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O que um leigo não pode fazer na missa?

Questão teórica: o que pode, o que não pode e porquê.

 Sacrossanctum Concilium

28. Nas celebrações litúrgicas, seja quem for, ministro ou fiel, exercendo o seu ofício, faça tudo e só aquilo que pela natureza da coisa ou pelas normas litúrgicas lhe compete. 

29. Os que servem ao altar, leitores, comentaristas e componentes do grupo coral exercem também um verdadeiro ministério litúrgico. Desempenhem, portanto, sua função com a piedade sincera e a ordem que convêm a tão grande ministério e que, com razão, o povo de Deus exige deles. Por isso, é necessário que, de acordo com as condições de cada qual, sejam cuidadosamente imbuídos do espírito litúrgico e preparados para executar as suas partes, perfeita e ordenadamente. 

Em nome de uma mal interpretada participação na liturgia, muito se confundiu os papéis. Já vi e vivi coisas de arrepiar. Algumas do tipo: no dia do aniversário de consagração religiosa de uma freira ela tomou a cadeira presidencial e o sacerdote sentou-se no primeiro banco da Igreja. A freira “celebrou a missa” até o ofertório quando então o sacerdote tomou seu lugar junto ao altar para a liturgia Eucarística. Por mais querida que a freira seja, por mais “democrático” que o padre seja, ambos erraram fragorosamente. O lugar da freira e do leigo não é presidindo a assembléia litúrgica. Este lugar cabe ao sacerdote que o faz In Persona Christi Capitis por força do sacramento da Ordem. Não é algo ou uma prerrogativa que o sacerdote concede a si ou da qual possa dispor sem mais. É um sacramento que ele recebe da Igreja para exercê-lo em nome da mesma Igreja. Não é um cargo para que outras pessoas posam ocupá-lo. É um verdadeiro e próprio ministério que na liturgia tem lugar e ofício próprios.

Quando um fiel tenta celebrar a missa (apenas tenta porque quem de fato e de direito a preside é o sacerdote) ele incorre nalguns erros graves:

1º) A ação litúrgica nunca é particular, mas, ação da Igreja e deve ser feita consoante à mesma (Cân. 837);

2º) Cânon 1384: quem exerce ilegitimamente uma função sacerdotal ou outro ministério sagrado pode ser punido com justa pena;

3º) Nunca é lícito simular sacramento por três razões:

     – trata-se sempre de uma mentira grave, pois o objeto que induz a erro é algo importante: um sacramento;

         – constitui certo desprezo para com as coisas sagradas (isto é, um sacrilégio), já que implica uma certa brincadeira com os sacramentos instituídos por Cristo;

      – pode constituir uma falta contra a justiça ou contra a caridade, ao negar-se ao sujeito os meios necessários ou convenientes para a sua vida espiritual. (HORTAL, Jesús.Igreja e Direito: Os sacramentos da Igreja na sua dimensão canônico-pastoral. pág. 35)

O leigo não pode presidir a assembléia. Este é um ofício do Sacerdote. “A celebração da missa é ação do povo de Deus hierarquicamente organizado” (IGMR, n. 16). A mesma Instrução Geral do Missal Romano diz que o Sacerdote tem funções próprias, presidenciais.

Instrução Geral do Missal Romano

30. Entre as partes da Missa que pertencem ao sacerdote, está em primeiro lugar a Oração eucarística, ponto culminante de toda a celebração. Vêm a seguir as orações: a oração colecta, a oração sobre as oblatas e a oração depois da comunhão. O sacerdote, que preside à assembleia fazendo as vezes de Cristo, dirige estas orações a Deus em nome de todo o povo santo e de todos os presentes . Por isso se chamam “orações presidenciais”.

31. Compete igualmente ao sacerdote, enquanto presidente da assembleia reunida, fazer certas admonições previstas no próprio rito. 

32. O carácter «presidencial» destas intervenções exige que elas sejam proferidas em voz alta e clara e escutadas por todos com atenção . Por isso, enquanto o sacerdote as profere, não se hão-de ouvir nenhumas outras orações ou cânticos, nem o toque do órgão ou de outros instrumentos musicais. Pertence ainda ao sacerdote presidente anunciar a palavra de Deus e dar a bênção final. Pode ainda introduzir os fiéis, com brevíssimas palavras: na Missa do dia, após a saudação inicial e antes do rito penitencial; na liturgia da palavra, antes das leituras; na Oração eucarística, antes do Prefácio, mas nunca dentro da própria Oração; finalmente, antes da despedida, ao terminar toda a ação sagrada.

Além das orações presidenciais, ficou claro no texto acima que as BREVES intervenções devem ser do Presidente e não do leigo. Aqui já se descartam os comentários kilométricos que se faz nas missas, explicando o rito ao invés de introduzir a assembléia ao Mistério.

35. As aclamações e as respostas dos fiéis às saudações do sacerdote e às orações constituem aquele grau de participação ativa por parte da assembleia dos fiéis, que se exige em todas as formas de celebração da Missa, para que se exprima claramente e se estimule a ação de toda a comunidade .
36. Há ainda outras partes da celebração, que pertencem igualmente a toda a assembleia convocada e muito contribuem para manifestar e favorecer a participação ativa dos fiéis: são principalmente o ato penitencial, a profissão de fé, a oração universal e a oração dominical.

Claro está que a participação ativa e frutuosa do leigo, da assembléia, não se dá quando estes usurpam o ministério do sacerdote nem quando o sacerdote exerce uma função que não é sua. Não é função do sacerdote tocar o violão ou fazer as respostas. Cada sujeito litúrgico tem sua função determinada na ação litúrgica e como tal o papel do leigo é insubstituível.

Qual o lugar do leigo então?

Em primeiro lugar há que se tirar a compreensão de uma falsa competição por lugar na Igreja. Na Igreja, o ministério é sempre sinal do serviço. Certa feita estava eu numa reunião pastoral e algumas freiras e leigos faziam uma abordagem do sacerdócio como cargo, “algo a que se apegar ciosamente”. Esta visão errada está entremeada nalguns setores da Igreja para os quais o lugar do leigo é substituir o sacerdote exatamente com uma falsa compreensão do sacerdócio.

A participação ativa e frutuosa que pede o Concílio é aquelaadequatio da mente à coisa, ou seja, do coração e da mente ao mistério Pascal de Cristo celebrado na liturgia. Não se resume a funções. Caso reduzisse esta participação a funções, a liturgia sofreria um empobrecimento irreparável. Um cadeirante, um idoso, um analfabeto, uma criança, uma pessoa de outra nacionalidade e outra língua tem, de fato, pouco “espaço” para fazer coisas na liturgia. Nem por isso participam com menos intensidade do Mistério.  A maioria dos leigos dentro de um templo não faz nenhuma função vistosa na liturgia. Eles permanecem em seus bancos e nem por isso participam menos ou com menor intensidade, com menos santidade ou com menor proveito espiritual da liturgia. Este mito de que “participação” litúrgica é sinônimo de “fazer coisas para todo mundo ver” precisa cair afim de que a verdadeira participação ativa e frutuosa seja promovida.

O leigo não pode fazer as orações presidenciais.
O leigo não pode simular sacramento (celebrar no lugar do padre).
O leigo não pode distribuir a sagrada comunhão, a menos que seja delegado de modo extraordinário para auxiliar o sacerdote a cujo ministério está ordenada esta função.
O leigo não pode apresentar o cálice durante a doxologia (Por Cristo, com Cristo em Cristo..).
O leigo não pode apresentar âmbulas ou hóstias durante a doxologia.
O leigo não pode proclamar o evangelho na missa.
O leigo não pode fazer a homilia.
O leigo não pode rezar o embolismo nem a oração da paz junto com o Padre (Livrai-nos de todos os males… Senhor Jesus Cristo dissestes aos vossos Apóstolos…).
O leigo não pode rezar nenhuma parte da oração Eucarística que é reservada ao sacerdote. A mesma começa no diálogo inicial “O Senhor esteja Convosco. Ele está no meio de nós” e prossegue até o Amém da doxologia (Por Cristo, com Cristo em Cristo…).
O lugar do leigo é na assembléia e não no presbitério. A menos que tal leigo seja o acólito que auxilia o sacerdote junto ao altar.
Os Ministros Extraordinários da Comunhão não são acólitos.
Os acólitos possuem funções próprias. A função do MESC é somente de auxiliar o sacerdote na distribuição da comunhão e, eventualmente, preparar alfaias e vasos sagrados para a missa caso não haja sacristão na Igreja.

Espero ter podido contribuir para uma melhor participação ativa e de fato frutuosa na celebração eucarística.

Fonte: Blog do Padre Luís Fernando

Crer na caridade suscita caridade

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Apresentamos a seguir a mensagem de Sua Santidade Bento XVI para a Quaresma de 2013.

Crer na caridade suscita caridade

«Nós conhecemos o amor que Deus nos tem, pois cremos nele» (1 Jo4, 16)

Queridos irmãos e irmãs!

A celebração da Quaresma, no contexto do Ano da fé, proporciona-nos uma preciosa ocasião para meditar sobre a relação entre fé e caridade: entre o crer em Deus, no Deus de Jesus Cristo, e o amor, que é fruto da acção do Espírito Santo e nos guia por um caminho de dedicação a Deus e aos outros.

1. A fé como resposta ao amor de Deus

Na minha primeira Encíclica, deixei já alguns elementos que permitem individuar a estreita ligação entre estas duas virtudes teologais: a fé e a caridade. Partindo duma afirmação fundamental do apóstolo João: «Nós conhecemos o amor que Deus nos tem, pois cremos nele» (1 Jo 4, 16), recordava que, «no início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo. (…) Dado que Deus foi o primeiro a amar-nos (cf. 1 Jo 4, 10), agora o amor já não é apenas um “mandamento”, mas é a resposta ao dom do amor com que Deus vem ao nosso encontro» (Deus caritas est, 1). A fé constitui aquela adesão pessoal – que engloba todas as nossas faculdades – à revelação do amor gratuito e «apaixonado» que Deus tem por nós e que se manifesta plenamente em Jesus Cristo. O encontro com Deus Amor envolve não só o coração, mas também o intelecto: «O reconhecimento do Deus vivo é um caminho para o amor, e o sim da nossa vontade à d’Ele une intelecto, vontade e sentimento no acto globalizante do amor. Mas isto é um processo que permanece continuamente a caminho: o amor nunca está “concluído” e completado» (ibid., 17). Daqui deriva, para todos os cristãos e em particular para os «agentes da caridade», a necessidade da fé, daquele «encontro com Deus em Cristo que suscite neles o amor e abra o seu íntimo ao outro, de tal modo que, para eles, o amor do próximo já não seja um mandamento por assim dizer imposto de fora, mas uma consequência resultante da sua fé que se torna operativa pelo amor» (ibid., 31). O cristão é uma pessoa conquistada pelo amor de Cristo e, movido por este amor – «caritas Christi urget nos» (2 Cor 5, 14) – , está aberto de modo profundo e concreto ao amor do próximo (cf. ibid., 33). Esta atitude nasce, antes de tudo, da consciência de ser amados, perdoados e mesmo servidos pelo Senhor, que Se inclina para lavar os pés dos Apóstolos e Se oferece a Si mesmo na cruz para atrair a humanidade ao amor de Deus.

«A fé mostra-nos o Deus que entregou o seu Filho por nós e assim gera em nós a certeza vitoriosa de que isto é mesmo verdade: Deus é amor! (…) A fé, que toma consciência do amor de Deus revelado no coração trespassado de Jesus na cruz, suscita por sua vez o amor. Aquele amor divino é a luz – fundamentalmente, a única – que ilumina incessantemente um mundo às escuras e nos dá a coragem de viver e agir» (ibid., 39). Tudo isto nos faz compreender como o procedimento principal que distingue os cristãos é precisamente «o amor fundado sobre a fé e por ela plasmado» (ibid., 7).

2. A caridade como vida na fé

Toda a vida cristã consiste em responder ao amor de Deus. A primeira resposta é precisamente a fé como acolhimento, cheio de admiração e gratidão, de uma iniciativa divina inaudita que nos precede e solicita; e o «sim» da fé assinala o início de uma luminosa história de amizade com o Senhor, que enche e dá sentido pleno a toda a nossa vida. Mas Deus não se contenta com o nosso acolhimento do seu amor gratuito; não Se limita a amar-nos, mas quer atrair-nos a Si, transformar-nos de modo tão profundo que nos leve a dizer, como São Paulo: Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim (cf. Gl 2, 20).

Quando damos espaço ao amor de Deus, tornamo-nos semelhantes a Ele, participantes da sua própria caridade. Abrirmo-nos ao seu amor significa deixar que Ele viva em nós e nos leve a amar com Ele, n’Ele e como Ele; só então a nossa fé se torna verdadeiramente uma «fé que actua pelo amor» (Gl 5, 6) e Ele vem habitar em nós (cf. 1 Jo 4, 12).

A fé é conhecer a verdade e aderir a ela (cf. 1 Tm 2, 4); a caridade é «caminhar» na verdade (cf.Ef 4, 15). Pela fé, entra-se na amizade com o Senhor; pela caridade, vive-se e cultiva-se esta amizade (cf. Jo 15, 14-15). A fé faz-nos acolher o mandamento do nosso Mestre e Senhor; a caridade dá-nos a felicidade de pô-lo em prática (cf. Jo 13, 13-17). Na fé, somos gerados como filhos de Deus (cf. Jo 1, 12-13); a caridade faz-nos perseverar na filiação divina de modo concreto, produzindo o fruto do Espírito Santo (cf. Gl 5, 22). A fé faz-nos reconhecer os dons que o Deus bom e generoso nos confia; a caridade fá-los frutificar (cf. Mt 25, 14-30).

3. O entrelaçamento indissolúvel de fé e caridade

À luz de quanto foi dito, torna-se claro que nunca podemos separar e menos ainda contrapor fé e caridade. Estas duas virtudes teologais estão intimamente unidas, e seria errado ver entre elas um contraste ou uma «dialéctica». Na realidade, se, por um lado, é redutiva a posição de quem acentua de tal maneira o carácter prioritário e decisivo da fé que acaba por subestimar ou quase desprezar as obras concretas da caridade reduzindo-a a um genérico humanitarismo, por outro é igualmente redutivo defender uma exagerada supremacia da caridade e sua operatividade, pensando que as obras substituem a fé. Para uma vida espiritual sã, é necessário evitar tanto o fideísmo como o activismo moralista.

A existência cristã consiste num contínuo subir ao monte do encontro com Deus e depois voltar a descer, trazendo o amor e a força que daí derivam, para servir os nossos irmãos e irmãs com o próprio amor de Deus. Na Sagrada Escritura, vemos como o zelo dos Apóstolos pelo anúncio do Evangelho, que suscita a fé, está estreitamente ligado com a amorosa solicitude pelo serviço dos pobres (cf. At 6, 1-4). Na Igreja, devem coexistir e integrar-se contemplação e acção, de certa forma simbolizadas nas figuras evangélicas das irmãs Maria e Marta (cf. Lc 10, 38-42). A prioridade cabe sempre à relação com Deus, e a verdadeira partilha evangélica deve radicar-se na fé (cf. Catequese na Audiência geral de 25 de Abril de 2012). De facto, por vezes tende-se a circunscrever a palavra «caridade» à solidariedade ou à mera ajuda humanitária; é importante recordar, ao invés, que a maior obra de caridade é precisamente a evangelização, ou seja, o «serviço da Palavra». Não há acção mais benéfica e, por conseguinte, caritativa com o próximo do que repartir-lhe o pão da Palavra de Deus, fazê-lo participante da Boa Nova do Evangelho, introduzi-lo no relacionamento com Deus: a evangelização é a promoção mais alta e integral da pessoa humana. Como escreveu o Servo de Deus Papa Paulo VI, na Encíclica Populorum progressio, o anúncio de Cristo é o primeiro e principal factor de desenvolvimento (cf. n. 16). A verdade primordial do amor de Deus por nós, vivida e anunciada, é que abre a nossa existência ao acolhimento deste amor e torna possível o desenvolvimento integral da humanidade e de cada homem (cf. Enc. Caritas in veritate, 8).

Essencialmente, tudo parte do Amor e tende para o Amor. O amor gratuito de Deus é-nos dado a conhecer por meio do anúncio do Evangelho. Se o acolhermos com fé, recebemos aquele primeiro e indispensável contacto com o divino que é capaz de nos fazer «enamorar do Amor», para depois habitar e crescer neste Amor e comunicá-lo com alegria aos outros.

A propósito da relação entre fé e obras de caridade, há um texto na Carta de São Paulo aos Efésios que a resume talvez do melhor modo: «É pela graça que estais salvos, por meio da fé. E isto não vem de vós; é dom de Deus; não vem das obras, para que ninguém se glorie. Porque nós fomos feitos por Ele, criados em Cristo Jesus, para vivermos na prática das boas acções que Deus de antemão preparou para nelas caminharmos» (2, 8-10). Daqui se deduz que toda a iniciativa salvífica vem de Deus, da sua graça, do seu perdão acolhido na fé; mas tal iniciativa, longe de limitar a nossa liberdade e responsabilidade, torna-as mais autênticas e orienta-as para as obras da caridade. Estas não são fruto principalmente do esforço humano, de que vangloriar-se, mas nascem da própria fé, brotam da graça que Deus oferece em abundância. Uma fé sem obras é como uma árvore sem frutos: estas duas virtudes implicam-se mutuamente. A Quaresma, com as indicações que dá tradicionalmente para a vida cristã, convida-nos precisamente a alimentar a fé com uma escuta mais atenta e prolongada da Palavra de Deus e a participação nos Sacramentos e, ao mesmo tempo, a crescer na caridade, no amor a Deus e ao próximo, nomeadamente através do jejum, da penitência e da esmola.

4. Prioridade da fé, primazia da caridade

Como todo o dom de Deus, a fé e a caridade remetem para a acção do mesmo e único Espírito Santo (cf. 1 Cor 13), aquele Espírito que em nós clama:«Abbá! – Pai!» (Gl 4, 6), e que nos faz dizer: «Jesus é Senhor!» (1 Cor 12, 3) e «Maranatha! – Vem, Senhor!» (1 Cor 16, 22; Ap 22, 20).

