de Lorena (mãe do que naqueles momentos era Grande Duque de Toscana, Cosme II), a quem havia chegado ecos das acusações bíblicas contra Galileu.

Para compreender o fundo do assunto deve-se mencionar três problemas. Em primeiro lugar, Galileu tinha se tornado célebre com seus descobrimentos astronômicos de 1609-1610. Utilizando o telescópio que ele mesmo contribuiu de modo decisivo para aperfeiçoar, descobriu que a Lua possui irregularidades como a Terra, que ao redor de Júpiter giram quatro satélites, que Vênus apresenta fases como a Lua, que na superfície do Sol existem manchas que mudam de lugar, e que existem muito mais estrelas do que as que se vêem a olho nu. Galileu se baseou nestes descobrimentos para criticar a física aristotélica e apoiar o heliocentrismo copernicano. Os professores aristotélicos, que eram muitos e poderosos, sentiam que os argumentos de Galileu contradiziam sua ciência, e às vezes passavam ridículo. Estes professores atacaram seriamente a Galileu e, quando acabavam-se as respostas, alguns recorreram aos argumentos teológicos (a pretendida contradição entre Copérnico e a Bíblia).

Em segundo lugar, a Igreja católica era naqueles momentos especialmente sensível para com aqueles que interpretavam por sua conta a Bíblia, afastando-se da Tradição, porque o enfrentamento com o protestantismo era muito forte. Galileo se defendeu de quem dizia que o heliocentrismo era contrário à Bíblia explicando por que não era, mas com isto se fazia de teólogo, o que era considerado então como algo perigoso, sobretudo quando, como neste caso, se afastava das interpretações tradicionais. Galileu argumentou bem como teólogo, sublinhando que a Bíblia não pretende nos ensinar ciëncia e se acomoda aos conhecimentos de cada momento, e inclusive mostrou que na Tradição da Igreja se encontravam precedentes que permitiam utilizar argumentos como os que ele propunha. Mas, em uma época de fortes polêmicas teológicas entre católicos e protestantes, estava muito mal visto que um profano pretendesse dar lições aos teólogos, propondo algumas novidades um tanto estranhas.

Em terceiro lugar, a cosmovisão tradicional, que colocava a Terra no centro do mundo, parecia estar de acordo com a experiência ordinária: vemos que se movem o Sol, a Lua, os planetas e as estrelas; ao invés, se a Terra se movesse, deveriam suceder coisas que não sucedem: projétéis atirados para cima cairiam atrás, não se sabe como estariam as nuvens unidas à Terra sem ficar também atrás, se deveria notar um movimento tão rápido.

Além disso, essa cosmovisão tradicional parecia muito mais coerente com a perspectiva cristã de um mundo criado para o homem, e também com a Encarnação e a Redenção da humanidade através de Jesus; de fato, entre aqueles que haviam aceitado as idéias de Copérnico contava-se Giordano Bruno, que defendeu que existem muitos mundos habitados e acabou sustentando doutrinas mais ou menos heréticas (Bruno foi queimado, como conseqüência de sua condenação pela Inquisição romana, em 1600, ainda que deve-se sublinhar, não como desculpa mas para maior claridade, que não era propriamente um cientista, ainda que utilizasse o copernicanismo como ponto de partida).

Os acontecimentos de 1616 culminaram em um decreto da Congregação do Índex, datado de 5 de março de 1616, pelo qual foram proibidos os livros mencionados, com os matizes já apontados. O decreto foi publicado em nome da Congregação, e está assinado pelo cardeal prefeito e pelo secretário da Congregação, não pelo Papa. Desde então, um ato desse tipo era feito com o mandato ou aprovação do Papa e, de algum modo, comprometia a autoridade do Papa, mas de nenhuma maneira pode ser considerado como um ato que se põe em jogo a infalibilidade do Papa: por uma parte, porque nem está assinado pelo Papa e nem mesmo a menciona; por outra, porque trata-se de um ato de governo de uma Congregação, não de um ato de magistério; e além disso, porque não pretende definir uma doutrina de modo definitivo. Isso era perfeitamente sabido então, como agora; como prova disso pode-se mencionar uma carta de Benedetto Castelli a Galileu, escrita em 2 de outubro de 1632, quando já tinha sido ordenado a Galileu que comparecesse perante a Inquisição de Roma. Castelli falou com o Padre Comissário do Santo Ofício, Vincenzo Maculano, e defendeu a ortodoxia da posição de Copérnico e de Galileu, acrescentando que várias vezes falou de tudo isso com teólogos piedosos e muito inteligentes, e não viram nenhuma dificuldade; acrescenta que o próprio Maculano lhe disse que concordava e que, em sua opinião, a questão não deveria se resolver recorrendo à Sagrada Escritura. É fácil advertir que estas opiniões, tratadas no próprio Comissário do Santo Ofício, não teriam sentido se o decreto do índex de 1616 pudesse ser interpretado como tendo um alcance de magistério infalível ou definitivo.

Nas deliberações da Santa Sede, prévias ao decreto, foram pedidas as opiniões de onze consultores do Santo Ofício, que relataram, em 24 de fevereiro de 1616, que dizer que o Sol está parado no centro do universo é absurdo em filosofia e além disso formalmente herético, porque contradiz muitos lugares da Escritura tal como expõe os Santos Padres e os teólogos, e dizer que a Terra se move é também um absurdo em filosofia e ao menos errôneo na fé. Com freqüência é tomada esta opinião dos teólogos consultores como se fosse ditame da autoridade da Igreja, mas não é: foi somente a opinião dessas pessoas. O único ato público da autoridade da Igreja foi o decreto da Congregação do Índex, e nesse decreto não é dito que a doutrina heliocêntrica seja herética: é dito que é falsa e que se opõe à Sagrada Escritura. O matiz é importante, e qualquer entendido em teologia o sabia então e o sabe agora. Ninguém considerou, então, nem deveria considerar agora, que o heliocentrismo foi condenado como heresia, porque não é certo. Isto explica que Galileu e outras pessoas igualmente católicas continuaram aceitando o heliocentrismo; Galileu sabia (e estava certo) que ele havia mostrado, em suas cartas a Castelli e a Cristina Lorena, que o heliocentrismo podia ser compatível com a Sagrada Escritura, utilizando princípios que não eram novos, mas que tinham apoio na tradição da Igreja.

A decisão da autoridade da Igreja em 1616 foi equivocada, ainda que não tenha qualificado o heliocentrismo como heresia. Galileu e seus amigos eclesiásticos se propuseram a conseguir que este decreto fosse revogado. Poderiam ter conseguido: trata-se de um decreto disciplinar que ainda que fosse acompanhado por um valor doutrinal, não condenava o heliocentrismo como heresia, nem era um ato de magistério infalível.

Outro aspecto importante a levar em conta é que, ainda que as críticas de Galileu à posição tradicional estavam fundamentadas, nem ele nem ninguém possuíam naqueles momentos argumentos para demonstrar que a Terra se move ao redor do Sol. Esta afirmação parecia mais absurda, tal como a qualificação dos teólogos do Santo Ofício. Em uma famosa carta, o cardeal Roberto Belarmino, um dos teólogos mais influentes então, pedia tanto a Foscarini como a Galileu que utilizassem o heliocentrismo somente como um hipótese astronômica, sem pretender que fosse verdadeira nem entrar em argumentos teológicos, em cujo caso não haveria nenhum problema. Mas Galileu para defender-se de acusações pessoais e para tentar que a Igreja não interviesse no assunto, se lançou a uma defesa forte do copernicanismo, mudando-se para Roma e tentando influenciar nas personalidades eclesiásticas; isto teve talvez um efeito contrário, provocando que a autoridade da Igreja interviesse para frear a propaganda de Galileu que, ao menos em suas críticas, era bastante convincente.

