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A Sacrílega Comunhão na Mão.

‘Note-se a reverência e o Amor por Jesus Cristo no Santíssimo Sacramento, e o costume antigo de colocar uma toalha de linho, branca e pura, por sobre as mãos dos comungantes’.

A Sacrílega Comunhão na Mão.

“Por respeito para com este Sacramento, nada Lhe toca, a não ser o que é Consagrado…” S. Tomás de Aquino 

 

Os antecedentes.

 

 

Através dos séculos, de pais para filhos, foram os nossos pais que nos ensinaram a Fé e nos falaram do Santíssimo Sacramento.

Disseram-nos que a Divina Eucaristia é verdadeiramente o Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Os Padres do Concílio de Trento definiram o Santíssimo Sacramento com precisão e cuidado. S. Tomás de Aquino ensinou-nos que, por respeito para com este Sacramento,tocar n’Ele e ministrá-Lo compete apenas ao Sacerdote.

Em casa, os nossos pais, como católicos que eram, e também as Irmãs religiosas que ensinavam nas escolas disseram-nos que era um sacrilégio (e hoje continua sendo), uma pessoa, sem ser o sacerdote, tocar na Sagrada Hóstia.

       Através dos séculos, Papas, bispos e sacerdotes disseram-nos a mesma coisa, não tanto por palavras, mas sobretudo pelo exemploe especialmente através da celebração da Antiga Missa em latim, em que o mais profundo respeito pelo Santíssimo Sacramento, o autêntico Corpo de Cristo, estava em cada gesto do Sacerdote.

Os nossos pais disseram-nos estas coisas não com a idéia de transmitir uma tradição, venerável mas sem fundamento; ensinaram-nos estas coisas através de palavras e exemplos para nos mostrarem a fidelidade à Fé Católica e o respeito pelo Santíssimo Sacramento. Os nossos pais disseram-nos isto porque é a verdade.

Pelo contrário, a entrada em vigor da Comunhão na mão e de leigos como “Ministros da Eucaristia” mostra um desprezo arrogante por aquilo que os nossos pais nos ensinaram. E embora estas práticas tivessem sido introduzidas com o pretexto de serem um desenvolvimento litúrgico “autêntico” e ordenado pelo Concílio Vaticano IIa verdade é que a Comunhão na mão não é uma autêntica evolução litúrgica, não foi ordenada pelo Concílio Vaticano II, e não só aparece como um desafio como revela um completo desprezo por séculos de doutrina e prática católicas até hoje.

 

       A Comunhão na mão estabeleceu-se sob um falso ecumenismo; permitiram que se espalhasse por fraqueza da autoridade; foi aprovada como medida de compromisso e por um falso sentido de tolerância – e levou a uma profunda irreverência e indiferença para com o Santíssimo SacramentoEsse abuso litúrgico – que se tornou o mais comum possível – é a vergonha dos nossos tempos.

 

 

Sobre o Concílio Vaticano II e a Reforma Litúrgica 

 

 

O Papa Pio XII faleceu em 1958 e no início de 1959 foi dado o primeiro aviso oficial sobre o futuro Concílio; e a 25 de julho de 1960, João XXIII tornou pública a sua decisão de confiar aos Padres do Concílio a reforma litúrgica.

As comportas iam ser abertas; era preciso, então, acelerar as providências. O monge beneditino Dom Adrien Nocent, “neolitúrgico típico”, foi nomeado, em 1961, professor do Pontifício Instituto de Liturgia de Santo Anselmo em Roma, uma venerável universidade beneditina fundada por Leão XIII; e lá Dom Nocent preparava o Concílio.

Naquele mesmo ano de 1961, em sua obra O Futuro da Liturgia, Dom Nocent definia os princípios e os fundamentos da nova missa que então preconizava. Seu propósito: influir direta e decisivamente na “revisão da liturgia” que poderia ser realizada durante o Concílio Vaticano II.

 

 

Veio o Concílio.

 

 

Pela vontade do Papa João XXIII, o Vaticano II quis ser um Concílio Ecumênico e, como disse um bispo não tradicionalista, aí esta palavra “ecumênico” deve ser entendida não no sentido tradicional de “universalidade” ou de “catolicidade”, mas “na acepção moderna (ou errônea?) de favorecer a unidade dos cristãos” 1.

Essa intenção de fazer do Concílio um instrumento de ecumenismo (aliás, falso) abriu as portas da Santa Sé e a cidadela foi ocupada pelos neolitúrgicos progressistas.

Deixemos de lado o que nos separa, guardemos o que nos une; este bem conhecido programa de João XXIII foi o principio inspirador da nova liturgia.
Ora, uma reforma litúrgica inspirada em “motivos ecumênicos” é inconcebível, porque contradiz o princípio imutável da liturgia católica: cabe à regra de fé regular a oração.

Uma tal reforma é, ao contrário, pôr em prática a “caridade sem fé” que São Pio X condenou no modernismo. Não é de espantar que a “reforma” (que ia ser implantada) tenha sacrificado a claridade e a exatidão doutrinal em troca de ambigüidade e compromisso.

 

Todavia, imbuídos do princípio anunciado por João XXIII, os Padres conciliares irão dizer, no primeiro documento que aprovaram, ou seja, na Constituição “Sacrosanctum Concilium” sobre a reforma da “Sagrada Liturgia”, de 4 de dezembro de 1963, que o Concílio Vaticano II, desde o seu início, propunha-se a favorecer tudo o que possa contribuir para a união dos que crêem em Cristo… e para tanto julgou “ser seu dever cuidar de modo especial da reforma e do incremento da Liturgia” (idem, pg 259.)., estando a Reforma do Ordinário da Missa inserida nessa reforma.

E esse documento foi redigido de uma forma tão ambígua que tornou possível a remoçãodas pedras que pudessem constituir mesmo sombra de um risco de tropeço ou de desagrado para nossos irmãos separados“, como declarou Monsenhor Annibal Bugnini, artífice da Nova Missa, no L’ Observatore Romano de 19 de maio de 1965, pedras essas que existiam (e que continuam a existir) na liturgia da Igreja Católica, particularmente no rito romano tradicional, restaurado e canonizado por São Pio V para deter e combater as heresias protestantes.

Com a aprovação da Constituição sobre a Sagrada Liturgia foi iniciada a protestantização da Missa católica. E, isto feito, Paulo VI, a 29 de fevereiro de 1964, criou o “Consilium ad Exsequendam Constitutionem de Sacra Liturgia” – Conselho para a Aplicação da Constituição sobre a Sagrada Liturgia, o “Consilium”, tendo por presidente o Cardeal Lercaro e por secretário o Monsenhor Annibal Bugnini, ou seja, os elementos mais avançados do Movimento Litúrgico italiano. Ao Consilium coube a tarefa de fazer a Reforma Litúrgica, aprovada pelo Vaticano II.

A VERDADEIRA HISTÓRIA DA COMUNHÃO NA MÃO

 

I – Introdução.

 

Na “Missa de Dom A. Nocent”, sugerida por este monge beneditino em 1961, já estava recomendado que a comunhão deveria ser feita sob ambas as espécies — costume que havia sido abolido “por graves e justas causas”, como afirmou o Concílio de Trento, mas que a Constituição “Sacrosanctum Concílium” sobre a Sagrada Liturgia, de 1963, tornou novamente possível 2 — e, mais ainda, de pé e na mão.

O procedimento de receber a comunhão de pé e na mão não consta do Livreto “Liturgia da Missa”, obra com a “Tradução Oficial para o Brasil” aprovada pela CNBB e pela Sagrada Congregação do Culto Divino, mas foi adotado sem a menor sombra de dúvida e, depois, tornou-se uma prática universal.

Quanto à questão de ser a comunhão feita de pé, salvo a menção feita na “Missa de Dom A. Nocent”, nada encontrei em documento algum. Todavia, é um procedimento que acompanha naturalmente à decisão de permitir a comunhão na mão, pois ninguém vai se ajoelhar para receber a comunhão desse modo e, hoje em dia, os comungantes só recebem a comunhão de pé; até mesmo aqueles que a querem receber na boca (ver cap. X – “Conclusões”).

A comunhão na mão foi especificamente autorizada pela Instrução “Memoriale Dómini” – Instrução essa redigida “por mandato especial de Paulo VI e por ele mesmo aprovada em razão de sua autoridade apostólica” (28/05/69) – e na qual a Sagrada Congregação para o Culto Divino, na esteira de outros autores, afirma que “em épocas muito antigas se fez uso da comunhão na mão“, dando a entender que este era o procedimento normal. É este o tema que vamos aprofundar neste ensaio, para mostrar a verdadeira história da comunhão na mão.

 

Como é que apareceu agora a Comunhão na Mão?

 

Há 400 anos, a Comunhão na mão foi introduzida no culto “cristão” por homens cujos motivos tinham por base um desafio ao Catolicismo. Os revolucionários protestantes do Século XVI (chamados “reformadores” protestantes, numa cortesia imerecida) estabeleceram a Comunhão na mão para significar duas coisas:

1) Que acreditavam que não havia “transubstanciação” nenhuma, e que o pão usado para a Comunhão não passava de pão vulgar. Por outras palavras, a Presença Real de Cristo na Eucaristia não passava de uma “superstição papista”; e como o pão não era mais do que pão, qualquer pessoa lhe podia tocar.

2) Que era sua crença que o Ministro da Comunhão não era fundamentalmente diferente de qualquer leigo. Ora é ensinamento católico que o Sacramento da Ordem dá ao Sacerdote um poder espiritual, sacramental, imprime uma marca indelével na sua alma e torna-o fundamentalmente diferente de um leigo.

O Ministro Protestante, porém, não é mais do que um homem vulgar que introduz os cânticos, faz as leituras e prega sermões para excitar as convicções dos crentes. Não pode converter o pão e o vinho no Corpo e Sangue de Nosso Senhor, não pode abençoar, não pode perdoar os pecados. Não pode fazer nada que um leigo normal não possa fazer.

O estabelecimento da Comunhão na mão pelos Protestantes foi o modo que eles escolheram para mostrar a sua rejeição da crença na Presença Real de Cristo na Eucaristia e a rejeição do Sacerdócio Sacramental — em resumo, para mostrar a sua rejeição do Catolicismo no seu todo.

Daí por diante, a Comunhão na mão passou a ter um significado nitidamente anti-católico: prática abertamente anti-católica, tinha por base a descrença na Presença Real de Cristo e também no Ministério Sacerdotal.

 

 

Graças ao Ecumenismo…

 

Embora a Comunhão na mão não fosse ordenada pelo Concílio Vaticano II, o que foi “canonizado” pelo Vaticano II foi o “Ecumenismo” — um falso espírito de uma falsa unidade, que até então tinha sido condenado pela Igreja, em especial pelo Papa Pio XI na sua encíclica de 1928 Mortalium Animos —, um movimento de Católicos que se querem mais comprometidos em relação às outras religiões e, em especial, aos Protestantes.

Este movimento realça, supostamente, aquilo que temos em comum com os outros credos e oculta o que nos divide, para celebrar os “valores” que partilhamos. (“Valores” é um termo subjetivo que não se encontra nos manuais de Teologia de antes do Concílio Vaticano II).

Já não tentamos converter os não-Católicos. Em vez disso, passamos o tempo num “diálogo” inútil e sem fim, em que o Catolicismo acaba sempre por perder: porque um tal diálogo dá a impressão incontornável de que o Catolicismo já não acredita que é o único possuidor da Verdade teológica.

       Embora não tratemos do Ecumenismo neste artigo (veja-se “The Problem with Modern Ecumenism”, em Catholic Family News — número de Março de 1995), basta dizer que este novo espírito ecumênico, a que Deitrich von Hildebrand chamou “ECUMANIA”, se tornou notório durante e depois do Vaticano II. O espírito ecumênico tornou-se o princípio formativo mais importante na série das novas formas litúrgicas estabelecidas desde o Concílio. É por isso que a nova liturgia se parece tanto com um serviço protestante.

 

 

Um ecumênico espírito de imitação.

 

Na Holanda, depois do Vaticano II, alguns padres de idéias ecumênicas começaram a dar a Comunhão na mão, numa imitação servil da prática protestante. Quanto aos bispos, em vez de cumprirem com o seu dever e condenarem o abuso toleraram-no.

       Porque os responsáveis da Igreja permitiram que o abuso não fosse atalhado, a prática espalhou-se então pela Alemanha, Bélgica e França. Mas se os bispos pareciam indiferentes a este escândalo, os leigos sentiram-se ultrajados.

Foi a indignação de grande número de Fiéis que obrigou um pequeno número de Conferências Episcopais e certos bispos a título individual recorrer ao papa Paulo VI, para que nos seus territórios fosse permitido o uso da comunhão na mão. O Soberano Pontífice decidiu consultar todos os bispos da Igreja latina sobre o que pensam da oportunidade de introduzir esse rito.

Tendo consultado os bispos do mundo sobre o assunto, estes votaram, na sua esmagadora maioria, no sentido de manter a prática tradicional de receber a Sagrada Comunhão apenas na língua. E note-se que, nesta altura, o abuso estava limitado a alguns países europeus. Ainda não tinha sequer começado nos Estados Unidos.

       O Papa promulgou então a Instrução “Memoriale Domine”, de 28 de Maio de 1969. (ver Cap. IX)

 

Em resumo, o documento declara:

1) Os bispos do mundo eram, na sua esmagadora maioria, contra a Comunhão na mão.

2) “Esta maneira de distribuir a Sagrada Comunhão (isto é, o sacerdote colocar a Hóstia na língua dos comungantes) deve ser observada.”

3) A Comunhão na língua não diminui, de forma alguma, a dignidade do comungante.

4) E acrescenta o aviso de que “qualquer inovação pode levar à irreverência e à profanação da Eucaristia, assim como à erosão gradual da reta doutrina.”

       O documento afirma ainda que “o Sumo Pontífice decretou que a maneira tradicional de dar a Sagrada Comunhão aos Fiéis não devia ser mudada. Por conseguinte, a Sé Apostólica insta veementemente os bispos, sacerdotes e povo a que observem zelosamente esta lei.”

 

 

 

II – O Corpo de Deus e o respeito que lhe é devido.

 

 

“Eu sou o pão da vida”… (Jo.6,48), “Eu sou o pão vivo que desci do céu… e o pão, que Eu darei, é a minha carne para a vida do mundo” (Jo.6,51) (e não apenas para a vida dos discípulos) e “Eu estou convosco todos os dias até a consumação dos séculos”(Mt.28,20).

Este pão da vida e pão vivo – Carne do Senhor – o Corpo de Deus vivo e verdadeiro– sempre foi tratado com o maior respeito e cercado de inúmeros cuidados desde os primeiros tempos do cristianismo (voltaremos a este ponto a seguir), como não poderia deixar de ser por se tratar do próprio Deus vivo, que quis se transubstanciar, usando um pedaço de PÃO, para que os homens pudessem comer da sua carne (Jo.6,54), alimento da alma, e (pudessem) alcançar a vida eterna (Jo.6, 54 e 58).