Enquanto dom e resposta, a fé faz-nos conhecer a verdade de Cristo como Amor encarnado e crucificado, adesão plena e perfeita à vontade do Pai e infinita misericórdia divina para com o próximo; a fé radica no coração e na mente a firme convicção de que precisamente este Amor é a única realidade vitoriosa sobre o mal e a morte. A fé convida-nos a olhar o futuro com a virtude da esperança, na expectativa confiante de que a vitória do amor de Cristo chegue à sua plenitude. Por sua vez, a caridade faz-nos entrar no amor de Deus manifestado em Cristo, faz-nos aderir de modo pessoal e existencial à doação total e sem reservas de Jesus ao Pai e aos irmãos. Infundindo em nós a caridade, o Espírito Santo torna-nos participantes da dedicação própria de Jesus: filial em relação a Deus e fraterna em relação a cada ser humano (cf. Rm 5, 5).

A relação entre estas duas virtudes é análoga à que existe entre dois sacramentos fundamentais da Igreja: o Baptismo e a Eucaristia. O Baptismo (sacramentum fidei) precede a Eucaristia (sacramentum caritatis), mas está orientado para ela, que constitui a plenitude do caminho cristão. De maneira análoga, a fé precede a caridade, mas só se revela genuína se for coroada por ela. Tudo inicia do acolhimento humilde da fé («saber-se amado por Deus»), mas deve chegar à verdade da caridade («saber amar a Deus e ao próximo»), que permanece para sempre, como coroamento de todas as virtudes (cf. 1 Cor 13, 13).

Caríssimos irmãos e irmãs, neste tempo de Quaresma, em que nos preparamos para celebrar o evento da Cruz e da Ressurreição, no qual o Amor de Deus redimiu o mundo e iluminou a história, desejo a todos vós que vivais este tempo precioso reavivando a fé em Jesus Cristo, para entrar no seu próprio circuito de amor ao Pai e a cada irmão e irmã que encontramos na nossa vida. Por isto elevo a minha oração a Deus, enquanto invoco sobre cada um e sobre cada comunidade a Bênção do Senhor!

Vaticano, 15 de Outubro de 2012

BENEDICTUS PP. XVI

© Copyright 2012 – Libreria Editrice Vaticana

Fonte:

O Banquete do Cordeiro (Parte 6)

Frutos Proibidos: As Vinhas da Ira

Por que um Deus misericordioso castigaria desse jeito? Por que atribuímos essa ira ao Cordeiro divino, a própria imagem da indulgencia? Porque a ira de Deus é misericórdia. Mas, para entender esse paradoxo, precisamos primeiro examinar a psicologia do pecado, com alguma ajuda de São Paulo.

O uso que Paulo faz da palavra “cólera” (sinônimo de “ira”) na Epístola aos Romanos é esclarecedor: “Com efeito, a cólera de Deus se revela do alto do céu contra toda impiedade e toda injustiça dos homens que mantem a verdade cativa da injustiça: pois o que se pode conhecer de Deus é para eles manifesto: Deus lho manifestou…eles são pois inescusáveis, visto que, conhecendo a Deus, não lhe renderam nem a glória, nem a ação de graças que são devidas a Deus; pelo contrário, eles se transviaram em seus vãos raciocínios e o seu coração insensato se tornou presa das trevas” (Rm 1,18-21).

Isso resume bem o “caso” contra Jerusalém apresentado no tribunal celeste: Deus deu a Israel sua revelação, na verdade a plenitude de sua revelação em Jesus Cristo; porém o povo não lhe rendeu glória nem lhe deu graças; na verdade, suprimiram a verdade, ao matar Jesus e perseguir sua Igreja. Assim,” a cólera de Deus se revela” contra Jerusalém.

O que aconteceu então? Lemos em Romanos: “Por isso Deus os entregou, pela concupiscência dos seus corações, à impureza na qual eles mesmos aviltam os próprios corpos” (Rm 1,24). Espere um pouco: Deus os entrega a seus vícios? Deixa-os continuar a pecar?

Viciado em uma Fraqueza.

Bem, sim, e essa é uma terrível manifestação da cólera de Deus. Talvez pensemos que os prazeres do pecado sejam preferíveis ao sofrimento e à calamidade, mas eles não são.
Temos de reconhecer o pecado como ação que destrói nosso laço de família com Deus e nos afasta da vida e da liberdade. Como isso acontece?

Primeiro, temos a obrigação de resistir à tentação. Se fracassamos e pecamos, temos a obrigação de nos arrepender imediatamente, Se não nos arrependemos, então Deus nos deixa conseguir o que queremos: permite que experimentemos as consequências naturais de nossos pecados, os prazeres ilícitos. Se ainda não nos arrependemos – por meio da abnegação e de atos de penitencia – Deus nos permite continuar no pecado, desse modo formando um hábito, um vício, que escurece nosso intelecto e enfraquece nossa vontade.

Quando nos viciamos em um pecado, nossos valores viram de ponta-cabeça. O mal se torna nosso “bem” mais indispensável, nosso anseio mais profundo; o bem representa um “mal” porque ameaça impedir-nos de satisfazer desejos ilícitos. A essa altura, o arrependimento é quase impossível, pois ele é, por definição, o afastamento do mal em direção ao bem; mas, a essa altura, o pecador redefiniu completamente o bem e o mal.

Isaías disse a respeito desses pecadores: “Ai dos que chamam de bem o mal e de mal, o bem”(Is 5,20).

Quando adotamos o pecado desta maneira e rejeitamos nossa aliança com Deus, só uma calamidade nos salva. Às vezes, a coisa mais misericordiosa que Deus faz a um beberrão, por exemplo, é permitir que destrua o carro ou seja abandonado pela esposa – qualquer coisa que o force a aceitar a responsabilidade pelos seus atos.
O que acontece, no entanto, quando toda uma nação cai em pecado sério e habitual? O mesmo princípio entra em ação. Deus intervém e permite depressão econômica, conquista estrangeira ou catástrofe natural. Com bastante frequência, nações provocam esses desastres por seus pecados. Mas, de qualquer modo, esses são os mais misericordiosos chamados a despertar. Às vezes, o desastre significa que o mundo que os pecadores conheciam precisa desaparecer. Mas, como Jesus disse: “E que proveito terá o homem em ganhar o mundo inteiro, se o paga com a própria vida?” (Mc 8,36). É melhor dizer adeus a um mundo de pecado do que perder sem esperança de arrependimento.

Quando as pessoas leem o Apocalipse, assustam-se com terremotos, gafanhotos, fomes e escorpiões. Mas Deus´só permite essas coisas porque nos ama. O mundo é bom – não se engane quanto a isso -, mas o mundo não é Deus. Se permitimos que o mundo e seus prazeres nos governem como um deus, a melhor coisa que o Deus verdadeiro pode fazer é começar a tirar as pedras que formam o alicerce de nosso mundo.

Adoração Eucarística

«Adoração é reconhecer que Jesus é meu Senhor, que Jesus me mostra o caminho a seguir, me faz entender que só vivo bem se conheço a estrada indicada por Ele, somente se sigo a via que Ele me mostra. Portanto, adorar é dizer: “Jesus, eu sou teu e sigo-te na minha vida, nunca gostaria de perder esta amizade, esta comunhão contigo”. Poderia também dizer que a adoração na sua essência é um abraço com Jesus, no qual eu digo: “Eu sou teu e peço-te que estejas também tu sempre comigo”.» [Bento XVI]

Adorar ou venerar?

Este é um problema que encontramos muitas vezes em pessoas que tiveram contato exagerado com algumas heresias modernas, especialmente o protestantismo: Como o protestante não tem a Missa, ele considera que veneração é adoração.

Venerar  é o que o filho faz em relação a seu pai: ele o louva, ele pede aquilo de que necessita, ele agradece a ele pelo que dele recebe.

Adorar  é oferecer sacrifício. O macumbeiro adora suas ¨entidades¨ ele oferece sacrifícios de animais a elas. O protestante venera a Deus, dando-Lhe louvor, pedindo-Lhe e agradecendo-Lhe graças recebidas. O católico porém adora a Deus . Esta adoração é feita pelo Sacrifício da Missa, oferecido pelo sacerdote na Pessoa de Cristo em nome de todos os Fiéis.

Fernando Vilares

O Banquete do Cordeiro (Parte 5)

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Magnetismo animal cap II

No tempo da escravidão de Israel no Egito, está claro que o sacrifício ocupa uma parte essencial e fundamental da religião de Israel.
Os capatazes do faraó escarnecem dos frequentes sacrifícios dos israelitas, afirmando serem apenas uma desculpa para evitar o trabalho (Ex 5,17).
Mais tarde quando Moisés faz um apelo ao Faraó, sua exigencia principal é o direito dos israelitas oferecerem sacrifícios a Deus (Ex 10,25).
O que significam todas essas oferendas? O sacrifício animal significava muitas coisas para os antigos israelitas:
-Era o “reconhecimento da soberania”de Deus sobre a criação:”Ao Senhor, a terra e sua riquezas” (Sl 24,1).Assim o sacrifício louvava a Deus, de quem fluem todas as bênçãos.
-O sacrifício era um ato de “agradecimento”. A criação foi dada ao homem como dádiva.
-Às vezes, o sacrifício servia para “ratificar solenemente uma acordo ou juramento, uma aliança diante de Deus” (Gn 21,22-23).
-O sacrifício também era “ato de renúncia e tristeza pelos pecados”. O que oferecia o sacrifício reconhecia que seus pecados faziam-no merecer a morte;em lugar de sua vida, oferecia a do animal.


A contagem das ovelhas cap II

Mas, na história de Israel, o sacrifício principal foi a “Páscoa”, que apressou a fuga dos Israelitas do Egito.
Foi na Páscoa que Deus instuiu toda família israelita a tomar um ” animal sem defeito, sem ossos quebrados, degolá-lo e passar seu sangue na ombreira da porta”.
Os israelitas deveriam comer o cordeiro naquela noite.
Se o fizessem, seus primogênitos seriam poupados.
Se não o fizessem, seus primogênitos morreriam durante a noite, juntamente com todos os primogênitos de seus rebanhos (Ex 12,1-23).
O cordeiro sacrifical morreu como expiação, em lugar do primogênito da casa.
A Páscoa então, foi uma ato de redenção, um “resgate”.
Contudo, Deus não apenas resgatou os primogênitos de Israel;também os consagrou como um “reino de sacerdotes e uma nação santa”(Ex 19,6) – uma nação que Ele chamou seu “filho primogênito” (Ex 4,22).
O Senhor pediu, então, aos Israelitas para comemorarem a Páscoa todos os anos e até deu as palavras que deveriam usar para explicar o ritual às gerações futuras: “Quando vossos filhos vos perguntarem: ‘Que rito é esse que estais celebrando?’, direis:
‘É o sacrifício da Páscoa para o Senhor, que passou diante das casas dos filhos de Israel no Egito, quando golpeou o Egito e libertou nossas casas'”(Ex 12, 26-27).
Na terra prometida, os israelitas continuaram os sacrifícios cotidianos a Deus, agora guiados pelos muitos preceitos da Lei, enumerados em Levítico, Números e Deusteronômio (Lv 7-9;Nm 28; Dt 16).

Dentro e fora cap II

Era todo esse sacrifício apenas um ritual vazio? Não, embora, obviamente, o holocausto, por si só, não fosse suficiente. Deus exigia também um sacrifício “interior“.
O salmista declarou que “o sacrifício que Deus quer é um espírito contrito” (Sl51,19).
O profeta Oséias falou por Deus e disse:” Pois é o amor que me agrada, não o sacrifício;e o conhecimento de Deus, eu o prefiro aos holocaustos” (Os 6,6).
Contudo, a obrigação de oferecer sacrifícios foi mantida.
Sabemos que Jesus cumpria as leis judaicas referentes ao sacrifício.
Ele celebrava a Páscoa todos os anos em jerusalem e é de se presumir que comesse o cordeiro sacrificado, primeiro com a família e mais tarde com os apóstolos.
Afinal de contas, “isso não era facultativo”.Consumir o cordeiro era o único jeito de o judeu fiel “renovar a aliança com Deus “, e Jesus era um judeu fiel.
Mas a importância da Páscoa na vida de Jesus foi mais que ritual, foi “fundamental para sua missão”, um momento definitivo.
Jesus é o Cordeiro. Quando Jesus estava diante de Pilatos, João observa que “era o dia da preparação da Páscoa, por volta da sexta hora” (Jo 19,14). João sabia que era na sexta hora que os sacerdotes começavam a imolar os cordeiros pascais.Esse, então, é o momento do sacrifício do Cordeiro de Deus.
Em seguida, João relata que nenhum dos ossos de Jesus foi quebrado na cruz, “para que se cumprisse a Escritura” (Jo 19,36). Que Escritura era essa? Êxodo 12, 46, que estipula que os ossos do Cordeiro da Páscoa não sejam quebrados. Vemos, então, que o Cordeiro de Deus, como o cordeiro da Páscoa, é oferenda condígna, realização perfeita.
Na mesma passagem, João relata que fixaram uma esponja embebida em vinagre na ponta de um ramo de hissopo e a serviram a Jesus (Jo 19,29;Ex12,22). Hissopo era o ramo preceituado pela lei para borrifar o sangue do cordeiro na Páscoa. Assim, essa ação simples marcou a realização da nova e perfeita redenção.
E Jesus disse: “Tudo está consumado”.
Por fim, ao falar das vestes de Jesus na hora da crucifixão, João usa os termos exatos para os paramentos que o sumo sacerdote usava qdo oferecia sacrifícios como cordeiro da Páscoa.

Ritos da vítima cap II

O que concluimos disso? João nos deixa claro que no novo e definitivo sacrifício da Páscoa, Jesus é sacerdote e também vítima. Isso se confirma nos relatos da Última Ceia contidos nos três outros evangelhos, onde Jesus usa claramente a linguagem sacerdotal de sacrifício e libação, até qdo descreve a si mesmo como a vítima.
“Isto é o meu corpo dado por vós…Esta taça é a nova Aliança em meu sangue derramado por vós” (Lc 22, 19-20).
O sacrifício de Jesus realizou o que todo o sangue de milhões de ovelhas e touros e bodes jamais conseguiu. “Pois é impossível que o sangue de touros e bodes elimine os pecados” (Hb 10,4).
Nem o sangue de um quarto de milhão de cordeiros salvaria a nação de Israel, muito menos o mundo. Para expiar as ofensas contra um Deus que é bom, infinito e eterno, a humanidade precisava de um sacrifício perfeiro:um sacrifício tão bom, puro e infinito qto o próprio Deus. E esse era Jesus, o único que podia “abolir o pecado com seu próprio sacrifício” (Hb 9,26).
“Eis o Cordeiro de Deus” (Jo 1,36). Por que Jesus tinha de ser um cordeiro e não um garanhão, um tigre ou um touro? Por que o apocalípse retrata Jesus como “um cordeiro que parecia imolado”(Ap5,6)? Por que a missa precisa proclamá-lo como “Cordeiro de Deus”?. Porque só um cordeiro sacrifical se encaixa no padrão divino de nossa salvação.
Jesus era sacerdote além de vítima e como sacerdote fazia o que nenhum outro sumo sacerdote fazia, pois este entrava “todos os anos no santuário com sangue estranho”(Hb 9,25) e mesmo então,só ficava pouco tempo antes que sua indignidade o obrigasse a sair.
Mas Jesus entrou no Santo dos santos – o céu – de uma vez por todas, para oferecer-se como nosso sacrifício. Além disso, pela nova Páscoa de Jesus, nós também nos tornamos um reino de sacerdotes e a Igreja do primogênito (veja Ap 1,6; Hb 12,23 e compare com Ex4,22;19,6).
E com Ele entramos no santuário do céu toda vez que vamos a missa. Mas adiante, voltaremos a todas essas imagens, quando examinarmos esse santo dos santos no livro do Apocalipse, com seu altar e seu Templo, seu incenso e seu Cordeiro onipresente.

Scott Hahn e o Papa Bento XVI

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A Sacrílega Comunhão na Mão.

‘Note-se a reverência e o Amor por Jesus Cristo no Santíssimo Sacramento, e o costume antigo de colocar uma toalha de linho, branca e pura, por sobre as mãos dos comungantes’.

A Sacrílega Comunhão na Mão.

“Por respeito para com este Sacramento, nada Lhe toca, a não ser o que é Consagrado…” S. Tomás de Aquino 

 

Os antecedentes.

 

 

Através dos séculos, de pais para filhos, foram os nossos pais que nos ensinaram a Fé e nos falaram do Santíssimo Sacramento.

Disseram-nos que a Divina Eucaristia é verdadeiramente o Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Os Padres do Concílio de Trento definiram o Santíssimo Sacramento com precisão e cuidado. S. Tomás de Aquino ensinou-nos que, por respeito para com este Sacramento,tocar n’Ele e ministrá-Lo compete apenas ao Sacerdote.

Em casa, os nossos pais, como católicos que eram, e também as Irmãs religiosas que ensinavam nas escolas disseram-nos que era um sacrilégio (e hoje continua sendo), uma pessoa, sem ser o sacerdote, tocar na Sagrada Hóstia.

       Através dos séculos, Papas, bispos e sacerdotes disseram-nos a mesma coisa, não tanto por palavras, mas sobretudo pelo exemploe especialmente através da celebração da Antiga Missa em latim, em que o mais profundo respeito pelo Santíssimo Sacramento, o autêntico Corpo de Cristo, estava em cada gesto do Sacerdote.

Os nossos pais disseram-nos estas coisas não com a idéia de transmitir uma tradição, venerável mas sem fundamento; ensinaram-nos estas coisas através de palavras e exemplos para nos mostrarem a fidelidade à Fé Católica e o respeito pelo Santíssimo Sacramento. Os nossos pais disseram-nos isto porque é a verdade.

