Arquivo da categoria: William Lane Craig

O problema do mal

William Lane Craig

Examines whether God is timeless or everlasting throughout infinite time.

Originalmente publicado como: “The Problem of Evil”. Texto disponível na íntegra em: http://www.reasonablefaith.org/site/News2?page=NewsArticle&id=5350 . Traduzido por Marcos Vasconcelos. Revisado por Djair Dias Filho.

O problema do mal é, com certeza, o maior obstáculo à crença na existência de Deus. Quando reflito a respeito tanto da extensão quanto da profundidade do sofrimento no mundo, quer se deva à falta de humanidade do homem contra o homem, quer se deva aos desastres naturais, devo confessar que acho difícil acreditar na existência de Deus. Sem dúvida muitos de vocês sentem a mesma coisa. Talvez todos devêssemos nos tornar ateus.

Mas esse é um passo imenso a ser dado. Como podemos ter certeza de que Deus não existe? Talvez haja alguma razão para que Deus permita todo o mal que há no mundo. Talvez o mal se encaixe de alguma maneira na estrutura maior das coisas, as quais só conseguimos discernir vagamente, se muito. Como podemos saber?

Como cristão teísta, tenho a convicção de que o problema do mal, por terrível que seja, no fim das contas não se constitui em uma prova contrária à existência de Deus. Antes, de fato, considero que o teísmo cristão seja a melhor última esperança do homem para resolver o problema do mal.

A fim de explicar porque penso assim, será proveitoso traçar algumas distinções para preservarem a clareza do nosso pensamento. Primeiro, devemos distinguir entre o problema intelectual do mal e o problema emocional do mal. O problema intelectual do mal refere-se a como dar uma explicação racional sobre a possibilidade de Deus e o mal coexistirem. O problema emocional do mal diz respeito a como desfazer o desagrado emocional das pessoas quanto a um Deus que permita o sofrimento.

Agora, vamos examinar primeiramente o problema intelectual do mal. Há duas versões desse problema: primeira, o problema lógico do mal; segunda, o problema probabilístico do mal.

De acordo com o problema lógico do mal, é logicamente impossível que Deus e o mal coexistam. Se Deus existe, o mal não pode existir. Se o mal existe, Deus não pode existir. Visto que o mal existe, deduz-se que Deus não existe.

O problema desse argumento é que não há razão para pensar que Deus e o mal sejam logicamente incompatíveis. Não há contradição explícita entre eles. Se o ateu pretende que haja alguma contradição implícita entre Deus e o mal, ele deve, então, assumir algumas premissas ocultas que tragam à superfície essa contradição implícita. O problema, entretanto, é que nenhum filósofo jamais foi capaz de identificar essas premissas. Logo, o problema lógico do mal não consegue provar nenhuma inconsistência entre Deus e o mal.

Mas mais do que isso: podemos provar de fato que Deus e o mal são logicamente consistentes. Veja, o ateu pressupõe que Deus não pode ter razões moralmente suficientes para permitir o mal no mundo. Todavia, essa suposição não é necessariamente verdadeira. Uma vez que seja possível que Deus tenha razões moralmente suficientes para permitir o mal, conclui-se que Deus e o mal são logicamente consistentes. E, não há dúvida, isso parece de fato logicamente possível. Assim, tenho a grata satisfação de poder informar que há, entre os filósofos contemporâneos, a concordância de que o problema lógico do mal foi desfeito. A coexistência de Deus e o mal é logicamente possível.

Ainda não escapamos da floresta. Agora, porém, enfrentamos o problema probabilístico do mal. Segundo essa versão do problema, a coexistência de Deus e o mal é logicamente possível, não obstante seja altamente improvável. A extensão e a profundidade do mal no mundo são tão grandes que é improvável que Deus poderia ter razões moralmente suficientes para permiti-lo. Logo, dada a existência do mal no mundo, é improvável que Deus exista.