Além do decreto da Congregação do Índex, as autoridades eclesiásticas tomaram outra decisão que afetava pessoalmente a Galileu e que influiu decisivamente em seu processo, 17 anos mais tarde. Em concreto, por ordem do Papa (Paulo V), o cardeal Belarmino citou Galileu (que se encontrava então em Roma, dedicado à propaganda do copernicanismo) e, na residência do cardeal, em 26 de fevereiro de 1616, o admoestou a abandonar a teoria copernicana. O Papa tinha mandado Belarmino a que fizesse essa admoestação, acrescentando que, se Galileu não quisesse abandonar a teoria, o Comissário do Santo Ofício, diante do notário e testemunhas, o ordenasse para que não ensinasse, defendesse nem tratasse essa doutrina, e que se isto fosse negado, o prendesse. Consta que Belarmino fez a admoestação. Mas entre os documentos que foram conservados existe um que deu espaço a discussões sobre a força e o alcance desse preceito: disse que, em continuação à admoestação de Belarmino, o Padre Comissário do Santo Ofício (o dominicano Michelangelo Seghizzi) transmitiu o preceito mencionado; mas esse documento está sem assinar. Foram dadas interpretações de todo tipo; a mais extrema é que tratasse de um documento falsificado deliberadamente em 1616 ou em 1633 para acabar com Galileu; mas isto parece muito pouco provável. Com os documentos que possuímos, é muito difícil saber exatamente como se desenvolveu o encontro com Belarmino e Galileu, mas está claro que Galileu entendeu perfeitamente, que em diante, não poderia argumentar a favor do copernicanismo, e, com efeito, assim o fez durante anos. Precisamente o processo a que foi submetido 17 anos depois, em 1633, foi motivado porque, aparentemente, Galileu desobedeceu a esse preceito.

2.2. O processo de 1633

Se o decreto da Congregação do Índex em 1616 foi um equívoco, também o foi proibir Galileu de tratar ou defender o copernicanismo. Galileu o sabia. Entretanto, obedeceu. Sempre foi e quis ser um bom católico. Mas sabia que a proibição de 1616 era baseada em um equívoco e queria solucioná-lo. Inclusive advertia do perigo de escândalo que poderia ocasionar essa proibição no futuro, se chegasse a demonstrar com certeza que a Terra gira ao redor do Sol. Seus amigos concordavam com ele.

Em 1623 coincidiram umas circunstâncias que pareciam favorecer uma revisão das decisões de 1616, ou pelo menos tornar possível que se expusesse ainda que fosse com cuidado, os argumentos a favor do copernicanismo. O fator principal foi a eleição como Papa do cardeal Maffeo Barberini, que adotou o nome de Urbano VIII. Era, há muitos anos, um admirador de Galileu, a quem inclusive havia dedicado uma poesia latina em que louvava seus descobrimentos astronômicos. Além disso, desde o primeiro momento teve em postos muita confiança em vários amigos e partidários de Galileu. Em 1624 Galileu foi a Roma e o Papa o recebeu seis vezes, com grande cordialidade. Mas Galileu comprovou ao sondar sobre o assunto do copernicanismo, que se bem Urbano VIII não o considerava herético (já vimos que nunca foi declarado como tal), o considerava como uma posição doutrinalmente temerária e, além disso, estava convencido de que nunca poderia se demonstrar: dizia que os mesmos efeitos observáveis que se explicam com essa teoria, poderiam ser devidos à outras causas diferentes, pois caso contrário, estaríamos limitando a onipotência de Deus. Tratava-se de um argumento que, aparentemente, tinha muita força, e parecia que quem pretendesse demonstrar que o copernicanismo estava pondo limites à onipotência de Deus.

Apesar de tudo, o humor do novo Papa e a posição estratégica de seus amigos levou Galileu a embarcar em um velho projeto pendente: escrever uma grande obra discutindo o copernicanismo e, desde então, argumentando a seu favor. Simplesmente, a apresentaria como um diálogo entre um partidário do geocentrismo e outro do heliocentrismo, sem deixar resolvida a questão. E acrescentaria o argumento do Papa. Mas o leitor inteligente logo se daria conta de que ele tinha razão.

Além disso, Galileu pensava que dispunha de um argumento novo que demonstrava o movimento da Terra: o argumento das marés. Segundo Galileu, as marés só poderiam ser explicadas supondo o movimento da Terra (e não aceita, como se soasse a astrologia, que se devesse à influência da Lua). Inclusive queria intitular sua obra desse modo, como um tratado sobre as marés, mas o Papa soube que pretendia utilizar este título e, como soava demasiadamente realista (de fato o era), aconselhou colocar outro título que não parecesse uma prova do movimento da Terra (desde então, como sabemos, o argumento das marés estava errado). Galileu mudou o título do livro, que passou a chamar Diálogo em torno dos grandes sistemas do mundo, o ptolomaico e o copernicano. Um título muito acertado devido, em parte, à interferência de um Papa que não queria que se tratasse o movimento da Terra como algo real: mas sem dúvida, essa era a intenção principal de Galileu em sua obra. Galileu estava disposto a conceder tudo o que fosse necessário, com tal de publicar uma obra onde se recorressem os argumentos contra a posição tradicional e a favor do copernicanismo.

Galileu acabou de redigir o Diálogo em 1630, e o levou a Roma para obter a permissão eclesiástica para imprimi-lo. A permissão deveria ser concedida pelo Mestre do Sagrado Palácio, o dominicano Niccolò Riccardi, que não sabia astronomia mas era admirador de Galileu e sempre tinha se mostrado desejoso de ajudá-lo. Agora Riccardi se encontrou em um compromisso. Deu a entender que não haveria problemas, ainda que devesse ajustar uma série de detalhes. Galileu voltou a Florença, a peste causou sérias limitações ao tráfego e correio entre Florença e Roma, e aí começou uma cadeia de equívocos que alargaram a concessão da permissão e deixou Galileu irritado. Ao fim de um ano, Galileu solicitou e obteve a intervenção do Grande Duque de Toscana e de seu embaixador em Roma para obter a permissão. Riccardi, que também era toscano e era parente da esposa do embaixador, foi submetido a uma pressão muito forte. Finalmente concedeu a permissão para que se imprimisse o livro em Florença, mas com uma série de condições que se fazia saber Galileu e o Inquisidor de Florença. Riccardi sabia o que o Papa pensava: que só se poderia tratar o copernicanismo como uma hipótese matemática, não como uma representação da realidade; as condições e advertências que deu se encaminhavam a garantir, que não estava nada claro na obra de Galileu.

Galileu introduziu a mudança, mas, seguramente, nem todas as que tinha introduzido Riccardi e tivesse desejado o Papa. No livro, Simplício, o personagem que defende a posição tradicional de Aristóteles e Ptolomeu, sempre sai perdendo. Simplício foi um dos mais famosos comentadores antigos de Aristóteles, mas na obra de Galileu dava a impressão de que seus argumentos e sua atitude correspondiam muito bem a seu nome. Por outro lado, o argumento favorito do Papa aparecia no final da obra: depois de ter exposto todos os argumentos físicos e filosóficos, Simplício, precisamente Simplício, utilizava esse argumento, e ainda que Salviati, o defensor de Copérnico (e Galileu) o aprovasse, o final é muito breve e forçado. Para maior confusão, uma introdução aprovada por Riccardi, em que se explicava que essa obra não pretendia estabelecer o copernicanismo como teoria verdadeira, apareceu impressa em um tipo diferente do resto da obra, dando a impressão de uma adição postiça.