Pelo contrário, a entrada em vigor da Comunhão na mão e de leigos como “Ministros da Eucaristia” mostra um desprezo arrogante por aquilo que os nossos pais nos ensinaram. E embora estas práticas tivessem sido introduzidas com o pretexto de serem um desenvolvimento litúrgico “autêntico” e ordenado pelo Concílio Vaticano IIa verdade é que a Comunhão na mão não é uma autêntica evolução litúrgica, não foi ordenada pelo Concílio Vaticano II, e não só aparece como um desafio como revela um completo desprezo por séculos de doutrina e prática católicas até hoje.

 

       A Comunhão na mão estabeleceu-se sob um falso ecumenismo; permitiram que se espalhasse por fraqueza da autoridade; foi aprovada como medida de compromisso e por um falso sentido de tolerância – e levou a uma profunda irreverência e indiferença para com o Santíssimo SacramentoEsse abuso litúrgico – que se tornou o mais comum possível – é a vergonha dos nossos tempos.

 

 

Sobre o Concílio Vaticano II e a Reforma Litúrgica 

 

 

O Papa Pio XII faleceu em 1958 e no início de 1959 foi dado o primeiro aviso oficial sobre o futuro Concílio; e a 25 de julho de 1960, João XXIII tornou pública a sua decisão de confiar aos Padres do Concílio a reforma litúrgica.

As comportas iam ser abertas; era preciso, então, acelerar as providências. O monge beneditino Dom Adrien Nocent, “neolitúrgico típico”, foi nomeado, em 1961, professor do Pontifício Instituto de Liturgia de Santo Anselmo em Roma, uma venerável universidade beneditina fundada por Leão XIII; e lá Dom Nocent preparava o Concílio.

Naquele mesmo ano de 1961, em sua obra O Futuro da Liturgia, Dom Nocent definia os princípios e os fundamentos da nova missa que então preconizava. Seu propósito: influir direta e decisivamente na “revisão da liturgia” que poderia ser realizada durante o Concílio Vaticano II.

 

 

Veio o Concílio.

 

 

Pela vontade do Papa João XXIII, o Vaticano II quis ser um Concílio Ecumênico e, como disse um bispo não tradicionalista, aí esta palavra “ecumênico” deve ser entendida não no sentido tradicional de “universalidade” ou de “catolicidade”, mas “na acepção moderna (ou errônea?) de favorecer a unidade dos cristãos” 1.

Essa intenção de fazer do Concílio um instrumento de ecumenismo (aliás, falso) abriu as portas da Santa Sé e a cidadela foi ocupada pelos neolitúrgicos progressistas.

Deixemos de lado o que nos separa, guardemos o que nos une; este bem conhecido programa de João XXIII foi o principio inspirador da nova liturgia.
Ora, uma reforma litúrgica inspirada em “motivos ecumênicos” é inconcebível, porque contradiz o princípio imutável da liturgia católica: cabe à regra de fé regular a oração.

Uma tal reforma é, ao contrário, pôr em prática a “caridade sem fé” que São Pio X condenou no modernismo. Não é de espantar que a “reforma” (que ia ser implantada) tenha sacrificado a claridade e a exatidão doutrinal em troca de ambigüidade e compromisso.

 

Todavia, imbuídos do princípio anunciado por João XXIII, os Padres conciliares irão dizer, no primeiro documento que aprovaram, ou seja, na Constituição “Sacrosanctum Concilium” sobre a reforma da “Sagrada Liturgia”, de 4 de dezembro de 1963, que o Concílio Vaticano II, desde o seu início, propunha-se a favorecer tudo o que possa contribuir para a união dos que crêem em Cristo… e para tanto julgou “ser seu dever cuidar de modo especial da reforma e do incremento da Liturgia” (idem, pg 259.)., estando a Reforma do Ordinário da Missa inserida nessa reforma.

E esse documento foi redigido de uma forma tão ambígua que tornou possível a remoçãodas pedras que pudessem constituir mesmo sombra de um risco de tropeço ou de desagrado para nossos irmãos separados“, como declarou Monsenhor Annibal Bugnini, artífice da Nova Missa, no L’ Observatore Romano de 19 de maio de 1965, pedras essas que existiam (e que continuam a existir) na liturgia da Igreja Católica, particularmente no rito romano tradicional, restaurado e canonizado por São Pio V para deter e combater as heresias protestantes.

Com a aprovação da Constituição sobre a Sagrada Liturgia foi iniciada a protestantização da Missa católica. E, isto feito, Paulo VI, a 29 de fevereiro de 1964, criou o “Consilium ad Exsequendam Constitutionem de Sacra Liturgia” – Conselho para a Aplicação da Constituição sobre a Sagrada Liturgia, o “Consilium”, tendo por presidente o Cardeal Lercaro e por secretário o Monsenhor Annibal Bugnini, ou seja, os elementos mais avançados do Movimento Litúrgico italiano. Ao Consilium coube a tarefa de fazer a Reforma Litúrgica, aprovada pelo Vaticano II.

A VERDADEIRA HISTÓRIA DA COMUNHÃO NA MÃO

 

I – Introdução.

 

Na “Missa de Dom A. Nocent”, sugerida por este monge beneditino em 1961, já estava recomendado que a comunhão deveria ser feita sob ambas as espécies — costume que havia sido abolido “por graves e justas causas”, como afirmou o Concílio de Trento, mas que a Constituição “Sacrosanctum Concílium” sobre a Sagrada Liturgia, de 1963, tornou novamente possível 2 — e, mais ainda, de pé e na mão.

O procedimento de receber a comunhão de pé e na mão não consta do Livreto “Liturgia da Missa”, obra com a “Tradução Oficial para o Brasil” aprovada pela CNBB e pela Sagrada Congregação do Culto Divino, mas foi adotado sem a menor sombra de dúvida e, depois, tornou-se uma prática universal.

Quanto à questão de ser a comunhão feita de pé, salvo a menção feita na “Missa de Dom A. Nocent”, nada encontrei em documento algum. Todavia, é um procedimento que acompanha naturalmente à decisão de permitir a comunhão na mão, pois ninguém vai se ajoelhar para receber a comunhão desse modo e, hoje em dia, os comungantes só recebem a comunhão de pé; até mesmo aqueles que a querem receber na boca (ver cap. X – “Conclusões”).

A comunhão na mão foi especificamente autorizada pela Instrução “Memoriale Dómini” – Instrução essa redigida “por mandato especial de Paulo VI e por ele mesmo aprovada em razão de sua autoridade apostólica” (28/05/69) – e na qual a Sagrada Congregação para o Culto Divino, na esteira de outros autores, afirma que “em épocas muito antigas se fez uso da comunhão na mão“, dando a entender que este era o procedimento normal. É este o tema que vamos aprofundar neste ensaio, para mostrar a verdadeira história da comunhão na mão.

 

Como é que apareceu agora a Comunhão na Mão?

 

Há 400 anos, a Comunhão na mão foi introduzida no culto “cristão” por homens cujos motivos tinham por base um desafio ao Catolicismo. Os revolucionários protestantes do Século XVI (chamados “reformadores” protestantes, numa cortesia imerecida) estabeleceram a Comunhão na mão para significar duas coisas:

1) Que acreditavam que não havia “transubstanciação” nenhuma, e que o pão usado para a Comunhão não passava de pão vulgar. Por outras palavras, a Presença Real de Cristo na Eucaristia não passava de uma “superstição papista”; e como o pão não era mais do que pão, qualquer pessoa lhe podia tocar.

2) Que era sua crença que o Ministro da Comunhão não era fundamentalmente diferente de qualquer leigo. Ora é ensinamento católico que o Sacramento da Ordem dá ao Sacerdote um poder espiritual, sacramental, imprime uma marca indelével na sua alma e torna-o fundamentalmente diferente de um leigo.

O Ministro Protestante, porém, não é mais do que um homem vulgar que introduz os cânticos, faz as leituras e prega sermões para excitar as convicções dos crentes. Não pode converter o pão e o vinho no Corpo e Sangue de Nosso Senhor, não pode abençoar, não pode perdoar os pecados. Não pode fazer nada que um leigo normal não possa fazer.

O estabelecimento da Comunhão na mão pelos Protestantes foi o modo que eles escolheram para mostrar a sua rejeição da crença na Presença Real de Cristo na Eucaristia e a rejeição do Sacerdócio Sacramental — em resumo, para mostrar a sua rejeição do Catolicismo no seu todo.

Daí por diante, a Comunhão na mão passou a ter um significado nitidamente anti-católico: prática abertamente anti-católica, tinha por base a descrença na Presença Real de Cristo e também no Ministério Sacerdotal.

 

 

Graças ao Ecumenismo…

 

Embora a Comunhão na mão não fosse ordenada pelo Concílio Vaticano II, o que foi “canonizado” pelo Vaticano II foi o “Ecumenismo” — um falso espírito de uma falsa unidade, que até então tinha sido condenado pela Igreja, em especial pelo Papa Pio XI na sua encíclica de 1928 Mortalium Animos —, um movimento de Católicos que se querem mais comprometidos em relação às outras religiões e, em especial, aos Protestantes.

Este movimento realça, supostamente, aquilo que temos em comum com os outros credos e oculta o que nos divide, para celebrar os “valores” que partilhamos. (“Valores” é um termo subjetivo que não se encontra nos manuais de Teologia de antes do Concílio Vaticano II).

Já não tentamos converter os não-Católicos. Em vez disso, passamos o tempo num “diálogo” inútil e sem fim, em que o Catolicismo acaba sempre por perder: porque um tal diálogo dá a impressão incontornável de que o Catolicismo já não acredita que é o único possuidor da Verdade teológica.

       Embora não tratemos do Ecumenismo neste artigo (veja-se “The Problem with Modern Ecumenism”, em Catholic Family News — número de Março de 1995), basta dizer que este novo espírito ecumênico, a que Deitrich von Hildebrand chamou “ECUMANIA”, se tornou notório durante e depois do Vaticano II. O espírito ecumênico tornou-se o princípio formativo mais importante na série das novas formas litúrgicas estabelecidas desde o Concílio. É por isso que a nova liturgia se parece tanto com um serviço protestante.

 

 

Um ecumênico espírito de imitação.

 

Na Holanda, depois do Vaticano II, alguns padres de idéias ecumênicas começaram a dar a Comunhão na mão, numa imitação servil da prática protestante. Quanto aos bispos, em vez de cumprirem com o seu dever e condenarem o abuso toleraram-no.

       Porque os responsáveis da Igreja permitiram que o abuso não fosse atalhado, a prática espalhou-se então pela Alemanha, Bélgica e França. Mas se os bispos pareciam indiferentes a este escândalo, os leigos sentiram-se ultrajados.

Foi a indignação de grande número de Fiéis que obrigou um pequeno número de Conferências Episcopais e certos bispos a título individual recorrer ao papa Paulo VI, para que nos seus territórios fosse permitido o uso da comunhão na mão. O Soberano Pontífice decidiu consultar todos os bispos da Igreja latina sobre o que pensam da oportunidade de introduzir esse rito.

Tendo consultado os bispos do mundo sobre o assunto, estes votaram, na sua esmagadora maioria, no sentido de manter a prática tradicional de receber a Sagrada Comunhão apenas na língua. E note-se que, nesta altura, o abuso estava limitado a alguns países europeus. Ainda não tinha sequer começado nos Estados Unidos.

       O Papa promulgou então a Instrução “Memoriale Domine”, de 28 de Maio de 1969. (ver Cap. IX)

 

Em resumo, o documento declara:

1) Os bispos do mundo eram, na sua esmagadora maioria, contra a Comunhão na mão.

2) “Esta maneira de distribuir a Sagrada Comunhão (isto é, o sacerdote colocar a Hóstia na língua dos comungantes) deve ser observada.”

3) A Comunhão na língua não diminui, de forma alguma, a dignidade do comungante.

4) E acrescenta o aviso de que “qualquer inovação pode levar à irreverência e à profanação da Eucaristia, assim como à erosão gradual da reta doutrina.”

       O documento afirma ainda que “o Sumo Pontífice decretou que a maneira tradicional de dar a Sagrada Comunhão aos Fiéis não devia ser mudada. Por conseguinte, a Sé Apostólica insta veementemente os bispos, sacerdotes e povo a que observem zelosamente esta lei.”

 

 

 

II – O Corpo de Deus e o respeito que lhe é devido.

 

 

“Eu sou o pão da vida”… (Jo.6,48), “Eu sou o pão vivo que desci do céu… e o pão, que Eu darei, é a minha carne para a vida do mundo” (Jo.6,51) (e não apenas para a vida dos discípulos) e “Eu estou convosco todos os dias até a consumação dos séculos”(Mt.28,20).

Este pão da vida e pão vivo – Carne do Senhor – o Corpo de Deus vivo e verdadeiro– sempre foi tratado com o maior respeito e cercado de inúmeros cuidados desde os primeiros tempos do cristianismo (voltaremos a este ponto a seguir), como não poderia deixar de ser por se tratar do próprio Deus vivo, que quis se transubstanciar, usando um pedaço de PÃO, para que os homens pudessem comer da sua carne (Jo.6,54), alimento da alma, e (pudessem) alcançar a vida eterna (Jo.6, 54 e 58).

 

O Senhor se fez carne, Cordeiro de Deus, para o sacrifício e, de carne, se fez Pão – Pão do céu – para alimento de nossas almas.

 

 

A Santa Missa Tradicional incorpora em si o respeito pela Eucaristia.

 

Esta doutrina – de que apenas os sacerdotes podem tocar na Hóstia Consagrada, que as mãos do sacerdote são consagradas para este fim, e que nenhuma precaução era exagerada quando se tratava de conservar a reverência e impedir a profanação – foi incorporada na Liturgia da Igreja, isto é, na Antiga Missa em latim.

 

No tempo da Antiga Missa em latim, os padres aprendiam a celebrar Missa segundo rubricas precisas que asseguravam o devido respeito pelo Santíssimo Sacramento. Estas rubricas meticulosas eram como que “talhadas em pedra” e sobre elas não era concedida opção: no Rito Romano, todos os sacerdotes deviam segui-las com uma precisão imutável.

Na Igreja de antes do Vaticano II, quando a Missa Tridentina em latim era de norma, estas rubricas eram não só ensinadas como também incutidas nos homens que se preparavam para ser padres.

 

Eis algumas dessas rubricas, na Antiga Missa em latim:

 

A partir do momento em que o Sacerdote pronuncia as palavras da Consagração sobre a Sagrada Hóstia, mantém juntos os dedos indicador e polegar, de modo que, ao elevar o cálice, ao virar as páginas do Missal ou ao abrir o sacrário, aqueles dedos não toquem senão a Hóstia ConsagradaNote-se também que era impensável deixar a Sagrada Hóstia no altar, e ir igreja abaixo, igreja acima (mesmo antes de os dedos terem sido purificados) apertar as mãos das pessoas, numa desajeitada manifestação de amizade forçada.

> No final da Missa, o Sacerdote passa com a patena sobre o corporal e limpa-o para dentro do cálice, a fim de que pudesse ser recolhida e consumida reverentemente a mais pequena Partícula, se aí tivesse ficado.

> Depois da Comunhão, as mãos do sacerdote são lavadas sobre o cálice com água e vinho – consumidos com reverência, como garante de que nem a Partícula mais pequena seja susceptível de profanação.

 

No Catecismo de Trento encontramos as seguintes afirmações:

Corolário: Leigos não podem tocar nos vasos sagrados.

 

Ora, os leigos não podem tocar nos vasos sagrados, pois estes são utilizados para oSacrifício da Missa recebendo diretamente o Santíssimo Corpo de Cristo.

(Se não podem tocar nem nos vasos sagrados, o que dizer a respeito do Corpo de Cristo?)

 

Assim, continua o catecismo:

 

… De mais a mais, com intuito de salvaguardar, sob todos os aspectos, a dignidade de tão augusto Sacramento, não se deu unicamente aos sacerdotes o poder de administrá-los: como também se proibiu, por lei eclesiástica, que, salvo grave necessidade, ninguém sem Ordens Sacras ousasse tomar em mãos ou tocar vasos sagrados, panos de linho, e outros objetos necessários à feitura da Eucaristia.

 

Estas são apenas algumas das rubricas incorporadas na Antiga MissaNão eram escrúpulos ridículos; mostravam que a Igreja acreditava firmemente que, na Missa, o pão e o vinho se convertem realmente no Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Jesus Cristo, e que nada do que se fizesse era demais para haver a certeza de que Nosso Senhor seria tratado no Santíssimo Sacramento com toda a reverência e homenagem que a Majestade Divina merece.

 

Ora bem, tratando-se de demonstrar reverência, será possível melhorar estas rubricas? Uma autêntica renovação católica deixaria intactos tais gestos de reverência, ou iria realçá-los. Mas obliterá-los sem uma desculpa nem um argumento convincente, como foi o caso nos últimos 42 anos com a entrada em vigor da Nova Missa, não caracteriza uma autêntica renovação católica; pelo contrário, assemelha-se ao Novo Paganismo (contra o qual Belloc nos avisou) com o seu arrogante desprezo pela tradição.

 

E para tornar a situação ainda pior, a prática da Comunhão na mão faz com que estas rubricas cruciais do pré-Vaticano II pareçam de um sentimentalismo supersticioso, sem fundamento na realidade — desprezo, mais uma vez, pelo que os nossos pais nos ensinaram, edesprezo óbvio pelo próprio Santíssimo Sacramento.

 

Se é de joelhos que os Anjos acorrem para adorar Nosso Senhor, quanto mais eu que sou pecador.

O sentido do Sagrado

 

Os Sacramentos são o tesouro mais precioso da Igreja, e a Divina Eucaristia é o maior de todos os Sacramentos. Porque em todos os outros Sacramentos recebemos a graça sacramental, mas na Divina Eucaristia recebemos o próprio Cristo. Portanto, como é óbvio que o Santíssimo Sacramento é o maior tesouro que a Igreja possui, deve ser tratado com toda a reverência e homenagem que merece. Deste modo, todas as barreiras anteriores ao Concílio Vaticano II para evitar profanações são indispensáveis à vida da Igreja e à santidade dos Fiéis.

Quantas vezes ouvimos, até aos responsáveis pela nossa Igreja, lamentar o fato de que “perdemos o sentido do Sagrado”?

