História da Igreja (parte 2)

História da Igreja parte II

 UmaHistoriaQueNaoEContada

OS TEMPOS BÁRBAROS (400-1050)

Depois vieram os terríveis tempos bárbaros; quando então desabou a
civilização romana; prevaleceu durante os séculos V a XI. Foram seis
séculos em que se formaram os mais variados povos e civilizações, uma
verdadeira encruzilhada da História na qual a Igreja começou a desempenhar o papel de “guia moral e espiritual” (D. Rops) desse mosaico de povos bárbaros que ocuparam a Europa. Nenhuma Instituição ficou de pé, a não ser a Igreja Católica.

No Ocidente, as invasões das tribos germânicas causaram devastações
a partir do século IV; houve em consequência, o despovoamento de várias regiões. Em virtude da situação caótica assim instaurada a implantação do cristianismo foi mais lenta do que no Oriente. Ainda em fins do século VI, o Papa São Gregório I Magno 590-604 referia-se ao paganismo existente nas ilhas da Sardenha, da Córsega e em regiões distantes, O número de cristãos no Ocidente, por volta do ano de 600, era de 7 a 8 milhões numa população global de cerca de 10 milhões. Por esses números verificamos que o Cristianismo se impôs pela força de sua doutrina e capacitação dos seus filhos monges e bispos. (D. Rops)
Nem todos esses cristãos haviam recebido, porém., sólida catequese;
os povos germânicos se convertiam ao Evangelho coletivamente, seguindo o exemplo de seu chefe, como era a norma dos povos antigos. Havia muitos batizados ministrados sem a devida catequese; por isso, esses cristãos guardaram ainda muitas das suas práticas supersticiosas (magia, astrologia…) e não podiam dar um testemunho de vida fervoroso e coerente como as comunidades dos primeiros séculos ofereciam ao mundo pagão.
Não é difícil entender esta realidade; a catequese não se faz de maneira rápida.

A AÇÃO EVANGÉLICA DA IGREJA

A Igreja, através dos seus bispos e missionários, dedicou-se à ação
evangelizadora desses povos para converter em verdadeiros cristãos aqueles que haviam abraçado a fé superficialmente. A obra missionária foi grandemente favorecida pelo conteúdo da mensagem evangélica. Este era muito superior ao das crenças pagãs. O anúncio das verdades cristãs, corriqueiras para quem já nasceu em civilização cristã, era altamente significativo para os pagãos.
Assim, já nos tempos de Constantino e Juliano séc. IV) as instituições e as normas do Direito Civil foram sendo impregnadas de espírito cristão, sobretudo no que diz respeito à mulher à criança, à família, ao trabalho e até à guerra. Era algo novo para os bárbaros e os conquistava.
Além da função evangelizadora, os Bispos tiveram que assumir também tarefas de ordem temporal, pois o Ocidente se achava debaixo das, invasões bárbaras e os Imperadores, residentes em Bizâncio (Oriente),
pouco se importavam com as populações ocidentais. E bom recordar que em 313 o Imperador Constantino transferiu a sede do Império para
Bizâncio, cujo nome passou a ser Constantinopla, hoje Istambul, na
Turquia.
Em meio à desordem, os Bispos tiveram que administrar os bens materiais das suas comunidades, como também foram levados a proteger,
alimentar e abrigar as populações mais carentes. Em particular, destacou-se a figura do Papa São Leão Magno (440-461): era romano, de
caráter nobre e corajoso. Foi ao encontro de Atila, rei dos Hunos, nas
proximidades de Mântua em 452, persuadindo-o a não destruir Roma;
em 455, dirigiu-se ao rei dos vândalos, Genserico, que, atendendo ao
Papa, renunciou a depredar a cidade de Roma.

  Leão Magno Socorreu os romanos com os seus bens, fazendo o que não fazia o representante do Imperador residente em Ravena.
Outra figura de Bispo notável foi a de São Martinho de Tours (316.397) na Gália, França. Recebeu o Batismo aos dezoito anos de idade; tornou-se monge e, depois, foi feito Bispo. Introduziu o monaquismo na França e mandou ordenar como presbíteros os seus monges; em conseqüência, os monges na França se tornaram os mestres de espiritualidade e os responsáveis pela configuração da Igreja. Além disso, São Martinho se dedicou intensamente à evangelização das zonas rurais, onde o apego aos costumes próprios resistia à penetração do Evangelho: montado em um jumentinho e pobremente equipado, ia          S. Martinho de aldeia em aldeia chamando para Cristo todos os homens.
Outros grandes nomes de Bispos defensores das populações e da civilização podem ser citados: São Paulino de Nola (353-431),         S. Máximo de Turim (465), S. Agostinho de Hipona (430), S. Hilário de Poitiers (315-367), S. Pedro Crisólogo (450) de Ravena, e outros.
Pode-se dizer que foi a Igreja quem salvou a Civilização na tempestade das invasões bárbaras e assegurou a união dos habitantes do Império Romano. Na falta de um Governo forte no Ocidente, os Bispos tinham que assumir não somente a pregação do Evangelho, mas também a administração dos bens da sua Comunidade, o contato com os bárbaros, a
proteção e a alimentação das populações carentes. Daí já é possível começar a entender por que a Igreja liderou o Ocidente, por tanto tempo.