O diálogo terminou de ser impresso em Florença em 21 de fevereiro de 1632. Galileu enviou em seguida exemplares por todas as partes, também a seus amigos em outros países da Europa. Ainda havia problemas de comunicação com Roma por causa da peste, de modo que os primeiros exemplares não chagaram a Roma até a metade de maio. Um deles foi entregue ao cardeal Francesco Barberini, sobrinho e mão direita do Papa, a quem Galileu havia ajudado há alguns anos, a conseguir o doutorado, e quem considerava, igualmente ao Papa, como um grande amigo.

Em 1632, a maior preocupação do Papa era precisamente o movimento do Sol e da Terra. Estava em pleno desenrolar a Guerra dos Trinta Anos, que começou em 1618 e não terminou até 1648, que enfrentava toda a Europa em duas metades, os católicos e os protestantes. Naquele momento havia problemas muito complexos, porque a França católica se encontrava mais para o lado dos protestantes da Suécia e Alemanha, enfrentada com outras potências católicas, Espanha e o Império. Urbano VIII tinha sido cardeal legado em Paris e tendia a alinhar-se com os franceses, temendo, além disso, uma excessiva prepotência dos espanhóis, e tentando não perder a França. Tratava-se de equilíbrios muito difíceis. Os problemas eram graves. Em 8 de março de 1632, em uma reunião de cardeais com o Papa, o cardeal Gaspar Borgia, protetor da Espanha e embaixador do Rei Católico, acusou abertamente ao Papa de não defender como era preciso a causa Católica. Criou-se uma situação extraordinariamente violenta. Nessas condições, Urbano III via-se especialmente obrigado a evitar qualquer coisa que pudesse ser interpretada como não defender a fé católica de modo suficientemente claro.

Precisamente nestas circunstâncias, a metade de maio, começou a chegar a Roma os primeiros exemplares do Diálogo. Em um primeiro momento não aconteceu nada. Mas em dois meses, à metade de julho, se soube que o Papa estava muito enfadado com o livro, que tentava frear sua difusão, e que iria criar uma comissão para estudá-lo e julgá-lo.

A documentação que possuímos não permite saber o que provocou o enfado e a decisão do Papa. Galileu sempre atribuiu a isto a atuação de seus inimigos (que não eram poucos nem pouco influentes), que teriam informado ao Papa de modo tendencioso, predispondo-o contra. Por exemplo, além de denunciar que o livro defendia o copernicanismo, sendo contra o decreto de 1616, teriam colocado em relevo que um dos três personagens, Simplício, que sempre costumava perder, é quem expõe o argumento preferido do Papa sobre a onipotência de Deus e os limites de nossas explicações. Isto poderia parecer uma provocação deliberada, e parece que foi assim interpretado: vários anos depois, Galileu ainda enviava uma mensagem ao Papa, da sua vila de Arcetri, fazendo-se saber que jamais havia passado por sua mente tal coisa. Além disso, como foi assinalado, as circunstâncias pessoais de Urbano VIII naquele momento eram difíceis, e não podia tolerar que se publicasse um livro, que aparecida com a permissão eclesiástica de Roma e de Florença, em que se defendia uma teoria condenada pela Congregação do Índex em 1616 como falsa e contrária a Sagrada Escritura.

O Papa estabeleceu uma comissão para examinar as acusações contra Galileu e julgou que o assunto devia ser enviado ao Santo Ofício (ou Inquisição romana), de onde foi ordenado a Galileu, que vivia em Florença, que se apresentasse em Roma ante esse tribunal durante o mês de outubro de 1632. Depois de tentativas de prorrogação que duraram vários meses, em 30 de dezembro de 1632, o Papa com a Inquisição deu a conhecer que, se Galileu não se apresentasse em Roma, enviaria alguém que se certificasse de sua saúde e se visse que poderia ir a Roma, o levaria preso. O Papa aconselhou seriamente ao Grande Duque que se abstivesse de intervir, porque o assunto era sério. As autoridades toscanas decidiram aconselhar a Galileu que fosse a Roma. O Embaixador Noccolini, que conhecia bem ao Papa e falava com ele com freqüência, advertia que discutir com o Papa e contrariá-lo era o melhor caminho para arruinar a Galileu. Quando o Papa falava com Niccolini do problema causado por Galileu, em várias ocasiões encheu-se de cólera. Todos advertiram Galileu que era melhor ir a Roma e se mostrasse em todo o momento disposto a obedecer no que dissessem, porque se tomasse outra atitude as conseqüências seriam prejudiciais para ele.

Galileu chegou a Roma no domingo dia 13 de fevereiro de 1633, em um liteira facilitada pelo Grande Duque, depois de esperar na fronteira dos Estados Pontifícios por causa da peste que seguia em Florença. O embaixador de Toscana, Francesco Niccolini, se portou maravilhosamente com Galileu, intervindo continuamente em seu favor ante as autoridades de Roma, de acordo com as instruções do Grande Duque, Conseguiram que Galileu não estivesse no cárcere do Santo Ofício, como exigia a norma. Desde sua chegada à Roma até 12 de abril (dois meses), Galileu viveu no Palácio de Florença, onde se encontrava a embaixada de Toscana e a casa do embaixador. As autoridades o recomendaram que evitasse a vida social, de modo que não saía de casa, mas gozava de um tratamento excepcional por parte do embaixador e de sua esposa. Niccolini pedia ao Papa que o assunto fosse o mais breve possível, mas se alongava porque a Inquisição ainda estava deliberando sobre o modo de atuar. Como se descobriu nos arquivos do Santo Ofício o escrito de 1616 em que proibia Galileu de tratar de qualquer modo o copernicanismo, o processo se centrou completamente em uma única acusação: a desobediência desse preceito em 1616.

Galileu foi chamado a depor no Santo Ofício na terça-feira 12 de abril de 1633. Sua defesa pode nos parecer muito estranha: negou que, no Diálogo, defendesse o copernicanismo. Galileu sabia que o Santo Ofício pediu a opinião de três teólogos a respeito e que, em 17 de abril, os três informes concluíam sem lugar a dúvidas (como de fato assim o era) que Galileu, em seu livro, defendia o copernicanismo; neste caso, os teólogos tinham razão. Isto complicava a situação, pois um acusado que não reconhecia um erro comprovado devia ser tratado muito severamente pelo tribunal. Por outro lado, Galileu se defendeu mostrando uma carta que, a seu pedido, o cardeal Balarmino tinha escrito depois dos acontecimentos de 1616, para que pudesse se defender frente àqueles que o caluniavam; nesse escrito, Belarmino dava fé de que Galileu não teve que abjurar de nada e que simplesmente tinha sido notificada a proibição da Congregação do Índex. Mas isso podia ser interpretado também contra Galileu se fosse mostrado, como era o caso, que em seu livro argumentava a favor da doutrina condenada em 1616. O tribunal centrou-se em matizes da proibição feita a Galileu em 1616, que Galileu dizia não se lembrar, porque tinha conservado o documento de Balarmino e aí não se incluíam esses matizes. Desafortunadamente, Balarmino havia morrido e não podia esclarecer a situação.

Estes dias Galileu seguia no Santo Ofício, ainda que tampouco tivesse estado na prisão. Por deferência com o Grande Duque de Toscana e frente à insistência o embaixador, Galileu foi instalado nas habitações do fiscal da Inquisição, traziam-lhe comidas da embaixada de Toscana, e podia passear. Esteve ali desde a terça-feira 12 de abril até o sábado 30 de abril: 17 dias completos.

Para desbloquear a situação, o Padre Comissário propôs aos Cardeais do Santo Ofício algo insólito: visitar Galileu em suas estalagens e tentar convencê-lo a reconhecer seu erro. Conseguiu depois de uma longa conversa com Galileu em 27 de abril. No dia seguinte, sem comunicar a ninguém mais, escreveu o que tinha feito e o resultado ao cardeal sobrinho do Papa, que se encontrava nestes dias em Castelgandolfo com o Papa; através dessa carta se vê claramente que esta atuação estava aprovada pelo Papa: desse modo, o tribunal poderia salvar sua honra condenando a Galileu, e logo poderia usar clemência com Galileu deixando-o recluso em sua casa, tal como ( disse o Padre Comissário) sugeriu Vossa Excelência (o cardeal Francesco Barberini).