Esta exclamação é das mais assombrosas que um Eclesiástico pode fazer! Como se fosse algum mistério… É que o sentido do Sagrado não se perdeu, sabemos exatamente onde está, e podia ser recuperado em todas as igrejas paroquiais do mundo, amanhã mesmo.

O “sentido do Sagrado” encontra-se onde quer que se dê a maior importância à prática da salvaguarda da reverência pelo Santíssimo Sacramento. E mais: o “sentido do Sagrado” nem sequer se perdeu; foi deliberadamente posto de lado, foi mandado embora pelos agentes do Novo Paganismo do Modernismo – cheios de arrogância e fazendo-se passar por reformadores católicos – que introduziram na Igreja novas práticas que diminuem a Eucaristia, desprezam a tradição e aquilo que os nossos antepassados nos ensinaram, e que levaram a uma crise mundial da Fé de uma amplitude sem precedentes.

Mas para nós, graças a Deus, não é mistério nenhum. Sabemos exatamente onde se encontra “o sentido do Sagrado”, e agarramo-lo com uma tenacidade aguerrida. Encontra-se na celebração da Antiga Missa Tridentina em Latim, na qual cada momento da Liturgia contém uma reverência profunda pelo Santíssimo Sacramento, e onde os olhos dos Católicos ainda vêem com horror a Comunhão na mão e os “Ministros Eucarísticos” – práticas claramente reconhecidas como despropositadas, sacrílegas e não-católicas, que é, afinal, aquilo que são.

 

III – Os cuidados com as partículas que caem da Hóstia consagrada.

Era norma dos primeiros cristãos só comer a Carne do Senhor depois de tê-la adorado, o que prova a crença na presença real de Nosso Senhor; e àquele que ia comê-la era dirigida esta advertência: “…recebe com cuidado de nada perder. É em verdade o Corpo de Cristo” (ver IX – A “Memoriale Dómini”).

A Igreja sempre tomou um grande cuidado a fim de evitar que qualquer partícula da Santa Eucaristia se perdesse ou caísse no chãoSão Cirilo de Jerusalém (313-316) dizia aos novos batizados que eles deviam lamentar mais a perda de qualquer partícula da Hóstia que a perda de ouro, de diamante ou de qualquer um dos membros de seu corpo.

De acordo com este modo de pensar, os orientais chamam os fragmentos da Eucaristia de “pérolas“. Por sua vez, a liturgia de São Crisóstomo (344-407) assinala que, ao fim da Missa, o padre ou o diácono consome com atenção e devoção todos os fragmentos e cuida para que não se perca qualquer partícula ou “pérola”Note-se que tal norma era, no século IV, dirigida apenas aos ministros do culto, não fazendo menção aos fiéis leigos.

E eles tinham todos esses cuidados ainda que as partículas, ou fragmentos, que caíam da Hóstia consagrada fossem naquele tempo muito menos numerosas que hoje em dia. Isto porque o “dom” oferecido nos primeiros tempos era um pão ázimo como agora, mas de uma forma, com um contorno, que não favorecia a deposição de partículas, ou seja, as “pérolas”,como acontece com as pequenas hóstias que são hoje em dia empregadas pela Igreja do Ocidente; e é preciso dizer que é da máxima importância ter todo cuidado com qualquer partícula da Hóstia já consagrada, por menor que seja, pois está “o Cristo todo inteiro sob a espécie do pão e sob a mínima parte desta espécie“, como definiu dogmaticamente o Concílio de Trento 3.

Com efeito, das bordas das pequenas hóstias que hoje são utilizadas para serem oferecidas e consumidas caem pequeninas partículas; quem já viu um cibório, onde são guardadas as hóstias já consagradas, ou uma patena depois da comunhão dos fiéissabe quantas “pérolas” ali ficam.

Com a nova forma de comungar, o Corpo do Senhor fica agora na palma da mão ou entre os dedos de quem comunga ou então cai no chão e pode ser pisado.

IV – A manipulação do Corpo do Senhor: o procedimento normal.

 

 

Talvez já prevendo que tais profanações pudessem vir a ocorrer e, também, em funçãodo respeito que se deve ter para com o Corpo do Senhor, os Santos Padres se preocuparam desde os primórdios do Cristianismo em firmar uma doutrina sobre quem estava habilitado a tocar no Pão e no Vinho consagrados. E o procedimento normal adotado, desde o início, sempre foi o de ficar a manipulação dos dons consagrados – e, portanto, a sua distribuição também – restrita a pessoas, também, consagradas, aquelas que recebem o dom de poder tocar no Santíssimo Sacramentoo que mostra que ao leigo não é lícito (salvo em casos especiais) tocar neste Corpo; e se não lhe é permitido tocar, muito mais grave é recebê-lO nas mãos e levá-lO à boca para consumir a Vítima sagrada do Sacrifício — o Corpo de Deus Filho — oferecido a Deus Pai.

Além disso, as normas estabelecidas pelos Santos Padres (que serão mostradas mais adiante) não seriam necessárias se os fiéis leigos estivessem também autorizados a tocar nos santos mistérios. Não podendo tocá-los, por não terem mãos consagradas para fazê-lo,como é que estas mesmas mãos podem receber o Corpo de Deus vivo?

 

Porém, hoje, depois do Vaticano II, para justificar a comunhão recebida na mão, é dito que era esse o costume dos primeiros cristãos. O próprio, e insuspeito, Padre Le Brun afirma que “durante os cinco primeiros séculos os padres davam a Eucaristia na mão dos fiéis” 4.Todavia, como veremos, esta não é a verdadeira história, e se, no século V, um Papa afirmou explicitamente que a comunhão deve ser recebida na boca não foi porque antes fosse recebida na mão, mas, sim, por causa dos abusos que, ainda, continuavam a ocorrer em seu tempo, como será também mostrado.

V – O procedimento de exceção na manipulação do Corpo de Deus.

De fato, a manipulação do Corpo do Senhor pelos leigos — para seu próprio uso ou para distribuí-lO a outros fiéis (o que não significa necessariamente que estivessem autorizados a distribuir a comunhão na mão desses fiéis) — era um costume que devia ficar restrito a alguns casos especiais, casos de exceção (ver Cap. VII – “As exceções”), e isto se aplica tanto aos primeiros tempos do cristianismo como aos tempos atuais.

Assim é que o Santo Ofício, em resposta (21 de julho de 1841) a uma consulta, diz: “É unicamente em tempo de perseguição, em caso de real necessidade e se o padre, ministro ordinário do Sacramento, estiver impedido, que os leigos podem manipular a Santa Eucaristia”.

VI – Os acontecimentos históricos.

         Vejamos, então, o que realmente aconteceu, ou seja, qual era a doutrina dos Santos Padres dos primeiros tempos e quais eram os casos de exceção; passemos aos fatos históricos.

         São Paulo chama os padres de “ministros do Cristo e dispensadores dos mistérios de Deus” (1Cor.4,1 e 2) e, portanto, cabe a eles a manipulação do Corpo de Deus e a distribuição dos dons consagrados.

         Abusos devem ter ocorrido, pois, São Sixto I – Papa de 117 a 126 – julgou necessário lembrar e publicar a norma apostólica, reafirmando que somente os ministros do culto (os padres e seus ajudantes, os diáconos) são aptos a tocar (tangere) os santos mistérios: “hic constituit ut mysteria sacra non tangeretur, nisi a ministris”.

         São Justino (100-166), por sua vez, na sua Apologia dedicada ao Imperador romano, testemunha esta disciplina primitiva afirmando que são “os diáconos que distribuem a comunhão e levam aos doentes”.

         E o sábio Tertuliano de Cartago (160-250) diz, também, que o Sacramento da Eucaristia era recebido “somente da mão do padre”: “nec de aliorum manu sumimus”.

         Como os casos em que estava autorizada a manipulação da Santa Eucaristia pelos leigos (ver Cap. VII – “As exceções”) continuassem a gerar abusosSanto Estevão – Papa de 254 a 257 – teve que advertir os leigos, dizendo-lhes que eles não deviam “considerar como suas as funções eclesiásticas“; e, quanto ao clero, Santo Eutiquiano – Papa de 275 a 283 – exortou os padres a manterem a disciplina cumprindo seus deveres, especialmente levando eles mesmos a Comunhão aos doentes: “nullus praesumat tradere Communionem laico vel feminae ad deferendum infirmo” (que ninguém ouse confiar a um leigo ou a uma mulher o cuidado de levar a Comunhão a um doente).

        

Assim, pelos textos citados, vemos que mesmo em tempo de perseguição, ou seja, mesmo antes da “paz da Igreja”, o que ocorreria pouco depois do ano 313, ano do Edito de Milão, não era um costume generalizado os leigos manipularem a Eucaristia para distribuí-la ou consumi-la.

Não seriam necessárias todas as advertências dos Santos Padres, acima citadas, sobre quem devia manipular o Corpo de Deus, se os fiéis pudessem tocar habitualmente no Santíssimo Sacramento. Se eles pudessem tocá-lO, poderiam também servir a si mesmos e também (poderiam) distribuir a Comunhão à outras pessoas (o que hoje fazem errado, pois habitualmente são, os ministros extraordinários da Eucaristia).

            Porém, o que de fato se verifica é que, pelo menos desde o Papa São Sixto I, somente aos padres e aos diáconos é permitido manipular e distribuir a Eucaristia e, mais ainda, o diácono devia receber o Santíssimo Sacramento das mãos do padre. Os leigos só podiam tocar na Hóstia consagrada excepcionalmente.

VII – As exceções.

 

         É verdade que casos havia em que era permitido aos leigos manipular e distribuir a Comunhão. Os leigos podiam fazê-lo nos chamados casos de necessidade, ou seja, quando não havia sacerdote para se ocupar daqueles deveres; fora dessas circunstâncias, nem os leigos, nem os padres menores, devem ser considerados como ministros da Eucaristia. Eles somente serão chamados a título de ministros extraordinários em casos excepcionais.

         Portanto, é verdade que – em tempo de perseguição e, portanto, tempo de exceção – os fiéis leigos foram autorizados a levar para casa o Santo Sacramento, para consumi-lo durante as semanas seguintes ou levá-lo aos doentes, mas era, conforme o caso, ou por causa da ameaça sempre eminente de perseguição ou da distância ou da falta de padres e de diáconosSão Basílio de Cesaréa (329-379), em sua Carta 93, datando aproximadamente de 372, declara que por esses motivos poder-se-ia “receber a Comunhão por meio de sua própria mão”. Temos, assim, mais uma confirmação de que, normalmente, o fiel não deve receber a Comunhão de sua própria mão.

         Podemos concluir, também, que no caso de distribuição autorizada do Corpo de Deus a outros (doentes, por exemplo), isto não significa que a comunhão fosse dada na mão; estando o leigo que a ia receber proibido de tocar no dom consagrado, não é lícito esperar que recebesse o Corpo do Senhor na mão; e se o fizesse não seria em função de uma norma da Igreja, mas de um abuso. Para evitar dúvidas e abusos, os Santos Padres passarão a dizer, explicitamente, que a Santa Comunhão é recebida na boca (ver Cap. VIII – “Os tempos normais”).

Desde que as circunstâncias permitiram, o costume excepcional mencionado no parágrafo anterior foi-se tornando desnecessário e é certo que esta prática de exceção, como diz o “Dicionário de Arqueologia Cristã e de Liturgia”, de Dom H. Leclerq, “caiu em desuso pouco tempo depois da paz da Igreja”.

         Todavia, o hábito arraigado em alguns leigos fazia com que esses praticassem abusos já em tempos normais, por continuarem levando o pão consagrado para suas casas. Além disso, com a paz e liberdade concedidas à Igreja, as conversões para o Cristianismo se efetuavam em grande escala e de maneira por vezes brusca; conseqüentemente os novos cristãos ainda guardavam consigo traços de sua antiga mentalidade pagã, muito dada à superstição e ao uso de amuletos.

         Documentos atestam que a partícula sagrada era não raro pendurada ao pescoço dos fiéis, aos leitos, às paredes das casas, aos cofres, como se fora um amuleto, um feitiço dotado de poderes quase mágicos ou um instrumento poderoso contra doenças, desgraças, inimigos, etc.

         Então, medidas enérgicas foram tomadas para restabelecer as regras apostólicas. Para tanto, São Dâmaso I – Papa de 366 a 384 – proibiu aos fiéis terem o Alimento divino em suas residências: “oblationes… sub dominium laicorum deteneri vetat”.

         No ano 380, o Concílio Regional de Saragoça lança anátemas contra aqueles que insistissem em continuar a tratar o Santo Sacramento da mesma maneira que em tempos de perseguição, e o Concílio Regional de Toledo, no ano 400, insiste na mesma determinação: “Se alguém não consumir realmente a Eucaristia recebida do sacerdote, seja expulso como um sacrílego” (canon 14).

Verifica-se, portanto, que naquele tempo já era claramente distinguida a regra normal, daquilo que tinha sido, por muito tempo, exceção na Igreja.
Além disso, sendo as sanções acima citadas, pelas quais a Igreja protegeu o cumprimento das normas litúrgicas transmitidas pelos Apóstolos, de âmbito específico (regional), pode-se concluir também que esses abusos eram desvios não generalizados.

VIII – Os tempos normais

 

A paz externa, a expansão da Igreja por todo o Império Romano e o aumento das vocações sacerdotais fizeram com que a manipulação do Santíssimo Sacramento pelos leigos não tivesse mais justificativa.

 

A) A norma expressa sobre a Comunhão na boca

 

Se os primeiros Santos Padres se preocuparam em afirmar que cabia aos ministros do culto distribuir a comunhão, a fim de evitar que o Pão da Vida fosse manuseado por qualquer um como um pão comum, agora, no século IV e seguintes, em tempos de normalidade, vamos encontrar os Santos Padres citando explicitamente o costume tradicional de comungar; já haviam desaparecido os motivos que justificavam a manipulação do Corpo do Senhor pelos leigos e, por outro lado, era preciso firmar doutrina para combater os abusos que ainda ocorriam, bem como, também, (combater) a prática herética dos arianos5 de receber a comunhão na mão.

Assim, São Leão I – Papa de 440 a 461 – diz, explicitamente, que o Sacramento da Eucaristia recebe-se na boca: “hoc enim ore sumitur quod fide tenetur” (os/oris=boca).

Em 536, o Papa Agapito I, tendo se dirigido a Constantinopla, realiza uma cura milagrosa de um surdo mudodurante a Comunhão, no momento em que lhe punha na boca o Corpo do Senhor: “cunque ei Dominicum corpus mitteret in os”, conforme assinalado por São Gregório Magno – Papa de 590 a 604 – e sabemos que o próprio São Gregório I, também, dava a Comunhão na boca aos comungantes, como atesta o seu biógrafo Jean Diacre.

 

Os únicos que sempre comungaram de pé e com a mão foram, desde o princípio, os arianos, que negavam, obstinadamente, a divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo e que, por isso mesmo, não viam na Eucaristia senão um símbolo de união que podia ser manipulado à vontade.

 

Por volta de 650, sob o império de Clóvis II, o Concílio de Rouen estabeleceu, também, regras sobre a distribuição do Sacramento da Comunhão, indicando com muita precisão aatitude conveniente dos fiéis, isto é, a recepção da hóstia unicamente na boca — “Nulli autem laico aut feminae Eucharistiam in manibus ponat, sed tantum in os ejus” (cf. Acta Conciliorum Rothomagense, cap. II, pág. 8).

Apesar do cisma do Oriente já estar se anunciando, entre outras coisas por desvios na Liturgia, o Concílio de Constantinopla (692) proibiu, também, aos fiéis leigos se darem a si próprios a comunhão e ameaça de excomunhão por uma semana aqueles que se atreverem a distribuí-la quando houver um bispo, padre ou diácono na região.

Em 878, mais outro Concílio de Rouen (canon II) volta a lembrar a regra tradicional, o que mostra o aspecto realmente esporádico do abuso da prática de comungar com a mão.

Vê-se bem, face ao exposto, que a Igreja não mudava sua regra original, mas a consolidava, desejando o desaparecimento completo dos abusos, porque sempre foi costume, na Igreja de Deus, os leigos receberem dos padres a Comunhão.

São Tomás de Aquino, o Doutor Comum da Igreja Católica (1225-1274), ensina as razões teológicas que embasam esse costume:

 

“A distribuição do Corpo de Cristo cabe ao padre por três motivos.

Primeiro, porque… é ele que consagra assumindo o lugar de Cristo. Ora, o próprio Cristo distribuiu o seu Corpo durante a Ceia. Portanto, assim (como) a consagração do Corpo de Cristo cabe ao padre, é também a ele que cabe a sua distribuição.

Segundo, porque o padre foi instituído intermediário entre Deus e os homens. Por conseguinte, como tal, é ele que deve encaminhar a Deus as oferendas dos fiéis e também levar aos fiéis as dádivas santificadas por Deus.

Terceiro, porque, por respeito por este Sacramento, ele não é tocado por nada que não seja consagrado. Por causa disto, o corporal e o cálice são consagrados e igualmente as mãos do padre o são, para tocar este Sacramento. Assim, nenhuma pessoa tem o direito de o tocar, a não ser em casos de necessidade como, por exemplo, se o Sacramento cair no chão, ou casos semelhantes” (Summa, III pars, Qu. 82, art 3).

 

Em 1551, o Concílio Ecumênico6 de Trento, também, repetiu o ensinamento tradicional da Igreja por causa dos desvios dos protestantes:

 

“Na comunhão sacramental sempre foi costume na Igreja de Deus receberem os leigos a comunhão das mãos do sacerdote… . Com razão e justiça se deve conservar este costume como proveniente da Tradição apostólica” (Sessão XIII, de 11-10-1551 – Decreto sobre a Santíssima Eucaristia – capítulo 8).

 

O Concílio Vaticano II, porém, nada decidiu e decretou sobre a maneira de comungar: se de pé ou de joelhos, se na mão ou se deve o Corpo do Senhor ser depositado pelo padre na língua do comungante.