Ora, esse argumento é muito mais forte, e, por isso, quero concentrar nossa atenção nele. Para responder a essa versão do problema do mal, quero estabelecer três pontos:

1. Não estamos em posição favorável para calcular a probabilidade de Deus ter ou não razões morais suficientes para o mal que ocorre. Como pessoas finitas, estamos limitados por tempo, espaço, inteligência e capacidade perceptiva. Mas o Deus soberano e transcendente vê o final desde o começo e ordena a história de modo providencial para que os propósitos divinos sejam plenamente alcançados mediante as livres decisões humanas. Para alcançar seus objetivos, é possível que Deus ature certos males ao longo do caminho. Males que, na nossa conjuntura limitada, parecem-nos despropositados podem ser vistos como justamente permitidos na conjuntura infinitamente maior de Deus. Tomando por empréstimo a ilustração de um campo científico em desenvolvimento, a Teoria do Caos, os cientistas têm descoberto que certos sistemas macroscópicos — por exemplo, sistemas climáticos ou populações de insetos — são extraordinariamente sensíveis às mínimas perturbações. Uma borboleta tremulando as asas num galho qualquer na África Ocidental poderia desencadear forças capazes de, no final, produzir um furacão sobre o Oceano Atlântico. A princípio, é impossível a alguém, observando essa borboleta batendo as asas num galho, predizer tal consequência. O assassinato brutal de alguém inocente ou a morte de uma criança por leucemia poderia produzir uma espécie de efeito propagador através da história, de tal modo que a razão moral suficiente de Deus para permitir esses acontecimentos só poderia vir à tona séculos mais tarde e talvez em outro lugar. Quando se pondera acerca da providência de Deus sobre toda a história, penso que seja possível ver quão impossível é para observadores limitados especular quanto à probabilidade de que Deus poderia ter uma razão moral suficiente para permitir determinado mal. Não estamos em posição favorável para calcular tais probabilidades.

2. A fé cristã requer doutrinas que aumentam a probabilidade da coexistência de Deus e o mal. Se assim for, essas doutrinas reduzem qualquer improbabilidade da existência de Deus decorrente da existência do mal. Quais são algumas dessas doutrinas? Permitam-me mencionar quatro:

a. O propósito principal da vida não é a felicidade, mas o conhecimento de Deus. Uma das razões por que o problema do mal parece tão enigmático é nossa tendência a pensar que, se Deus existe, o seu objetivo para a vida humana é a felicidade neste mundo. O papel de Deus é proporcionar ambiente confortável para seus seres humanos de estimação. Mas na visão cristã isso é falso. Não somos os animais de estimação de Deus, e o fim principal do homem não é a felicidade neste mundo, mas o conhecimento de Deus; esse conhecimento finalmente tornará verdadeira e eterna a plenitude humana. Na vida, acontecem muitos males que podem ser absolutamente inúteis quanto à meta de produzir a felicidade humana no mundo, mas não podem ser injustificados quanto a produzir o conhecimento de Deus. O sofrimento de seres humanos inocentes proporciona a oportunidade para dependência e confiança mais profundas em Deus, seja da parte de quem sofre ou daqueles que o circundam. Obviamente, se o propósito de Deus é ou não alcançado por meio do nosso sofrimento dependerá da nossa reação. Reagimos com rancor e amargura contra Deus ou nos voltamos a ele em fé, buscando força para suportar?

b. O estado da humanidade é de rebelião contra Deus e seu propósito. Em vez de se submeterem à vontade de Deus, as pessoas se rebelam contra ele e seguem seus próprios caminhos, tornando-se por isso alienadas de Deus, moralmente culpadas diante dele, tateando em trevas espirituais, indo atrás de falsos deuses criados por si mesmas. Os terríveis males humanos que há no mundo são o testemunho da corrupção do homem, nesse estado de alienação espiritual de Deus. O cristão não se surpreende com a maldade humana no mundo; antes, ele a tem como certeza. A Bíblia diz que Deus entregou a humanidade aos pecados que ela própria tem escolhido; ele não interfere a fim de pará-la, mas deixa que a depravação corra seu curso. Isso serve somente para destacar ainda mais a responsabilidade moral da humanidade perante Deus, bem como nossa perversidade e nossa necessidade de perdão e purificação moral.