Com efeito, no sábado 30 de abril Galileu reconheceu perante o tribunal que, ao voltar a ler agora seu livro, que tinha acabado há muito tempo, se dava conta de que, devido não a má fé, mas a vanglória e ao desejo de se mostrar mais engenhoso que o resto dos mortais, tinha exposto os argumentos a favor do copernicanismo com uma força que ele mesmo não acreditava que tivesse. A partir daí, as coisas se desenrolaram como o Comissário tinha previsto. Esse mesmo dia foi permitido a Galileu voltar ao Palácio de Florença, à casa do embaixador. Na terça-feira 10 de maio foi chamado ao Santo Ofício para que apresentasse sua defesa; apresentou o original da carta do cardeal Belarmino, e reiterou que tinha atuado com reta intenção. Continuava fechado no palazzo Firenze; o embaixador conseguiu que lhe permitisse a passear na Vila Médici, e inclusive em Castelgangolfo, porque lhe causava mal não fazer nenhum tipo de exercício. Entretanto, a peste continuava açoitando Florença, em alguma carta o diziam que, no meio de sua desgraça, era uma sorte que não estivesse então em Florença.

Na quinta-feira 16 de junho, a Congregação do Santo Ofício tinha, a cada semana, sua reunião com o Papa. Nesta ocasião celebrou-se no palácio do Quirinal. Estavam presentes 6 dos 10 Cardeais da Inquisição, além do Comissário e do Assessor (nos interrogatórios e, em geral, em todas as sessões que foram mencionadas até agora, não estavam presentes os Cardeais: estavam os oficiais do Santo Ofício que transmitiam as atas à Congregação dos Cardeais, e estes, com o Papa, tomavam as decisões). Esse dia o Papa decidiu que Galileu fosse examinado sobre sua intenção com ameaça de tortura (neste caso tratava-se de uma ameaça puramente formal, já que se sabia de antemão que não se realizaria). Depois, Galileu devia abjurar da suspeita de heresia perante a Congregação em pleno. Seria condenado à prisão ao arbítrio da Congregação, seria proibido que no futuro tratasse de qualquer modo o tema do movimento da Terra, seria proibido o Diálogo. Também seria enviada uma cópia da sentença aos núncios inquisidores, sobretudo ao de Florença, para que a lesse publicamente em uma reunião na qual procuraria que se encontrassem os professores de matemática e filosofia. O Papa comunicou esta decisão ao embaixador Niccolini em 19 de junho. Niccolini pediu clemência, e o Papa, manifestando algo que, como se apontou, estava já decidido de antemão, lhe respondeu que, depois da sentença, voltaria a ver o embaixador para ver como se poderia arrumar para que Galileu não estivesse na prisão. De acordo com o Papa, Niccolini comunicou a Galileu que a causa seria terminada em seguida e o livro proibido sem dizer-lhe nada sobre o que tocava a sua pessoa, para não causar-lhe mais aflição.

Desde a terça-feira 21 de junho até sexta-feira 24 de junho, Galileu esteve de novo no Santo Ofício. Na quarta-feira dia 22, Galileu foi levado ao convento de Santa Maria sopra Minerva; foi lida a sentença (assinada por 7 dos 10 Cardeais do Santo Ofício) e abjurou de sua opinião sobre o movimento da Terra diante da Congregação. Foi, para Galileu, o mais desagradável de todo o processo, porque afetava diretamente a sua pessoa e se desenvolveu um público de modo humilhante. Na quinta-feira o Papa, com a Congregação do Santo Ofício reunida no Quirinal, concedeu a Galileu a prisão fosse comutada por arresto na Vila Médici, aonde se trasladou na sexta-feira dia 24. Na quinta-feira dia 30 foi permitido a Galileu abandonar Roma e trasladar-se a Siena, na Toscana, ao palácio do arcebispo. Galileu deixou Roma na quarta-feira 6 de julho e chegou a Siena no sábado 9 de julho. Tinha acabado o pesadelo romano.

A sentença da Inquisição começa com os nomes dos 10 cardeais da Inquisição, e acaba com as assinaturas de 7 deles. O Papa, junto com a Congregação, decidiu que Galileu fosse condenado e que abjurasse de sua opinião, mas no texto da sentença não aparece em nenhum momento citado o Papa; portanto, esse documento não pode ser considerado como um ato de magistério pontifício, e menos ainda como um ato de magistério infalível nem definitivo. No texto da abjuração se lê – maldigo e detesto os mencionados erros e heresias – ; mas não se trata de uma doutrina definida como heresia pelo magistério da Igreja: no texto da abjuração se diz, como assim é, que essa doutrina foi declarada contrária à Sagrada Escritura, e, como sabemos, esta declaração se fez mediante um decreto da Congregação do Índex, que não constituiu um ato de magistério infalível nem definitivo.

O Arcebispo de Siena, Ascanio Piccolomini, era um antigo discípulo, admirador e grande amigo de Galileu. Tinha se oferecido várias vezes para se alojar em sua casa, tendo em conta, além disso, que estava relativamente perto de Florença e que em Florença ainda existiam vestígios da peste. Em Siena, Galileu foi tratado esplendidamente e se recuperou da tensão dos meses precedentes. A pedido do Grande Duque de Toscana, o Papa, junto com o Santo Ofício, concedeu em 1 de dezembro de 1633 que Galileu pudesse voltar a sua casa nas imediações de Florença, na Vila do Gioiello, contanto que permanecesse como em prisão domiciliar, sem sair daí nem ter uma vida social. Consta que em 17 de dezembro Galileu já estava em sua casa, e ali continuou até sua morte em 1642.

Em Arcetri Galileu continuou trabalhando. Ali acabou seus Discursos e demonstrações em torno de novas ciências, obra que publicou em 1638 na Holanda. Trata-se de sua obra mais importante, onde expõe os fundamentos da nova ciência da mecânica, que se desenvolverá neste século até alcançar 50 anos mais tarde, com os Princípios matemáticos da filosofia natural de Newton, obra publicada em 1687, a formulação que marca o nascimento definitivo da ciência experimental moderna.

3. PERGUNTAS E INTERPRETAÇÕES

Até aqui tentei expor os dados básicos do processo de Galileu. A partir deste momento me ocuparei da valorização desses dados. Dada a perspectiva que adotei, somente aludirei brevemente a alguns aspectos que considero especialmente interessantes.

Em primeiro lugar, podemos dizer que sabemos o fundamental sobre processo de Galileu? É possível que existam dados importantes desconhecidos? A resposta é que os documentos que se conservam permitem reconstruir quase todos os aspectos do processo com grande segurança. Possuímos os interrogatórios e declarações de Galileu em sua totalidade, assim como as decisões do Papa e da Congregação do Santo Ofício. Neste terreno, não é plausível que apareçam novos documentos que afetem substancialmente o que já sabemos. Seguramente existem buracos, um deles, bastante importante, se refere aos acontecimentos do verão de 1632, desde que o Diálogo chegou a Roma até que o Papa convocasse a congregação de teólogos para decidir o que fazer. Quem e como informou ao Papa? Galileu sempre considerou seu processo como conseqüência das informações tendenciosas de seus inimigos. É possível que existam documentos sobre esses acontecimentos, cujo conhecimento permitiria compreender melhor porque se desenrolaram do modo que o fizeram. Poderíamos saber, talvez, até que ponto as coisas poderiam ter acontecido de outra maneira. De todos os modos, isso não mudaria os fatos já conhecidos, entre os quais se conta que Galileu levou adiante, durante anos, seu programa copernicano, ainda que exteriormente parecesse ter renunciado a ele, e que Urbano VIII ficou muito afetado quando notou que seu admirado amigo estava, na realidade, fazendo um jogo diferente do que ele pensava.