 

O Senhor se fez carne, Cordeiro de Deus, para o sacrifício e, de carne, se fez Pão – Pão do céu – para alimento de nossas almas.

 

 

A Santa Missa Tradicional incorpora em si o respeito pela Eucaristia.

 

Esta doutrina – de que apenas os sacerdotes podem tocar na Hóstia Consagrada, que as mãos do sacerdote são consagradas para este fim, e que nenhuma precaução era exagerada quando se tratava de conservar a reverência e impedir a profanação – foi incorporada na Liturgia da Igreja, isto é, na Antiga Missa em latim.

 

No tempo da Antiga Missa em latim, os padres aprendiam a celebrar Missa segundo rubricas precisas que asseguravam o devido respeito pelo Santíssimo Sacramento. Estas rubricas meticulosas eram como que “talhadas em pedra” e sobre elas não era concedida opção: no Rito Romano, todos os sacerdotes deviam segui-las com uma precisão imutável.

Na Igreja de antes do Vaticano II, quando a Missa Tridentina em latim era de norma, estas rubricas eram não só ensinadas como também incutidas nos homens que se preparavam para ser padres.

 

Eis algumas dessas rubricas, na Antiga Missa em latim:

 

A partir do momento em que o Sacerdote pronuncia as palavras da Consagração sobre a Sagrada Hóstia, mantém juntos os dedos indicador e polegar, de modo que, ao elevar o cálice, ao virar as páginas do Missal ou ao abrir o sacrário, aqueles dedos não toquem senão a Hóstia ConsagradaNote-se também que era impensável deixar a Sagrada Hóstia no altar, e ir igreja abaixo, igreja acima (mesmo antes de os dedos terem sido purificados) apertar as mãos das pessoas, numa desajeitada manifestação de amizade forçada.

> No final da Missa, o Sacerdote passa com a patena sobre o corporal e limpa-o para dentro do cálice, a fim de que pudesse ser recolhida e consumida reverentemente a mais pequena Partícula, se aí tivesse ficado.

> Depois da Comunhão, as mãos do sacerdote são lavadas sobre o cálice com água e vinho – consumidos com reverência, como garante de que nem a Partícula mais pequena seja susceptível de profanação.

 

No Catecismo de Trento encontramos as seguintes afirmações:

Corolário: Leigos não podem tocar nos vasos sagrados.

 

Ora, os leigos não podem tocar nos vasos sagrados, pois estes são utilizados para oSacrifício da Missa recebendo diretamente o Santíssimo Corpo de Cristo.

(Se não podem tocar nem nos vasos sagrados, o que dizer a respeito do Corpo de Cristo?)

 

Assim, continua o catecismo:

 

… De mais a mais, com intuito de salvaguardar, sob todos os aspectos, a dignidade de tão augusto Sacramento, não se deu unicamente aos sacerdotes o poder de administrá-los: como também se proibiu, por lei eclesiástica, que, salvo grave necessidade, ninguém sem Ordens Sacras ousasse tomar em mãos ou tocar vasos sagrados, panos de linho, e outros objetos necessários à feitura da Eucaristia.

 

Estas são apenas algumas das rubricas incorporadas na Antiga MissaNão eram escrúpulos ridículos; mostravam que a Igreja acreditava firmemente que, na Missa, o pão e o vinho se convertem realmente no Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Jesus Cristo, e que nada do que se fizesse era demais para haver a certeza de que Nosso Senhor seria tratado no Santíssimo Sacramento com toda a reverência e homenagem que a Majestade Divina merece.

 

Ora bem, tratando-se de demonstrar reverência, será possível melhorar estas rubricas? Uma autêntica renovação católica deixaria intactos tais gestos de reverência, ou iria realçá-los. Mas obliterá-los sem uma desculpa nem um argumento convincente, como foi o caso nos últimos 42 anos com a entrada em vigor da Nova Missa, não caracteriza uma autêntica renovação católica; pelo contrário, assemelha-se ao Novo Paganismo (contra o qual Belloc nos avisou) com o seu arrogante desprezo pela tradição.

 

E para tornar a situação ainda pior, a prática da Comunhão na mão faz com que estas rubricas cruciais do pré-Vaticano II pareçam de um sentimentalismo supersticioso, sem fundamento na realidade — desprezo, mais uma vez, pelo que os nossos pais nos ensinaram, edesprezo óbvio pelo próprio Santíssimo Sacramento.

 

Se é de joelhos que os Anjos acorrem para adorar Nosso Senhor, quanto mais eu que sou pecador.

O sentido do Sagrado

 

Os Sacramentos são o tesouro mais precioso da Igreja, e a Divina Eucaristia é o maior de todos os Sacramentos. Porque em todos os outros Sacramentos recebemos a graça sacramental, mas na Divina Eucaristia recebemos o próprio Cristo. Portanto, como é óbvio que o Santíssimo Sacramento é o maior tesouro que a Igreja possui, deve ser tratado com toda a reverência e homenagem que merece. Deste modo, todas as barreiras anteriores ao Concílio Vaticano II para evitar profanações são indispensáveis à vida da Igreja e à santidade dos Fiéis.

Quantas vezes ouvimos, até aos responsáveis pela nossa Igreja, lamentar o fato de que “perdemos o sentido do Sagrado”?

Esta exclamação é das mais assombrosas que um Eclesiástico pode fazer! Como se fosse algum mistério… É que o sentido do Sagrado não se perdeu, sabemos exatamente onde está, e podia ser recuperado em todas as igrejas paroquiais do mundo, amanhã mesmo.

O “sentido do Sagrado” encontra-se onde quer que se dê a maior importância à prática da salvaguarda da reverência pelo Santíssimo Sacramento. E mais: o “sentido do Sagrado” nem sequer se perdeu; foi deliberadamente posto de lado, foi mandado embora pelos agentes do Novo Paganismo do Modernismo – cheios de arrogância e fazendo-se passar por reformadores católicos – que introduziram na Igreja novas práticas que diminuem a Eucaristia, desprezam a tradição e aquilo que os nossos antepassados nos ensinaram, e que levaram a uma crise mundial da Fé de uma amplitude sem precedentes.

Mas para nós, graças a Deus, não é mistério nenhum. Sabemos exatamente onde se encontra “o sentido do Sagrado”, e agarramo-lo com uma tenacidade aguerrida. Encontra-se na celebração da Antiga Missa Tridentina em Latim, na qual cada momento da Liturgia contém uma reverência profunda pelo Santíssimo Sacramento, e onde os olhos dos Católicos ainda vêem com horror a Comunhão na mão e os “Ministros Eucarísticos” – práticas claramente reconhecidas como despropositadas, sacrílegas e não-católicas, que é, afinal, aquilo que são.

 

III – Os cuidados com as partículas que caem da Hóstia consagrada.

Era norma dos primeiros cristãos só comer a Carne do Senhor depois de tê-la adorado, o que prova a crença na presença real de Nosso Senhor; e àquele que ia comê-la era dirigida esta advertência: “…recebe com cuidado de nada perder. É em verdade o Corpo de Cristo” (ver IX – A “Memoriale Dómini”).

A Igreja sempre tomou um grande cuidado a fim de evitar que qualquer partícula da Santa Eucaristia se perdesse ou caísse no chãoSão Cirilo de Jerusalém (313-316) dizia aos novos batizados que eles deviam lamentar mais a perda de qualquer partícula da Hóstia que a perda de ouro, de diamante ou de qualquer um dos membros de seu corpo.

De acordo com este modo de pensar, os orientais chamam os fragmentos da Eucaristia de “pérolas“. Por sua vez, a liturgia de São Crisóstomo (344-407) assinala que, ao fim da Missa, o padre ou o diácono consome com atenção e devoção todos os fragmentos e cuida para que não se perca qualquer partícula ou “pérola”Note-se que tal norma era, no século IV, dirigida apenas aos ministros do culto, não fazendo menção aos fiéis leigos.

E eles tinham todos esses cuidados ainda que as partículas, ou fragmentos, que caíam da Hóstia consagrada fossem naquele tempo muito menos numerosas que hoje em dia. Isto porque o “dom” oferecido nos primeiros tempos era um pão ázimo como agora, mas de uma forma, com um contorno, que não favorecia a deposição de partículas, ou seja, as “pérolas”,como acontece com as pequenas hóstias que são hoje em dia empregadas pela Igreja do Ocidente; e é preciso dizer que é da máxima importância ter todo cuidado com qualquer partícula da Hóstia já consagrada, por menor que seja, pois está “o Cristo todo inteiro sob a espécie do pão e sob a mínima parte desta espécie“, como definiu dogmaticamente o Concílio de Trento 3.

Com efeito, das bordas das pequenas hóstias que hoje são utilizadas para serem oferecidas e consumidas caem pequeninas partículas; quem já viu um cibório, onde são guardadas as hóstias já consagradas, ou uma patena depois da comunhão dos fiéissabe quantas “pérolas” ali ficam.

Com a nova forma de comungar, o Corpo do Senhor fica agora na palma da mão ou entre os dedos de quem comunga ou então cai no chão e pode ser pisado.

IV – A manipulação do Corpo do Senhor: o procedimento normal.

 

 

Talvez já prevendo que tais profanações pudessem vir a ocorrer e, também, em funçãodo respeito que se deve ter para com o Corpo do Senhor, os Santos Padres se preocuparam desde os primórdios do Cristianismo em firmar uma doutrina sobre quem estava habilitado a tocar no Pão e no Vinho consagrados. E o procedimento normal adotado, desde o início, sempre foi o de ficar a manipulação dos dons consagrados – e, portanto, a sua distribuição também – restrita a pessoas, também, consagradas, aquelas que recebem o dom de poder tocar no Santíssimo Sacramentoo que mostra que ao leigo não é lícito (salvo em casos especiais) tocar neste Corpo; e se não lhe é permitido tocar, muito mais grave é recebê-lO nas mãos e levá-lO à boca para consumir a Vítima sagrada do Sacrifício — o Corpo de Deus Filho — oferecido a Deus Pai.

Além disso, as normas estabelecidas pelos Santos Padres (que serão mostradas mais adiante) não seriam necessárias se os fiéis leigos estivessem também autorizados a tocar nos santos mistérios. Não podendo tocá-los, por não terem mãos consagradas para fazê-lo,como é que estas mesmas mãos podem receber o Corpo de Deus vivo?

 

Porém, hoje, depois do Vaticano II, para justificar a comunhão recebida na mão, é dito que era esse o costume dos primeiros cristãos. O próprio, e insuspeito, Padre Le Brun afirma que “durante os cinco primeiros séculos os padres davam a Eucaristia na mão dos fiéis” 4.Todavia, como veremos, esta não é a verdadeira história, e se, no século V, um Papa afirmou explicitamente que a comunhão deve ser recebida na boca não foi porque antes fosse recebida na mão, mas, sim, por causa dos abusos que, ainda, continuavam a ocorrer em seu tempo, como será também mostrado.

V – O procedimento de exceção na manipulação do Corpo de Deus.

De fato, a manipulação do Corpo do Senhor pelos leigos — para seu próprio uso ou para distribuí-lO a outros fiéis (o que não significa necessariamente que estivessem autorizados a distribuir a comunhão na mão desses fiéis) — era um costume que devia ficar restrito a alguns casos especiais, casos de exceção (ver Cap. VII – “As exceções”), e isto se aplica tanto aos primeiros tempos do cristianismo como aos tempos atuais.

Assim é que o Santo Ofício, em resposta (21 de julho de 1841) a uma consulta, diz: “É unicamente em tempo de perseguição, em caso de real necessidade e se o padre, ministro ordinário do Sacramento, estiver impedido, que os leigos podem manipular a Santa Eucaristia”.

VI – Os acontecimentos históricos.

         Vejamos, então, o que realmente aconteceu, ou seja, qual era a doutrina dos Santos Padres dos primeiros tempos e quais eram os casos de exceção; passemos aos fatos históricos.

         São Paulo chama os padres de “ministros do Cristo e dispensadores dos mistérios de Deus” (1Cor.4,1 e 2) e, portanto, cabe a eles a manipulação do Corpo de Deus e a distribuição dos dons consagrados.

         Abusos devem ter ocorrido, pois, São Sixto I – Papa de 117 a 126 – julgou necessário lembrar e publicar a norma apostólica, reafirmando que somente os ministros do culto (os padres e seus ajudantes, os diáconos) são aptos a tocar (tangere) os santos mistérios: “hic constituit ut mysteria sacra non tangeretur, nisi a ministris”.

         São Justino (100-166), por sua vez, na sua Apologia dedicada ao Imperador romano, testemunha esta disciplina primitiva afirmando que são “os diáconos que distribuem a comunhão e levam aos doentes”.

         E o sábio Tertuliano de Cartago (160-250) diz, também, que o Sacramento da Eucaristia era recebido “somente da mão do padre”: “nec de aliorum manu sumimus”.

         Como os casos em que estava autorizada a manipulação da Santa Eucaristia pelos leigos (ver Cap. VII – “As exceções”) continuassem a gerar abusosSanto Estevão – Papa de 254 a 257 – teve que advertir os leigos, dizendo-lhes que eles não deviam “considerar como suas as funções eclesiásticas“; e, quanto ao clero, Santo Eutiquiano – Papa de 275 a 283 – exortou os padres a manterem a disciplina cumprindo seus deveres, especialmente levando eles mesmos a Comunhão aos doentes: “nullus praesumat tradere Communionem laico vel feminae ad deferendum infirmo” (que ninguém ouse confiar a um leigo ou a uma mulher o cuidado de levar a Comunhão a um doente).

        

Assim, pelos textos citados, vemos que mesmo em tempo de perseguição, ou seja, mesmo antes da “paz da Igreja”, o que ocorreria pouco depois do ano 313, ano do Edito de Milão, não era um costume generalizado os leigos manipularem a Eucaristia para distribuí-la ou consumi-la.

Não seriam necessárias todas as advertências dos Santos Padres, acima citadas, sobre quem devia manipular o Corpo de Deus, se os fiéis pudessem tocar habitualmente no Santíssimo Sacramento. Se eles pudessem tocá-lO, poderiam também servir a si mesmos e também (poderiam) distribuir a Comunhão à outras pessoas (o que hoje fazem errado, pois habitualmente são, os ministros extraordinários da Eucaristia).

            Porém, o que de fato se verifica é que, pelo menos desde o Papa São Sixto I, somente aos padres e aos diáconos é permitido manipular e distribuir a Eucaristia e, mais ainda, o diácono devia receber o Santíssimo Sacramento das mãos do padre. Os leigos só podiam tocar na Hóstia consagrada excepcionalmente.

VII – As exceções.

 

         É verdade que casos havia em que era permitido aos leigos manipular e distribuir a Comunhão. Os leigos podiam fazê-lo nos chamados casos de necessidade, ou seja, quando não havia sacerdote para se ocupar daqueles deveres; fora dessas circunstâncias, nem os leigos, nem os padres menores, devem ser considerados como ministros da Eucaristia. Eles somente serão chamados a título de ministros extraordinários em casos excepcionais.

