Pentecostes

A crise de identidade nos dias atuais preocupa instituições e indivíduos. Ela atinge também a Igreja. Não é novidade, pois em sua longa história, heresias e cismas foram tentativas frustradas para a alteração de sua doutrina e estrutura hierárquica. Não fosse assim, o catolicismo ter-se-ia pulverizado em um sem número de grupos contraditórios. Mas a celebração de Pentecostes revela ao mundo a Redenção e o Reino já herdado, mas ainda não consumado.

Temos diante de nós, portanto, a certeza de que “a Páscoa de Cristo completou-se com a efusão do Espírito Santo, que Se manifestou, Se deu e Se comunicou como Pessoa divina: da sua plenitude (…). A partir deste dia, o Reino anunciado por Cristo abre-se aos que n’Ele creem. Pela sua vinda, o Espírito Santo faz entrar no tempo da Igreja” (Catecismo da Igreja católica, nn. 731-732).

Nesta festa, em que comemoramos o princípio da trajetória do cristianismo, cabe uma pergunta: há identidade no que creio e pratico, podendo considerar-me, com autenticidade, um membro vivo da Comunidade eclesial?

O Salvador instituiu a obra; delineou-a em seus contornos básicos; confiou seu governo a determinadas pessoas. Assegurou sua continuidade, uma sucessão ininterrupta e uma assistência eficaz.

Eis o quadro ao qual não podemos fugir se quisermos conservar o nome de católico. Desde o tempo dos Apóstolos, durante todos os séculos, o povo cristão guardou nítida a consciência dessa verdade. Quando surgem pregoeiros que tentam abalar esses alicerces é mister fortificar as bases por uma visão lúcida. Aliás, a fé simples de nossa gente costuma opor-se a tais leviandades.

O depósito de nossa Fé, por sua extraordinária riqueza, é sempre fecundo. A inteligência, criada por Deus, desenvolve novos aspectos da doutrina. Nas Ciências humanas, cada um é, por sua capacidade, a medida de penetração nos segredos e interpretação dos fatos. Na Igreja, entretanto, todo o ensino está sob a ação do Paráclito. Assim, a autenticidade não é o resultado de uma constatação pessoal apenas, mas obedece a um critério objetivo, o Magistério. A pesquisa, a hipótese de trabalho, a conclusão, encontram-se inseridos em uma dimensão do Eterno. Essa condição é fator de tranquilidade. Por mais ilustre que seja o mestre, seu ensino só é válido quando em consonância com o Espírito Santo que dirige os fiéis em comunhão visível com a Hierarquia.

Embora em grau menor, a disciplina eclesiástica se inclui nesse mesmo raciocínio. E por se tratar de uma decorrência da doutrina aplicada ao transitório, sofre as alterações do tempo, da cultura e de outros elementos. Como somos uma comunidade, é imperioso que haja determinadas normas de ação. Infringi-las é apresentar a obra de Deus desfigurada. Indivíduos justapostos, que agem conforme sopram os ventos, jamais constituem um corpo.

Em um mundo que canoniza a liberdade em todos os aspectos, ser cristão torna-se difícil. Submeter-se a normas pode afigurar-se ridículo. Observar integralmente os preceitos da Igreja, os ensinamentos do Redentor, com suas implicações na vida particular e social, exige aquele heroísmo que é próprio do Evangelho. Proporcionar valores sublimes; acatar a palavra do Papa; reagir contra falsas acomodações do ensino às situações do mundo, em resumo, parecer retrógrado por servir à causa do Mestre, pede coragem. E não é fácil haver coerência com um Cristo verdadeiro que nada tem de festivo. Entretanto, somente assim se usa honestamente o título de cristão.

A opção feita no batismo e renovada em momentos importantes de nossa vida nos leva à plena integração à Fé e aceitação heroica, se necessário, isto é, até as últimas consequências.

Os Escritos Sagrados nos mostram o Senhor e os Apóstolos preocupados em conservar a unidade dos discípulos. Para isso, importa não apenas evitar o erro, mas também lutar contra as tendências contraditórias da própria condição humana. Somos livres e a natureza nos inclina a preferir os próprios interesses aos do próximo ou do bem comum.

A via dura e áspera da renúncia é essencial para superar uma crise, a quem honestamente se intitula católico. Ela nos faz abandonar certas doutrinas, que poderiam parecer mais vantajosas ao Povo de Deus, e não aceitar práticas que, no juízo individualista de alguns, são tidas como eficazes ao trabalho apostólico. Agir dessa maneira para obedecer ao Magistério é difícil, mas necessário.

O mundo que nos cerca nos induz à satisfação própria, à exaltação da independência intelectual, à autodeterminação. Somente um clima de amor a Deus, que transborde em nossa vida uma conversão profunda, inspiram esta renúncia e, como consequência, nos mantêm nesse espírito de unidade. Em outras palavras, ser cristão, hoje, implica atitudes que exigem radicalismo.

Pentecostes comemora o aniversário da Igreja, a sua proclamação definitiva. Daí porque recordar essas características que lhe são próprias. Nós cremos que o Espírito Santo é força, conforto. Ele é nossa esperança. Procuremo-LO, que Ele nos conservará fiéis a Jesus Cristo.

Fonte: http://www.arquidiocese.org.br/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=3486&sid=78

Publicado em 6 de junho de 2012, em Catolicismo, Comunicados aos Cristãos, Liturgia. Adicione o link aos favoritos. 2 Comentários.

  1. Pentecostes, aniversário da Igreja. Gostei do texto. Neste mundo que “canoniza a liberdade”, mesmo sendo difícil, procuro ser cristão.

  2. É possível publicar este texto no facebook?

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