Isto não significa que Galileu mentisse deliberadamente. Mas não há dúvida de que considerou o copernicanismo como uma teoria verdadeira, também depois do processo. Em sua carta a Cristina de Lorena explicou amplamente como se poderia solucionar a aparente contradição entre o copernicanismo e a Bíblia; tinha razão e o sabia: por este motivo podia admitir, com consciência tranqüila, o copernicanismo, inclusive depois das condenações de 1616 e 1633. O mesmo acontecia com seus amigos e com outras pessoas suficientemente informadas. O que nos leva a perguntar por que as autoridades eclesiásticas condenaram uma teoria que, se bem não estava completamente demonstrada naquele momento, podia demonstrar-se e, de fato, recebeu novas confirmações nos anos seguintes.

Para responder a essa pergunta devemos considerar que a ciência experimental moderna, tal como a conhecemos agora, estava nascendo e se encontrava ainda em um estado embrionário. Precisamente foi Galileu um de seus pais fundadores. Mas o Galileu que viam as autoridades era muito diferente do que vemos agora, à luz do desenvolvimento da física durante quase quatro séculos. Galileu havia realizado descobrimentos astronômicos importantes e tinha sido reconhecido. Mas não podia provar o movimento da Terra. A ciência moderna praticamente não existia: as contribuições mais importantes de Galileu a essa ciência foram publicadas, nos Discursos, depois do processo. Os eclesiásticos (Belarmino, Urbano VIII e muitos outros), assim como a maioria dos professores universitários, pensavam que o movimento da Terra era um absurdo, porque contradiz muitas experiências certas e, se existisse, deveria ter conseqüências que de fato não se observavam. Não era fácil levar a sério o copernicanismo. Os teólogos que valorizaram em 1616 o repouso do Sol e o movimento da Terra disseram, em primeiro lugar, que ambos eram absurdos de filosofia e, além disso, pareciam contrários à Bíblia. Belarmino, e outros eclesiásticos, notaram que caso se chegasse a demonstrar o movimento da Terra, uma série de passagens bíblicas deveriam ser interpretadas de modo não literal; sabiam que isso poderia ser feito, mas pensavam que o movimento da Terra nunca seria demonstrado e que era absurdo. Isto não justifica toda sua atuação, mas permite situá-la em seu contexto histórico real e torná-la compreensível.

O processo de Galileu não deve ser entendido como um enfrentamento entre ciência e religião. Galileu sempre se considerou católico e tentou mostrar que o copernicanismo não se opunha à doutrina católica. Por sua vez, os eclesiásticos não se opunham ao progresso da ciência; durante sua viagem a Roma em 1611, foi tributada a Galileu uma grande homenagem pública em um ato celebrado no Colégio Romano dos jesuítas, por suas descobertas astronômicas. O problema é que não consideravam que o movimento da Terra fosse uma verdade científica, e inclusive alguns (entre eles, o Papa Urbano VIII) estavam convencidos de que nunca poderia ser demonstrado.

Os inimigos de Galileu desempenharam, provavelmente, um papel importante para desencadear o processo. O temperamento muito vivo de Galileu não contribuía para apaziguar as numerosas disputas que originou seu trabalho desde 1610. Além disso, ele mesmo procurou inimizades de modo desnecessário, de tal modo que, quando o Diálogo foi publicado em 1632, é fácil imaginar que seus inimigos em Roma puderam apresentar ao Papa as coisas de tal maneira que, tendo em conta as difíceis circunstâncias pelas que atravessava Urbano VIII, este se considerou ofendido por Galileu e viu ser necessário intervir com força. O temperamento de Urbano VIII também desempenhou um papel: tinha um caráter forte e pensou que Galileu tinha traído sua amizade sincera; repetiu várias vezes ao embaixador Niccolini que Galileu havia caçoado dele. Consta que, ao falar deste tema com Niccolini, Urbano VIII se encolerizava. Galileu certamente não pretendeu, de modo algum, caçoar do Papa, mas é provável que os inimigos de Galileu, no verão de 1632, convenceram ao Papa do contrário, e que isto influíra seriamente no desenvolvimento dos acontecimentos.

Não se deve pensar somente em inimigos pessoais de Galileu. O movimento da Terra podia facilmente ser visto como causa de dificuldades importantes para o cristianismo. Se a Terra se transformasse em um planeta a mais, e se existissem muitas mais estrelas das que se vêem a olho nu, não poderia isto ser interpretado na linha de Giordano Bruno, que afirmou que existem muitos mundos como o nosso, com suas estrelas e planetas habitados? Nesse caso, que significado teria a Encarnação e a Redenção de Jesus Cristo? O que aconteceria com a salvação de possíveis seres inteligentes que poderiam viver em outros lugares do universo? São perguntas que, na atualidade, se propõem ainda com mais força do que então, frente à possibilidade, remota mas real, de se chegar a saber que existe vida em outros lugares do universo. Em realidade, não é difícil perceber que a revelação cristã se refere diretamente ao que acontece conosco e, portanto, não há dificuldade em princípio para integrar dentro dela outros seres inteligentes. Além disso, a Igreja ensina que os frutos da Redenção se aplicam também a pessoas que viveram antes da Encarnação, ou que vivem depois dela e não conhecem, sem culpa sua, a verdade do cristianismo. Mas se compreende que estes problemas puderam influir naquele momento. A associação do copernicanismo com Bruno não podia favorecer a Galileu. Pode-se recordar que duas pessoas chaves na condenação do copernicanismo em 1616 foram o Papa Paulo V e o cardeal Belarmino; ambos eram Cardeais da Inquisição quando, em 1600, o processo de Bruno chegou a seu fim, e pode se supor que, ao pensar em copernicanismo, o veriam, por assim dizer, associados aos erros teológicos de Bruno.

O movimento da Terra parecia afetar ao cristianismo desde outro ponto de vista. O Diálogo de Galileu continha críticas muito fortes contra a filosofia de Aristóteles, que se vinha usando, ao menos desde o século XIII, como auxílio para a teologia. Nesta filosofia se admitia, por exemplo, que no mundo existe finalidade, e que as qualidades sensíveis existem objetivamente e são base do conhecimento humano. Estas idéias pareciam se arruinar com a nova filosofia matemática e mecanicista de Galileu. A nova ciência nascia em polêmica com a filosofia natural antiga, e não parecia poder preencher o buraco que esta deixava. Ainda que as críticas de Galileu ao aristotelismo se reduzissem a aspectos concretos da física que, certamente, deviam ser abandonados, parecia que a nova ciência pretendia jogar fora, como se costuma dizer, a criança junto com a banheira. Este problema segue sendo atual. Inclusive pode-se dizer que o progresso científico dos últimos séculos o tornou cada vez mais agudo. São muitas as vozes que pedem um sério esforço para integrar o progresso científico dentro de uma visão mais ampla que inclua as dimensões metafísicas e éticas da vida humana. Neste sentido, os que viam na nova ciência uma fonte de dificuldades não estavam completamente errados. Obviamente, o problema não é a ciência em si mesma, cuja legitimidade seria absurdo duvidar. O progresso científico é ambivalente e o fato de que possa ser mal utilizado mal não significa que deva castigar a ciência simplesmente ressaltando que, no fundo do caso Galileu, encontram-se alguns problemas que são reais, continuam sendo atuais, e ainda esperam uma solução. Qual o alcance do conhecimento científico é um desses problemas.