         Portanto, é verdade que – em tempo de perseguição e, portanto, tempo de exceção – os fiéis leigos foram autorizados a levar para casa o Santo Sacramento, para consumi-lo durante as semanas seguintes ou levá-lo aos doentes, mas era, conforme o caso, ou por causa da ameaça sempre eminente de perseguição ou da distância ou da falta de padres e de diáconosSão Basílio de Cesaréa (329-379), em sua Carta 93, datando aproximadamente de 372, declara que por esses motivos poder-se-ia “receber a Comunhão por meio de sua própria mão”. Temos, assim, mais uma confirmação de que, normalmente, o fiel não deve receber a Comunhão de sua própria mão.

         Podemos concluir, também, que no caso de distribuição autorizada do Corpo de Deus a outros (doentes, por exemplo), isto não significa que a comunhão fosse dada na mão; estando o leigo que a ia receber proibido de tocar no dom consagrado, não é lícito esperar que recebesse o Corpo do Senhor na mão; e se o fizesse não seria em função de uma norma da Igreja, mas de um abuso. Para evitar dúvidas e abusos, os Santos Padres passarão a dizer, explicitamente, que a Santa Comunhão é recebida na boca (ver Cap. VIII – “Os tempos normais”).

Desde que as circunstâncias permitiram, o costume excepcional mencionado no parágrafo anterior foi-se tornando desnecessário e é certo que esta prática de exceção, como diz o “Dicionário de Arqueologia Cristã e de Liturgia”, de Dom H. Leclerq, “caiu em desuso pouco tempo depois da paz da Igreja”.

         Todavia, o hábito arraigado em alguns leigos fazia com que esses praticassem abusos já em tempos normais, por continuarem levando o pão consagrado para suas casas. Além disso, com a paz e liberdade concedidas à Igreja, as conversões para o Cristianismo se efetuavam em grande escala e de maneira por vezes brusca; conseqüentemente os novos cristãos ainda guardavam consigo traços de sua antiga mentalidade pagã, muito dada à superstição e ao uso de amuletos.

         Documentos atestam que a partícula sagrada era não raro pendurada ao pescoço dos fiéis, aos leitos, às paredes das casas, aos cofres, como se fora um amuleto, um feitiço dotado de poderes quase mágicos ou um instrumento poderoso contra doenças, desgraças, inimigos, etc.

         Então, medidas enérgicas foram tomadas para restabelecer as regras apostólicas. Para tanto, São Dâmaso I – Papa de 366 a 384 – proibiu aos fiéis terem o Alimento divino em suas residências: “oblationes… sub dominium laicorum deteneri vetat”.

         No ano 380, o Concílio Regional de Saragoça lança anátemas contra aqueles que insistissem em continuar a tratar o Santo Sacramento da mesma maneira que em tempos de perseguição, e o Concílio Regional de Toledo, no ano 400, insiste na mesma determinação: “Se alguém não consumir realmente a Eucaristia recebida do sacerdote, seja expulso como um sacrílego” (canon 14).

Verifica-se, portanto, que naquele tempo já era claramente distinguida a regra normal, daquilo que tinha sido, por muito tempo, exceção na Igreja.
Além disso, sendo as sanções acima citadas, pelas quais a Igreja protegeu o cumprimento das normas litúrgicas transmitidas pelos Apóstolos, de âmbito específico (regional), pode-se concluir também que esses abusos eram desvios não generalizados.

VIII – Os tempos normais

 

A paz externa, a expansão da Igreja por todo o Império Romano e o aumento das vocações sacerdotais fizeram com que a manipulação do Santíssimo Sacramento pelos leigos não tivesse mais justificativa.

 

A) A norma expressa sobre a Comunhão na boca

 

Se os primeiros Santos Padres se preocuparam em afirmar que cabia aos ministros do culto distribuir a comunhão, a fim de evitar que o Pão da Vida fosse manuseado por qualquer um como um pão comum, agora, no século IV e seguintes, em tempos de normalidade, vamos encontrar os Santos Padres citando explicitamente o costume tradicional de comungar; já haviam desaparecido os motivos que justificavam a manipulação do Corpo do Senhor pelos leigos e, por outro lado, era preciso firmar doutrina para combater os abusos que ainda ocorriam, bem como, também, (combater) a prática herética dos arianos5 de receber a comunhão na mão.

Assim, São Leão I – Papa de 440 a 461 – diz, explicitamente, que o Sacramento da Eucaristia recebe-se na boca: “hoc enim ore sumitur quod fide tenetur” (os/oris=boca).

Em 536, o Papa Agapito I, tendo se dirigido a Constantinopla, realiza uma cura milagrosa de um surdo mudodurante a Comunhão, no momento em que lhe punha na boca o Corpo do Senhor: “cunque ei Dominicum corpus mitteret in os”, conforme assinalado por São Gregório Magno – Papa de 590 a 604 – e sabemos que o próprio São Gregório I, também, dava a Comunhão na boca aos comungantes, como atesta o seu biógrafo Jean Diacre.

 

Os únicos que sempre comungaram de pé e com a mão foram, desde o princípio, os arianos, que negavam, obstinadamente, a divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo e que, por isso mesmo, não viam na Eucaristia senão um símbolo de união que podia ser manipulado à vontade.

 

Por volta de 650, sob o império de Clóvis II, o Concílio de Rouen estabeleceu, também, regras sobre a distribuição do Sacramento da Comunhão, indicando com muita precisão aatitude conveniente dos fiéis, isto é, a recepção da hóstia unicamente na boca — “Nulli autem laico aut feminae Eucharistiam in manibus ponat, sed tantum in os ejus” (cf. Acta Conciliorum Rothomagense, cap. II, pág. 8).

Apesar do cisma do Oriente já estar se anunciando, entre outras coisas por desvios na Liturgia, o Concílio de Constantinopla (692) proibiu, também, aos fiéis leigos se darem a si próprios a comunhão e ameaça de excomunhão por uma semana aqueles que se atreverem a distribuí-la quando houver um bispo, padre ou diácono na região.

Em 878, mais outro Concílio de Rouen (canon II) volta a lembrar a regra tradicional, o que mostra o aspecto realmente esporádico do abuso da prática de comungar com a mão.

Vê-se bem, face ao exposto, que a Igreja não mudava sua regra original, mas a consolidava, desejando o desaparecimento completo dos abusos, porque sempre foi costume, na Igreja de Deus, os leigos receberem dos padres a Comunhão.

São Tomás de Aquino, o Doutor Comum da Igreja Católica (1225-1274), ensina as razões teológicas que embasam esse costume:

 

“A distribuição do Corpo de Cristo cabe ao padre por três motivos.

Primeiro, porque… é ele que consagra assumindo o lugar de Cristo. Ora, o próprio Cristo distribuiu o seu Corpo durante a Ceia. Portanto, assim (como) a consagração do Corpo de Cristo cabe ao padre, é também a ele que cabe a sua distribuição.

Segundo, porque o padre foi instituído intermediário entre Deus e os homens. Por conseguinte, como tal, é ele que deve encaminhar a Deus as oferendas dos fiéis e também levar aos fiéis as dádivas santificadas por Deus.

Terceiro, porque, por respeito por este Sacramento, ele não é tocado por nada que não seja consagrado. Por causa disto, o corporal e o cálice são consagrados e igualmente as mãos do padre o são, para tocar este Sacramento. Assim, nenhuma pessoa tem o direito de o tocar, a não ser em casos de necessidade como, por exemplo, se o Sacramento cair no chão, ou casos semelhantes” (Summa, III pars, Qu. 82, art 3).

 

Em 1551, o Concílio Ecumênico6 de Trento, também, repetiu o ensinamento tradicional da Igreja por causa dos desvios dos protestantes:

 

“Na comunhão sacramental sempre foi costume na Igreja de Deus receberem os leigos a comunhão das mãos do sacerdote… . Com razão e justiça se deve conservar este costume como proveniente da Tradição apostólica” (Sessão XIII, de 11-10-1551 – Decreto sobre a Santíssima Eucaristia – capítulo 8).

 

O Concílio Vaticano II, porém, nada decidiu e decretou sobre a maneira de comungar: se de pé ou de joelhos, se na mão ou se deve o Corpo do Senhor ser depositado pelo padre na língua do comungante.

Foi a Sagrada Congregação dos Ritos que se manifestou sobre o assunto em questão pela Instrução “Memoriale Dómini”, redigida “por mandato especial de Paulo VI e por ele mesmo aprovada em razão de sua autoridade apostólica”, a 28 de maio de 1969.

Esta Instrução, que traz as assinaturas do Cardeal Gut e do Monsenhor A. Bugnini, Prefeito e Secretário daquela Congregação, foi suscitada por solicitações dirigidas à Santa Sé por umas poucas Conferências Episcopais (que já faziam uso da Comunhão na mão, como é dito na própria Instrução, sem qualquer licença para isso).

E, em função dessas poucas solicitações, a norma apostólica sobre a comunhão: (I) que deve ser dada pelos ministros do culto, (II) que não deve ser tocada por mãos não consagradas, e (III) que deve por isso mesmo ser recebida na boca, será alterada em 1969.

 

 

B) A cronologia das mudanças

 

Antes de entrar no mérito do conteúdo da “Memoriale Dómini” julgo ser interessante apresentar a cronologia das alterações relativas à Missa e do modo de receber a Comunhão:

[03-04-69] Paulo VI aprova a Constituição “Missale Romanum”, reformando o rito da Missa (ainda sem missal).
[06-04-69] A Sagrada Congregação de Ritos promulga o novo Ordo Missae, com sua “Institutio Generalis”, que deveria entrar em vigor a 30-11-69.


[28-05-69] Paulo VI aprova a Instrução “Memoriale Dómini”, permitindo a comunhão na mão.
[19-06-69] A Congregação para o Culto Divino por carta dirigida ao Presidente da Conferência Episcopal da França autoriza a comunhão na mão, ainda que contrariando a recente “Institutio Generalis” – a “Instrução Geral” do novo Missal – cujo artigo 80 diz que a patena é um dos objetos que se deve preparar para a celebração da Missa e cujo artigo 117 descreve a maneira como se deve efetuar a comunhão: … O fiel responde: Amém e sustentando a patena debaixo do seu rosto recebe o sacramento7.


[23-09-69] Data constante do Livreto “Liturgia da Missa” com a “Tradução Oficial para o Brasil” da Nova Missa, aprovada pela CNBB e pela Sagrada Congregação do Culto Divino.
[20-10-69] Data da Instrução da Congregação para o Culto Divino: “De constitutione missale romanum gradatim ad effectum decudenda” (Instrução sobre a Aplicação Progressiva da Constituição Apostólica “Missale Romanum”), ficando a introdução do Novus Ordo Missae diferida para 28-11-71.

 

As regras da Nova Missa a respeito do modo de comungar, constantes da Instrução Geral da Constituição “Missale Romanum”, estavam, portanto, superadas antes mesmo de terem entrado em vigor e, na prática, uma Instrução vai alterar não só essa Constituição, como, também, indiretamente, aquela que tinha sido aprovada pelo Vaticano II, ou seja, a “Sacrosanctum Concilium” sobre a Sagrada Liturgia. Vejamos, então, a Instrução “Memoriale Dómini”.

IX – A “Memoriale Dómini”

 

 

Na Instrução “Memoriale Dómini”, em sua introdução sobre o valor e o histórico do Sacramento Eucarístico, está dito que, em tempos muitos remotos, nas pequenas comunidades primitivas, a distribuição do Pão da Vida era feita nas mãos dos fiéis.

Contudo, apesar deste início – com o qual não concordo, como se vê pelo exposto acima – é importante transcrever longamente a “Memoriale Dómini”, pois este documento mostra e reconhece aquilo que estamos querendo demonstrar, como se vê pelas partes reproduzidas abaixo.

 

(Nota – Todas as transcrições da Instrução “Memoriale Dómini” que se seguem foram tiradas de artigos de Gustavo Corção, publicados em sua coluna no jornal “O Globo” dos dias 19, 21 e 26 de junho de 1975. Os destaques são, no entanto, todos do autor deste ensaio).

 

1) Os grandes cuidados que a Santa Igreja sempre teve com relação à Santa Eucaristia.

 

“As prescrições da Igreja e os textos dos Santos Padres atestam abundantemente o profundíssimo respeito e as grandes precauções que cercavam a Santa Eucaristia. Assim, “que ninguém (…) coma esta Carne, se antes a não adorou”; e a quem a come se dirige esta advertência: “…recebe com cuidado de nada perder. É em verdade o Corpo de Cristo”.

 

2) Que sempre foi assegurado o respeito que é devido ao Corpo do Senhor.

 

“Assim, a função de levar a Santa Eucaristia aos ausentes não tardou a ser exclusivamente confiada aos ministros sagrados, a fim de melhor assegurar o respeito devido ao Corpo de Cristo e também de melhor atender às necessidades dos fiéis”.

 

3) Que o aprofundamento da verdade do mistério eucarístico arraigou o costume de dar a comunhão na língua do comungante.

 

“Com o tempo, quando a verdade e a eficácia do mistério eucarístico, assim como a presença real do Cristo foram mais aprofundadas, tornou-se mais consciente o respeito devido a esse Santíssimo Sacramento e a humildade com a qual deve ser recebido, estabelecendo-se então o costume pelo qual deveria o próprio ministro colocar a partícula consagrada na língua do comungante”.

 

4) Que a “comunhão na boca” deve ser mantida.
 

“Levando em conta a situação atual da Igreja no mundo inteiro, esta maneira de distribuir a santa comunhão deve ser conservada, não somente em razão de sua multissecular tradição, mas principalmente porque exprime o respeito dos fiéis em relação à Eucaristia. Este uso, aliás, em nada fere a dignidade pessoal de quem recebe tão alto sacramento, ao contrário favorece a preparação exigida para que o Corpo de Deus seja recebido de maneira frutuosa”.

Mas, então, por que um grande número de sacerdotes se nega a dar a comunhão da maneira que, como diz a própria “Memoriale Dómini”, dá mais frutos? Por que querem tornar obrigatória a “comunhão na mão”?

Continuamos, abaixo, com a “Memoriale Dómini”.

 

5) Que a “comunhão na boca” é a maneira tradicional de comungar, que assegura o respeito, o decoro e a dignidade que devem cercar o Corpo do Senhor.

 

“Esse respeito bem exprime que não se trata de «um pão e uma bebida comuns», mas do Corpo e do Sangue do Senhor, pelo qual o povo de Deus participa dos bens do sacrifício pessoal, re-atualiza a Nova Aliança uma vez por todas selada por Deus com os homens no Sangue de Cristo e na fé e esperança prefigura e antecipa o banquete escatológico no Reino do Pai”.

“Além disso, essa maneira de fazer, que já deve ser considerada como tradicional, assegura mais eficazmente o respeito, o decoro e a dignidade com que convém distribuir a Santa Comunhão,…”.

 

6) Que a “comunhão na boca” evita as profanações.

 

“(com que convém distribuir a Santa Comunhão), garante também o afastamento de qualquer perigo de profanação das espécies eucarísticas, nas quais, ‘de um modo único o Cristo total e inteiro, Deus e homem, se acha presente substancialmente e permanentemente’; e enfim, essa maneira de ministrar o sacramento assegurava (este verbo no passado é uma antecipação do que vem mais adiante8) a cuidadosa atenção relativa aos fragmentos sagrados como a Igreja sempre recomendou: ‘considera o que deixaste cair como parte de teus membros que assim te falarão’”.