Foi a Sagrada Congregação dos Ritos que se manifestou sobre o assunto em questão pela Instrução “Memoriale Dómini”, redigida “por mandato especial de Paulo VI e por ele mesmo aprovada em razão de sua autoridade apostólica”, a 28 de maio de 1969.

Esta Instrução, que traz as assinaturas do Cardeal Gut e do Monsenhor A. Bugnini, Prefeito e Secretário daquela Congregação, foi suscitada por solicitações dirigidas à Santa Sé por umas poucas Conferências Episcopais (que já faziam uso da Comunhão na mão, como é dito na própria Instrução, sem qualquer licença para isso).

E, em função dessas poucas solicitações, a norma apostólica sobre a comunhão: (I) que deve ser dada pelos ministros do culto, (II) que não deve ser tocada por mãos não consagradas, e (III) que deve por isso mesmo ser recebida na boca, será alterada em 1969.

 

 

B) A cronologia das mudanças

 

Antes de entrar no mérito do conteúdo da “Memoriale Dómini” julgo ser interessante apresentar a cronologia das alterações relativas à Missa e do modo de receber a Comunhão:

[03-04-69] Paulo VI aprova a Constituição “Missale Romanum”, reformando o rito da Missa (ainda sem missal).
[06-04-69] A Sagrada Congregação de Ritos promulga o novo Ordo Missae, com sua “Institutio Generalis”, que deveria entrar em vigor a 30-11-69.


[28-05-69] Paulo VI aprova a Instrução “Memoriale Dómini”, permitindo a comunhão na mão.
[19-06-69] A Congregação para o Culto Divino por carta dirigida ao Presidente da Conferência Episcopal da França autoriza a comunhão na mão, ainda que contrariando a recente “Institutio Generalis” – a “Instrução Geral” do novo Missal – cujo artigo 80 diz que a patena é um dos objetos que se deve preparar para a celebração da Missa e cujo artigo 117 descreve a maneira como se deve efetuar a comunhão: … O fiel responde: Amém e sustentando a patena debaixo do seu rosto recebe o sacramento7.


[23-09-69] Data constante do Livreto “Liturgia da Missa” com a “Tradução Oficial para o Brasil” da Nova Missa, aprovada pela CNBB e pela Sagrada Congregação do Culto Divino.
[20-10-69] Data da Instrução da Congregação para o Culto Divino: “De constitutione missale romanum gradatim ad effectum decudenda” (Instrução sobre a Aplicação Progressiva da Constituição Apostólica “Missale Romanum”), ficando a introdução do Novus Ordo Missae diferida para 28-11-71.

 

As regras da Nova Missa a respeito do modo de comungar, constantes da Instrução Geral da Constituição “Missale Romanum”, estavam, portanto, superadas antes mesmo de terem entrado em vigor e, na prática, uma Instrução vai alterar não só essa Constituição, como, também, indiretamente, aquela que tinha sido aprovada pelo Vaticano II, ou seja, a “Sacrosanctum Concilium” sobre a Sagrada Liturgia. Vejamos, então, a Instrução “Memoriale Dómini”.

IX – A “Memoriale Dómini”

 

 

Na Instrução “Memoriale Dómini”, em sua introdução sobre o valor e o histórico do Sacramento Eucarístico, está dito que, em tempos muitos remotos, nas pequenas comunidades primitivas, a distribuição do Pão da Vida era feita nas mãos dos fiéis.

Contudo, apesar deste início – com o qual não concordo, como se vê pelo exposto acima – é importante transcrever longamente a “Memoriale Dómini”, pois este documento mostra e reconhece aquilo que estamos querendo demonstrar, como se vê pelas partes reproduzidas abaixo.

 

(Nota – Todas as transcrições da Instrução “Memoriale Dómini” que se seguem foram tiradas de artigos de Gustavo Corção, publicados em sua coluna no jornal “O Globo” dos dias 19, 21 e 26 de junho de 1975. Os destaques são, no entanto, todos do autor deste ensaio).

 

1) Os grandes cuidados que a Santa Igreja sempre teve com relação à Santa Eucaristia.

 

“As prescrições da Igreja e os textos dos Santos Padres atestam abundantemente o profundíssimo respeito e as grandes precauções que cercavam a Santa Eucaristia. Assim, “que ninguém (…) coma esta Carne, se antes a não adorou”; e a quem a come se dirige esta advertência: “…recebe com cuidado de nada perder. É em verdade o Corpo de Cristo”.

 

2) Que sempre foi assegurado o respeito que é devido ao Corpo do Senhor.

 

“Assim, a função de levar a Santa Eucaristia aos ausentes não tardou a ser exclusivamente confiada aos ministros sagrados, a fim de melhor assegurar o respeito devido ao Corpo de Cristo e também de melhor atender às necessidades dos fiéis”.

 

3) Que o aprofundamento da verdade do mistério eucarístico arraigou o costume de dar a comunhão na língua do comungante.

 

“Com o tempo, quando a verdade e a eficácia do mistério eucarístico, assim como a presença real do Cristo foram mais aprofundadas, tornou-se mais consciente o respeito devido a esse Santíssimo Sacramento e a humildade com a qual deve ser recebido, estabelecendo-se então o costume pelo qual deveria o próprio ministro colocar a partícula consagrada na língua do comungante”.

 

4) Que a “comunhão na boca” deve ser mantida.
 

“Levando em conta a situação atual da Igreja no mundo inteiro, esta maneira de distribuir a santa comunhão deve ser conservada, não somente em razão de sua multissecular tradição, mas principalmente porque exprime o respeito dos fiéis em relação à Eucaristia. Este uso, aliás, em nada fere a dignidade pessoal de quem recebe tão alto sacramento, ao contrário favorece a preparação exigida para que o Corpo de Deus seja recebido de maneira frutuosa”.

Mas, então, por que um grande número de sacerdotes se nega a dar a comunhão da maneira que, como diz a própria “Memoriale Dómini”, dá mais frutos? Por que querem tornar obrigatória a “comunhão na mão”?

Continuamos, abaixo, com a “Memoriale Dómini”.

 

5) Que a “comunhão na boca” é a maneira tradicional de comungar, que assegura o respeito, o decoro e a dignidade que devem cercar o Corpo do Senhor.

 

“Esse respeito bem exprime que não se trata de «um pão e uma bebida comuns», mas do Corpo e do Sangue do Senhor, pelo qual o povo de Deus participa dos bens do sacrifício pessoal, re-atualiza a Nova Aliança uma vez por todas selada por Deus com os homens no Sangue de Cristo e na fé e esperança prefigura e antecipa o banquete escatológico no Reino do Pai”.

“Além disso, essa maneira de fazer, que já deve ser considerada como tradicional, assegura mais eficazmente o respeito, o decoro e a dignidade com que convém distribuir a Santa Comunhão,…”.

 

6) Que a “comunhão na boca” evita as profanações.

 

“(com que convém distribuir a Santa Comunhão), garante também o afastamento de qualquer perigo de profanação das espécies eucarísticas, nas quais, ‘de um modo único o Cristo total e inteiro, Deus e homem, se acha presente substancialmente e permanentemente’; e enfim, essa maneira de ministrar o sacramento assegurava (este verbo no passado é uma antecipação do que vem mais adiante8) a cuidadosa atenção relativa aos fragmentos sagrados como a Igreja sempre recomendou: ‘considera o que deixaste cair como parte de teus membros que assim te falarão’”.

Este final não é um reconhecimento de que a “comunhão na mão” não protege adequadamente as partículas sagradas?

Além disso, como diz Gustavo Corção, já vemos que a Santa Sé parece ter “a firme intenção de reafirmar o desejo de cercar a Santa Eucaristia de todas as garantias e respeitos assegurados pela tradição e não pode ver com simpatias as poucas Conferências Episcopais (ver Cap.7, a seguir) que solicitavam a adoção do rito da ‘comunhão na mão’”. Era ainda de se esperar que a Santa Sé fosse contra os abusos que estavam sendo cometidos, pois já estava sendo praticado um rito antes de ter sido obtida a necessária permissão para fazê-lo.

Voltemos, porém, à “Memoriali Dómini”.

 

7) Que a “comunhão na mão” foi pedida por uns poucos e que todos os bispos foram consultados, apesar dos perigos previsíveis, sobre a alteração da verdadeira doutrina.

 

“Por isso9, diante do pedido formulado por um pequeno número de Conferências Episcopais e certos bispos a título individual para que nos seus territórios fosse permitido o uso da comunhão na mão, o Soberano Pontífice decidiu consultar todos os bispos da Igreja latina sobre o que pensam da oportunidade de introduzir esse rito.

Com efeito, mudanças introduzidas em matéria tão grave, que se prende à tradição tão antiga e venerável, não somente tocam a disciplina, mas também podem acarretar perigos que, como todos tememos, nasceriam eventualmente desse novo modo de distribuir a santa comunhão, isto é, um respeito menor pelo augusto sacramento do altar, uma profanação desse sacramento ou ainda uma alteração da verdadeira doutrina (sic)”.

 

“Por que, então, pergunta Gustavo Corção, diante de tão evidente desaconselhável alteração pedida por um pequeno número de CNBB’s e não justificada por nenhum motivo plausível, a não ser o de contrariar e romper e contrariar a tradição?

Não entendemos o acatamento que pode merecer tão insólito pedido depois de tudo o que sabemos e do que acabamos de ler. E quando lemos no próprio documento que os pouco numerosos solicitantes já praticam sem licença aquilo para o que solicitam permissão [ver Cap. 9, adiante], ainda menos entendemos o redobrado acatamento que leva o Soberano Pontífice a consultar os bispos do mundo inteiro.

Não terão os redatores de tal Instrução da Congregação para o Culto Divino percebido que a insistência de tão desproporcionada consulta viria diminuir a autoridade da secular tradição, a autoridade do Concílio de Trento, do Vaticano I e do Vaticano II, e finalmente a augusta autoridade do sucessor de Pedro – tudo isso para atender a umas poucas agremiações de duvidosíssima catolicidade?

Temos a penosa impressão, conclui Corção, de que alguém em Roma tem a esperança de obter um resultado contrário ao que este próprio documento insistentemente ensina”.

 

8) Que o resultado da consulta universal mostrou que a grande maioria dos bispos foi contra a “comunhão na mão”, como está dito na própria “Memoriale Dómini”.

 

“Essas respostas mostram, então, que uma forte maioria dos bispos acham que nada deve ser mudado na disciplina atual; e que, tal mudança ofenderia o sentimento e a delicadeza espiritual desses bispos e de numerosos fiéis.”

“Assim sendo e levando em conta as observações e conselhos daqueles que ‘o Espírito Santo constituiu administradores para governar’ as Igrejas (Cf. At.20,28), em vista da gravidade do assunto e do valor dos argumentos invocados, o Soberano Pontífice não pensou dever mudar a maneira tradicional de distribuir a santa comunhão aos fiéis.”

“Por isso a Santa Sé exorta vivamente os bispos, os padres e os fiéis a respeitar atentamente a lei de sempre que permanece em vigor e que se acha confirmada novamente levando em conta tanto o julgamento emitido pela maioria do episcopado católico, quanto a forma utilizada atualmente na santa liturgia e enfim o bem comum da Igreja.”

 

9) Que, porém, surpreendentemente, a Santa Sé — depois de ter concluído que o respeito ao Santíssimo Sacramento e o bem comum da Igreja exigiam vigorosamente a manutenção do rito tradicional depois do resultado da consulta formulada a todos os bispos e apesar de ter Paulo VI dito que não pensava dever mudar a maneira tradicional de distribuir a comunhão — a Santa Sé (repetimos) autorizou o uso da “comunhão na mão” nos lugares onde tal prática já havia sido introduzida.

 

“Mas nos lugares onde já foi introduzido um costume diferente – o de depositar a santa comunhão na mão – a Santa Sé, a fim de ajudar as Conferências Episcopais a desempenhar sua tarefa pastoral, tornadas tantas vezes mais difícil nas atuais circunstâncias, confia a essas mesmas Conferências o encargo e o dever de pesar com cuidado as circunstâncias particulares que poderiam existir, sob a condição, no entanto, de afastar qualquer risco de falta de respeito ou de opiniões falsas que poderiam se insinuar nos espíritos em relação à Santíssima Eucaristia e evitar cuidadosamente todos os outros inconvenientes.

 

“A Santa Sé examinará cada caso atentamente, levando em conta os vínculos existentes entre as diferentes igrejas locais, assim como entre cada uma delas e a Igreja universal a fim de promover o bem comum e a edificação comum para que o exemplo mútuo aumente a fé e a piedade.”

Desnecessário será, talvez, dizer que, a partir daí (antes mesmo da entrada em vigor da Nova Missa), este novo procedimento tornou-se universal, utilizado tanto pelas dioceses que já usavam o rito da “comunhão na mão” como também pelas que não o empregavam e, mais ainda, muitos celebrantes se recusam a dar a comunhão segundo a maneira tradicional, tornando assim obrigatório o novo costume, apesar do mesmo permitir a ocorrência de profanações e sacrilégios.

 

10) Que os bispos, inclusive os que foram contra a “comunhão na mão”, tomaram conhecimento da “Memoriale Dómini” por intermédio das Conferências Episcopais.

 

“Esta instrução redigida por mandato especial do Sumo Pontífice Paulo VI foi aprovada por ele mesmo em virtude de sua autoridade apostólica em 28 de maio de 1969 e ele decidiu que a mesma seja levada ao conhecimento dos bispos por intermédio dos presidentes das Conferências Episcopais. Revogadas todas as disposições em contrário.”

 

Assim sendo, em junho de 1969, logo depois de aprovada a “Memorile Dómini”, por carta dirigida ao presidente da Conferência Episcopal da França, a Congregação para o Culto Divino autorizava a “comunhão na mão”, naquele país, a discrição de cada bispo.

X – Conclusões.

 

 

Monsenhor Bugnini10, responsável pela reforma litúrgica e pela Nova Missa, estava implantando rapidamente a “comunhão na mão”.

 

Não diz a “Memoriale Dómini” que “o próprio ministro deve colocar a partícula consagrada na língua do comungante”? Que “esta maneira de distribuir a santa comunhão deve ser conservada”? que esta é “a lei de sempre que permanece em vigor”?

 

Via de regra, não é isto o que se vê.

A comunhão na boca é a maneira de distribuir a comunhão que deve ser preservada, como reconheceu a própria “Memoriale Dómini”, mas, na prática, a comunhão é, hoje em dia, em quase toda parte e em quase todos os casos, nas Missas ou fora delas, recebida de pé e na mão.

Em 1961, o monge progressista Dom Adrien Nocent, na obra em que defendia a implantação de uma nova liturgia, já pedia a adoção desse rito. Paulo VI “não pensou dever mudar a maneira tradicional” de distribuir a santa comunhão, porém, por mandato especial dele, o maçon Monsenhor Bugnini o fez com a ajuda das Conferências Episcopais.

O uso da “comunhão na mão”, como diz Gustavo Corção, “hoje mais do que nunca expõe o Santíssimo Sacramento da Eucaristia a inimagináveis profanaçõesque aliás parecem ser o objetivo, muito logicamente, desejado pelas entidades que querem destruir a Igreja e transformar o Cristianismo num Humanismo, que depressa se tornará desumano e infra-humano”.

 

Existe, ainda, uma outra razão que também contribuiu para que fosse mudada a maneira tradicional de distribuir a santa comunhão: um desejado falso ecumenismo. Se a Eucaristia é um símbolo materializando a simples lembrança de um acontecimento passado (como querem os protestantes) é inteiramente lógico que haja pouca preocupação com as migalhas que inclusive podem cair no chão (e serem pisadas).

Mas se se trata da presença do próprio Deus, de nosso Criador, como o quer a fé da Igreja, como compreender que se admita uma tal prática e até que se a encoraje? A idéia que se esforça por inculcar, assim, com tal procedimento, é uma idéia protestante, contra a qual se rebelam os católicos ainda não contaminados. Para melhor impô-la, os fiéis são obrigados a comungar de pé.

 

Tanto faz se o que acarretou a mudança da maneira tradicional de comungar foram as atividades maçônicas ou o desejo de implantar uma outra religião, humanista ou protestante, porque o resultado desejado é o mesmo: a destruição da Igreja Católica TradicionalE é uma destruição realizada dentro da própria Igreja, pois o que se verifica “é a existência de uma Outra Igreja que, com grande parte do clero da Igreja Católica, quer destruí-la em nome da evolução“, como bem disse Gustavo Corção.

Os católicos passaram a comungar o Corpo do Senhor de pé e na mão e, conseqüentemente, a devoção para com o Santíssimo Sacramento é afetada.

Além da falta de respeito, quando uma patena é utilizada, mesmo se as comunhões são pouco numerosas, nela ficam sempre partículas (as “pérolas”). Por conseguinte, estas partículas ficam agora nas mãos dos fiéis. E ninguém se importa maisO respeito ao Corpo do Senhor diminui, a fé se abala.

A “comunhão de pé e na mão” é uma manifestação pública de falta de fé na presença real de Nosso Senhor Jesus Cristo na Eucaristia. “O pão, que Eu darei, é a minha carne, para a vida do mundo” (Jo.6,51), e, por causa da dureza desta linguagem, muitos discípulos, então, na Galiléia, se afastaram de Jesus “e já não andavam mais com Ele” (Jo.6,66); já não eram mais discípulos.

Aqueles que, hoje, não reconhecem o Senhor na Hóstia consagrada já estão, também, afastados de Jesus e já não são mais católicos.


NOTAS: 


1) Frei Boaventura Kloppenburg – “Compêndio do Vaticano II” – 1983 – Editora Vozes – Petrópolis – pag. 11 e 12.

2) Essa Constituição diz que devem ser “salvarguardados os princípios dogmáticos estabelecidos pelo Concílio de Trento”, mas a seguir especifica os casos em que fica autorizada a “Comunhão sob as duas espécies” [Cap. II – O Sacrossanto Mistério da Eucaristia, nº 612, página 612 da obra citada na nota de rodapé nº 1]. Na prática, a abertura limitada da Constituição em pauta abriu as portas para inúmeros abusos.