Consta que houve uma tentativa de denunciar Galileu perante a Santa Sé por sua filosofia atomista, exposta brevemente em sua obra, de 1623, Il Saggiatore, argumentando que Galileu negava a objetividade das qualidades sensíveis (cores, odores, sabores) e que isto contradiz a doutrina do Concílio Trento sobre a Eucaristia, segundo a qual, depois da consagração, encontram-se as espécies sacramentais (acidentes do pão, como por exemplo as qualidades sensíveis) sem seu sujeito natural. Chegou-se a dizer que o motivo mais profundo da acusação contra Galileu em 1632 era este, e que o Papa conseguiu que o processo se centrasse em torno ao movimento da Terra, porque em outro caso as conseqüências teriam sido muito piores. A denúncia mencionada existiu, mas parece exagerada demais centrar aí os problemas de Galileu. Esta questão põe de manifesto, entretanto, que a nova física vinha acompanhada por uma filosofia mecanicista que, em parte, chocava com a filosofia e a teologia geralmente admitidas, e é certo que este problema continuou vivo durante muito tempo e inclusive continua vivo, em parte, na atualidade.

O caso de Galileu não afetou seriamente o progresso da ciência. A semente que Galileu plantou deu fruto imediatamente, também na Itália. Ao cabo de poucas décadas, Newton levou a física moderna até seu nascimento definitivo, e o trabalho de Galileu ficou bem assentado.

Por fim, é interessante assinalar que não existiu nenhum outro caso semelhante ao de Galileu. O caso de Galileu não é um caso entro outros do mesmo tipo. O caso mais semelhante é o do evolucionismo, mas a teoria da evolução, dentro de seu âmbito científico, nunca foi condenada por nenhum organismo da Igreja. Quando se tenta colocar no mesmo nível que o caso de Galileu assuntos como o aborto, a eutanásia, a bioética, etc., deve-se ressaltar que, se bem esses problemas incluem componentes relacionados com a ciência, não são problemas propriamente científicos, mas, no máximo, de aplicação dos conhecimentos científicos. Mas isto exigiria uma reflexão específica que vai além dos objetivos a que me propus.

REFERÊNCIAS : Os dados deste artigo estão retirados, em sua maioria, da Edição Nacional das obras de Galileu, preparada por Antonio Favaro: Le Opere di Galileo Galilei, 20 volumes, reimpressão, G. Barbèra Editore, Firenze 1968. Os documentos do processo se encontram no tomo XIX, pp. 272-421, e também foram editados por Sérgio Pagano: I documenti del processo di Galileo Galilei, Pontifícia Academia Scientiarum, Cidade do Vaticano 1984.

Fonte: http://www.acidigital.com/controversia/galileu.htm

Quem são os “irmãos” de Jesus?

Introdução

Os cristãos protestantes costumam ensinar que Maria, Mãe de Jesus, teve outros filhos além de Nosso Senhor. Que o Verdadeiro Espírito Santo nos permita mostrar aos nossos irmãos separados a verdade sobre os “irmãos” do Senhor.

Jesus, o primogênito

No Evangelho de São Lucas lemos: “Maria deu à Luz o seu filho primogênito” (Lc 2,7). Aqui os protestantes enxergam indícios de que o Senhor foi somente o primeiro filho de Maria. Ora, a palavra “primogênito” só significa primeiro filho, podendo ele ser filho único ou não.

A própria Escritura Sagrada dá testemunho disto, vejamos:

O Senhor disse a Moisés: “Faze o recenseamento de todos os primogênitos varões entre os israelitas, da idade de um mês para cima, e faze o levantamento dos seus nomes.” (Num 3,40) (grifos meus).

Se para que seja primogênito é preciso que haja outros irmãos, como pode haver primogênitos “da idade de um mês para cima”?

Um outro exemplo está no livro do Êxodo: “e morrerá todo primogênito na terra do Egito, desde o primogênito do faraó, que deveria assentar-se no seu trono, até o primogênito do escravo que faz girar a mó, assim como todo primogênito dos animais.” (Ex. 11,5).

E a promessa de Deus se cumpre, onde lemos: “Pelo meio da noite, o Senhor feriu todos os primogênitos no Egito, desde o primogênito do faraó, que devia assentar-se no trono, até o primogênito do cativo que estava no cárcere, e todos os primogênitos dos animais. O faraó levantou-se durante a noite, assim como todos os seus servos e todos os egípcios e fez-se um grande clamor no Egito, porque não havia casa em que não houvesse um morto” (Ex. 12,29-30).

A própria tradição ensina que o Faraó só tinha um único filho. Desta forma, a palavra “primogênito” em Lc 2,7 não prova que o Senhor teve outros irmãos.

José “conheceu” Maria?

No Evangelho de São Mateus lemos: “José não conheceu Maria [não teve relações com ela] até que ela desse à luz um filho.” (Mt 1,25).

Neste trecho os protestantes entendem que depois do parto, José “conheceu” Maria.

Quem entende o mínimo de exegese bíblia e cultura judaica, saberá que o Evangelho de Mateus é coberto de “aramaísmos”, isto é, expressões típicas da língua aramaica e hebraica, que quando traduzidas para outra língua não possuem o mesmo significado.

A expressão “até que”, “até” ou “enquanto” na linguagem bíblica, diz respeito somente ao passado. Para que isso fique mais claro vejamos outros exemplos na própria Escritura:

Ainda em Mateus, encontramos a promessa do Senhor à Igreja: “Eis que estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos.” (Mt 28,20) (grifo meu). Será que o versículo quer dizer que após a consumação dos séculos, Jesus não estará mais com a Sua Igreja?

Micol, filha de Saul, não teve filhos até ao dia de sua morte” (2 Sam 6,23) (grifo meu). O escritor sagrado quer dizer que depois de sua morte, Micol teve filhos?

Falando Deus a Jacó do alto da escada que este vira em sonhos, disse-lhe: “Não te abandonarei, enquanto não se cumprir tudo o que disse” (Gn 28,15) (grifo meu). Depois que se cumprir o que o Senhor disse, Ele então deveria abandonar Jacó?

Em Gênesis lemos: “[Noé] Soltou o corvo que foi e não voltou até que as águas secassem sobre a terra” (Gn 8,7) (grifos meus). Aqui não significa que o corvo voltou após as águas secarem, o que se quer é dar ênfase ao fato de que ele não voltou, mostrando que as águas finalmente secaram.

Desta forma, em Mt 1,15, não significa que depois do parto José deveria “conhecer” Maria. O Evangelista quer mostrar aqui o milagre da encarnação do Verbo, que aconteceu por obra do Espírito Santo, sem a intervenção do homem (cf. Is 7,14).

A palavra “irmãos” na Escritura Sagrada

Nossos irmãos protestantes alegam que em diversos lugares, o Evangelho fala dos “irmãos” de Jesus, como por exemplo: “estando Jesus a falar, disse-lhe alguém: eis que estão lá fora tua mãe e teus irmãos querem ver-te” (Mt 12, 46-47; Mc 3,31-32; Lc 8,19-20).

É importante dizer que nas Sagradas Letras, as palavras “irmão”, “irmã”, “irmãos” e “irmãs” podem denotar qualquer grau de parentesco. Isto porque, as línguas hebraica e aramaica não possuem palavras que traduzem o nosso “primo” ou “prima”, e serve-se da palavra “irmão” ou “irmã”. A palavra hebraica “ha“, e a aramaica “aha“, são empregadas para designar irmãos e irmã do mesmo pai, e não da mesma mãe (Gn 37, 16; 42,15; 43,5; 12,8-14; 39-15), sobrinhos, primos irmãos (1 Par 23,21), primos segundos (Lv 10,4) e até parentes em geral (Jó 19,13-14; 42,11). Existem muitos exemplos na Sagrada Escritura.