Este final não é um reconhecimento de que a “comunhão na mão” não protege adequadamente as partículas sagradas?

Além disso, como diz Gustavo Corção, já vemos que a Santa Sé parece ter “a firme intenção de reafirmar o desejo de cercar a Santa Eucaristia de todas as garantias e respeitos assegurados pela tradição e não pode ver com simpatias as poucas Conferências Episcopais (ver Cap.7, a seguir) que solicitavam a adoção do rito da ‘comunhão na mão’”. Era ainda de se esperar que a Santa Sé fosse contra os abusos que estavam sendo cometidos, pois já estava sendo praticado um rito antes de ter sido obtida a necessária permissão para fazê-lo.

Voltemos, porém, à “Memoriali Dómini”.

 

7) Que a “comunhão na mão” foi pedida por uns poucos e que todos os bispos foram consultados, apesar dos perigos previsíveis, sobre a alteração da verdadeira doutrina.

 

“Por isso9, diante do pedido formulado por um pequeno número de Conferências Episcopais e certos bispos a título individual para que nos seus territórios fosse permitido o uso da comunhão na mão, o Soberano Pontífice decidiu consultar todos os bispos da Igreja latina sobre o que pensam da oportunidade de introduzir esse rito.

Com efeito, mudanças introduzidas em matéria tão grave, que se prende à tradição tão antiga e venerável, não somente tocam a disciplina, mas também podem acarretar perigos que, como todos tememos, nasceriam eventualmente desse novo modo de distribuir a santa comunhão, isto é, um respeito menor pelo augusto sacramento do altar, uma profanação desse sacramento ou ainda uma alteração da verdadeira doutrina (sic)”.

 

“Por que, então, pergunta Gustavo Corção, diante de tão evidente desaconselhável alteração pedida por um pequeno número de CNBB’s e não justificada por nenhum motivo plausível, a não ser o de contrariar e romper e contrariar a tradição?

Não entendemos o acatamento que pode merecer tão insólito pedido depois de tudo o que sabemos e do que acabamos de ler. E quando lemos no próprio documento que os pouco numerosos solicitantes já praticam sem licença aquilo para o que solicitam permissão [ver Cap. 9, adiante], ainda menos entendemos o redobrado acatamento que leva o Soberano Pontífice a consultar os bispos do mundo inteiro.

Não terão os redatores de tal Instrução da Congregação para o Culto Divino percebido que a insistência de tão desproporcionada consulta viria diminuir a autoridade da secular tradição, a autoridade do Concílio de Trento, do Vaticano I e do Vaticano II, e finalmente a augusta autoridade do sucessor de Pedro – tudo isso para atender a umas poucas agremiações de duvidosíssima catolicidade?

Temos a penosa impressão, conclui Corção, de que alguém em Roma tem a esperança de obter um resultado contrário ao que este próprio documento insistentemente ensina”.

 

8) Que o resultado da consulta universal mostrou que a grande maioria dos bispos foi contra a “comunhão na mão”, como está dito na própria “Memoriale Dómini”.

 

“Essas respostas mostram, então, que uma forte maioria dos bispos acham que nada deve ser mudado na disciplina atual; e que, tal mudança ofenderia o sentimento e a delicadeza espiritual desses bispos e de numerosos fiéis.”

“Assim sendo e levando em conta as observações e conselhos daqueles que ‘o Espírito Santo constituiu administradores para governar’ as Igrejas (Cf. At.20,28), em vista da gravidade do assunto e do valor dos argumentos invocados, o Soberano Pontífice não pensou dever mudar a maneira tradicional de distribuir a santa comunhão aos fiéis.”

“Por isso a Santa Sé exorta vivamente os bispos, os padres e os fiéis a respeitar atentamente a lei de sempre que permanece em vigor e que se acha confirmada novamente levando em conta tanto o julgamento emitido pela maioria do episcopado católico, quanto a forma utilizada atualmente na santa liturgia e enfim o bem comum da Igreja.”

 

9) Que, porém, surpreendentemente, a Santa Sé — depois de ter concluído que o respeito ao Santíssimo Sacramento e o bem comum da Igreja exigiam vigorosamente a manutenção do rito tradicional depois do resultado da consulta formulada a todos os bispos e apesar de ter Paulo VI dito que não pensava dever mudar a maneira tradicional de distribuir a comunhão — a Santa Sé (repetimos) autorizou o uso da “comunhão na mão” nos lugares onde tal prática já havia sido introduzida.

 

“Mas nos lugares onde já foi introduzido um costume diferente – o de depositar a santa comunhão na mão – a Santa Sé, a fim de ajudar as Conferências Episcopais a desempenhar sua tarefa pastoral, tornadas tantas vezes mais difícil nas atuais circunstâncias, confia a essas mesmas Conferências o encargo e o dever de pesar com cuidado as circunstâncias particulares que poderiam existir, sob a condição, no entanto, de afastar qualquer risco de falta de respeito ou de opiniões falsas que poderiam se insinuar nos espíritos em relação à Santíssima Eucaristia e evitar cuidadosamente todos os outros inconvenientes.

 

“A Santa Sé examinará cada caso atentamente, levando em conta os vínculos existentes entre as diferentes igrejas locais, assim como entre cada uma delas e a Igreja universal a fim de promover o bem comum e a edificação comum para que o exemplo mútuo aumente a fé e a piedade.”

Desnecessário será, talvez, dizer que, a partir daí (antes mesmo da entrada em vigor da Nova Missa), este novo procedimento tornou-se universal, utilizado tanto pelas dioceses que já usavam o rito da “comunhão na mão” como também pelas que não o empregavam e, mais ainda, muitos celebrantes se recusam a dar a comunhão segundo a maneira tradicional, tornando assim obrigatório o novo costume, apesar do mesmo permitir a ocorrência de profanações e sacrilégios.

 

10) Que os bispos, inclusive os que foram contra a “comunhão na mão”, tomaram conhecimento da “Memoriale Dómini” por intermédio das Conferências Episcopais.

 

“Esta instrução redigida por mandato especial do Sumo Pontífice Paulo VI foi aprovada por ele mesmo em virtude de sua autoridade apostólica em 28 de maio de 1969 e ele decidiu que a mesma seja levada ao conhecimento dos bispos por intermédio dos presidentes das Conferências Episcopais. Revogadas todas as disposições em contrário.”

 

Assim sendo, em junho de 1969, logo depois de aprovada a “Memorile Dómini”, por carta dirigida ao presidente da Conferência Episcopal da França, a Congregação para o Culto Divino autorizava a “comunhão na mão”, naquele país, a discrição de cada bispo.

X – Conclusões.

 

 

Monsenhor Bugnini10, responsável pela reforma litúrgica e pela Nova Missa, estava implantando rapidamente a “comunhão na mão”.

 

Não diz a “Memoriale Dómini” que “o próprio ministro deve colocar a partícula consagrada na língua do comungante”? Que “esta maneira de distribuir a santa comunhão deve ser conservada”? que esta é “a lei de sempre que permanece em vigor”?

 

Via de regra, não é isto o que se vê.

A comunhão na boca é a maneira de distribuir a comunhão que deve ser preservada, como reconheceu a própria “Memoriale Dómini”, mas, na prática, a comunhão é, hoje em dia, em quase toda parte e em quase todos os casos, nas Missas ou fora delas, recebida de pé e na mão.

Em 1961, o monge progressista Dom Adrien Nocent, na obra em que defendia a implantação de uma nova liturgia, já pedia a adoção desse rito. Paulo VI “não pensou dever mudar a maneira tradicional” de distribuir a santa comunhão, porém, por mandato especial dele, o maçon Monsenhor Bugnini o fez com a ajuda das Conferências Episcopais.

O uso da “comunhão na mão”, como diz Gustavo Corção, “hoje mais do que nunca expõe o Santíssimo Sacramento da Eucaristia a inimagináveis profanaçõesque aliás parecem ser o objetivo, muito logicamente, desejado pelas entidades que querem destruir a Igreja e transformar o Cristianismo num Humanismo, que depressa se tornará desumano e infra-humano”.

 

Existe, ainda, uma outra razão que também contribuiu para que fosse mudada a maneira tradicional de distribuir a santa comunhão: um desejado falso ecumenismo. Se a Eucaristia é um símbolo materializando a simples lembrança de um acontecimento passado (como querem os protestantes) é inteiramente lógico que haja pouca preocupação com as migalhas que inclusive podem cair no chão (e serem pisadas).

Mas se se trata da presença do próprio Deus, de nosso Criador, como o quer a fé da Igreja, como compreender que se admita uma tal prática e até que se a encoraje? A idéia que se esforça por inculcar, assim, com tal procedimento, é uma idéia protestante, contra a qual se rebelam os católicos ainda não contaminados. Para melhor impô-la, os fiéis são obrigados a comungar de pé.

 

Tanto faz se o que acarretou a mudança da maneira tradicional de comungar foram as atividades maçônicas ou o desejo de implantar uma outra religião, humanista ou protestante, porque o resultado desejado é o mesmo: a destruição da Igreja Católica TradicionalE é uma destruição realizada dentro da própria Igreja, pois o que se verifica “é a existência de uma Outra Igreja que, com grande parte do clero da Igreja Católica, quer destruí-la em nome da evolução“, como bem disse Gustavo Corção.

Os católicos passaram a comungar o Corpo do Senhor de pé e na mão e, conseqüentemente, a devoção para com o Santíssimo Sacramento é afetada.

Além da falta de respeito, quando uma patena é utilizada, mesmo se as comunhões são pouco numerosas, nela ficam sempre partículas (as “pérolas”). Por conseguinte, estas partículas ficam agora nas mãos dos fiéis. E ninguém se importa maisO respeito ao Corpo do Senhor diminui, a fé se abala.

A “comunhão de pé e na mão” é uma manifestação pública de falta de fé na presença real de Nosso Senhor Jesus Cristo na Eucaristia. “O pão, que Eu darei, é a minha carne, para a vida do mundo” (Jo.6,51), e, por causa da dureza desta linguagem, muitos discípulos, então, na Galiléia, se afastaram de Jesus “e já não andavam mais com Ele” (Jo.6,66); já não eram mais discípulos.

Aqueles que, hoje, não reconhecem o Senhor na Hóstia consagrada já estão, também, afastados de Jesus e já não são mais católicos.


NOTAS: 


1) Frei Boaventura Kloppenburg – “Compêndio do Vaticano II” – 1983 – Editora Vozes – Petrópolis – pag. 11 e 12.

2) Essa Constituição diz que devem ser “salvarguardados os princípios dogmáticos estabelecidos pelo Concílio de Trento”, mas a seguir especifica os casos em que fica autorizada a “Comunhão sob as duas espécies” [Cap. II – O Sacrossanto Mistério da Eucaristia, nº 612, página 612 da obra citada na nota de rodapé nº 1]. Na prática, a abertura limitada da Constituição em pauta abriu as portas para inúmeros abusos.

Os princípios do Concílio de Trento foram estabelecidos na Sessão XXI, de 16-07-1562 – Doutrina da comunhão sob ambas as espécies e das crianças – capítulos 1 a 4, cânones 1 a 3.

3) Sessão XIII, de 11-10-1551 – Decreto sobre a Santíssima Eucaristia – capítulo 3, cânon 3.

4)  Padre Pierre le Brun – “Explication de la Messe” – 1716 e re-editado em 1949 por Les Editons du CERF – Paris – página 421.

5) Discípulos de Ário. A heresia desse clérigo da Igreja teve início no século IV e é conhecida como “Arianismo”

6) Ecumênico está aqui empregado no sentido tradicional de “universalidade” ou de “catolicidade”, o qual era o único sentido existente na Igreja para “ecumenismo” (até o Vaticano II).

7) Louis Salleron – “La Nueva Misa” – 1978 – Editorial Iction – páginas 150, 151 e 156.

8) Esta observação entre parênteses é do autor deste ensaio.

9) Em lugar desse “Por isso”, caberia melhor um “Porém”, pois nada do que foi dito antes justifica o que se segue. 

10) Monsenhor Annibal Bugnini foi destituído de sua função de Secretário da Congregação do Culto Divino, em 1976, quando se tornou evidente que era membro da franco maçonaria, mas, quando ele foi enfim afastado, o mal já estava consumado.

 

Fonte: http://www.derradeirasgracas.com/2.%20segunda%20página/O%20Poder%20da%20Santa%20Missa/A%20Sacr%C3%ADlega%20Comunhão%20na%20mão..htm

Missa Tridentina na TV Canção Nova.

Olá irmãos e irmãs é com muita alegria que venho hoje falar de um acontecimento que me alegra muito, recentemente na TV Canção Nova está havendo  a celebração da Missa na Forma Extraordinária do Rito Romano( A MISSA TRIDENTINA).
Que tenho que dizer que é um sonho meu, sempre pensei, porque a TV Canção Nova não celebra a Missa Tridentina… Deus ouviu minhas preces!! Venho repostar um texto do blog  Ecclesia Una que acompanho sempre.
Segue abaixo.

Comunidade Canção Nova acolhe Missa na Forma Extraordinária do Rito Romano

16/07/2012 por Everth Queiroz Oliveira

Recentemente a comunidade Canção Nova vem sendo palco de uma verdadeira reforma litúrgica. Como exemplos, poderíamos citar a piedade e sacralidade com que as festas da Semana Santa foram celebradas; e também o zelo com que foi conduzida a solenidade de Corpus Christi. E isto tudo ainda este ano.

Pois bem, no dia de ontem (15), a comunidade de Cachoeira Paulista acolheu a Santa Missa na Forma Extraordinária do Rito Romano – a Missa Tridentina! O Sacrifício foi celebrado pelo reverendíssimo padre Demétrio Gomes, da Arquidiocese de Niterói. Salvem a Liturgia! havia divulgado de antemão esta feliz notícia, avisando que, embora fosse este um grande passo, desta vez a celebração não seria transmitida na televisão. Os que tinham acesso à Internet ontem à noite, porém, tiveram a oportunidade de participar ao vivo deste belíssimo momento de oração. Isto porque o Santo Sacrifício foi transmitido pela Twitcam (e aqueles que não tiveram a oportunidade de assistir ontem, podem assistir, hoje, ao vídeo gravado). Foram publicadas, também na Internet, fotos do evento (agradecimentos ao Rafael Cresci, que disponibilizou as imagens no Facebook), as quais compartilhamos abaixo.

O banquete do Cordeiro “Uma Mulher vestida de Sol”

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Apocalípse 12, a visão que João tem da mulher vestida de sol, retrata a essência do livro do Apocalípse. Com muitos níveis de sentido, mostra um acontecimento passado que prefigura um acontecimento do futuro distante.

Recapitula o AT ao mesmo tempo em que se completa o Novo. Revela o céu, mas em imagens da terra.

