O Banquete do Cordeiro (Parte 6)

Frutos Proibidos: As Vinhas da Ira

Por que um Deus misericordioso castigaria desse jeito? Por que atribuímos essa ira ao Cordeiro divino, a própria imagem da indulgencia? Porque a ira de Deus é misericórdia. Mas, para entender esse paradoxo, precisamos primeiro examinar a psicologia do pecado, com alguma ajuda de São Paulo.

O uso que Paulo faz da palavra “cólera” (sinônimo de “ira”) na Epístola aos Romanos é esclarecedor: “Com efeito, a cólera de Deus se revela do alto do céu contra toda impiedade e toda injustiça dos homens que mantem a verdade cativa da injustiça: pois o que se pode conhecer de Deus é para eles manifesto: Deus lho manifestou…eles são pois inescusáveis, visto que, conhecendo a Deus, não lhe renderam nem a glória, nem a ação de graças que são devidas a Deus; pelo contrário, eles se transviaram em seus vãos raciocínios e o seu coração insensato se tornou presa das trevas” (Rm 1,18-21).

Isso resume bem o “caso” contra Jerusalém apresentado no tribunal celeste: Deus deu a Israel sua revelação, na verdade a plenitude de sua revelação em Jesus Cristo; porém o povo não lhe rendeu glória nem lhe deu graças; na verdade, suprimiram a verdade, ao matar Jesus e perseguir sua Igreja. Assim,” a cólera de Deus se revela” contra Jerusalém.

O que aconteceu então? Lemos em Romanos: “Por isso Deus os entregou, pela concupiscência dos seus corações, à impureza na qual eles mesmos aviltam os próprios corpos” (Rm 1,24). Espere um pouco: Deus os entrega a seus vícios? Deixa-os continuar a pecar?

Viciado em uma Fraqueza.

Bem, sim, e essa é uma terrível manifestação da cólera de Deus. Talvez pensemos que os prazeres do pecado sejam preferíveis ao sofrimento e à calamidade, mas eles não são.
Temos de reconhecer o pecado como ação que destrói nosso laço de família com Deus e nos afasta da vida e da liberdade. Como isso acontece?

Primeiro, temos a obrigação de resistir à tentação. Se fracassamos e pecamos, temos a obrigação de nos arrepender imediatamente, Se não nos arrependemos, então Deus nos deixa conseguir o que queremos: permite que experimentemos as consequências naturais de nossos pecados, os prazeres ilícitos. Se ainda não nos arrependemos – por meio da abnegação e de atos de penitencia – Deus nos permite continuar no pecado, desse modo formando um hábito, um vício, que escurece nosso intelecto e enfraquece nossa vontade.

Quando nos viciamos em um pecado, nossos valores viram de ponta-cabeça. O mal se torna nosso “bem” mais indispensável, nosso anseio mais profundo; o bem representa um “mal” porque ameaça impedir-nos de satisfazer desejos ilícitos. A essa altura, o arrependimento é quase impossível, pois ele é, por definição, o afastamento do mal em direção ao bem; mas, a essa altura, o pecador redefiniu completamente o bem e o mal.

Isaías disse a respeito desses pecadores: “Ai dos que chamam de bem o mal e de mal, o bem”(Is 5,20).

Quando adotamos o pecado desta maneira e rejeitamos nossa aliança com Deus, só uma calamidade nos salva. Às vezes, a coisa mais misericordiosa que Deus faz a um beberrão, por exemplo, é permitir que destrua o carro ou seja abandonado pela esposa – qualquer coisa que o force a aceitar a responsabilidade pelos seus atos.
O que acontece, no entanto, quando toda uma nação cai em pecado sério e habitual? O mesmo princípio entra em ação. Deus intervém e permite depressão econômica, conquista estrangeira ou catástrofe natural. Com bastante frequência, nações provocam esses desastres por seus pecados. Mas, de qualquer modo, esses são os mais misericordiosos chamados a despertar. Às vezes, o desastre significa que o mundo que os pecadores conheciam precisa desaparecer. Mas, como Jesus disse: “E que proveito terá o homem em ganhar o mundo inteiro, se o paga com a própria vida?” (Mc 8,36). É melhor dizer adeus a um mundo de pecado do que perder sem esperança de arrependimento.

Quando as pessoas leem o Apocalipse, assustam-se com terremotos, gafanhotos, fomes e escorpiões. Mas Deus´só permite essas coisas porque nos ama. O mundo é bom – não se engane quanto a isso -, mas o mundo não é Deus. Se permitimos que o mundo e seus prazeres nos governem como um deus, a melhor coisa que o Deus verdadeiro pode fazer é começar a tirar as pedras que formam o alicerce de nosso mundo.

Publicado em 5 de novembro de 2012, em Catolicismo, Comunicados aos Cristãos, Liturgia, O Banquete do Corfeiro, reflexões e marcado como , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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