Observamos no Gênesis que “Taré gerou Abraão, Naor e Harã; e Harã gerou a Ló” (Gn 11,27). E Ló então era sobrinho de Abraão. Contudo no mesmo Gênesis, mais adiante Abraão chama a Ló de irmão (Gn 13,8).

Ainda em Gn 14,12, o Evangelho nos relata a prisão de Ló; e no versículo 14 observamos: “Ouvindo, pois Abraão que seu irmão estava preso, armou os seus criados, nascido em sua casa, trezentos e dezoito, e os perseguiu até Dã“.

Jacó se declara irmão de Labão, quando na verdade era filho de Rebeca, irmã de Labão (Gn 29,12-15).

Assim a qualificação de alguém pela palavra “irmão” ou “irmã” em relação ao Senhor, não significa necessariamente que fossem irmãos de fato. A única certeza que se pode ter neste caso é que eram parentes do Senhor.

A quem os Evangelhos chamam de “irmãos” do Senhor?

Os Evangelhos qualificam algumas pessoas como “irmãos” do Senhor. A primeira referência que encontramos está em São Mateus, onde lemos:

Não é este o filho do carpinteiro? Não é Maria sua mãe? Não são seus irmãos Tiago, José, Simão e Judas?” (Mt 13,55).

Uma passagem correspondente encontramos em São Marcos:

Não é ele o carpinteiro, o filho de Maria, o irmão de Tiago, de José, de Judas e de Simão? Não vivem aqui entre nós também suas irmãs? E ficaram perplexos a seu respeito” (Mc 6,3).

1. A importância da expressão “uiós Marias“.

Interessante notar que São Marcos usa a expressão grega “uiós Marias“, em português “o filho de Maria“. Considerando Mateus e Lucas, observe o leitor que apenas o “o filho do carpinteiro” é chamado de “o filho de Maria” e não “um dos filhos de Maria“. Isso pode não fazer muita diferença em português, mas em grego é muito significativo.

Primeiramente pelo fato da mulher ser a última das criaturas no mundo antigo, normalmente a filiação de alguém sempre referenciava o pai. Por exemplo: “o filho de Jonas”, “o filho de Alfeu”, etc. Mas São Marcos ao falar da filiação de Cristo, não aponta para José, mas para Santa Maria, utilizando uma expressão que normalmente só era usada para designar filhos únicos.

É claro que esta ocorrência incomum no Evangelho de Marcos não é sem propósito. O Evangelista que mostrar que Cristo era o único filho de Santa Maria.

2. A Carta de São Paulo aos Gálatas

Segundo nossos irmãos protestantes, os supostos irmãos de sangue de Jesus seriam: Tiago, José, Simão e Judas. É o que o eles afirmam lendo Mt 13,55 e Mc 6,3, confiando que estão sendo guiados pelo Espírito Santo. Dizem ainda que São Paulo confirma isto, pois na carta aos Gálatas ele escreve: “Três anos depois subi a Jerusalém para conhecer Cefas [Pedro], e fiquei com ele quinze dias. E dos outros apóstolos [que estão em Jerusalém] não vi a nenhum, senão a Tiago, irmão do Senhor? (Gl 1,18-19).

Segundo a referência paulina acima, este Tiago, “irmão do Senhor“, é de fato um Apóstolo.

Segundo as listas de Mateus, Marcos e Lucas, existiram dois apóstolos de nome Tiago. Vejamos:

Eis os nomes dos doze apóstolos: o primeiro, Simão, chamado Pedro; depois André, seu irmão. Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão. Filipe e Bartolomeu. Tomé e Mateus, o publicano. Tiago, filho de Alfeu, e Tadeu. Simão, o cananeu, e Judas Iscariotes, que foi o traidor” (Mt 10, 2-4) (grifos meus).

Escolheu estes doze: Simão, a quem pôs o nome de Pedro; Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão, aos quais pôs o nome de Boanerges, que quer dizer Filhos do Trovão. Ele escolheu também André, Filipe, Bartolomeu, Mateus, Tomé, Tiago, filho de Alfeu; Tadeu, Simão, o Zelador;  e Judas Iscariotes, que o entregou” (Mc 3,16-19) (grifos meus).

Ao amanhecer, chamou os seus discípulos e escolheu doze dentre eles que chamou de apóstolos: Simão, a quem deu o sobrenome de Pedro; André, seu irmão; Tiago, João, Filipe, Bartolomeu, Mateus, Tomé, Tiago, filho de Alfeu; Simão, chamado Zelador; Judas, irmão de Tiago; e Judas Iscariotes, aquele que foi o traidor” (Lc 6,13-16) (grifos meus).

Conforme podemos observar, um Tiago era filho de Zebedeu e o outro filho de Alfeu. Agora eu pergunto aos meus irmãos protestantes: o que tem Zebedeu e Alfeu com Santa Maria, Mãe de Jesus”

Ora, é ponto pacífico entre todos os cristãos que Santa Maria só foi casada com São José, e que não se casou depois. Portanto, este Tiago, o qual São Paulo se refere em sua carta aos Gálatas não era irmão de sangue do Senhor Jesus; logo, as palavras do Apóstolo não dão suporte à tese protestante.

3. Distinguindo os Tiagos

Primeiro é preciso fazer uma distinção entre os dois “Tiagos” que foram apóstolos. O Tiago, filho de Alfeu (cf. Mt 10,3; Mc 3,18; Lc 6,15) era também chamado de “o menor”, veja:

E também estavam ali algumas mulheres, olhando de longe. Entre elas estavam Maria Madalena e Maria, mãe de Tiago o menor e de José, e Salomé” (Mc 15,40) (grifos meus).

Este Tiago que era irmão de José, não é filho de Zebedeu conforme vemos em São Mateus:

Havia ali também algumas mulheres que de longe olhavam; tinham seguido Jesus desde a Galiléia para o servir. Entre elas se achavam Maria Madalena e Maria, mãe de Tiago e de José, e a mãe dos filhos de Zebedeu” (Mt 27,55-56) (grifos meus).

Como vemos acima, a Mãe de Tiago e José não é a mãe dos filhos de Zebedeu. Desta forma, o Tiago chamado “o menor” em Mc 15,40 era o filho de Alfeu. Com efeito, tanto São Marcos quanto São Lucas identificam este Tiago como irmão de José.

Podemos então distinguir os dois “Tiagos” assim: Tiago, o Maior, é filho de Zebedeu e Tiago, o Menor, é filho de Alfeu.

4. Os irmãos dos Tiagos

Na lista dos apóstolos de São Lucas, Judas era irmão do Tiago filho de Alfeu (cf. Lc 6,16), o que corrobora com o livro de Ato, onde encontramos:

Tendo entrado no cenáculo, subiram ao quarto de cima, onde costumavam permanecer. Eram eles: Pedro e João, Tiago, André, Filipe, Tomé, Bartolomeu, Mateus, Tiago, filho de Alfeu, Simão, o Zelador, e Judas, irmão de Tiago” (At 1,13) (grifos meus).

Segundo São Mateus e São Marcos este Judas era também chamado Tadeu (cf. Mt 10,3; Mc 3,18).

Até aqui os filhos de Zebedeu são Tiago (o Maior) e João (cf. Mc 3,16; Mt 10,2). Os filhos de Alfeu são Tiago (o Menor), Judas Tadeu e José (cf. Mt 10,3; Mc 3,18; Lc 6,15; At 1,13).

5. Quem é o Tiago referido na carta aos Gálatas?

São Paulo chama um dos “Tiagos” de “irmão do Senhor” (cf. Gl 1,19). Vimos ele ou é um dos filhos de Zebedeu ou Alfeu, e não de José, portanto, não é irmão de sangue do Senhor Jesus.