A visão de João começa com a abertura do templo de Deus no céu: ” e a arca da aliança apareceu em seu templo” (Ap 11,19). Talvez não apreciemos plenamente o valor do choque desse versículo. A arca da aliança não tinha sido vista durante cinco séculos. No tempo do cativeiro babilônico, o profeta Jeremias havia escondido a arca em um lugar que “ficará desconhecido até que Deus haja consumado a reunião do seu povo” (2Mc 2,7).

Essa promessa se cumpre na visão de João. O Templo apareceu e “houve relâmpagos, vozes, trovões, um terremoto e forte tempestade de granizo”. E então “Um grande sinal apareceu no céu: Uma mulher vestida de sol, a lua debaixo de seus pés e uma coroa de doze estrelas na cabeça; estava grávida”(Ap 12,1-2).

João não introduziu a arca só para desistir dela imediatamente. Scott crê (com os padres da Igreja) que quando João descreve a mulher ele descreve a arca – da nova aliança. E quem é essa mulher? É aquela que dá à luz o filho varão que deve apascentar todas as nações. O menino é Jesus, sua mãe é Maria.

O que tornava a arca original tão santa? Não o ouro que revestia o exterior, mas os dez mandamentos no interior – a lei que o dedo de Deus escreveu nas tábuas de pedra. O que mais havia no interior? Maná, o pão milagroso que alimentou o povo na caminhada pelo deserto; o bastão de Aarão que floresceu como sinal de sua função de sumo sacerdote ( veja Nm 17).

O que torna a nova arca santa? A antiga arca continha a Palavra de Deus escrita em pedra; Maria trazia em seu seio a Palavra de Deus que se fez homem e habitou entre nós. A arca continha maná; Maria trazia o pão vivo descido do céu. A arca continha o bastão do sumo sacerdote Aarão; o seio de Maria continha o sacerdote eterno, Jesus Cristo. No templo celeste, a Palavra de Deus é Jesus e a arca onde ele habita é Maria, sua mãe.

Se o menino é Jesus, então a mulher é Maria. Essa interpretação foi aprovada pelos mais racionais dos Padres da Igreja, santo Atanásio, santo Epifânio e muitos outros. Contudo, ” a mulher” também representa mais. Ela é a “filha de Sião”, que criou o Messias de Israel. É também a Igreja sitiada por Satanás, mas preservada em segurança.

Como Scott disse antes, as riquezas das Escrituras são infinitas!

Outros biblistas argumentam que a mulher não é Maria pois, segundo a tradição católica, Maria não sofreu as dores físicas do parto.Entretanto, as dores da mulher não tem de ser dores físicas. São Paulo, por ex., descreveu como dores de parto sua agonia até Cristo ser formado em seus discípulos (veja Gl 4,19).Assim o que sofre a mulher pode ser descrito como sofrimento da alma – o que Maria conheceu perto da cruz , ao se tornar a mãe de todos os discípulos amados (veja Jo 19, 25-27).

Outros alegam que a mulher do Apocalípse não é Maria porque essa tem outros filhos e a Igreja ensina que Maria foi sempre virgem. Mas as Escrituras usam com frequência “prole” ( em grego, sperma)para descrever descendentes espirituais. Os filhos de Maria, sua prole espiritual, são “os que observam os mandamentos de Deus e guardam o testemunho de Jesus” (Ap 12,17). Somos a outra prole da mulher. Somos os filhos de Maria.

Assim, o Apocalípse também retrata Maria como a “nova Eva”, mãe de todos os viventes. No jardim do Édem, Deus prometeu por “hostilidade” entre satanás, a antiga serpente, e Eva – e entre a “descendência” de satanás e a dela (Gn 3,15).

Agora no Apocalípse, vemos o clímax dessa inimizade. A descendência da nova mulher, Maria, é o filho varão, Jesus Cristo, que vem derrotar a serpente (em hebraico, a mesma palavra, nahash, aplica-se ao dragão e a serpente).

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Esse é o admirável ensinamento dos Padres , Doutores, santos e papas da Igreja, antigos e modernos.É o ensinamento do Catecismo da Igreja Católica(veja n.1138). Entretanto, Scott precisa mencionar que não é apoiado por muitos biblistas de hoje.Contudo o ônus da prova cabe aos que discordam.

Na carta encíclica Ad Diem Illum Laetissimum, o papa são Pio X falou com eloquência pela Tradição:

Todos sabemos que essa mulher representa a Virgem Maria…Portanto, João viu a Santíssima Mãe de Deus já na eterna felicidade, mas em trabalho de um parto misterioso.Que parto é esse? Com certeza, era o nascimento de nós que, no exílio, ainda devemos ser gerados para a perfeita caridade de Deus e para a felicidade eterna.

Santo Agostinho de Hipona

Por Papa Bento XVI
Tradução: Élison Santos
Fonte: Vaticano/Zenit

A VIDA

Queridos irmãos e irmãs:

Depois das grandes festividades natalinas, quero voltar a meditar sobre os padres da Igreja e falar hoje do maior padre da Igreja Latina, Santo Agostinho: homem de paixão e de fé, de elevadíssima inteligência e de incansável entrega pastoral. Este grande santo e doutor da Igreja é conhecido, ao menos de nome, inclusive por quem ignora o cristianismo ou não tem familiaridade com ele, por ter deixado uma marca profunda na vida cultural do Ocidente e de todo o mundo.

Por sua singular relevância, Santo Agostinho teve uma influência enorme e poderia afirmar-se, por uma parte, que todos os caminhos da literatura cristã latina levam a Hipona (hoje Anaba, na costa da Argélia), localidade na qual era bispo e, por outra, que desta cidade da África romana, na qual Agostinho foi bispo desde o ano 395 até 430, partem muitos outros caminhos do cristianismo sucessivo e da própria cultura ocidental.

Poucas vezes uma civilização encontrou um espírito tão grande, capaz de acolher os valores e de exaltar sua intrínseca riqueza, inventando idéias e formas das quais se alimentariam as gerações posteriores, tal como sublinhou também Paulo VI: «Pode-se dizer que todo o pensamento da antiguidade conflui em sua obra e dessa se derivam correntes de pensamento que penetram toda a tradição doutrinal dos séculos posteriores» (AAS, 62, 1970, p. 426).

Agostinho é também o padre da Igreja que deixou o maior número de obras. Seu biógrafo, Posídio, diz: parecia impossível que um homem pudesse escrever tanto em vida. Em um próximo encontro falaremos destas obras. Hoje, nossa atenção se concentrará em sua vida, que pôde reconstruir-se com seus escritos, e em particular com as «Confissões», sua extraordinária biografia espiritual escrita para louvor de Deus, sua obra mais famosa.

As «Confissões» constituem, precisamente por sua atenção à interioridade e à psicologia, um modelo único na literatura ocidental, e não só ocidental, inclusive a não-religiosa, ate a modernidade.

Esta atenção pela vida espiritual, pelo mistério do eu, pelo mistério de Deus que se esconde no eu, é algo extraordinário, sem precedentes, e permanece para sempre como um «cume» espiritual.

Mas voltamos à sua vida. Agostinho nasceu em Tagaste, na província de Numídia, na África romana, em 13 de novembro de 354, filho de Patrício, um pagão que deopis chegou a ser catecúmeno, e de Mônica, fervorosa cristã.

Esta mulher apaixonada, venerada como santa, exerceu em seu filho uma enorme influência e o educou na fé cristã. Agostinho havia recebido também o sal, como sinal da acolhida no catecumenato. E sempre se fascinou pela figura de Jesus Cristo; e mais, diz que sempre amou Jesus, mas que se afastou cada vez mais da fé eclesial, da prática eclesial, como acontece também hoje com muitos jovens.

Agostinho tinha também um irmão, Navigio, e uma irmã, da qual desconhecemos o nome e que, após ficar viúva, converteu-se em superiora de um mosteiro feminino.

O rapaz, de agudíssima inteligência, recebeu uma boa educação, ainda que nem sempre foi estudante exemplar. De qualquer forma, aprendeu bem a Gramática, primeiro em sua cidade natal e depois em Madaura e, a partir do ano 370, Retórica, em Cartago, capital da África romana: chegou a dominar perfeitamente o Latim, mas não alcançou o mesmo nível em grego, nem aprendeu o púnico, língua que seus antepassados falavam.
Em Cartago, Agostinho leu pela primeira vez o «Hortensius», obra de Cícero que depois se perderia e que se marca no início de seu caminho rumo à conversão. O texto ciceroniano despertou nele o amor pela sabedoria, como escrevia já sendo bispo nas «Confissões»: «Aquele livro mudou meus sentimentos», até o ponto de que «de repente todas as minhas vãs esperanças envelheceram ante meus olhos e comecei a acender-me em um incrível ardor do coração por uma sabedoria imortal» (III, 4, 7).

Mas, dado que estava convencido de que sem Jesus não se pode dizer que se encontrou efetivamente a verdade, e dado que nesse livro apaixonante faltava esse nome, ao acabar de lê-lo começou a ler a Escritura, a Bíblia. Ficou decepcionado. Não só porque o estilo da tradução ao Latim da Sagrada Escritura era deficiente, mas também porque o mesmo conteúdo não lhe parecia satisfatório.

Nas narrações da Escritura sobre guerras e outras vicissitudes humanas, ele não encontrava a altura da filosofia, o esplendor da busca da verdade que lhe é próprio. Contudo, não queria viver sem Deus e buscava uma religião que respondesse a seu desejo de verdade e também a seu desejo de aproximar-se de Jesus.

Desta maneira, caiu na rede dos maniqueístas, que se apresentavam como cristãos e prometiam uma religião totalmente racional. Afirmavam que o mundo está dividido em dois princípios: o bem e o mal. E assim se explicaria toda a complexidade da história humana. A moral dualista também atraía Santo Agostinho, pois comportava uma moral muito elevada para os eleitos: e para quem, como ele, aderia à mesma era possível uma vida muito mais adequada à situação da época, especialmente se era jovem.

Tornou-se, portanto, maniqueísta, convencido nesse momento de que havia encontrado a síntese entre racionalidade, busca da verdade e amor a Jesus Cristo. E tirou uma vantagem concreta para sua vida: a adesão aos maniqueístas abria fáceis perspectivas de carreira. Aderir a essa religião, que contava com muitas personalidades influentes, permitia-lhe continuar sua relação com uma mulher e continuar com sua carreira.

Desta mulher teve um filho, Adeodato, a quem amava muito, sumamente inteligente, que depois estaria presente em sua preparação para o batismo no lago de Como, participando nesses «Diálogos» que Santo Agostinho nos deixou. Infelizmente, o rapaz faleceu prematuramente.

Sendo professor de Gramática, por volta dos vinte anos, em sua cidade natal, logo regressou a Cartago, onde se converteu em um brilhante e famoso professor de Retórica. Com o passar do tempo, contudo, Agostinho começou a afastar-se da fé dos maniqueístas, que o decepcionaram precisamente desde o ponto de vista intelectual, pois eram incapazes de resolver suas dúvidas, e se transferiu a Roma, depois a Milão, onde residia na corte imperial e onde havia obtido um cargo de prestígio, por recomendação do prefeito de Roma, o pagão Símaco, que era hostil ao bispo de Milão, Santo Ambrósio.

Em Milão, Agostinho se acostumou a escutar, em um primeiro momento com o objetivo de enriquecer sua bagagem retórica, as belíssimas pregações do bispo Ambrósio, que havia sido representante do imperador para a Itália do Norte. O retórico africano ficou fascinado pela palavra do grande prelado milanês, não só por sua retórica. O conteúdo foi tocando cada vez mais seu coração.

O grande problema do Antigo Testamento, a falta de beleza retórica, de nível filosófico, resolveu-se com as pregações de Santo Ambrósio, graças à interpretação tipológica do Antigo Testamento: Agostinho compreendeu que todo o Antigo Testamento é um caminho para Jesus Cristo. Deste modo, encontrou a chave para compreender a beleza, a profundidade inclusive filosófica do Antigo Testamento e compreendeu toda a unidade do mistério de Cristo na história, assim como a síntese entre filosofia, racionalidade e fé no Logos, em Cristo, Verbo eterno, que se fez carne.

Depois, Agostinho percebeu que a literatura alegórica da Escritura e a filosofia neoplatônica do bispo de Milão lhe permitiam resolver as dificuldades intelectuais que, quando era mais jovem, em seu primeiro contato com os textos bíblicos, haviam lhe parecido insuperáveis.

Agostinho continuou a leitura dos escritos dos filósofos com a da Escritura, e sobretudo das cartas de São Paulo. A conversão ao cristianismo, em 15 de agosto de 386, marcou portanto o final de um longo e agitado caminho interior, do qual continuaremos falando em outra catequese. O africano se mudou para o campo, ao norte de Milão, ao longo de Como, com sua mãe, Mônica, o filho Adeodato, e um pequeno grupo de amigos, para preparar-se para o batismo. Deste modo, aos 32 anos, Agostinho foi batizado por Ambrósio em 24 de abril de 387, durante a vigília pascoal na catedral de Milão.

Após o batismo, Agostinho decidiu regressar à África com seus amigos, com a idéia de levar vida em comum, de caráter monástico, ao serviço de Deus. Mas em Óstia, enquanto esperava para embarcar, sua mãe se enfermou e pouco depois morreu, destroçando o coração do filho.

Após regressar finalmente à sua pátria, o convertido se estabeleceu em Hipona para fundar um mosteiro. Nessa cidade da costa africana, apesar de resistir-se à idéia, foi ordenado presbítero no ano 391 e começou com alguns companheiros a vida monástica na qual estava pensando há algum tempo, dividindo seu tempo entre a oração, o estudo e a pregação.

Queria estar ao serviço da verdade, não se sentia chamado à vida pastoral, mas depois compreendeu que o chamado de Deus significava ser pastor entre os demais e assim oferecer o dom da verdade aos outros. Em Hipona, quatro anos depois, no ano 395, foi ordenado bispo.

Continuando com o aprofundamento no estudo das Escrituras e dos textos da tradição cristã, Agostinho se converteu em um bispo exemplar, com um incansável compromisso pastoral: pregava várias vezes por semana a seus fiéis, ajudava os pobres e os órfãos, atendia a formação do clero e a organização dos mosteiros femininos e masculinos.

Em pouco tempo, o antigo professor de Retórica se converteu em um dos expoentes mais importantes do cristianismo dessa época: sumamente ativo no governo de sua diocese, com notáveis implicações também civis, em seus mais de 35 anos de episcopado, o bispo de Hipona exerceu uma ampla influência na guia da Igreja Católica da África romana e mais em geral no cristianismo de sua época, enfrentando tendências religiosas e heresias tenazes e desagregadoras, como o maniqueísmo, o donatismo e o pelagianismo, que colocavam em perigo a fé cristã no único Deus e rico em misericórdia.

Agostinho se confiou a Deus cada dia, até o final de sua vida: contraiu febre, enquanto a cidade de Hipona se encontrava assediada há quase três meses por vândalos invasores. O bispo, conta seu amigo Posídio na «Vita Augustini», pediu que transcrevessem com letra grande os salmos penitenciais «e pediu que colassem as folhas na parede, de maneira que desde a cama em sua enfermidade pudesse ver e ler, e chorava sem interrupção lágrimas quentes» (31, 2). Assim passaram os últimos dias da vida de Agostinho, que faleceu em 28 de agosto do ano 430, sem ter completado 76 anos. Dedicaremos os próximos encontros a suas obras, à sua mensagem e à sua experiência interior.