c. O conhecimento de Deus deságua na vida eterna. Na visão cristã, esta vida não é tudo o que existe. Jesus prometeu a vida eterna a todo aquele que põe a sua confiança nele, como seu Salvador e Senhor. Na vida além, Deus recompensará com uma vida eterna de gozo indizível aqueles que suportaram o sofrimento de maneira firme e confiante. O apóstolo Paulo, que escreveu a maior parte do Novo Testamento, viveu uma vida de sofrimentos incríveis. Todavia, ele escreveu: “não desanimamos […] Porque a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós eterno peso de glória, acima de toda comparação, não atentando nós nas coisas que se veem, mas nas que se não veem; porque as que se veem são temporais, e as que se não veem são eternas” (2Co 4.16-18). É como se Paulo imaginasse uma balança comum na qual, em um dos pratos, colocam-se todos os sofrimentos desta vida, e, no outro, coloca-se a glória que Deus concederá a seus filhos no céu. O peso de glória é tão grande que está literalmente fora de comparação com o sofrimento. Além disso, quanto mais permanecermos na eternidade tanto mais os sofrimentos desta vida se encolherão até se tornarem um momento infinitesimal. É por isso que Paulo pôde chamá-los de “leve e momentânea tribulação” — eles foram simplesmente aniquilados pelo oceano de eternidade e gozo divinos que Deus derrama liberalmente sobre os que confiam nele.

d. O conhecimento de Deus é um bem imensurável. Conhecer a Deus, a fonte de bondade e amor infinitos, é bem incomparável, é a plenitude da existência humana. Os sofrimentos desta vida não podem sequer ser comparados a ele. Assim, a pessoa que conhece a Deus, não importa o quanto sofra, não importa quão dolorosa seja a sua dor, ainda pode dizer “Deus é bom para mim”, simplesmente pelo fato de que ela conhece a Deus, um bem incomparável.

Essas quatro doutrinas cristãs reduzem grandemente qualquer improbabilidade que o mal pareceria lançar contra a existência de Deus.

3. Relativamente ao escopo total das evidências, a existência de Deus é provável. As probabilidades dependem relativamente das informações preliminares consideradas. Por exemplo, imaginemos que Joe estude na Universidade de Colorado. Agora, suponhamos que fomos informados de que 95% dos estudantes da Universidade de Colorado esquiam. Relativamente a essa informação, é altamente provável que Joe esquie. Mas imaginemos então que também sabemos que Joe tem membros amputados e 95% dos amputados da Universidade de Colorado não esquiam. De repente, a probabilidade de Joe ser esquiador diminuiu drasticamente!

Semelhantemente, se tudo o que se considera como informação preliminar for o mal que há no mundo, quase não surpreende que a existência de Deus pareça improvável relativamente a isso. Mas essa não é a questão real. A questão real é se a existência de Deus é improvável relativamente à evidência total disponível. Tenho a convicção de que, quando se considera a evidência total, então, a existência de Deus é bastante provável.

Permitam-me mencionar três evidências:

1. Deus proporciona a melhor explicação por que o universo existe em vez de nada. Já se perguntou alguma vez por que algo, em vez de nada, existe? Qual a origem de tudo? Tipicamente, os ateus afirmam que o universo é eterno e incausado. Porém, as descobertas da astronomia e da astrofísica ao longo dos últimos oitenta anos mostram que isso é improvável. Conforme o modelo de universo do big bang, toda matéria e energia — na verdade, até mesmo o espaço físico e o tempo — vieram a existir em algum momento cerca de 13,5 bilhões de anos atrás. Antes desse momento, o universo simplesmente não existia. Portanto, o modelo do big bang requer a criação do universo a partir do nada.

Ora, isso tende a ser muito embaraçoso para o ateu. O filósofo ateu Quentin Smith escreveu:

A reposta de ateus e agnósticos a essas novidades tem sido comparativamente fraca — na realidade, quase invisível. Um silêncio incômodo parece ser a regra, quando se levanta a questão entre incrédulos […] Não é difícil achar a razão para o constrangimento dos não-teístas. É o que sugere Anthony Kenny com a sua declaração: “Quem propõe a teoria [do big bang], ao menos se for ateu, tem de acreditar que a matéria do universo veio do nada e por nada”.

Essa dificuldade não afronta jamais o cristão teísta, uma vez que a teoria do big bang somente confirma o que ele sempre acreditou: no princípio, Deus criou o universo. Agora, pergunto-lhes: o que é mais plausível: que o cristão teísta esteja certo ou que o universo passou a existir incausado a partir do nada?

2. Deus proporciona a melhor explicação para a ordem complexa que existe no universo. Durante os últimos 40 anos, os cientistas têm descoberto que a existência de vida inteligente depende do complexo e delicado equilíbrio das condições iniciais dadas no próprio big bang. Sabemos agora que universos desfavoráveis à vida são vastamente mais prováveis do que qualquer universo favorável à vida, como o nosso. Quanto são mais prováveis?