A Igreja Católica foi a única Instituição a permanecer de pé entre os
escombros do Império Romano; e ficou em seus ombros a responsabilidade de “defensora da cidade” no momento em que os povos bárbaros assaltavam a Europa. Foi uma hora difícil: a decadência do mundo antigo era clara e inevitável, mas a cultura e a civilização estavam ligadas a este mundo, e coube à Igreja o difícil e sábio papel de conservar o que era necessário salvar e construir a nova Civilização.
Os bárbaros, apesar de se sua brutalidade, representavam o futuro, e
a Igreja soube entender isso mesmo no meio do caos social que se seguiu às invasões. Ela então passou à ofensiva, numa obra missionária corajosa e perseverante como fizeram os primeiros Apóstolos. Começou então a conquistar para Cristo os povos célticos do Norte, irlandeses e bretões, e estabeleceu a base que lhe permitiu, reconquistar depois a Gália (França) e a Península Ibérica, para depois avançar até ao próprio centro do paganismo germânico, a Saxônia e os países nórdicos. (D. Rops)
Em 476 a cidade de Roma caiu nas mãos dos godos. O primeiro rei godo, Odoacro, foi assassinado, após deixar o trono, em 493. Sucedeu-lhe Teodorico, que tentou unificar os monarcas do Ocidente numa espécie
de confederação por ele governada; haveriam de aliar-se entre si francos, burgúndios, visigodos, vândalos, alamanos, turíngios… mas faltava, porém, a essa pretensa confederação uma cultura única: os súditos romanos e os guerreiros godos não tinham nem a mesma nacionalidade nem a mesma religião, formavam um mosaico de povos. Muitos bárbaros tinham  tornado cristãos arianos, seguidores da heresia de Ario; isto dificultou muito a sua evangelização.
Por outro lado, Clóvis, rei dos francos, converteu-se ao verdadeiro
cristianismo com seu povo, em 496, quando S. Remígio, bispo de Reims
o batizou. Conseguiu, pela mesma fé católica, unir entre si francos e
romanos. Todavia a dinastia que se seguiu, chamada de merovíngia, se
entregou ao declínio moral.
No Oriente, pelo contrário, Constantinopla, a antiga Bizâncio, isolou
se, e o domínio que os imperadores orientais (Basileus) quiseram exercer sobre a Igreja (o cesaropapismo), que cada vez mais chamavam para a si as questões de doutrina e de fé, deu origem a muitas discussões e disputas. Os desentendimentos enfraqueceram o cristianismo oriental, tornando-o presa fácil dos muçulmanos (maometanos), que surgiram a partir do século VII, e acabaram por conduzir a Igreja do Oriente ao rompi- mcnt() definitivo com a Igreja de Roma por ocasião do cisma de Cerulário, no século XI. Em 1054 a Igreja Ortodoxa se separou da Igreja Católica.
Um grande problema para a Igreja foram as heresias, que começaram
a surgir no seio da Igreja a partir do século III. Começou com o gnosticismo combatido por Santo Irineu de Lião (202), e continuou nos séculos IV a VIII. Surgiram as chamadas heresias cristológicas, sobre a Pessoa de Jesus Cristo e suas duas naturezas. A Igreja soube superar as heresias nos Concílios. Houve também um grande trabalho apostólico que chamará para Cristo toda a Europa oriental e a imensa nação da Rússia.
O Império romano do Oriente, por sua vez, se desinteressava por

Roma, além disso vivia a difícil disputa iconoclasta (heresia que mandava quebrar as imagens) que dividia ainda mais os latinos e gregos. Os imperadores de Constantinopla (bizantinos) favoreciam o iconoclasmo e desprezavam os ocidentais. isto gerou muitas discórdias.
O Papa Estêvão 11(752), então, houve por bem apelar para os francos, que se haviam tornado “a nação primogênita da Igreja”, porque
foram os primeiros bárbaros que foram batizados desde o rei Clóvis. O
administrador do palácio dos reis merovíngios era Pepino, o Breve, que
governava sem ser rei (o rei reinava, mas não governava). Houve, então,
um acordo entre Pepino e Estêvão II. O Papa reconheceu Pepino como
rei dos francos e Pepino reconheceu o Estado Pontifício confiado à administração autônoma do Bispo de Roma.