A CONVERSÃO

Após vermos sua vida, (…) hoje quero (…) recordar sua experiência interior, que fez dele um dos maiores convertidos da história cristã. A esta experiência dediquei em particular minha reflexão durante a peregrinação que fiz a Pavia, no ano passado, para venerar os restos mortais deste Padre da Igreja. Deste modo quis expressar a homenagem de toda a Igreja Católica, e ao mesmo tempo tornar visível minha pessoal devoção e reconhecimento por uma figura à qual me sinto sumamente unido pela importância que teve em minha vida de teólogo, de sacerdote e de pastor.

Ainda hoje é possível recorrer às vivências de Santo Agostinho, graças sobretudo às «Confissões», escritas para o louvor de Deus, que constituem a origem de uma das formas literárias mais específicas do Ocidente, a autobiografia, ou seja, a expressão do conhecimento de si mesmo. Quem quer que se aproxime deste extraordinário e fascinante livro, ainda hoje sumamente lido, percebe facilmente que a conversão de Agostinho não foi repentina nem aconteceu plenamente desde o início, mas que pode ser definida mais como um autêntico caminho, que continua sendo um modelo para cada um de nós.

Este itinerário culminou certamente com a conversão e depois com o batismo, mas não se concluiu com aquela vigília pascal do ano 387, quando em Milão o professor de retórica africano foi batizado pelo bispo Ambrósio. O caminho de conversão de Agostinho continuou humildemente até o final de sua vida, até o ponto de que se pode verdadeiramente dizer que suas diferentes etapas – podemos distinguir facilmente três – são uma única e grande conversão.

A primeira conversão

Santo Agostinho foi um buscador apaixonado da verdade: desde o início e depois durante toda a sua vida. A primeira etapa em seu caminho de conversão se realizou precisamente na aproximação progressiva ao cristianismo. Na realidade, ele havia recebido da mãe Mônica, com a qual sempre esteve muito unido, uma educação cristã e, apesar de que havia vivido nos anos de juventude uma vida desordenada, sempre sentiu uma profunda atração por Cristo, tendo bebido o amor pelo nome do Senhor com o leite materno, como ele mesmo sublinha (cf. «Confissões», III, 4, 8).

Mas a filosofia, sobretudo a de orientação platônica, também havia contribuído para aproximá-lo de Cristo, manifestando-lhe a existência do Logos, a razão criadora. Os livros dos filósofos lhe indicavam que existe a razão, da qual procede todo o mundo, mas não lhe diziam como alcançar este Logos, que parecia tão afastado. Só a leitura das cartas de São Paulo, na fé da Igreja Católica, revelou-lhe plenamente a verdade. Esta experiência foi sintetizada por Agostinho em uma das páginas mais famosas das «Confissões»: conta que, no tormento de suas reflexões, retirado em um jardim, escutou de repente uma voz infantil que repetia uma canção, nunca antes escutada: «tolle,, lege, tolle, lege», «toma, lê, toma, lê» (VIII, 12, 29). Então se lembrou da conversão de Antônio, pai do monaquismo, e com atenção voltou a tomar um livro de São Paulo que pouco antes tinha entre as mãos: abriu-o e o olhar se fixou na passagem da carta aos Romanos na qual o apóstolo exorta a abandonar as obras da carne e a revestir-se de Cristo (13, 13-14).

Ele havia compreendido que essa palavra, naquele momento, dirigia-se pessoalmente a ele, procedia de Deus através do apóstolo e lhe indicava o que ele tinha de fazer nesse momento. Deste modo sentiu como desapareciam as trevas da dúvida e era libertado para entregar-se totalmente a Cristo: «Havias convertido a ti meu ser», comenta («Confissões», VIII, 12, 30). Esta foi a primeira e decisiva conversão.

O professor de retórica africano chegou a esta etapa fundamental em seu longo caminho graças à sua paixão pelo homem e pela verdade, paixão que o levou a buscar a Deus, grande e inacessível. A fé em Cristo o fez compreender que Deus não estava tão afastado como parecia. Ele se havia feito próximo de nós, convertendo-se em um de nós. Neste sentido, a fé em Cristo levou a cumprimento a longa busca de Santo Agostinho no caminho da verdade. Só um Deus que se fez «tocável», um de nós, era, em última instância, um Deus ao qual se podia rezar, pelo qual se podia viver e com o qual se podia viver.

A segunda conversão

É um caminho que deve ser percorrido com valentia e ao mesmo tempo com humildade, abertos a uma purificação permanente, algo que cada um de nós sempre precisa. Mas o caminho de Agostinho não havia concluído com aquela vigília pascal do ano 387, como dissemos. Ao regressar à África, fundou um pequeno mosteiro e se retirou nele, junto a uns poucos amigos, para dedicar-se à vida contemplativa e de estudo. Este era o sonho de sua vida. Agora estava chamado a viver totalmente para a verdade, com a verdade, na amizade de Cristo, que é a verdade. Um lindo sonho que durou três anos, até que, apesar dele, foi consagrado sacerdote em Hipona e destinado a servir aos fiéis. Certamente continuou vivendo com Cristo e por Cristo, mas ao serviço de todos. Isso era muito difícil para ele, mas compreendeu desde o início que só vivendo para os demais, e não simplesmente para sua contemplação privada, podia realmente viver com Cristo e por Cristo.

Deste modo, renunciando a uma vida consagrada só à meditação, Agostinho aprendeu, às vezes com dificuldade, a pôr à disposição o fruto de sua inteligência para benefício dos demais. Aprendeu a comunicar sua fé às pessoas simples e a viver assim para ela naquela cidade que se converteu na sua, desempenhando sem cessar uma generosa atividade, que descreve com estas palavras em um de seus belíssimos sermões: «Pregar continuamente, discutir, repreender, edificar, estar à disposição de todos, é um ingente cargo e um grande peso, um enorme cansaço» («Sermões» 339, 4). Mas ele carregou este peso, compreendendo que precisamente deste modo podia estar mais próximo de Cristo. Sua segunda conversão consistiu em compreender que se chega aos demais com simplicidade e humildade.

A terceira conversão

Mas há uma última etapa no caminho de Agostinho, uma terceira conversão: é a que o levou cada dia de sua vida a pedir perdão a Deus. Ao início, havia pensado que uma vez batizado, na vida de comunhão com Cristo, nos sacramentos na celebração da Eucaristia, chegaria à vida proposta pelo Sermão da Montanha: a perfeição doada no batismo e reconfirmada pela Eucaristia.

Na última parte de sua vida, ele compreendeu que o que havia dito em suas primeiras pregações sobre o Sermão da Montanha – ou seja, que nós, como cristãos, vivemos agora este ideal permanentemente – estava errado. Só o próprio Cristo realiza verdadeira e completamente o Sermão da Montanha. Nós temos sempre necessidade de ser levados por Cristo, que nos lava os pés, e de ser renovados por Ele. Temos necessidade de conversão permanente. Até o final precisamos desta humildade que reconhece que somos pecadores em caminho, até que o Senhor nos dá a mão definitivamente e nos introduz na vida eterna. Agostinho morreu com esta última atitude de humildade, vivida dia-a-dia.

Esta atitude de humildade profunda ante o único Senhor Jesus o introduziu na experiência de uma humildade também intelectual. Agostinho, que é uma das maiores figuras na história do pensamento, quis, nos últimos anos de sua vida, submeter a um lúcido exame crítico suas numerosas obras. Surgiram assim as «Retractationes» («revisões»), que deste modo introduzem seu pensamento teológico, verdadeiramente grande, na fé humilde e santa daquela à qual chama simplesmente com o nome de Catholica, ou seja, a Igreja. «Compreendi – escreve precisamente neste originalíssimo livro (I, 19 1-3) – que só um é verdadeiramente perfeito e que as palavras do Sermão da Montanha só são realizadas totalmente por um só: no próprio Jesus Cristo. Toda a Igreja, pelo contrário, todos nós, inclusive os apóstolos, temos de rezar cada dia: ‘perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido’».

Convertido a Cristo, que é verdade e amor, Agostinho o seguiu durante toda a vida e se converteu em um modelo para todo ser humano, para todos nós na busca de Deus. Por este motivo, eu quis concluir minha peregrinação a Pavia voltando a entregar espiritualmente à Igreja e ao mundo, ante o túmulo deste grande enamorado de Deus, minha primeira encíclica, Deus caritas est. Esta, de fato, tem uma grande dívida, sobretudo em sua primeira parte, com o pensamento de Santo Agostinho.

Também hoje, como em sua época, a humanidade tem necessidade de conhecer e sobretudo de viver esta realidade fundamental: Deus é amor, e o encontro com ele é a única resposta às inquietudes do coração humano. Um coração no qual vive a esperança – talvez ainda escura e inconsciente em muitos de nossos contemporâneos –, para nós, os cristãos, abre já hoje ao futuro, até o ponto de que São Paulo escreveu que «na esperança fomos salvos» (Romanos, 8, 24). À esperança quis dedicar minha segunda encíclica, Spe Salvi, que também contraiu uma grande dívida com Agostinho e seu encontro com Deus.

Um escrito sumamente lindo de Agostinho define a oração como expressão do desejo e afirma que Deus responde abrindo a ele o nosso coração. Por nossa parte, temos de purificar nossos desejos e nossas esperanças para acolher a doçura de Deus (cf. Santo Agostinho, «In Ioannis», 4, 6). Só esta nos salva, abrindo-nos também aos demais. Rezemos, portanto, para que em nossa vida nos seja concedido cada dia seguir o exemplo deste grande convertido, encontrando como ele, em todo momento de nossa vida, o Senhor Jesus, o único que nos salva, que nos purifica e nos dá a verdadeira alegria, a verdadeira vida.

AS OBRAS

(…) É o padre da Igreja que deixou o maior número de obras, e destas quero falar brevemente. Alguns dos escritos de Agostinho são de importância capital, e não só para a história do cristianismo, mas também para a formação de toda a cultura ocidental: o exemplo mais claro está na obra «Confissões», sem dúvida um dos livros da antiguidade cristã mais lidos ainda hoje. Como vários padres da Igreja dos primeiros séculos, ainda que em uma medida incomparavelmente mais ampla, também o bispo de Hipona exerceu uma influência persistente, como se pode ver pela superabundante tradição manuscrita de suas obras, que são extraordinariamente numerosas.

Ele mesmo as revisou anos antes de morrer nas «Retratações» e pouco depois de sua morte foram cuidadosamente registradas no «Indiculus» (Índice), acrescentado pelo fiel amigo Posídio à biografia de Santo Agostinho, «Vita Augustini». A lista das obras de Agostinho foi realizada com o objetivo explícito de salvaguardar sua memória, enquanto a invasão dos vândalos se estendia por toda a África romana, e contabiliza 1.300 escritos numerados por seu autor, junto com outros «que não podem ser numerados porque não colocou nenhum número». Bispo de uma cidade próxima, Posídio ditava estas palavras precisamente em Hipona, onde se havia refugiado e onde havia assistido à morte de seu amigo, e quase seguramente se baseava no catálogo da biblioteca pessoal de Agostinho. Hoje sobreviveram mais de 300 cartas do bispo de Hipona, e quase 600 homilias, mas estas eram originalmente muitas mais, talvez inclusive entre 3.000 e 4.000, fruto de quatro décadas de pregação do antigo orador, que havia decidido seguir Jesus e deixar de falar aos grandes da corte imperial para dirigir-se à população simples de Hipona.

Em anos recentes, a descoberta de um grupo de cartas e de algumas homilias enriqueceram o conhecimento deste grande padre da Igreja. «Muitos livros – escreve Posídio – foram redigidos por ele e publicados, muitas pregações foram pronunciadas na igreja, transcritas e corrigidas, ora para refutar hereges, ora para interpretar as Sagradas Escrituras para edificação dos santos filhos da Igreja. Estas obras – sublinha o bispo amigo – são tão numerosas que dificilmente um estudioso tem a possibilidade de lê-las e aprender a conhecê-las.» («Vita Augustini», 18, 9)

Entre a produção literária de Agostinho, portanto, mais de mil publicações divididas em escritos filosóficos, apologéticos, doutrinais, morais, monásticos, exegéticos e contra os hereges, assim como as cartas e homilias, destacam algumas obras excepcionais de grande importância teológica e filosófica. Antes de tudo, devem-se recordar as «Confissões», antes mencionadas, escritas em treze livros entre os anos 397 e 400 para louvor de Deus. São uma espécie de autobiografia em forma de diálogo com Deus. Este gênero literário reflete a vida de Santo Agostinho, que não estava fechada em si mesma, perdida em mil coisas, mas vivida essencialmente como um diálogo com Deus e, deste modo, uma vida com os demais.

Por si só, o título «Confissões» indica o caráter específico desta biografia. Esta palavra «confissões», no latim cristão desenvolvido pela tradição dos Salmos, tem dois significados, que se entrecruzam. «Confissões» indica, em primeiro lugar, a confissão das próprias fraquezas, da miséria dos pecados; mas ao mesmo tempo, «confissões» significa louvor a Deus, reconhecimento de Deus. Ver a própria miséria à luz de Deus se converte em louvor de Deus e em ação de graças, pois Deus nos ama e nos aceita, transforma-nos e nos eleva para si mesmo.

Ele mesmo escreveu sobre estas «Confissões», que tiveram grande êxito já na vida de Santo Agostinho: «Exerceram sobre mim um grande impacto enquanto as escrevia e o continuam exercendo quando volto a lê-las. Há muitos irmãos que gostam destas obras («Retratações», II, 6): e tenho de reconhecer que eu também sou um destes ‘irmãos’». E graças às «Confissões», podemos acompanhar, passo a passo, o caminho interior desse homem extraordinário e apaixonado por Deus.

Menos difundidas, ainda que igualmente originais e muito importantes são também as «Retratações» [Revisões], redigidas em dois livros por volta do ano 427, nas quais Santo Agostinho, já idoso, faz uma «revisão» («retractatio») de toda sua obra escrita, deixando assim um documento literário singular e sumamente precioso, mas ao mesmo tempo um ensinamento de sinceridade e de humildade intelectual.

«De civitate Dei» [A Cidade de Deus], obra imponente e decisiva para o desenvolvimento do pensamento político ocidental e para a teologia cristã da história, foi escrita entre os anos 413 e 426, em 22 livros. A ocasião era o saque de Roma por parte dos godos no ano 410. Muitos pagãos, ainda em vida, assim como muitos cristãos, haviam dito: Roma caiu, agora o Deus cristão e os apóstolos já não podem proteger a cidade. Durante a presença das divindades pagãs, Roma era a «caput mundi», a grande capital, e ninguém podia imaginar que cairia nas mãos dos inimigos. Agora, com o Deus cristão, esta grande cidade já não parecia segura. Portanto, o Deus dos cristãos não protegia, não podia ser o Deus a quem se encomendar. A esta objeção, que também tocava profundamente o coração dos cristãos, Santo Agostinho responde com esta grandiosa obra, «De civitate Dei», declarando o que deveriam esperar de Deus e o que não podiam esperar d’Ele, qual é a relação entre a esfera política e a esfera da fé, da Igreja. Ainda hoje este livro é uma fonte para definir bem a autêntica laicidade e a competência da Igreja, a grande esperança que nos dá a fé.