A resposta é que as possibilidades para que o universo seja favorável à vida são tão infinitesimais quanto incompreensíveis e incalculáveis. Por exemplo, uma única mudança na força da gravidade ou na força nuclear fraca em apenas uma parte em 10100 impediria a existência de um universo favorável à vida. A dita constante cosmológica “lambda” que regula a expansão inflacionária do universo e é responsável pela recém-descoberta a aceleração da expansão do universo está ajustada precisamente em cerca de uma parte em 10120. Roger Penrose, físico da Universidade de Oxford, calcula que a probabilidade de a condição de entropia especialmente baixa do nosso universo, da qual depende nossa vida, ter subido totalmente por acaso é no mínimo tão pequena quanto cerca de uma parte em 1010(123). Penrose comenta: “Não me lembro jamais de ter visto na física algo cuja precisão conhecida se aproxime, mesmo remotamente, do número de uma parte em 1010(123)”. Há múltiplas quantidades e constantes que devem ser ajustadas com tal precisão para que o universo seja favorável à vida. E não basta que cada quantidade individual tenha de ser ajustada perfeitamente; as proporções entre elas também têm de ser ajustadas com precisão. Assim, improbabilidade multiplica improbabilidade que multiplica improbabilidade até que nossa mente esteja enrolada em números incompreensíveis.

Não existe nenhuma razão física para que essas constantes e quantidades sejam os valores que são. O físico Paul Davies, ex-agnóstico, comenta: “No curso do meu trabalho científico, passei a acreditar cada vez mais fortemente que o universo físico é formado com uma engenhosidade tão extraordinária que não posso aceitá-lo meramente como fato bruto”. Semelhantemente, Fred Hoyle observa: “A interpretação dos fatos pelo senso comum sugere que um superintelecto tem aprontado travessuras com a física”. Robert Jastrow, ex-dirigente do Instituto Goddard para Pesquisas Espaciais, da NASA, chama isso de a mais forte evidência que a ciência já produziu a favor da existência de Deus.

A visão que os teístas cristãos sempre defenderam — que existe um projetista inteligente do universo — parece fazer muito mais sentido do que a visão ateísta de que o universo, quando apareceu de modo incausado a partir do nada, foi ajustado pelo acaso com uma precisão incompreensível, para ser favorável à existência de vida inteligente.

3. Valores morais objetivos no mundo. Se Deus não existe, não existem valores morais objetivos. Há muitos teístas e ateus que concordam igualmente nessa questão. Por exemplo, o filósofo da ciência Michael Ruse explica:

A moralidade não é menos uma adaptação biológica do que mãos, pés e dentes. Considerada como um conjunto de alegações racionalmente justificáveis sobre coisas objetivas, a ética é ilusória. Acho louvável que, ao dizerem “Ama o teu próximo como a ti mesmo”, as pessoas achem que estão se referindo acima e além de si mesmas. No entanto, tal referência é, de fato, desprovida de fundamento. A moralidade é somente um auxílio à sobrevivência e à reprodução […] e qualquer significado mais profundo é ilusório.

Friedrich Nietzsche, o célebre ateu do século XIX que proclamou a morte de Deus, entendia que a morte de Deus significava a destruição de todo sentido e valor da vida.

Acho que Friedrich Nietzsche estava certo.

Aqui é preciso ser muito cuidadoso. Neste ponto, a questão não é: “Temos de acreditar em Deus para viver vidas morais?”. Não estou afirmando que temos. A questão também não é: “Somos capazes de reconhecer valores morais objetivos sem acreditar em Deus?”. Penso que podemos.

Antes, ao contrário, a questão é: “Se Deus não existe, existem realmente valores morais objetivos?”. Assim como Ruse, não vejo nenhuma razão para pensar que, na falta de Deus, a moralidade gregária que evoluiu com o Homo sapiens seja objetiva. No fim das contas, se não há Deus, o que há de tão especial nos seres humanos? Eles não passam de subprodutos acidentais da natureza, que evoluiu até relativamente pouco tempo numa partícula infinitesimal de poeira perdida em algum lugar num universo hostil e irracional, condenados a perecer individual e coletivamente num intervalo de tempo relativamente curto. Do ponto de vista ateu, certas ações, digamos, como o estupro, podem não ser biológica nem socialmente vantajosas e, portanto, no curso do desenvolvimento humano tornaram-se tabu; isso, no entanto, não serve absolutamente em nada para provar que o estupro seja realmente errado. Do ponto de vista ateu, não há nada realmente errado ao estuprar alguém. Assim, sem Deus, não há nada absolutamente certo ou errado que se imponha à nossa consciência.