Quem é este Tiago a quem o Santo Apóstolo se refere? O Maior (filho de Zebedeu e irmão de João) ou o Menor (filho de Alfeu e irmão de Judas)?

Em Atos lemos que o Tiago, irmão de João foi morto após perseguição de Herodes:

Por aquele mesmo tempo, o rei Herodes mandou prender alguns membros da Igreja para os maltratar. Assim foi que matou à espada Tiago, irmão de João” (At 12,1-2) (grifos meus).

Isto aconteceu depois que São Paulo esteve em Jerusalém para ver os Apóstolos, pois o seu relato em Gl 1,18-19 é o mesmo evento narrado por São Lucas em Atos 9:

Chegando a Jerusalém, [Paulo] tentava ajuntar-se aos discípulos, mas todos o temiam, não querendo crer que se tivesse tornado discípulo. Então Barnabé, levando-o consigo, apresentou-o aos apóstolos e contou-lhes como Saulo vira o Senhor no caminho, e que lhe havia falado, e como em Damasco pregara, com desassombro, o nome de Jesus. Daí por diante permaneceu com eles, saindo e entrando em Jerusalém, e pregando, destemidamente, o nome do Senhor” (At 9, 26-28).

Assim, quando São Paulo esteve em Jerusalém para conhecer os apóstolos, os dois “Tiagos” estavam vivos, mas se prestarmos atenção na seqüência entre os capítulos 1 e 2 da carta aos Gálatas, veremos que o Tiago referido em Gl 2,9 parece ser o mesmo de Gl 1,19. O capítulo 2 da carta aos Gálatas se refere ao Concílio de Jerusalém, narrado em At 15, quando o Tiago, filho de Zebedeu já havia sido morto (cf. At 12,1-2).

Com efeito, Rufino (“Comentário ao Credo dos Apóstolos“, 37) e Eusébio de Cesaréia (“História Eclesiástica“, II,23), ambos historiadores da Igreja Antiga, registraram a Tradição Apostólica que identifica Tiago, autor da Epístola de Tiago, como irmão do Senhor. É sabido que o autor da Epístola a Tiago, é o Tiago filho de Alfeu, irmão de Judas Tadeu (cf. Jd 1,1), o autor da Epístola de Judas.

6. Identificando os “irmãos” de Jesus

Vimos que São Paulo dá testemunho da Tradição Apostólica de identificar Tiago, filho de Alfeu, como irmão do Senhor Jesus. Lembremos que este Tiago tem com irmãos Judas Tadeu e José.

Ora, exatamente os nomes Tiago, Judas e José que encabeçam a lista dos “irmãos” de Jesus na lista dos Evangelistas, lembremos:

Não é ele o carpinteiro, o filho de Maria, o irmão de Tiago, de José, de Judas e de Simão? Não vivem aqui entre nós também suas irmãs? E ficaram perplexos a seu respeito” (Mc 6,3) (grifos meus).

Não é este o filho do carpinteiro? Não é Maria sua mãe? Não são seus irmãos Tiago, José, Simão e Judas?” (Mt 13,55) (grifos meus).

7. Identificando a mãe dos “irmãos” de Jesus

Para ficar ainda mais claro que Tiago, José e Judas são primos de Jesus, vamos identificar mãe deles.

Os evangelistas relataram que além da Mãe de Jesus, outras mulheres estavam próximas ao calvário. Vejamos:

Havia ali [no Calvário] também algumas mulheres que de longe olhavam; tinham seguido Jesus desde a Galiléia para o servir. Entre elas se achavam Maria Madalena e Maria, mãe de Tiago e de José, e a mãe dos filhos de Zebedeu” (Mt 27,55-56) (grifos meus).

Segundo São Mateus eram elas: Maria Madalena, Maria mãe de Tiago e José e a mãe dos filhos de Zebedeu. Com efeito, Tiago e José que também são irmãos de Judas Tadeu tem por mãe uma Maria que não é a mãe do Senhor. Os filhos de Zebedeu são Tiago Maior e São João, cuja mãe também estava na cena da crucificação.

E também estavam ali algumas mulheres, olhando de longe. Entre elas estavam Maria Madalena e Maria, mãe de Tiago o menor e de José, e Salomé” (Mc 15,40).

São Marcos eram elas: Maria Madalena, Maria mãe de Tiago e José que também são irmãos de Judas e Salomé. Em concordância com São Mateus, Salomé só pode ser a mãe dos filhos de Zebedeu, isto é, a mãe de Tiago Maior e São João. Novamente a Maria mãe de Tiago, Judas e José não é a Maria mãe de Jesus. Esta Maria tinha por marido Alfeu.

Estavam junto à cruz de Jesus sua mãe, a irmã de sua mãe, Maria [esposa] de Cleofas, e Maria de Mágdala” (Jo 19,25).

São João identifica Maria esposa de Cleofas como tia de Jesus, isto é, irmã de Santa Maria. Ora, sabemos que Tiago Maior e São João não são primos de Jesus, caso contrário seriam chamados “irmãos do Senhor”; assim, Salomé não é a Maria esposa de Cleofas.

Esta Maria, esposa de Cleofas, é a mãe de Tiago, José e Judas. Portanto, estes “irmãos” de Jesus, são na verdade seus primos, filhos de Maria, tia de Jesus.

Como na antiguidade os homens normalmente eram conhecidos por dois nomes, alguns acreditam que Cleofas é o outro nome de Alfeu. Outros sustentam a tese de que Cleofas é o marido de um segundo casamento de Maria, tia de Jesus. Com efeito, somente Tiago é referido como filho de Alfeu (ver item 2 deste artigo), enquanto se diz apenas que Judas e José são seus irmãos.

Sendo Alfeu e Cleofas, a mesma pessoa ou não, isso não oferece qualquer problema, pois de fato Tiago, Judas e José, são filhos de Maria, tia de Jesus; não importando se Tiago Menor é filho de Alfeu e Judas e José filhos de Cleofas.

8. Quem é Simão?

Em Mt 13,55 e Mc 6,3 encontramos o nome de Simão junto com os de Tiago, José e Judas.

Quando São Mateus e São Marcos elencam os apóstolos, sempre colocam o nome dos irmãos em seqüência. Ex: Pedro e André, Tiago Maior e João, etc.

Nestas mesmas listas, próximo aos nomes dos irmãos Tiago Menor e Judas Tadeu, os evangelistas citam um Simão: “Tiago, filho de Alfeu, e Tadeu. Simão, o cananeu […]” (Mt 10,3-4) e “[…] Tiago, filho de Alfeu; Tadeu, Simão, o Zelador” (Mc 3,18).

Com efeito, Eusébio de Cesaréia em sua “História Eclesiástica” registra que este Simão era primo do Senhor e filho de Cleofas:

Após o martírio de Tiago [menor] e a destruição de Jerusalém, ocorrida logo depois, conta-se que os sobreviventes dos Apóstolos e discípulos do Senhor vindos de todas as partes se congregaram e com os consangüíneos do Senhor ‘havia um grande número deles ainda vivos’ reuniram-se em conselho para verificar quem julgariam digno de suceder a Tiago. Todos unanimemente consideraram idôneo para ocupar a sede desta Igreja Simeão, filho de Cléofas, de quem se faz memória no livro do Evangelho (Lc 24,18; Jô 19,25). Diz-se que era primo do Salvador. Efetivamente, Hegesipo [historiador antigo] declara que Cléofas era irmão de José” (HE III,11).

Conclusão

Os “irmãos” de Jesus são seus primos, filhos da irmã da Mãe do Senhor, cujo nome é também Maria; são eles Tiago, José, Judas Tadeu e Simão. Este é o testemunho da Sagrada Escritura e da Memória dos primeiros cristãos.

Fonte:http://www.veritatis.com.br/apologetica/109-maria-santissima/547-quem-sao-os-irmaos-de-jesus