Este grande livro é uma apresentação da história da humanidade governada pela Providência divina, mas atualmente dividida em dois amores. E este é o desígnio fundamental, sua interpretação da história, a luta entre dois amores: o amor próprio, «até chegar ao menosprezo de Deus» e o amor a Deus, «até chegar ao desprezo de si mesmo», («De civitate Dei», XIV, 28), à plena liberdade e si mesmo através dos demais à luz de Deus. Este é talvez o maior livro de Santo Agostinho, de uma importância permanente.

Igualmente, é importante o «De Trinitate» [Sobre a Trindade], obra em quinze livros sobre o núcleo principal da fé cristã, a fé no Deus trinitário, escrita em dois momentos: entre os anos 399 e 412 os primeiros doze livros, publicados sem que Agostinho soubesse, ele que os completou por volta do ano 420 e revisou a obra completa. Nele reflete sobre o rosto de Deus e trata de compreender este mistério de Deus que é único, o único criador do mundo, de todos nós, e que, contudo, este Deus único é trinitário, um círculo de amor. Ele procura compreender o mistério insondável: precisamente seu ser trinitário, em três Pessoas, é a unidade mais real e profunda do único Deus.

O «De doctrina Christiana» [Sobre a doutrina cristã] é uma autêntica introdução cultural à interpretação da Bíblia e, em definitivo, ao próprio cristianismo, que teve uma importância decisiva na formação da cultura ocidental.

Apesar de toda sua humildade, Agostinho foi certamente consciente de sua própria importância intelectual. Mas para ele era mais importante levar a mensagem cristã aos simples que redigir grandes obras de elevado nível teológico. Sua intenção mais profunda, que o guiou durante toda sua vida, pode-se ver em uma carta escrita ao colega Evódio, na qual lhe comunica a decisão de deixar de ditar por um tempo os livros do «De Trinitate», «pois são muito cansativos e creio que podem ser entendidos por poucos; são mais necessários textos que esperamos que sejam úteis para muitos» («Epistulae», 169, 1, 1). Portanto, para ele era mais útil comunicar a fé de maneira compreensível para todos que escrever grandes obras teológicas.

A responsabilidade agudamente experimentada pela divulgação da mensagem cristã se encontra na origem de escritos como o «De catechizandis rudibus», uma teoria e também uma aplicação da catequese, ou o «Psalmus contra partem Donati». Os donatistas eram o grande problema da África e de Santo Agostinho, um cisma que queria ser africano. Diziam: a autêntica cristandade é a africana. Opunham-se à unidade da Igreja. Contra este cisma, o grande bispo lutou durante toda sua vida, procurando convencer os donatistas de que só na unidade inclusive a africanidade pode ser verdadeira. E para que o entendessem os simples, que não podiam compreender o grande latim do orador, disse: tenho de escrever inclusive com erros gramaticais, em um latim muito simplificado. E o fez, sobretudo neste «Psalmus», uma espécie de simples poesia contra os donatistas para ajudar todos a compreender que só na unidade da Igreja se realiza realmente nossa relação com Deus e cresce a paz no mundo.

Nesta produção destinada a um grande público, tem particular importância o grande número de suas homilias, com freqüência improvisadas, transcritas por taquígrafos durante a pregação e imediatamente postas em circulação. Entre estas, destacam as belíssimas «Enarrationes in Psalmus», muito lidas na Idade Média. A publicação de milhares de homilias de Agostinho, com freqüência sem controle do autor, explica tanto sua ampla difusão como sua vitalidade. Imediatamente, as pregações do bispo de Hipona se convertiam, pela fama do autor, em textos sumamente requeridos e eram utilizados também pelos demais bispos e sacerdotes como modelos, adaptados sempre a novos contextos.

Na tradição iconográfica, um fresco de Latrão que se remonta ao século IV representa Santo Agostinho com um livro na mão, não só para expressar sua produção literária, que tanta influência teve no pensamento dos cristãos, mas também para expressar seu amor pelos livros, pela literatura e pelo conhecimento da grande cultura precedente. Ao morrer, não deixou nada, conta Posídio, mas «recomendava sempre que se conservasse para as futuras gerações a biblioteca da igreja com todos seus códices», sobretudo os de suas obras. Nestas, sublinha Posídio, Agostinho está «sempre vivo» e é de utilidade para quem lê seus escritos, ainda que, como ele diz, «creio que poderiam tirar mais proveito de seu contato os que puderam vê-lo e escutá-lo quando falava pessoalmente na igreja e sobretudo os que foram testemunhas de sua vida cotidiana entre as pessoas» («Vita Augustini», 31). Sim, também para nós seria maravilhoso poder senti-lo vivo. Mas ele está realmente vivo em seus escritos; está presente em nós e deste modo vemos também a permanente vitalidade da fé pela qual ele entregou toda a sua vida.

A MORTE

(…) Quatro anos antes de morrer, ele quis nomear seu sucessor. Por este motivo, em 26 de setembro do ano 426, reuniu o povo na Basílica da Paz, em Hipona, para apresentar aos fiéis quem havia designado para esta tarefa. Disse: «Nesta vida, todos somos mortais, mas o último dia desta vida é sempre incerto para cada indivíduo. De qualquer forma, na infância se espera chegar à adolescência; na adolescência, à juventude; na juventude, à idade adulta; na idade adulta, à idade madura; na idade madura, à velhice. Não se está seguro de que chegará, mas se espera. A velhice, pelo contrário, não tem ante si outro período no qual poder esperar; sua própria duração é incerta… Eu, por vontade de Deus, cheguei a esta cidade no vigor de minha vida; mas agora minha juventude passou e já sou velho» (Carta 213, 1).

Nesse momento, Agostinho pronunciou o nome de seu sucessor designado, o sacerdote Heráclio. A assembléia estourou em um aplauso de aprovação, repetindo 23 vezes: «Graças sejam dadas a Deus!». Com outras aclamações, os fiéis aprovaram também o que depois disse Agostinho sobre os propósitos para seu futuro: queria dedicar os anos que lhe restavam a um estudo mais intenso das Sagradas Escrituras (cf. Carta 213, 6).

De fato, seguiram quatro anos de extraordinária atividade intelectual: concluiu obras importantes, empreendeu outras não menos significativas, manteve debates públicos com os hereges – sempre buscava o diálogo –, promoveu a paz nas províncias africanas insidiadas pelas tribos bárbaras do sul.

Neste sentido, escreveu ao conde Dario, que foi à África para superar as diferenças entre o conde Bonifácio e a corte imperial, das que se aproveitavam as tribos dos vândalos para as suas invasões: «Título de grande glória é precisamente o de adiar a guerra com a palavra, em vez de matar os homens com a espada, e buscar ou manter a paz com a paz e não com a guerra. Certamente, inclusive aqueles que combatem, se são bons, buscam sem dúvida a paz, mas à custa de derramar sangue. Tu, pelo contrário, foste enviado precisamente para impedir que se derrame o sangue» (Carta 229, 2).

Infelizmente foi defraudada a esperança de uma pacificação dos territórios africanos: em maio do ano 429, os vândalos, enviados à África como vingança pelo próprio Bonifácio, passaram o Estreito de Gibraltar e penetraram na Mauritânia. A invasão se estendeu rapidamente por outras ricas províncias africanas. Em maio e em junho do ano 430, «os destruidores do império romano», como Possídio qualifica esses bárbaros (Vida, 30, 1), rodeavam Hipona, assediando-a.

Na cidade, também se havia refugiado Bonifácio, que, reconciliando-se tarde demais com a corte, tratava em vão de bloquear a passagem dos invasores. O biógrafo Possídio descreve a dor de Agostinho: «Mais que de costume, suas lágrimas eram seu pão dia e noite e, levando já ao final de sua vida, ele se arrastava mais que os outros, na amargura e no luto, sua velhice» (Vida, 28, 6). E explica: «Esse homem de Deus via as matanças e as destruições das cidades; as casas destruídas nos campos e os habitantes assassinados pelos inimigos ou expulsos; as igrejas sem sacerdotes ou ministros, as virgens consagradas e os religiosos dispersos por toda parte; entre eles, alguns haviam desfalecido ante as torturas, outros haviam sido assassinados com a espada, outros eram prisioneiros, perdendo a integridade da alma e do corpo e inclusive a fé, obrigados pelos inimigos a uma escravidão dolorosa e longa» (ibidem, 28,8).

Ainda que era ancião e estava cansado, Agostinho permaneceu em primeira linha, consolando a si mesmo e aos outros com a oração e com a meditação dos misteriosos desígnios da Providência. Falava da «velhice do mundo» – e era verdadeiramente velho este mundo romano –, falava desta velhice como já o havia feito anos antes para consolar os refugiados procedentes da Itália, quando no ano 410 os godos de Alarico invadiram a cidade de Roma.

Na velhice, dizia, abundam os ataques: tosse, catarro, remelas, ansiedade, esgotamento. Mas se o mundo envelhece, Cristo é sempre jovem. E lançava este convite: «não se deve negar-se a rejuvenescer com Cristo, que te diz: ‘Não temas, tua juventude se renovará como a da águia’» (cf.Sermão 81, 8). Por isso, o cristão não deve abater-se nas situações difíceis, mas procurar ajudar o necessitado.

É o que o grande doutor sugere respondendo ao bispo de Tiabe, Honorato, que lhe havia pedido se, sob a pressão das invasões bárbaras, um bispo ou um sacerdote ou qualquer homem de Igreja podia fugir para salvar a vida. «Quando o perigo é comum a todos, ou seja, para bispos, clérigos e leigos, quem tem necessidade dos outros não deve ser abandonado por aqueles de quem tem necessidade. Neste caso, todos devem refugiar-se em lugares seguros; mas se alguns têm necessidade de ficar, que não sejam abandonados por quem tem o dever de assisti-los com o ministério sagrado, de maneira que, ou se salvam juntos ou juntos suportam as calamidades que o Pai de família quer que sofram» (Carta 228, 2). E concluía: «Esta é a prova suprema da caridade» (ibidem, 3). Como não reconhecer nestas palavras a heróica mensagem que tantos sacerdotes, através dos séculos, acolheram e tornaram sua?

«No terceiro mês daquele assédio – narra – ficou com febre: era sua última doença» (Vida, 29, 3). O santo ancião aproveitou aquele momento, finalmente livre, para dedicar-se com mais intensidade à oração. Costumava dizer que ninguém, bispo, religioso ou leigo, por mais irrepreensível que possa parecer sua conduta, pode enfrentar a morte sem uma adequada penitência. Por este motivo, repetia continuamente entre lágrimas os salmos penitenciais, que tantas vezes havia recitado com o povo (cf. ibidem, 31, 2).

Quanto mais se agravava sua situação, mais necessidade o bispo sentia de solidão e de oração: «Para não ser perturbado por ninguém em seu recolhimento, aproximadamente dez dias antes de abandonar o corpo, ele nos pediu que não deixássemos ninguém entrar em seu quarto, com exceção dos momentos nos quais os médicos vinham para vê-lo ou quando lhe levavam a comida. Sua vontade foi cumprida fielmente e durante todo esse tempo ele aguardava em oração» (ibidem, 31, 3). Faleceu em 28 de agosto do ano 430: seu grande coração finalmente descansou em Deus.

«Por ocasião da inumação de seu corpo – informa Possídio –, ofereceu-se a Deus o sacrifício, ao qual assistimos, e depois ele foi sepultado» (Vida,31, 5). Seu corpo, em data incerta, foi trasladado à Cardenha e, no ano 725, a Pavia, à basílica de São Pedro no Céu de Ouro, onde descansa hoje. Seu primeiro biógrafo dá este juízo conclusivo: «Deixou à Igreja um clero muito numeroso, assim como mosteiros de homens e de mulheres cheios de pessoas dedicadas à continência e à obediência a seus superiores, junto com as bibliotecas que continham os livros e discursos dele e de outros santos, pelos que se conhece qual foi, por graça de Deus, seu mérito e sua grandeza na Igreja, e nos quais os fiéis sempre o encontram vivo» (Possídio, Vida, 31, 8).

É um juízo ao qual podemos associar-nos: em seus escritos também nós o «encontramos vivo». Quando leio os escritos de Santo Agostinho, não tenho a impressão de que seja um homem morto há mais ou menos 1.600 anos, mas o sinto como um homem de hoje: um amigo, um contemporâneo que me fala, que nos fala com sua fé fresca e atual.

Em Santo Agostinho que nos fala – fala a mim em seus escritos –, vemos a atualidade permanente de sua fé, da fé que vem de Cristo, do Verbo Eterno encarnado, Filho de Deus e Filho do homem. E podemos ver que esta fé não é de ontem, ainda que tenha sido pregada ontem; é sempre atual, porque realmente Cristo é ontem, hoje e sempre. Ele é o Caminho, a Verdade e a Vida. Deste modo, Santo Agostinho nos anima a confiar neste Cristo sempre vivo e a encontrar assim o caminho da vida.

FÉ E RAZÃO

(…) Meu querido predecessor João Paulo II lhe dedicou, em 1986, ou seja, no décimo sexto centenário de sua conversão, um longo e denso documento, a carta apostólica Augustinum Hipponensem. O próprio Papa quis definir este texto como «uma ação de graças a Deus pelo dom que fez à Igreja, e mediante ela à humanidade inteira, graças àquela admirável conversão». (Augustinum Hipponensem, 1). Quero enfrentar o tema da conversão em uma próxima audiência. É um tema fundamental não só para sua vida pessoal, mas também para a nossa. No Evangelho do domingo passado, o próprio Senhor resumiu sua pregação com a palavra: «Convertei-vos». Seguindo o caminho de Santo Agostinho, poderemos meditar sobre o que é esta conversão: é algo definitivo, decisivo, mas a decisão fundamental deve desenvolver-se, deve realizar-se em toda nossa vida.

A catequese de hoje está dedicada, pelo contrário, ao tema fé e razão, que é um tema determinante, ou melhor, o tema determinante da biografia de Santo Agostinho. Desde criança, havia aprendido de sua mãe, Mônica, a fé católica. Mas sendo adolescente, havia abandonado esta fé porque já não conseguia ver sua racionalidade e não queria uma religião que não fosse expressão da razão, ou seja, da verdade. Sua sede de verdade era radical e o levou a afastar-se da fé católica. Mas sua radicalidade era tal que não podia contentar-se com filosofias que não chegassem à própria verdade, que não chegassem até Deus. E a um Deus que não fosse só uma hipótese última cosmológica, mas que fosse o verdadeiro Deus, o Deus que dá a vida e que entra em nossa própria vida. Deste modo, todo o itinerário intelectual e espiritual de Santo Agostinho constitui um modelo válido também hoje na relação entre fé e razão, tema não só para homens crentes, mas para todo homem que busca a verdade, tema central para o equilíbrio e o destino de todo o ser humano.