O problema é que valores objetivos realmente existem, e lá no íntimo profundo todos nós sabemos disso. Há tanta razão para negar a realidade objetiva de valores morais quanto para negar a realidade objetiva do mundo físico. Ações como estupro, crueldade e abuso infantil não são apenas comportamento social inaceitável: são abominações morais. Algumas coisas são realmente erradas.

Assim, de modo paradoxal, o mal serve de fato para estabelecer a existência de Deus. Pois, se valores objetivos não podem existir sem Deus e valores objetivos realmente existem — como evidenciado pela realidade do mal —, conclui-se inevitavelmente que Deus existe. Portanto, embora em certo sentido o mal ponha em dúvida a existência de Deus, em sentido mais fundamental ele demonstra a existência de Deus, visto que o mal não poderia existir sem Deus.

Esses argumentos são apenas parte das evidências de que Deus existe. O proeminente filósofo Alvin Plantinga apresentou aproximadamente duas dúzias de argumentos para a existência de Deus. A força cumulativa desses argumentos torna provável a existência de Deus.

Resumindo, se minhas três teses estiverem certas, o mal não torna improvável a existência do Deus dos cristãos. Antes, ao contrário, considerando-se o escopo total das evidências, a existência de Deus é provável. Assim, o problema intelectual do mal não consegue arruinar a existência de Deus.

Mas isso nos leva ao problema emocional do mal. Penso que a maioria das pessoas que rejeita Deus pela existência do mal no mundo não o faz realmente por dificuldades intelectuais; antes, é um problema emocional. Elas somente não gostam de um Deus que permite que elas e outros sofram e, portanto, não querem nada com ele. Elas adotam simplesmente um ateísmo de rejeição. Teria a fé cristã algo a dizer a tais pessoas?

Com certeza, tem! Pois ela nos diz que Deus não é um Criador distante nem um ser impessoal, mas um Pai amoroso que partilha conosco de nossos sofrimentos e feridas. O Prof. Plantinga escreveu:

Do modo como os cristãos veem as coisas, Deus não fica de lado sem fazer nada, observando friamente o sofrimento de suas criaturas. Ele participa e partilha de nossos sofrimentos. Ele suporta a angústia de ver seu Filho, a segunda pessoa da Trindade, enviado para a morte amarga, cruel e vergonhosa da cruz. Cristo estava pronto para suportar as agonias do próprio inferno […] para vencer o pecado, a morte e os males que afligem nosso mundo, e para conceder-nos uma vida mais gloriosa do que podemos imaginar. Ele estava pronto para sofrer em nosso lugar, para aceitar padecer aquilo que não somos capazes de imaginar.

Veja, Jesus suportou um sofrimento que ultrapassa qualquer compreensão: ele suportou o castigo pelos pecados do mundo inteiro. Nenhum de nós é capaz de compreender tal sofrimento. Embora fosse inocente, ele recebeu voluntariamente sobre si o castigo que nós merecíamos. E por quê? Porque ele nos ama. Como podemos rejeitar aquele que tudo deu por nós?

Quando compreendemos seu sacrifício e amor por nós, isso posiciona o problema do mal em perspectiva inteiramente diferente. Pois agora vemos claramente que o problema do mal é o problema no nosso mal. Cheios de pecado e moralmente culpados diante de Deus, a questão que enfrentamos não é como Deus pode se justificar diante de nós, mas como nós podemos ser justificados diante dele.

Assim, paradoxalmente, ainda que o problema do mal seja a maior objeção para a existência de Deus, no final das contas Deus é a única solução para o problema do mal. Se Deus não existe, estamos perdidos e sem esperança numa vida cheia de sofrimento gratuito e sem redenção. Deus é a resposta final para o problema do mal, porque ele nos redime do mal e nos traz para a alegria eterna e o bem imensurável da comunhão consigo mesmo.