Os princípios do Concílio de Trento foram estabelecidos na Sessão XXI, de 16-07-1562 – Doutrina da comunhão sob ambas as espécies e das crianças – capítulos 1 a 4, cânones 1 a 3.

3) Sessão XIII, de 11-10-1551 – Decreto sobre a Santíssima Eucaristia – capítulo 3, cânon 3.

4)  Padre Pierre le Brun – “Explication de la Messe” – 1716 e re-editado em 1949 por Les Editons du CERF – Paris – página 421.

5) Discípulos de Ário. A heresia desse clérigo da Igreja teve início no século IV e é conhecida como “Arianismo”

6) Ecumênico está aqui empregado no sentido tradicional de “universalidade” ou de “catolicidade”, o qual era o único sentido existente na Igreja para “ecumenismo” (até o Vaticano II).

7) Louis Salleron – “La Nueva Misa” – 1978 – Editorial Iction – páginas 150, 151 e 156.

8) Esta observação entre parênteses é do autor deste ensaio.

9) Em lugar desse “Por isso”, caberia melhor um “Porém”, pois nada do que foi dito antes justifica o que se segue. 

10) Monsenhor Annibal Bugnini foi destituído de sua função de Secretário da Congregação do Culto Divino, em 1976, quando se tornou evidente que era membro da franco maçonaria, mas, quando ele foi enfim afastado, o mal já estava consumado.

 

Fonte: http://www.derradeirasgracas.com/2.%20segunda%20página/O%20Poder%20da%20Santa%20Missa/A%20Sacr%C3%ADlega%20Comunhão%20na%20mão..htm

Missa Tridentina na TV Canção Nova.

Olá irmãos e irmãs é com muita alegria que venho hoje falar de um acontecimento que me alegra muito, recentemente na TV Canção Nova está havendo  a celebração da Missa na Forma Extraordinária do Rito Romano( A MISSA TRIDENTINA).
Que tenho que dizer que é um sonho meu, sempre pensei, porque a TV Canção Nova não celebra a Missa Tridentina… Deus ouviu minhas preces!! Venho repostar um texto do blog  Ecclesia Una que acompanho sempre.
Segue abaixo.

Comunidade Canção Nova acolhe Missa na Forma Extraordinária do Rito Romano

16/07/2012 por Everth Queiroz Oliveira

Recentemente a comunidade Canção Nova vem sendo palco de uma verdadeira reforma litúrgica. Como exemplos, poderíamos citar a piedade e sacralidade com que as festas da Semana Santa foram celebradas; e também o zelo com que foi conduzida a solenidade de Corpus Christi. E isto tudo ainda este ano.

Pois bem, no dia de ontem (15), a comunidade de Cachoeira Paulista acolheu a Santa Missa na Forma Extraordinária do Rito Romano – a Missa Tridentina! O Sacrifício foi celebrado pelo reverendíssimo padre Demétrio Gomes, da Arquidiocese de Niterói. Salvem a Liturgia! havia divulgado de antemão esta feliz notícia, avisando que, embora fosse este um grande passo, desta vez a celebração não seria transmitida na televisão. Os que tinham acesso à Internet ontem à noite, porém, tiveram a oportunidade de participar ao vivo deste belíssimo momento de oração. Isto porque o Santo Sacrifício foi transmitido pela Twitcam (e aqueles que não tiveram a oportunidade de assistir ontem, podem assistir, hoje, ao vídeo gravado). Foram publicadas, também na Internet, fotos do evento (agradecimentos ao Rafael Cresci, que disponibilizou as imagens no Facebook), as quais compartilhamos abaixo.

Dom Eugênio, uma escola de fidelidade

“Eu estou muito bem. Meu Pai é bom! Ele pode tudo. Ele sabe tudo.” (Dom Eugênio Sales)

 

Papa João Paulo II, Dom Eugênio Sales e Pe. Paulo Ricardo

Fidelidade. Talvez não haja outra palavra para descrever melhor o que Dom Eugênio significou em minha vida.Fidelidade a Deus, à Igreja, ao Papa, às amizades, aos compromissos assumidos, à fé professada, aos princípios morais, à liturgia, à disciplina canônica, aos horários, à orientação dos médicos… A lista seria grande demais para elencar. Uma fidelidade que todos viam, que saltava aos olhos, que gritava sobre os tetos…

Mas o que talvez nem todos conhecessem era a alma desta fidelidade: o querer agradar a Deus em tudo e por tudo. Sim, mesmo que isto desagradasse aos homens; mesmo que isto desagradasse aos seus projetos pessoais e justas aspirações. Quem conviveu com Dom Eugênio pôde presenciar, no dia a dia, estas pequenas ou grandes violências que o Cardeal Sales fazia sobre si mesmo, para não desagradar a Deus.

Sua vida toda foi marcada por este drama interior que só os seus íntimos tiveram o privilégio de testemunhar. Uma dócil fidelidade à vontade de Deus, mesmo quando esta vontade se revestia da aparente irracionalidade da cruz.

Nos últimos anos de vida, Dom Eugênio viveu um verdadeiro calvário – seja por razões pessoais, familiares ou eclesiais. A todos que perguntavam se ele estava bem, se estava sofrendo ou se precisava de ajuda, Dom Eugênio respondia com frequência: “Eu estou muito bem. Meu Pai é bom! Ele pode tudo. Ele sabe tudo”. Confiança de um filho que deseja agradar ao Pai, mesmo quando não o compreende.

Na noite de ontem, Dom Eugênio, viveu a sua última Páscoa. Enquanto ele se apresenta diante de Deus, nós, seus filhos espirituais, temos o dever de sufragar sua alma e pedir ao Senhor que lhe conceda o descanso eterno. Mas, como quem conheceu de perto Dom Eugênio, sinto forte a tentação de dizer que, na verdade, as nossas orações serão usadas por Deus para outra finalidade. É bem possível que ele não as necessite e que esteja desde já ouvindo o convite do Pai bondoso, no qual tanto confiou: “Eia, servo bom e fiel, entra para a alegria do teu Senhor!” (Mt 25, 21).

Padre Paulo Ricardo de Azevedo Júnior

 

 

Fonte:http://padrepauloricardo.org/blog/dom-eugenio-uma-escola-de-fidelidade

Desafio aos Evangélicos

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Desafio aos Evangélicos

 

 

Entrega das Chaves do Céu ao Apóstolo Pedro

“Como você sabe que o Livro de Ester é a Palavra de Deus inspirada, e portanto, deve pertencer ao Cânon da Escritura?”

Literalmente, o evangélico não tem como provar que o livro de Ester é inspirado por Deus e deve fazer parte da Bíblia. Pois não é citado nenhuma vez no Novo Testamento, não menciona a palavra Deus em suas páginas e não sabemos quem o escreveu. Mesmo os judeus do primeiro século não estavam plenamente de acordo se ele pertence às Escrituras.

Podiámos também perguntar, ” Como você sabe que 3 João é inspirado, se ele não se auto declara ser escrito por um autor apostólico e sua autoridade foi questionada até mesmo pelos primeiros Cristãos?

Os Cristãos Católicos têm o conforto de seguir o que o Espírito Santo instrui a Igreja a proclamar como ensinamento infalível. Assim, para o Catóico a Bíblia é uma coleção infalível de Livros infalíveis. Contudo, o Protestante deve consolar-se com o argumento que a Bíblia uma coleçãofalível de livros infalíveis

O Protestante nunca pode dar um motivo concreto para explicar porque ele aceita o livro de Ester e 3 João como parte genuína do Cânon da Escritura. Calvino disse que os livros da Bíblia atestam para sua própria origem divina. Mas isso põe-nos uma questão: Atesta à quem? E se alguém lesse um livro da Bíblia, por exemplo, Tiago, e depois de lê-lo e dissesse que trata-se apenas de uma “epístola de palha” (para usar o exemplo do “ilustre” Lutero) contrária ao Evangelho de Cristo? Ou, e se alguém lesse o Pastor de Hermesand e concluísse que um dos seus capítulos devia fazer parte da Bíblia? Quem decide quais livros atestam e ou não à sua própria origem divina?

A resposta é simples: A única maneira de resolver essa charada é apelar para a autoridade da Igreja Católica, querm infalivelmente determina assuntos da fé. Porém, se por ventura, um Protestante apoiar-se na autoridade da Igreja de modo a assegurar-se que ele de fato possui uma coleção infalível de livros infalíveis, ele deve perguntar-se: ” Mas e se a Igreja Católica fez outras afirmações Infalíveis?” É nesse ponto que Protestante começa a tornar-se Católico…

Tem algum protestante ai capaz resolver este problema sem apelar para a natureza Infalível da Igreja Católica?

A RIQUEZA DA IGREJA

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A Igreja Católica é rica…

“O VATICANO NÃO É RICO”
Prof. Felipe Aquino

A riqueza do Vaticano não pode ser analisada em termos absolutos, mas comparada com os outros Estados; nesse sentido é o menor orçamento entre as nações. Entrevista com John L. Allen Jr, vaticanista, é o correspondente da NCR.
Alguns dados retirados da entrevista: O orçamento anual do Vaticano é de US$ 300 milhões; 50% deste orçamento vem de doações; a avaliação das propriedades do Vaticano deveria se aproximar dos US$ 500 milhões; nos Estados Unidos, a Universidade de Notre Dame – tem um orçamento operativo de mais de US$ 1 bilhão – isto é, pode financiar o Vaticano três vezes.
A reportagem é de Andrew Chernin, publicado na revista “Qué pasa” e no sítio “Religión Digital”, 31-10-2009.
A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Como a Igreja e a Santa Sé se financiam?
O orçamento anual do Vaticano é de US$ 300 milhões. Basicamente, eles têm três fontes de renda: a primeira são as doações de igrejas locais e conferências de bispos em todo o mundo. As paróquias são obrigadas a entregar dinheiro às dioceses, e as dioceses são obrigadas a entregar dinheiro para o Vaticano.
Qual é a segunda?
Os investimentos. Em 1929, a nova República italiana pagou ao Vaticano uma enorme quantia por todas as propriedades que ela lhe havia confiscado. Essa quantidade, que hoje seriam de várias centenas de milhões de dólares, foi investida em uma carta de investimentos de bônus e ações que ainda existe e que, a cada ano, entrega renda ao Vaticano. Resta a última. O Vaticano é dono de cerca de 700 propriedades, principalmente em Roma, mas também em toda a Itália. Muitas delas são arrendadas a companhias e a pessoas, como lojas ou departamentos. Então, a cada ano, há dinheiro que chega por esse caminho.
Isso é suficiente?
Todo ano, em geral, eles andam muito apertados com esse orçamento, e não se sabe se ganharão o suficiente para pagar os gastos do Vaticano. Falo das doações.
São muito fundamentais?
Cobrem 50% do orçamento anual. As outras duas contribuem com 25% cada.
Em quanto estão avaliadas as propriedades?
O Vaticano diz que seu patrimônio, que inclui bens raízes, chega a US$ 770 milhões. O grosso dessa cifra são as propriedades. Então, no total, a avaliação deveria se aproximar dos US$ 500 milhões.
Eles estão com números vermelhos ou azuis?
Desde o final da década de 70 até o começo dos 90, eles estavam com números vermelhos quase todos os anos. Depois, chegou um cardeal norte-americano de Detroit encarregado da operação financeira, que era conhecido por ser alguém habilidoso com o dinheiro. Ele corrigiu o déficit, e eles obtiveram números azuis por vários anos. A partir daí, veio uma crise financeira, e voltaram a ter números vermelhos, mesmo que o déficit não tenha sido muito grande. Em geral, a Igreja não obtém excedentes significativos. Então não se poderia dizer que a Igreja é rica. Eu colocaria desta forma: o orçamento operativo da Igreja é de US$ 300 milhões.
Nos Estados Unidos, a Universidade de Notre Dame – que é a maior universidade católica do país – tem um orçamento operativo de mais de US$ 1 bilhão. Isto é, pode financiar o Vaticano três vezes. O patrimônio do Vaticano – quase US$ 800 milhões – é semelhante ao que é entregue às organizações sem fins lucrativos dos Estados Unidos como doação. Meu ponto é que, se medirmos pelos padrões das organizações sem fins lucrativos, o Vaticano não é particularmente rico.
O que acontece é que, diferentemente das organizações sem fins lucrativos – em que o item que absorve mais capital é o pagamento de salários –, no Vaticano, a maioria dos “empregados” são sacerdotes ou freiras que ou não recebem salário ou paga-se-lhes o mínimo. Essa é a forma pela qual o Vaticano pode manter as coisas andando com um orçamento que, no mundo das organizações sem fins lucrativos, seria considerado bastante modesto.
Qual é o departamento encarregado das finanças da Santa Sede?
A Prefeitura dos Assuntos Econômicos.
Como ela funciona?
Um cardeal – Sergio Sebastiani – é o presidente emérito. Ele tem uma junta de consultores. Além disso, existe um conselho de cardeais que assessora a Prefeitura na administração financeira. Esse conselho, por sua vez, tem uma junta de consultores que são profissionais financeiros, especialistas em investimentos etc.
Que perfil tem a pessoa que chega a esse cargo?
O Papa o nomeia. Quase sempre é um bispo italiano veterano que tem reputação de saber lidar com o dinheiro. Informalmente, se subentende que deve ser italiano porque há muita interação com o sistema bancário desse país.
Como você descreveria a atual gestão?
São imensamente conservadores. Fazem investimentos de muito baixo risco. Sei que, muitas vezes, foi frustrante para os cardeais que proveem especialmente dos Estados Unidos e da Europa, porque a Santa Sé demora em adotar algumas das práticas básicas para a administração e investimentos que são usadas em outras partes do mundo. Eles publicam um balanço financeiro anual. Mas não é divulgado. Não há uma auditoria independente das finanças. Ao longo dos anos, muitos cardeais queixaram-se privadamente comigo de que obteriam melhores retornos de investimento se pudessem atrair pessoas externas que tomassem decisões responsáveis, mas ligeiramente mais audazes. O problema passa pela modernização, então. É preciso entender que isso é o Vaticano. O problema de fundo, acredito, é que se trata de uma instituição cuja aproximação ao dinheiro é pré-moderna.
Em que sentido pré-moderna?
Anterior às práticas modernas de contabilidade. Que não se sente cômoda com estratégias de investimento do século XXI. Estamos falando de uma aproximação ao dinheiro que se formou na Alta Idade Média. No entanto, estão lidando com católicos de todo o mundo, que têm sim altas expectativas enquanto a transparência, gestão e responsabilidade

A RIQUEZA DA IGREJA
Nenhuma instituição fez e faz tanta caridade como a Igreja
Felipe Aquino / felipeaquino@cancaonova.com

Muito se fala sobre a riqueza da Igreja, o ouro do Vaticano, entre outros. A Igreja, incumbida por Jesus de levar a salvação a todos os homens, precisa de um “corpo material”, sem o qual não pode cumprir sua missão. O Vaticano possui cerca de 180 núncios apostólicos espalhados pelo mundo.
No último Concílio, o do Vaticano II, Papa João XXIII reuniu cerca de 2.600 bispos de todas as nações, no Vaticano, durante 3 anos… Que chefe de Estado faz isso?
Em 1870, na guerra de unificação da Itália, a Igreja perdeu seu território pontifício de 40 mil quilômetros quadrados; ficando apenas com o pequeno espaço de hoje: 0, 44 km², em 1929, pelo Tratado do Latrão.
Os objetos contidos no Museu do Vaticano foram doados aos Santos Padres por cristãos e pertencem ao patrimônio da humanidade. De acordo com esse tratado [de Latrão], a Igreja não pode vender ou doar qualquer bem que esteja no Museu Vaticano. Não há motivo, portanto, para se falar, maldosamente, da “riqueza do Vaticano”.
Qualquer chefe de Estado, de qualquer pequeno país, tem à sua disposição, no mínimo, um avião. Nem isso, o Papa tem. Além disso, o Vaticano tem um órgão encarregado da caridade do Sumo Pontífice, o Cor Unum.
No final de cada ano, é publicada no jornal do Vaticano, o L’Osservatore Romano, a longa lista de doações que o Papa faz a todas as nações do mundo, inclusive o Brasil, especialmente para vencer as flagelações da seca, fome, terremotos, entre outros. São doações que o Santo Padre faz com o chamado “óbulo de São Pedro”, arrecadado dos fiéis católicos do mundo todo.
A Igreja Católica, nestes dois mil anos, sempre fez e fomentou a caridade. Muitos hospitais, sanatórios, leprosários, asilos, albergues, etc., são e foram mantidos pela Igreja em todo o mundo.
Quantos santos e santas, freiras e sacerdotes, leigos e leigas, passaram sua vida fazendo caridade…
Basta lembrar aqui alguns nomes: São Vicente de Paulo, Dom Bosco, São Camilo de Lellis, Madre Teresa de Calcutá… a lista é enorme!
Hoje, 25% de todas as entidades que assistem os aidéticos são da Igreja. Nenhuma instituição fez e faz tanta caridade como a Igreja.
Ela é muito rica, sim, espiritualmente. Na verdade, ela é rica desde sua origem, porque seu Criador é o próprio Deus; é d’Ele que vem toda a riqueza dela. Ela é o próprio Corpo de Cristo (cf. 1Cor 12, 27).
Ela é rica também porque é a Igreja dos santos, dos mártires, dos profetas, dos apóstolos, das virgens e viúvas santas, dos padres, dos pontífices, dos confessores, e de uma multidão de fiéis que, no silêncio da fé, oferecem suas vidas a Deus. Essa é a verdadeira riqueza da Igreja.

POR QUE A RIQUEZA DO VATICANO?
Se o Papa é o representante de Cristo na terra, porque não O segue em sua pobreza, humildade e simplicidade?
Por D. Estevão Bettencourt

A respeito da “riqueza do Vaticano” propagam-se ditos notoriamente exagerados. Procuremos perceber qual o seu fundamento e qual a razão de ser do poder temporal do Papa, representante de Jesus Cristo sobre a terra.

Quem considera a história, verifica que a soberania territorial dos Papas não se deve a uma pretensa ambição dos Pontífices, nem é o resultado de plano premeditado, mas constitui a afirmação espontânea da fé do povo cristão.