Estas duas dimensões, fé e razão, não devem separar-se nem contrapor-se, mas devem estar sempre unidas. Como escreveu Agostinho após sua conversão, fé e razão são «as forças que nos levam a conhecer» (Contra Acadêmicos, III 20, 43). Neste sentido, continuam sendo famosas suas duas fórmulas (Sermões, 43, 9) com as quais expressa esta síntese coerente entre fé e razão: crede ut intelligas («crê para compreender») – crer abre o caminho para cruzar a porta da verdade –, mas também e de maneira inseparável, intellige ut credas («compreende para crer»), perscrutar a verdade para poder encontrar a Deus e crer.

As duas afirmações de Agostinho manifestam com eficácia e profundidade a síntese deste problema, em que a Igreja Católica vê seu caminho manifestado. Historicamente, esta síntese foi-se formando já antes da vinda de Cristo, no encontro entre a fé judaica e o pensamento grego no judaísmo helênico. Sucessivamente, na história esta síntese foi retomada e desenvolvida por muitos pensadores cristãos. A harmonia entre fé e razão significa sobretudo que Deus não está longe: não está longe de nossa razão, de nossa vida; está perto de todo ser humano, perto de nosso coração e de nossa razão, se realmente nos colocamos a caminho.

Precisamente esta proximidade de Deus do homem foi experimentada com extraordinária intensidade por Agostinho. A presença de Deus no homem é profunda e ao mesmo tempo misteriosa, mas pode reconhecer-se e descobrir-se na própria intimidade: não há que sair para fora – afirma o convertido –, «volte sobre ti mesmo. A verdade habita no homem interior. E se encontras que sua natureza é mutável, transcende-te a ti mesmo. Mas recorda ao fazê-lo assim que transcendes uma alma que raciocina. Assim, pois, dirige-te ali onde se acende a própria luz da razão» (De vera religione, 39, 72). Ele mesmo sublinha em uma afirmação famosíssima do início das Confissões, autobiografia espiritual escrita em louvor de Deus: «Nos fizeste, Senhor, para ti, e nosso coração está inquieto, até que descanse em ti» (I, 1,1).

A distância de Deus equivale, portanto, à distância de si mesmos. «Porque tu – reconhece Agostinho (Confissões III, 6, 11) – estavas dentro de mim, mais interior que o mais íntimo meu e mais elevado que o mais supremo meu», interior intimo meo et superior summo meo; até o ponto de que, em outra passagem, recordando o tempo precedente a sua conversão, acrescenta: «Tu estavas, certamente, diante de mim, mas eu me havia afastado de mim mesmo e não me encontrava» (Confissões V, 2, 2). Precisamente porque Agostinho viveu em primeira pessoa este itinerário intelectual e espiritual, soube apresentá-lo em suas obras com tanta proximidade, profundidade e sabedoria, reconhecendo em outras duas famosas passagens das Confissões(IV, 4, 9 e 14, 22) que o homem é «um grande enigma» (magna quaestio) e «um grande abismo» (grande profundum), enigma e abismo que só Cristo ilumina e preenche. Isto é importante: quem está longe de Deus também está longe de si mesmo, alienado de si mesmo, e só pode encontrar a si se se encontra com Deus. Deste modo, consegue chegar a seu verdadeiro eu, sua verdadeira identidade.

O ser humano, sublinha depois Agostinho no De civitate Dei (XIII, 27), é sociável por natureza mas anti-sociável por vício, e é salvo por Cristo, único mediador entre Deus e a humanidade, e «caminho universal da liberdade e da salvação», como repetiu meu predecessor João Paulo II (Augustinum Hipponensem, 21): foi deste caminho, que nunca faltou ao gênero humano, segue afirmando Agostinho nessa mesma obra, «ninguém foi libertado nunca, ninguém é libertado, ninguém será libertado» (De civitate Dei, X, 32, 2). Como único mediador da salvação, Cristo é cabeça da Igreja e está unido misticamente a ela de modo que Agostinho afirma: «Nos convertemos em Cristo. De fato, se ele é a cabeça, nós somos seus membros, o homem total é ele e nós» (In Iohannis evangelium tractatus, 21, 8).

Povo de Deus e casa de Deus, a Igreja, segundo a visão de Agostinho, está portanto ligada intimamente ao conceito de Corpo de Cristo, fundamentada na releitura cristológica do Antigo Testamento e na vida sacramental centrada na Eucaristia, na qual o Senhor nos dá seu Corpo e nos transforma em seu Corpo. Portanto, é fundamental que a Igreja, povo de Deus, em sentido cristológico e não em sentido sociológico, esteja verdadeiramente integrada em Cristo, que, segundo afirma Agostinho em uma página maravilhosa, «reza por nós, reza em nós, é rezado por nós como nosso Deus: reconhecemos portanto nele nossa voz e nós nele a sua» (Enarrationes in Psalmos, 85, 1).

Na conclusão da carta apostólica Augustinum Hipponensem, João Paulo II quis perguntar ao próprio santo o que podia dizer aos homens de hoje e responde sobretudo com as palavras que Agostinho confiou em uma carta ditada pouco depois de sua conversão: «Me parece que se deve levar aos homens a esperança de encontrar a verdade» (Epistulae, 1,1); essa verdade que é Cristo, Deus verdadeiro, a quem se dirige uma das orações mais lindas e famosas das Confissões (X, 27, 38): «Tarde te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova, tarde te amei! Estavas dentro de mim e eu estava fora, e aí te procurava. Eu, disforme, lançava-me sobre as belas formas das tuas criaturas. Estavas comigo e eu não estava contigo. Retinham-me longe de ti as tuas criaturas, que não existiriam se em ti não existissem. Mas Tu me chamaste, clamaste e rompeste a minha surdez. Brilhaste, resplandeceste e curaste a minha cegueira. Espargiste tua fragrância e, respirando-a, suspirei por ti. Tu me tocaste, e agora estou ardendo no desejo de tua paz».

Deste modo, Agostinho encontrou a Deus e durante toda a sua vida fez sua experiência até o ponto de que esta realidade – que é antes de tudo o encontro com uma Pessoa, Jesus – mudou sua vida, como muda a de todos que, homens e mulheres, em todo tempo, têm a graça de encontrar-se com Ele. Peçamos ao Senhor que nos dê esta graça e nos faça encontrar assim sua paz.

Aprendendo o Latim (Parte V)

Publicada por Cleiton Robson.
Pedro disse a verdade ao Pai.
Nesta frase, a expressão “ao pai” completa ainda mais o sentido do predicado. Disse a verdade a quem? Este outro objeto do verbo será a ele unido por meio de uma preposição, a. No primeiro caso – objeto direto – havia apenas o artigo – a verdade. Agora temos a+o pai, isto é, uma preposição a foi juntada ao artigo o. Então se diz que a ação do verbo passou ao outro elemento da frase por meio de uma preposição, isto é, não diretamente, mas indiretamente, por isso chama-se objeto indireto.
Pedro disse com franqueza a verdade ao pai.
A oração foi enriquecida com mais um detalhe que indica a maneira, o modo, o estado de espírito com que Pedro disse a verdade ao pai. O elemento da oração que indica alguma circunstância é chamado de adjunto adverbial. No caso, é um adjunto adverbial de modo, isto é, expressa a maneira, o modo como Pedro disse a verdade. Mas há também os adjuntos circunstanciais de tempo, lugar, intensidade, etc.
Pedro disse com franqueza a verdade do fato ao pai.
Um elemento novo  – de fato – enriqueceu ainda mais a oração. Não se trata de uma verdade qualquer, mas da verdade de um determinado fato. Houve uma restrição na generalidade do termo verdade. Por isso se diz que do fato é complemento nominal restritivo, porque complementou o sentido do nome – verdade – restringindo-lhe o âmbito.
Pedro disse ao pai, com franqueza, a verdade do fato lastimável.
Como você vê, a oração está crescendo com novos elementos. cada elemento excerce uma função diferente. Na ordenação de uma oração, os termos se unem uns aos outros para formar um sentido geral. Por isso é que se diz sintaxe (do grego, ordem conjunta), ordem na qual os termos se unem uns com os outros [syn (com)+taxe (ordem]. Agora, mais um termo foi acrescentado para qualificar o nome fato. O fato poderia ser agradável, feliz, mas aqui é lastimável. Esta função de um adjetivo (lastimável) que qualifica um substantivo (fato), chama-se em análise sintática, adjunto adnominal, isto é, um termo que se coloca junto (ad) a um nome para o  modificar, qualificar ou determinar.
Resumindo, os objetos, diretos e indiretos, só complementam verbos; adjuntos e complementos nominais, só nomes, e os adjuntos adverbiais referem-se a circunstâncias.

Aqui a oração do Pai Nosso, e em seguida, em gregoriano:

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Pater noster, qui es in caelis: sanctificetur nomen tuum; adveniat regnum tuum; fiat voluntas tua, sicut in caelo et in terra. Panem nostrum cotidianum da nobis hodie; et dimitte nobis debita nostra, sicut et nos dimittimus debitoribus nostris; et ne nos inducas in tentationem; sed libera nos a malo. Amen.

d) A pronúncia Restaurada.


Há, finalmente, a pronúncia restaurada, que busca falar o latim como teria sido pronunciado pelos autores da época clássica, como Cícero e César, aliás, kíkero e káesar.
A pronúncia restaurada é adotada, para mútua compreensão, nos encontros europeus e internacionais.
Vejamos suas principais características:
• Nos ditongos ae e oe, ambas as vogais são pronunciadas. No que diz respeito ao primeiro, continuo a preferir a pronúncia mais fácil, e, como no latim eclesiástico. Aliás, na história do latim, esse ditongo cedo desapareceu, substituído por e. Varrão já observara que o povo dizia Mesium, e não Maesium: “rustici Mesium dicunt, non Maesium”.
• As consoantes “c” e “g” são sempre guturais, mesmo antes das vogais “e” e “i”. Leia-se, portanto, kíkero, em vez de cícero; késar, em vez cezar; agnus, em vez de anhus.
• O “h” é pronunciado com leve aspiração.
• O “j” tem som de “i”.
• O “r” é sempre brando.
• O “s” é invariavelmente pronunciado como em “sim”.
• A sílaba ti, precedendo vogal, lê-se tal como escrita, donde: grátia, e não, grácia; skientia, e não, ciência.
• O “v”, consoante precedendo vogal, tem som de “v”, embora haja quem lhe atribua o som de u, que aliás resulta horrível, como em “uiuo”, em vez de “vivo”.
• O “x” soa como “cs”.
• O “y”, como o “u” da língua francesa.
• O “z”, como “ds”.

Hinos para a Solenidade de Corpus Christi

Neste dia da Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue do Senhor, dois dos principais hinos, compostos por Santo Tomás de Aquino: o Adoro te devote e o Lauda Sion, que é a sequência de hoje.

Aprendendo o Latim (Parte IV)

Publicada por Cleiton Robson.
É a análise sintática que identifica as funções de cada termo de uma oração. No latim, substantivos, adjetivos e pronomes têm seis flexões no singular e seis no plural para indicar essas funções. São os chamados casos. Por exemplo, uma mesma palavra assume, no singular e no plural, diversas flexões, de acordo com sua função na oração. Seja a palavra frater, irmão. De acordo com sua função na oração e seu número, pode figurar como frater, fratris, fratri, fratre, fratrem, fratres, fratrum, fratribus. Em português você diria o irmão, do irmão, ao irmão, com o irmão, o irmão, os irmãos, dos irmãos, aos irmãos, com os irmãos, etc. Complicado, não é? Não, se você tiver bons conhecimentos de análise sintática!
Toda oração tem necessariamente sujeito e predicado. Se a oração for mais longa, pode ter obejto ou objetos diretos, objeto ou objetos indiretos, adjuntos adnominais, complementos nominais, adjuntos adverbiais, etc.
Pedro caminha.
Os dois termos isolados não fazem uma oração. Eu sei apenas quem é Pedro e sei que caminhar significa mover-se com as duas pernas. Mas, se uno os dois termos, sei que é Pedro que faz a ação de caminhar. Logo, Pedro é o sujeito da oração, que faz a ação indicada pelo predicado caminha, o verbo.
Nesta ação de caminhar, só Pedro é envolvido, isto é, a ação de Pedro fica nele. Mas, há casos em que a ação indicada pelo verbo transita, isto é, passa do sujeito para terceiros. Diz-se, nesse caso, que o verbo é transitivo. A ação do sujeito atinge, direta ou indiretamente, um terceiro. O termo que representa esse terceiro chama-se objeto (direto ou indireto).
Pedro disse a verdade.
Nesta oração, a ação verbal passa do sujeito para um terceiro elemento. Se eu disser apenas Pedro disse, sem dúvida há uma oração: sujeito e predicado. Mas é incompleta, porque logicamente até uma criança perguntaria: disse o quê? A resposta direta ao verbo, sem preposição, é o objeto direto. No caso, a verdade é objeto direto do verbo dizer.

Aqui o áudio da oração “Regina Caeli“, própria do Tempo Pascal, com seu responsório e oração:

Regina Caeli

Regína caeli, laetáre, allelúia. Quia quem meruísti portáre, allelúia. Resurréxit, sicut dixit, allelúia. Ora pro nobis Deum, allelúia.

V. Gaude et laetáre, Virgo Maria, allelúia.
R. Quia surréxit Dóminus vere, allelúia.

Oremus. Deus, qui per resurrectionem Filli tui Dómini nostri Iesu Christi mundum laetificare dignatus es, praesta, quaesumus, ut per eius Genitricem Virginem Mariam perpetuae capiamus gáudia vitae.
Per Christum Dominum nostrum. Amen.

c) Pronúncia eclesiástica ou italiana.


Durante a Idade Média o latim era pronunciado segundo as regras fonéticas da língua mãe do falante. Assim, na Galiza e Portugal era falado ao jeito “português”, em Castela doutro diferente (“à espanhola”), nos países de língua catalã e occitana de mais outro, na Lombardia, na Itália, na França, na Escandinávia, nos países germânicos e eslavos, etc., cada um segundo o seu próprio sistema fonético, empregando fonemas alheios ao latim original. A Igreja tentou seriamente unificar, pelo menos no seu seio, todas as pronúncias para lograr uma língua litúrgica unificada, com bem pouco sucesso. A escolha fonética, ficando lá o Vaticano, foi a da pronúncia italiana do latim, que tem as regras desta língua e que só agora está conseguindo êxito fora do Vaticano.
Pronúncia das vogais:
Os ditongos ae e oe são sempre pronunciados como a vogal e aberta
Pronúncia das consoantes:
Pronúncia do C:
Como o ch dos dialetos do norte português (ou do galego), antes de i e de e
Como o tch da palavra tchau
Pronúncia do G:
Como dj
Exemplo: Regina (rainha) lê-se /redjina/
Pronúncia do R:
Como o r da palavra caro.

Cantos Gregorianos,Alma de Cristo

Voltemos a “Arte e música sacra” a serviço da liturgia.