Read more: http://www.reasonablefaith.org/portuguese/o-problema-do-mal#ixzz1wAvs80G8

“É possível acreditar em Deus usando a razão”, afirma William Lane Craig

“É possível acreditar em Deus usando a razão”, afirma William Lane Craig

O filósofo e teólogo defende o cristianismo, a ressurreição de Jesus e a veracidade da Bíblia a partir de construção lógica e racional, e se destaca em debates com pensadores ateus

Marco Túlio Pires, de Águas de Lindóia
William Lane Craig: "Sem Deus, não é possível explicar a existência de valores e deveres morais objetivos"William Lane Craig: “Sem Deus, não é possível explicar a existência de valores e deveres morais objetivos” (Divulgação)

“Se você acha que a religião é um conto de fadas, não acredite. Mas se o cristianismo é a verdade — como penso que é — temos que acreditar nele independente das consequências. É o que as pessoas racionais fazem, elas acreditam na verdade. A  via contrária é o pragmatismo. ‘Isso Funciona? Não importa se é verdade, quero saber se funciona'”

William Lane Craig

Quando o escritor britânico Christopher Hitchens, um dos maiores defensores do ateísmo, travou um longo debate nos Estados Unidos, em abril de 2009, com o filósofo e teólogo William Lane Craig sobre a existência de Deus, seus colegas ateus ficaram tensos. Momentos antes de subir ao palco, Hitchens — que morreu em dezembro de 2011. aos 62 anos — falou a jornalistas sobre a expectativa de enfrentar Craig.

“Posso dizer que meus colegas ateus o levam bem a sério”, disse. “Ele é considerado um adversário muito duro, rigoroso, culto e formidável”, continuou. “Normalmente as pessoas não me dizem ‘boa sorte’ ou ‘não nos decepcione’ antes de um debate — mas hoje, é o tipo de coisa que estão me dizendo”. Difícil saber se houve um vencedor do debate. O certo é que Craig se destaca pela elegância com que apresenta seus argumentos, mesmo quando submetido ao fogo cerrado.

O teólogo evangélico é considerado um dos maiores defensores da doutrina cristã na atualidade. Craig, que vive em Atlanta (EUA) com a esposa, sustenta que a existência de Deus e a ressurreição de Jesus, por exemplo, não são apenas questões de fé, mas passíveis de prova lógica e racional. Em seu currículo de debates estão o famoso químico e autor britânico Peter Atkins e o neurocientista americano Sam Harris (veja lista com vídeos legendados de Craig). Basta uma rápida procura no Youtube para encontrar uma vastidão de debates travados entre Craig e diversos estudiosos. Richard Dawkins, um dos maiores críticos do teísmo, ainda se recusa a discutir com Craig sobre a existência de Deus.

Em artigo publicado no jornal inglês The Guardian, Dawkins afirma que Craig faz apologia ao genocídio, por defender passagens da Bíblia que justificam a morte de homens, mulheres e crianças por meio de ordens divinas. “Vocês apertariam a mão de um homem que escreve esse tipo de coisa? Vocês compartilhariam o mesmo palco que ele? Eu não, eu me recuso”, escreveu. Na entrevista abaixo, Craig fala sobre o assunto.

Autor de diversos livros —  entre eles Em Guarda – Defenda a fé cristã com razão e precisão (Ed. Vida Nova), lançado no fim de 2011 no Brasil, — Craig é doutor em filosofia pela Universidade de Birmingham, na Inglaterra, e em teologia pela Universidade de Munique, Alemanha. O filósofo esteve no Brasil para o 8º Congresso de Teologia da Editora Vida Nova, em Águas de Lindóia, entre 13 e 16 de março. Durante o simpósio, Craig deu palestras e dedicou a última apresentação a atacar, ponto a ponto, os argumentos de Richard Dawkins sobre a inexistência de Deus.

Perfil

Nome: William Lane Craig
Profissão: Filósofo, teólogo e professor universitário na Universidade de Biola, Califórnia
Nascimento: 23 de agosto de 1949
Livros destacados: Apologética Contemporânea – A veracidade da Fé Cristã; Em Guarda, Defenda a fé cristã com razão e precisão; ambos publicados no Brasil pela editora Vida Nova
Principal contribuição para a filosofia: Craig foi responsável por reformular o Argumento Cosmológico Kalam (variação do argumento cosmológico que defende a existência de uma primeira causa para o universo) nos seguintes termos: 1) Tudo que começa a existir tem uma causa de existência. 2) O universo começou a existir. 3) Portanto, o universo tem uma causa para sua existência.
Informações pessoais: William Lane Craig é conhecido pelo trabalho na filosofia do tempo e na filosofia da religião, especificamente sobre a existência de Deus e na defesa do teísmo cristão. Escreveu e editou mais de 30 livros, é doutor em filosofia e teologia em universidades inglesa e alemã e desde 1996 é pesquisador e professor de filosofia na Universidade de Biola, na Califórnia. Atualmente vive em Atlanta, nos EUA, com a esposa. Craig pratica exercícios regularmente como forma de combater a APM (Atrofia Peronial Muscular) uma doença degenerativa do sistema nervoso que lhe causou atrofiamento dos nervos das mãos e pernas. Especialista em debates desde o ensino médio, o filósofo passa a maior parte do tempo estudando.