1. A origem da ascendência temporal dos Papas se acha nos primórdios da história da Igreja.

Em 330 o Imperador Constantino transferiu a capital do Império Romano para Bizâncio no Oriente, o que representa um verdadeiro desvio no curso da história: Roma no Ocidente ficou entregue a administração de um conselho municipal, que tinha o nome de Senado, e de funcionários encarregados de julgar as causas judiciárias e cobrar os impostos. Bizâncio mais e mais se esquecia de Roma, descuidando-se do seu reabastecimento e da conservação de seus monumentos; as incursões dos bárbaros na península tornavam as condições de vida da população cada vez mais precárias e dolorosas. Eis, porém, que, em meio à anarquia, uma figura ia ganhando espontânea veneração: a do bispo de Roma, considerado pela população cristã como o pai comum, no qual todos depositavam confiança. Correspondendo a este afeto filial, os Pontífices Romanos foram-se tornando os tutores do bem público não somente no plano espiritual, mas também no temporal e social: em 452, por exemplo, o Papa São Leão Magno dirigiu-se ao encontro de Átila e do exército huno, que se aprestavam para devastar Roma e a Itália meridional, conseguindo detê-los em Mântua.

Nos séc. VI / VII acontecia não raro que príncipes e nobres, ao entrar no mosteiro ou ao morrer, doavam seus bens ao Papa, em testemunho de piedade filial; foi-se assim formando o chamado “Patrimônio de São Pedro” na península itálica e nas ilhas adjacentes. Esses latifúndios, de extensão cada vez maior, permitiam ao Pontífice Romano uma posição de certa independência frente ao Imperador bizantino e colocavam sob a sua jurisdição, religiosa e civil, grande número se beneficiavam. Enquanto o Papa se tornava cada vez mais o amparo das populações infelizes do Ocidente, os Imperadores bizantinos e seus exarcas (representantes estabelecidos em Ravena) se mostravam impotentes ou indiferentes diante das calamidades que as afetavam.

No séc. VIII os acontecimentos se precipitaram.

O Papado se viu premido entre duas potências hostis: no Oriente, os bizantinos favoreciam as heresias (a respeito de Cristo e do culto das imagens), os Imperadores subtraiam terras à jurisdição eclesiástica dos Papas; no norte da Itália, os lombardos, pagãos ou arianos (heréticos), ameaçavam constantemente saquear Roma e os territórios meridionais, constituindo um perigo não somente civil, mas também religioso. Nessas circunstâncias, os Pontífices Romanos se lembraram de recorrer ao auxílio de um dos novos povos do cenário europeu: os francos, que, desde o batismo de seu rei Clóvis em 496, constituíam uma nação cristã de crescente valor cultural; em 732 seu mordomo, Carlos Martelo, tinha conjurado o perigo muçulmano, vencendo os árabes em Poitiers. Os francos conservavam fidelidade à reta fé e possuíam energias novas, enquanto Bizâncio já significava um mundo velho, vítima tanto das sutilezas de seu ingênio (“bizantinismo” na parte, na filosofia, na teologia…) como dos exércitos estrangeiros (principalmente dos persas); o verdadeiro esteio da cristandade já não estava no Oriente (onde as sutis discussões teológicas debilitavam a fé), mas no Oriente, em particular no reino dos francos, onde a fé era empreendedora. Porque então não apelariam os Papas para estes filhos da Santa Igreja, a fim de impor uma ordem de coisas cristã aos povos cristãos?

Foi o que Estevão II resolveu fazer, dirigindo ao mordomo franco um pedido de auxílio diante das ameaças dos lombardos. Pepino o Breve atendeu-o em 756, movido por amos à fé e aos interesses da Igreja: em duas exibições venceu os lombardos e confirmou o Papa na posse do Patrimônio de São Pedro. Estava assim fundado, por magnificência da piedade cristã (dos nobres da Itália e dos francos) o Estado Pontifício independente de Bizâncio. Em compensação, Pepino foi sagrado rei dos francos pelo Papa Estêvão II, e seu filho Carlos Magno recebeu do Pontífice Leão III, em 800, a coroa de Imperador do Império Romano, restaurado no Ocidente com o título de império sacro ou cristão.

Esses fatos tem sido calorosamente comentados pelos historiadores. Pergunta-se se não houve nisso tudo usurpação de direitos, jogo de interesses políticos dos Papas e dos francos.

Após uma reflexão serena, responder-se-á que não. Os acontecimentos mencionados não foram senão a “oficialização” de uma situação que de fato já existia: o Papa já exercia as funções de soberano no Patrimônio de São Pedro, sem possuir o título respectivo; os mordomos francos, do seu lado, já governavam o reino (sob a dinastia dos reis merovíngios ditos “fainéantes”, indolentes), embora não trouxessem as insígnias de monarcas; Pepino o Breve e Estevão II, Carlos Magno e Leão III só fizeram tornar a situação definida e patente aos olhos do mundo. A restauração do Império Romano no Ocidente não pode ser tida como violência cometida contra Bizâncio, nem foi um gesto surpreendente e brusco, mas o remate orgânico de um processo histórico iniciado em 330 e lentamente amadurecido no decorrer de mais de quatrocentos anos (até 756, ou melhor, até 800).

2. O Estado Pontifício, fundado em 756, perdurou ininterruptamente até 1870, quando cedeu ao movimento de unificação da península itálica.

Registraram-se, no decorrer desses muitos séculos, obras grandiosas, que a soberania temporal dos Papas possibilitou mas verificaram-se outrossim certos abusos, gestos de prepotência política e de luxo mundano, principalmente no período da Renascença. A Santa Igreja, guiada pelo Espírito Santo, é a primeira a reconhecer e condenar tais desvios; ela não se identifica irrrestritamente com nenhum de seus membros, mas, na qualidade de Esposa de Cristo, transcende a todos, até mesmo os mais altamente colocados (pois cada um traz até certo ponto o lastro do pecado); também não se surpreende ao verificar os abusos de seus filhos estão bem na linha da parábola evangélica do joio e do trigo…

Em 1870, tendo caído o poder temporal dos Papas, foram amplamente debatidas as vantagens e os inconvenientes da conservação do Estado Pontifício (tratava-se da “Questão Romana”). Apesar de toda a pressão adversária, Pio IX, Leão XIII, São Pio X, Bento XV e Pio XI julgaram não poder abrir mão dos seus antigos direitos; conscientemente, pois, tomaram essa posição. E qual o motivo que levava os Pontífices a proceder desse modo?

Pio XI o explicou com a máxima clareza por ocasião do tratado do Latrão ou da restauração do Estado Pontifício, aos 11 de fevereiro de 1929:

“Podemos dizer que não há uma linha, uma expressão do tratado (do Latrão) que não tenham sido, ao menos durante uns trinta meses, objeto particular de nossos estudos, de nossas meditações e, mais ainda, de nossas orações, orações que pedimos outrossim a grande número de almas santas e mais amadas por Deus.

Quanto a Nós, sabíamos de ante-mão que não conseguiríamos contentar a todos coisa que geralmente nem o próprio Deus consegue…

… Alguns talvez achem exíguo demais o território temporal. Podemos responder, sem entrar em pormenores e precisões pouco oportunas, que é realmente pouco, muito pouco; foi deliberadamente que pedimos o menos possível nessa matéria depois de ter refletido meditado e orado bastante. E isso, por vários motivos, que nos parecem válidos e sérios.

Antes do mais, quisemos mostrar que somos sempre o Pai que trata com seus filhos; em outros termos: quisemos manifestar nossa intenção de não tornar as coisas mais complicadas e, sim, mais simples e mais fáceis.

Além disto, queríamos acalmar e dissipar toda espécie de inquietação; queríamos tornar totalmente injusta absolutamente infundada, qualquer recriminação levantada ou a ser levantada em nome de … iríamos dizer: uma superstição de integridade territorial do país (Itália).

Em terceiro lugar, quisemos demonstrar de modo perentório que espécie nenhuma de ambição terrestre inspira o Vigário de Jesus Cristo, mas unicamente a consciência de que não é possível não pedir, pois uma certa soberania territorial é a condição universalmente reconhecida como indispensável a todo autêntico poder de jurisdição.

Por conseguinte, um mínimo de território que baste para o exercício da jurisdição, o território sem o qual esta não poderia subsistir… Parece-nos, em suma, ver as coisas tais como elas se realizavam na pessoa de São Francisco: este tinha apenas o corpo estritamente necessário para poder deter a alma unida a si. O mesmo se deu com outros santos: seu corpo estava reduzido ao estrito necessário para servir à alma, para continuar a vida humana e, com a vida, sua atividade benfazeja. Tornar-se-á claro a todos, esperamo-lo, que o Sumo Pontífice não possui como território material senão o que lhe é indispensável para o exercício de um poder espiritual confiado a homens em proveito de homens. Não hesitamos em dizer que Nos comprazemos neste estado de coisas; comprazemo-Nos por ver o domínio material reduzido a limites tão restritos que… os homens o devem considerar como que espiritualizado pela missão espiritual imensa, sublime e realmente divina que ele é destinado a sustentar e favorecer” (trecho da alocução publicada pelo “Osservatore Romano” de 13 de fevereiro de 1929).

3. As palavras acima definem bem a mente da Igreja a respeito do poder temporal de que não quis abrir mão durante os sessenta anos em que dele esteve despojada.

Em última análise, vê-se que o Papa considera a sua soberania territorial como o corpo imprescindível ao exercício das atividades de uma alma ou como condição indispensável para o cumprimento de sua missão religiosa; assim como a alma neste mundo não age normalmente sem corpo, assim a tarefa espiritual da Igreja seria impedida, caso lhe faltasse tal suporte temporal.

A comparação ilustra fielmente a verdade. Tenha-se em vista que a Igreja, por definição, exerce autoridade não apenas sobre os corpos e o comportamento exterior dos homens, mas também sobre o setor mais íntimo e importante dos indivíduos: sobre as almas e exerce-a independentemente de fronteiras nacionais, abrangendo centenas de milhões de fiéis do mundo inteiro: onde quer que esteja comprometido o espírito do homem, mesmo nos planos aparentemente mais indiferentes à religião, como o esporte, o cinema, a medicina, o comércio, a Igreja tem que estar aí presente, a fim de orientar a conduta das almas que assim entram em contato com o mundo material.

Tal autoridade é realmente colossal. Em conseqüência, os filhos da Igreja e os homens que compreendem o que essa autoridade significa, não podem deixar de desejar que tanto poder não sofra influência de alguma força estranha, não se torne joguete nas mãos de soberanos políticos, mais ou menos arbitrários. Por isto, cedo ou tarde havia de aflorar à consciência dos cristãos a idéia de que o governo e o Chefe Supremo da Igreja devem ser independentes de qualquer soberano político nacional, devem enfim ser tão livres quanto qualquer governo deste mundo. Em caso contrário, estaria frustrada a sua missão.

Esta última conclusão, a história se encarregou de comprovar. Com efeito, não faltaram no decurso dos séculos tentativas das autoridades civis que visavam submeter o Soberano Pontífice à jurisdição do monarca de tal ou tal país (que ótimo jogo não seria utilizar a autoridade moral dos Papas em favor de interesses nacionais!). Quando o conseguiram, a tarefa religiosa da Igreja se viu enormemente prejudicada. Foi o que se deu, por exemplo, durante o chamado “Exílio de Avinhão”: de 1309 a 1376, os monarcas franceses obtiveram que os Papas residissem em Avinhão (França), onde, carecendo de soberania temporal, ficaram sujeitos à influência do governo civil.
Nesse período, os Pontífices foram perdendo parte da sua autoridade perante a opinião pública internacional; os cristãos de fé (o rei Carlos IV da Alemanha, o poeta Petrarca, Santa Brígida, nobre viúva sueca, Santa Catarina de Sena) se alarmavam, percebendo que, se a situação se prolongasse por muito tempo, o Papado deixaria de ter o prestígio sobrenatural e católico (universal) que deve ter. Basta recordar que o Pontífice João XXII (1316-1334) entrou em conflito com o rei Luís IV da Baviera, animado de pretensões cesaropapistas; excomungado pelo Papa, o monarca respondeu que João XXII servia aos interesses dos Valois de França; por isto não hesitou em criar um antipapa (Nicolau V), alegando que a França tinha “seu” Papa.

Tais idéias e fatos evidenciam quão necessária à missão religiosa da Igreja é a soberania política (por muito limitada que seja) da que os Pontífices tem tradicionalmente usufruído e que ainda recentemente reivindicaram (diga-se mesmo sem temor de exagero: o interesse comum dos fiéis jamais permitiria abrissem mão de tal direito).

4. Mas que dizer do cerimonial de que o Papa se cerca?

Note-se logo que o fato de ser o Pontífice soberano de um pequeno território acarreta certo aparato em torno de sua pessoa. Tal cerimonial, porém é concebido como homenagem deferida não à pessoa do Pontífice como tal, mas à autoridade que a pessoa representa. Aos olhos da fé, não há dúvida, o Chefe visível da Igreja significa algo de muito grande (é o Vigário de Jesus Cristo); quem o compreende, não pode deixar de querer exprimir essa consciência por gestos de apreço. Muitas das demonstrações de reverência em uso na corte pontifícia devem ter surgido do espontâneo afeto dos cristãos; os católicos as entendem como profissão de fé no Cristo e na Igreja. Por este motivo mesmo, pode-se dizer que os Papas, nem a título de humildade, tem o direito de se lhes furtar de todo. O próprio Jesus, que habitualmente não tinha onde repousar a cabeça (cf. Lc 9,58), não recusou as homenagens que O aclamavam quando entrou em Jerusalém, poucos dias antes de morrer: permitiu que tecessem de vestes e ramos a via pela qual passava, montado em um jumentinho; permitiu que, com cantos nos lábios, os hebreus O aclamassem Rei e Filho de Davi, professando seu entusiasmo pelo Messias (cf. Mt 21, 1-11).

O cerimonial de que foi alvo Jesus, como o cerimonial pontifício, não impede simplicidade interior e desapego de espírito. Se houve Papas que deram importância pessoal e excessiva a esse aparato, constituem casos contingentes, que não derrogam à legitimidade do princípio geral.

5. Quanto às propaladas “riquezas” do Vaticano, é preciso dizer que os rumores a seu respeito ultrapassam de muito a realidade.

A Cidade do Vaticano é, do ponto de vista territorial, a mínima do mundo. Quando após 1870 se discutia a “Questão Romana”, diziam muitos que, em caso de restauração da soberania temporal, um Estado do tamanho da República de São Marinho (60,57 kms²) seria suficiente para os Pontífices; ora o Estado Pontifício ressurgiu com 0,44 kms² apenas – o que no século passado parecia incrível! Esse Estado constitui a simples carcassa de uma alma e tem por exclusiva função possibilitar o exercício das atividades da respectiva alma ou da Igreja.

As obras de arte que se encontram no Vaticano, são, em grande parte, a expressão da fé de pintores e arquitetos cristãos, que quiseram glorificar a Deus mediante o seu talento. Os Papas – alguns com prodigalidade talvez excessiva – os incentivaram, porque a Igreja só pode favorecer as artes que contribuam para a exaltação do Criador (veja-se a resposta n.º 9 deste fascículo).

Os objetos contidos nos Museus do Vaticano foram, em grande parte, doados aos Pontífices por cristãos sinceros (reis, cruzados, viajantes, exploradores, etc.), em testemunho de fé. Pertencem ao patrimônio do gênero humano; os Papas não vêem motivo para não os conservar para o bem da cultura universal. O famoso telefone de ouro do Vaticano (se é que ainda existe) foi doado por uma firma comercial…

Não há razão, pois, para que o mundo se detenha cobiçosamente sobre as apregoadas riquezas materiais do Vaticano. Volte, antes, a sua atenção para os imensos tesouros espirituais que daquele recanto territorial emanam para o gênero humano. Queiram-no ou não os homens, é ainda do Vaticano que se faz ouvir a palavra da Verdade e da Vida em meio às teorias mórbidas e à confusão ideológica de nossos tempos.

Fonte: presbiteros.com.br

AS RIQUEZAS DO VATICANO
Revista: PERGUNTE E RESPONDEREMOS
D. Estevão Bettencourt, osb
Nº 302 – Ano 1987 – p. 332.

A propósito das famosas riquezas do Vaticano, o jornal O GLOBO, em sua edição de 16/4/1987, p. 16, publicou as seguintes notícias muito esclarecedoras:

Patrimônio do Vaticano é de US$ 561 milhões

CIDADE DO VATICANO – Em entrevista ao jornal especializado em assuntos econômicos `II Sole 24 Ore`, o Cardeal Giuseppe Caprio, Prefeito para assuntos Econômicos do Vaticano (cargo equivalente ao de Ministro do Tesouro), revelou que o patrimônio total da Santa Sé, incluídos os imóveis e investimentos em ações, é de 561 milhões de dólares.

Ele esclareceu, no entanto, que mais da metade desse capital não só não produz renda, como dá prejuízos, tal como ocorre com as escolas e hospitais mantidos pela Santa Sé em Roma. Assim sendo, acrescentou, o patrimônio produtivo não ultrapassa os 269 milhões de dólares.

A entrevista foi dada a propósito do envio, no mês passado, de uma carta do conselho cardinalício encarregado de estudar os problemas financeiros do Vaticano, aos três mil bispos católicos de todo o mundo. Estes foram instados a sensibilizar os cerca de 800 milhões de católicos do planeta para a necessidade urgente de destinarem maiores quantias ao Óbolo de São Pedro, a coleta feita anualmente a 29 de junho, destinada especificamente à Santa Sé.

Dom Giuseppe Caprio classificou de fantasias as constantes afirmações sobre supostas riquezas do Vaticano, dizendo que, além desses exageros, os cálculos são feitos sobre uma base falsa, pois neles estão incluídos os tesouros artísticos. As pessoas que dizem isso – explicou – não levam em conta o fato de que tais tesouros são inalienáveis, e além do mais improdutivos, obrigando o Vaticano a gastar altas somas com sua guarda e conservação.