Surgia assim o Estado Pontifício, em 752, não como produto de conquistas bélicas nem de ganância por parte do Papa, mas como efeito de doações espontaneamente feitas pelos nobres cristãos da península itálica, que, ao entrarem para o mosteiro ou ao morrerem, doavam seus territórios ao Pontífice; constituiu-se desta maneira o “Patrimônio de São Pedro”, ampla extensão territorial (uma parte da Itália de hoje) que o Papa administrava sem outro titulo, mas apenas como Pastor da Igreja, muito respeitado e estimado pelos fiéis como mantenedor da ordem no tempo das invasões bárbaras e do descaso bizantino. O Papa, portanto, que era “de fato” o senhor temporal desse território, tornou-se o senhor “de direito” (de jure) das mesmas terras, quando Pepino reconheceu o Estado Pontifício. Este Estado durou até 1870 quando foi tomado da Igreja por Vítor Emanuel II na guerra de unificação da Itália. A Igreja perdeu poder temporal, mas ganhou muito poder espiritual.

A nova dinastia franca chegou ao seu ponto alto Com Carlos Magno(768-8 14), filho de Pepino, o breve. Em 800, foi coroado Imperador, na
noite de’ Natal, pelo Papa Leão III (795-816), instaurando assim o “Sagrado Império Romano da Nação Franca” — o que muito ofendeu os
bizantinos por verem um franco à frente do antigo império romano. Este
evento foi de grande importância, pois dava continuidade entre o império Romano antigo e o medieval. A Renascença de Carlos Magno (carolingia) trouxe um novo brilho de cultura, agora enriquecida pela visão cristã.
A hegemonia franca foi sucedida pela germânica, já que cm 962; com
Oto I se formou o “Sagrado Império Romano da Nação Germânica”.
Nesses séculos, o profano e o religioso se entrelaçavam. Pairava ante os olhos dos responsáveis o ideal da “Cidade de Deus”, já apresentado por S. Agostinho na sua obra “De Civitate Dei” (413-426).
Em 3 de julho de 987 se deu um fato importante: a coroação na
Catedral de Reims, na França, pelo arcebispo Adalberão, de Hugo, cognominado Capeto, “glorioso duque dos francos”, descendente de Carlos Magno. Na cerimônia da coroação real, houve o célebre “juramento real” em que o príncipe jura defender a Igreja e fazer reinar a justiça; a “eleição” pronunciada pelo arcebispo e a unção feita com o óleo bento da “santa ampola”, que segundo a lenda um anjo trouxe do céu no batismo de Clovis no ano 500. (D. Rops) .

Na Inglaterra, em 1017, o filho de Swein, Knut, foi reconhecido “rei
de todos os ingleses , era cristão fervoroso, multiplicou os mosteiros,
apoiou a reforma dos costumes e deu à legislação um caráter cristão. Fez uma peregrinação a Roma antes de morrer, para redenção da sua alma e salvação do seu povo, e aí, colocou o seu reino sob a obediência direta do Papa. Eduardo, o Confessor (1035-1066), seu sucessor, é santo. Assim também a Inglaterra fez parte da monarquia cristã da Idade Média.

Depois do reinado de Carlos Magno, a decadência se instaurou novamente no seio da Europa por causa da segunda invasão dos bárbaros: húngaros e vikings. Mas durante esses tempos de decadência moral, sempre se ergueram os movimentos de reforma, impulsionado pelo monaquismo de São Bento ou de Cluny, ou por figuras de grandes papas e bispos, como Gregório Magno, São João Crisóstomo, São Pedro Damião, São Francisco, S. Ângelo, S. Domingos e tantos outros santos.
Se ao longo, por exemplo, do difícil século X, deixaram de ser cristãos imensos territórios, da Mesopotánia à Espanha, por outro lado, por volta do ano 1000, graças a missionários como São Patrício, São Columbano, São Bonifácio, São Cirilo e São Metódio, o cristianismo se espalhou da Groenlândia ao Tibet.
Neste período muito difícil para a Igreja, ficou mais uma vez claro
que a Igreja não pode perecer, porque Cristo prometeu que “as portas do inferno jamais prevalecerão contra ela” (Mt 16,18).
Foi a Igreja que, nos seis séculos das invasões dos bárbaros, com S.Bento (séc. V) reconstruiu as elites dirigentes, preparou sem cessar o renascimento da civilização, enviou seus missionários ao núcleo das
massas bárbaras e convertendo os reis, preparou a fusão das raças de
onde nasceria a Europa. Foi a Igreja que nos seus conventos protegeu a
cultura e a arte; e foi ela que após Carlos Magno (f814), quando as
trevas de novo se abateram Contra a Igreja, impediu que a anarquia destruísse a Europa. (D. Rops)

 Fonte: Livro  ¨Uma História que não é contada¨ autor  Professor Felipe Aquino

Meus comentários

Obrigado leitores do blog, como havia prometido estou postando mais sobre a história da Igreja, acho que já deu para sentir o que nossa Santa Igreja fez para que nós tivéssemos tudo que nós temos hoje!
Sejamos gratos a Ela, Santa Igreja, esposa de Cristo! Continuem acompanhando o blog, colocarei as vidas dos Santos citadas nesse post.
Pax Domine,

Publicado em 3 de março de 2013, em Catolicismo, Comunicados aos Cristãos, História da Igreja, Vida dos Santos e marcado como . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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