Grandes tesouros estão à vista de todos / Inalienáveis bens da Humanidade

Os maiores tesouros artísticos do Vaticano não estão escondidos, com muitas pessoas supõem, mas à vista de todos, na própria Basílica de São Pedro, como a `Pietá`, ou na Capela Sistina, onde estão os famosos afrescos, criações, nos dois casos, de Michelangelo. Outras peças de valor impossível de ser sequer estimado são a ` Transfiguração`, de Rafael, ou o `São Jerônimo`, de Leonardo da Vinci.

Embora o patrimônio artístico e arqueológico dos museus do Vaticano possa ser comparado ao do Museu Britânico, ao do Metropolitan, de Nova York, e ao do Ermitage, de Leningrado, esse acervo, por disposição da própria Santa Sé, que o considera patrimônio de toda a humanidade, é inalienável.

Outros grandes tesouros, que igualmente jamais passarão para outras mãos, só podem ser vistos, contudo, por poucos religiosos e por um número ainda menor de leigos escolhidos. São documentos, pergaminhos, miniaturas, Bulas papais e outros testemunhos de toda a história do Cristianismo até nossos dias. Compreensivelmente, eles estão encerrados a seis metros abaixo do solo, em um aposento de 700 metros quadrados, especialmente construído com espessas paredes de cimento armado revestido de chumbo, à prova de ataques atômicos. Em outro `bunker` com as mesmas características, igualmente no subsolo, estão encerradas relíquias como manuscritos de São Pedro, Bíblias milenares escritas a pena por monges, uma edição da `Divina Comédia` com ilustrações originais de Botticelli, as atas do Concílio de Trento e centenas de preciosidades do mesmo nível`.

Até aqui a notícia de jornal. Clara como é, possa contribuir para dissipar falsas concepções, freqüentemente expressas às cegas, numa dolorosa repetição de `chavões`!

A propósito faz-se oportuno lembrar alguns dados já referidos em PR 292/1986, p. 401:

1) As finanças do Vaticano estão passando por momentos difíceis, pois a Igreja tem desenvolvido e multiplicado seus serviços após o Concílio do Vaticano II, a ponto de sentir sério problema econômico. Assim pensemos na ajuda que a Santa Sé envia a todos os países de missão na África, na Ásia, na América; pensemos também nas muitas Comissões que se criaram em Roma nos últimos tempos para atender ao diálogo com os cristãos separados, com as religiões não cristãs, com os ateus, com os homens de cultura…; existem Comissões de Justiça e Paz, para o Apostolado dos Leigos, o Pontifício Conselho Cor Unum… Estas Comissões são internacionais, de modo que acarretam despesas de viagens, publicações, pesquisas, etc. Isto explica o aumento de gastos, sem que haja receita regular correspondente.

2) O patrimônio territorial que a Igreja possui (Cidade do Vaticano com museus, pinacotecas, basílicas…) resulta de doações que foram sendo feitas à Santa Sé desde o século IV. Na Idade Antiga e na Idade Média muitos cristãos, ao morrer ou ao entrar no Mosteiro, doavam suas terras ao bispo de Roma (= o Papa). Em conseqüência, foi-se formando em torno da cidade de Roma o chamado `Patrimônio de São Pedro`; o Papa, sem ser Chefe de Estado, garantia a boa ordem e a paz em favor dos habitantes daquelas terras, enquanto em outras regiões havia desordens e guerras causadas pelas invasões dos bárbaros (vândalos, godos, lombardos…). Finalmente em 756 Pepino o Breve da França reconheceu oficialmente o Estado Pontifício, que se formara a partir do amor dos fiéis ao Papa, em conseqüência da tutela amiga que o Pontífice exercia em prol das populações vizinhas. Foi assim que surgiu o Estado Pontifício. Em 1870 este caiu, quando a Itália (que era um conjunto de pequenos Estados independentes) foi unificada. Em 1929 foi restaurado o Estado Pontifício como o menor de todos os Estados existentes (+ 0,44km²); os Papas não renunciaram a este minúsculo território porque lhes garante autonomia para exercer a sua missão pastoral, que atinge os fiéis do mundo inteiro. Que poderia fazer o Papa se estivesse sujeito ao controle de comunicações telefônicas, telegráficas e outras por parte do Governo da Itália? Por conseguinte, o Estado Pontifício hoje é uma herança legítima do passado, reduzido ao mínimo e destinado a servir à missão da Igreja.

O que está nos museus do Vaticano (quadros de Michelangelo, Rafael, Leonardo da Vinci, monumentos do Egito…) resulta do incentivo que os Papas sempre deram às artes, ou provém de doações. São um bem comum de toda a humanidade.

3) O cerimonial que cerca por vezes o Santo Padre, é legado de épocas distantes; teve sua plena razão de ser outrora, quando os costumes o exigiam; hoje em dia está sendo mais e mais simplificado; vemos o Papa tomando crianças nos braços, visitando hospitais, prisões, favelas, etc. – A Igreja, porém, julga que, para o culto divino (celebração da Santa Missa, por exemplo), se deve sempre utilizar o que haja de melhor; não se trata de usar alfaias ricas, mas objetos dignos e capazes de exprimir eloqüentemente a fé e o amor dos cristãos a Deus.

4) Aqui no Brasil há dioceses que possuem terras, resultantes de doações feitas aos Bispos na época colonial; essas propriedades ajudam a exercer a missão da Igreja, que exige publicações, meios de comunicação social, escolas, templos, etc. Mas também (são a maioria) há dioceses muito pobres, que precisam de recursos de outras dioceses e organizações para poder desenvolver a sua atividade pastoral. Sabemos como é difícil a vida de um Bispo ou de um sacerdote em muitas regiões do Brasil e da América Latina.

A IGREJA É RICA?!
http://inmulieribus.blogspot.com/2011/12/igreja-e-rica.html

No Facebook podemos ver imagens do Papa em seu trono ao lado de uma criança faminta… trata-se de uma provocação bem antiga, em que se questiona porque o Vaticano não deveria se desfazer de suas “riquezas” e alimentar os pobres.

A Igreja dispõe de um território, que é o Vaticano, e possui bens. Para administrar um e outros, necessita de recursos. A organização e a administração da Igreja não poderiam atingir sua finalidade se não dispusessem de edifícios, de pessoal administrativo e de recursos econômicos.

Como escreveu D. Estêvão Bettencourt:

“(…)na medida em que existe e trabalha neste mundo, a Igreja utiliza os recursos materiais indispensáveis para o exercício da sua missão. Ela não o pode fazer simploriamente, pois isto equivaleria a atirar-se conscientemente na bancarrota; mas tem que se valer das normas de economistas e peritos fidedignos. Quem compreende isto, não se surpreende por saber que a Santa Sé tem seu organograma administrativo. Este é relativamente modesto, se comparado com o de outras instituições” (AS RIQUEZAS DA IGREJA, D. Estêvão Bettencourt. Escola Mater Ecclesiae).

A Santa Sé é um Estado, e, como tal, tem uma política econômica. Pela sua natureza peculiar, no entanto, essa política está limitada pelos princípios éticos e morais do catolicismo.

Toda essa aparente riqueza, no entanto, é insuficiente em relação às despesas do exercício de suas finalidades, ou seja, o serviço pastoral.

“Todavia para fazer frente às exigências de trabalho pastoral sempre mais complexo, o muito ainda é pouco. As dioceses lutam constantemente com insuficiência de recursos para realizar suas grandes tarefas” (Op. Cit).

Portanto, para que as obras sociais e missionárias não sejam paralisadas, a Igreja, além de procurar administrar de forma eficaz os seus recursos, depende da colaboração dos fiéis, através dos dízimos e das ofertas.

Quanto ao dízimo, a Igreja estipulou o seguinte mandamento: “Atender às necessidades materiais da Igreja, cada qual segundo as próprias possibilidades”. Não custa lembrar que o dízimo não é necessariamente a décima parte da renda de alguém, e nem tem como finalidade atrair graças de Deus, sejam materiais ou espirituais, mas antes colaborar com a missão apostólica da Igreja e com o sustento da paróquia da qual participamos.

As mesmas pessoas que compartilham essas imagens no Facebook deveriam também divulgar o sem número de obras de caridade levadas a cabo pela Igreja Católica…mas isso não é “cool”, não dá IBOPE, não é?

Recomendo também o texto: http://www.veritatis.com.br/apologetica/105-igreja-papado/1019-onde-estao-as-riquezas-do-vaticano

* O PAPA SENTA EM UM ”TRONO DE OURO”?
A imagem forjada ACIMA para enganar tolos, foi hospedada neste link abaixo, e mostra uma foto do Papa no trono, colada maldosamente ao lado de outra foto onde uma criança come migalhas do chão:

A Verdade:
1- O Papa jamais poderia vender aquele trono, pois não lhe pertence, é patrimônio tombado da humanidade. O Papa fez voto de pobreza, o deslocado versículo bíblico usado alí não se lhe aplica.
2- O trono em que senta o Papa nunca foi de “ouro”. O trono é de madeira com cobertura de bronze dourado. Só os tolos pensam que tudo que reluz é ouro.
Gian Lorenzo Bernini , o maior escultor do século XVII e também um extraordinário arquiteto, em 1657 começou o Trono de São Pedro, ou Cathedra Petri, uma cobertura em bronze dourado do trono em madeira do papa, que foi terminada em 1666, ao mesmo tempo que realizava a colonata. Continuando os seus retratos em bustos de mármore, esculpiu em 1650 um de Francisco I d’Este, duque de Modena.
Fonte: http://www.arqnet.pt/portal/biografias/bernini.html

Os embusteiros que visaram o falso testemunho juntando estas fotos, fariam melhor se pegassem a criança que come migalhas do chão e a levassem a Igreja Católica, a maior Obra Caritativa do Mundo, confira:
http://cotidianoespiritual.blogspot.com/2011/10/igreja-catolica-maior-obra-caritativa.html

Doações do Papa aos países pobres:
http://www.vatican.va/roman_curia/pontifical_councils/corunum/corunum_po/profilo_po/doni_po.html

Missões de caridades da Igreja:
http://www.vatican.va/roman_curia/pontifical_councils/corunum/corunum_po/attivita_po/missioni_po.html

“O PAPA NÃO PODERIA TROCAR “OS TESOUROS DO VATICANO” POR COMIDA PARA A ÁFRICA?”
Muito se fala sobre a riqueza da Igreja, o ouro do Vaticano, entre outros.
A Igreja, incumbida por Jesus de levar a salvação a todos os homens, precisa de um “corpo material”, sem o qual não pode cumprir sua missão. O Vaticano possui cerca de 180 núncios apostólicos espalhados pelo mundo. No último Concílio, o do Vaticano II, Papa João XXIII reuniu cerca de 2.600 bispos de todas as nações, no Vaticano, durante 3 anos… Que chefe de Estado faz isso?
Em 1870, na guerra de unificação da Itália, a Igreja perdeu seu território pontifício de 40 mil quilômetros quadrados; ficando apenas com o pequeno espaço de hoje: 0,44 km², em 1929, pelo Tratado do Latrão. Os objetos contidos no Museu do Vaticano foram doados aos Santos Padres por cristãos e pertencem ao patrimônio da humanidade. De acordo com esse tratado [de Latrão], a Igreja não pode vender ou doar qualquer bem que esteja no Museu Vaticano. Não há motivo, portanto, para se falar, maldosamente, da “riqueza do Vaticano”.
Qualquer chefe de Estado, de qualquer pequeno país, tem à sua disposição, no mínimo, um avião. Nem isso, o Papa tem. Além disso, o Vaticano tem um órgão encarregado da caridade do Sumo Pontífice, o Cor Unum. No final de cada ano, é publicada no jornal do Vaticano, o L’Osservatore Romano, a longa lista de doações que o Papa faz a todas as nações do mundo, inclusive o Brasil, especialmente para vencer as flagelações da seca, fome, terremotos, entre outros.
São doações que o Santo Padre faz com o chamado “óbulo de São Pedro”, arrecadado dos fiéis católicos do mundo todo. A Igreja Católica, nestes dois mil anos, sempre fez e fomentou a caridade. Muitos hospitais, sanatórios, leprosários, asilos, albergues, etc., são e foram mantidos pela Igreja em todo o mundo. Quantos santos e santas, freiras e sacerdotes, leigos e leigas, passaram sua vida fazendo caridade… Basta lembrar aqui alguns nomes: São Vicente de Paulo, Dom Bosco, São Camilo de Lellis, Madre Teresa de Calcutá… a lista é enorme!
Hoje, 25% de todas as entidades que assistem os aidéticos são da Igreja. Nenhuma instituição fez e faz tanta caridade como a Igreja. Ela é muito rica, sim, espiritualmente. Na verdade, ela é rica desde sua origem, porque seu Criador é o próprio Deus; é d’Ele que vem toda a riqueza dela. Ela é o próprio Corpo de Cristo (cf. 1Cor 12,27).
Ela é rica também porque é a Igreja dos santos, dos mártires, dos profetas, dos apóstolos, das virgens e viúvas santas, dos padres, dos pontífices, dos confessores, e de uma multidão de fiéis que, no silêncio da fé, oferecem suas vidas a Deus. Essa é a verdadeira riqueza da Igreja.
Prof. Felipe Aquino

«TROCAR TESOUROS DO VATICANO POR COMIDA PARA A ÁFRICA. TOPA?».
Com esta mensagem um internauta abriu um espaço no Facebook.
Em poucos dias, até esta sexta-feira pela manhã, 32.146 membros haviam aderido.
O cardeal Paul Josef Cordes, presidente do Conselho Pontifício Cor Unum, esclarece que, independentemente do aspecto provocador ou ideológico da proposta, o Papa não poderia aplicá-la, pois o direito internacional o impede.
«Porque é uma vergonha ver as riquezas do Vaticano e depois o noticiário».
Na realidade, esclarece, a Igreja «tem a tarefa de conservar as obras de arte em nome do Estado Italiano. Não pode vendê-las».
Explica que, quando nos anos 60 um benfeitor alemão fez uma doação para restaurar o Colégio Teutônico, que se encontra dentro do Vaticano, a direção dessa residência, como gesto de agradecimento, deu-lhe uma estátua simples, que não tinha um valor comparável a outras que se encontram nos Museus Vaticanos, que se encontrava dentro do colégio. Essa pessoa teve muitíssimos problemas com o Estado italiano, pois foi acusado de subtrair bens que a Itália deve custodiar, explicou o cardeal.
«Em todas as nações há medidas para a defesa das obras de arte, porque o Estado deve mantê-las», declara, recordando que os bens da Santa Sé também fazem parte da história cultural da Itália. O cardeal recorda, por outro lado, que sem a obra da Igreja Católica, o sistema de saúde e educativo de algumas regiões da África não existiria.
«Presidentes africanos reconhecem quando vêm encontrar com o Papa», explica o cardeal Cordes. Sem a Igreja na África, uma parte dos portadores do HIV ficaria abandonada, pois a Igreja, com sua rede de hospitais, é a instituição que acolhe o maior número de pessoas com este vírus.

SÃO LOURENÇO
10 de Agosto

No ano 257, o imperador romano Valeriano ordenou uma perseguição contra os cristãos. No início, parecia mais branda do que a imposta por Décio. Ela tinha mais uma conotação repressora, porque proibia as reuniões dos cristãos, fechava os acessos às catacumbas, exilava os bispos e exigia respeito aos ritos pagãos. Mas não obrigava a renegar a fé publicamente. Entretanto, no ano seguinte, Valeriano ordenou que os bispos e padres fossem todos mortos.

Lourenço, na ocasião, era o arcediácono, do papa Xisto II, isto é, o primeiro dos sete diáconos a serviço da Igreja de Roma. Dados de sua vida, anterior a esse período, nunca foram encontrados. Porém devia ter uma boa formação acadêmica, pois seu cargo era de muita responsabilidade e importância. Depois do papa, era Lourenço o responsável pela Igreja. Iss quer dizer que ele era o assistente do papa nas celebrações e na distribuição da eucaristia. Mas, além disso, era o único administrador dos bens da Igreja, cuidando das construções dos cemitérios, igrejas e da manutenção das obras assistenciais destinadas ao amparo dos pobres, órfãos, viúvas e doentes.

A partir do decreto de Valeriano, os bispos começaram a ser executados e um dos primeiros foi Cipriano de Cartago, que morreu em 258. Logo em seguida foi a vez de o papa Xisto II ser executado, junto com os outros seis diáconos.

Conta a tradição que Lourenço conseguiu conversar com o papa Xisto II um pouco antes dele morrer. O papa ter-lhe-ia pedido para que distribuísse aos pobres todos os seus pertences e os da Igreja também, pois temia que caíssem nas mãos dos pagãos. Lourenço foi preso e levado à presença do governador romano, Cornélio Secularos, justamente para entregar todos os bens que a Igreja possuía. Lourenço pediu um prazo de três dias, pois, como confessou, a riqueza era grande e tinha de fazer o balanço completo. Obteve o consentimento.

Assim, rapidamente distribuiu tudo aos pobres e, quanto aos livros e objetos sagrados, cuidou para que ficassem bem escondidos. Em seguida, reuniu um grupo de cegos, órfãos, mendigos, doentes e colocou-os na frente de Cornélio, dizendo: “Pronto, aqui estão os tesouros da Igreja”. Irado, o governador mandou que o amarrassem sobre uma grelha, para ser assado vivo, e lentamente. O suplício cruel não demoveu Lourenço de sua fé. Segundo uma narrativa de santo Ambrósio, Lourenço teria ainda encontrado disposição e muita coragem para dizer ao seu carrasco: “Vira-me, que já estou bem assado deste lado”.

Lourenço morreu no dia 10 de agosto de 258, rezando pela cidade de Roma. A população mostrou-se muito grata a são Lourenço, que, pelo seu feito, é chamado de “príncipe dos mártires”. Os romanos ergueram, ao longo do tempo, tantas igrejas em sua homenagem que nem mesmo são Pedro e são Paulo, os padroeiros de Roma, possuem igual devoção.

Fonte: http://paroquiadapiedade.com.br/2012/02/18/a-igreja-catolica-e-rica/