Por que deveríamos acreditar em Deus? Porque os argumentos e evidências que apontam para a Sua existência são mais plausíveis do que aqueles que apontam para a negação. Vários argumentos dão força à ideia de que Deus existe. Ele é a melhor explicação para a existência de tudo a partir de um momento no passado finito, e também a para o ajuste preciso do universo, levando ao surgimento de vida inteligente. Deus também é a melhor explicação para a existência de deveres e valores morais objetivos no mundo. Com isso, quero dizer valores e deveres que existem independentemente da opinião humana.

Se Deus é bondade e justiça, por que ele não criou um universo perfeito onde todas as pessoas vivem felizes? Acho que esse é o desejo de Deus. É o que a Bíblia ensina. O fato de que o desejo de Deus não é realizado implica que os seres humanos possuem livre-arbítrio. Não concordo com os teólogos que dizem que Deus determina quem é salvo ou não. Parece-me que os próprios humanos determinam isso. A única razão pela qual algumas pessoas não são salvas é porque elas próprias rejeitam livremente a vontade de Deus de salvá-las.

Alguns cientistas argumentam que o livre-arbítrio não existe. Se esse for o caso, as pessoas poderiam ser julgadas por Deus? Não, elas não poderiam. Acredito que esses autores estão errados. É difícil entender como a concepção do determinismo pode ser racional. Se acreditarmos que tudo é determinado, então até a crença no determinismo foi determinada. Nesse contexto, não se chega a essa conclusão por reflexão racional. Ela seria tão natural e inevitável como um dente que nasce ou uma árvore que dá galhos. Penso que o determinismo, racionalmente, não passa de absurdo. Não é possível acreditar racionalmente nele. Portanto, a atitude racional é negá-lo e acreditar que existe o livre-arbítrio.

O senhor defende em seu site uma passagem do Velho Testamento em que Deus ordena a destruição da cidade de Canaã, inclusive autorizando o genocídio, argumentando que os inocentes mortos nesse massacre seriam salvos pela graça divina. Esse não é um argumento perigosamente próximo daqueles usados por terroristas motivados pela religião? A teoria ética desses terroristas não está errada. Isso, contudo, não quer dizer que eles estão certos. O problema é a crença deles no deus errado. O verdadeiro Deus não ordena atos terroristas e, portanto, eles estariam cometendo uma atrocidade moral. Quero dizer que se Deus decide tirar a vida de uma pessoa inocente, especialmente uma criança, a Sua graça se estende a ela.

Se o terrorista é cristão o ato terrorista motivado pela religião é justificável, por ele acreditar no Deus ‘certo’? Não é suficiente acreditar no deus certo. É preciso garantir que os comandos divinos estão sendo corretamente interpretados. Não acho que Deus dê esse tipo de comando hoje em dia. Os casos do Velho Testamento, como a conquista de Canaã, não representam a vontade normal de Deus.

O sr. está querendo dizer que Deus também está sujeito a variações de humor? Não é plausível esperar que pelo menos Ele seja consistente? Penso que Deus pode fazer exceções aos comandos morais que dá. O principal exemplo no Velho Testamento é a ordem que ele dá a Abraão para sacrificar seu filho Isaque. Se Abraão tivesse feito isso por iniciativa própria, isso seria uma abominação. O deus do Velho Testamento condena o sacrifício infantil. Essa foi uma das razões que o levou a ordenar a destruição das nações pagãs ao redor de Israel. Elas estavam sacrificando crianças aos seus deuses. E, no entanto, Deus dá essa ordem extraordinária a Abraão: sacrificar o próprio filho Isaque. Isso serviu para verificar a obediência e fé dele. Mas isso é a exceção que prova a regra. Não é a forma normal com que Deus conduz os assuntos humanos. Mas porque Deus é Deus, Ele tem a possibilidade de abrir exceções em alguns casos extremos, como esse.

O sr. disse que não é suficiente ter o deus certo, é preciso fazer a interpretação correta dos comandos divinos. Como garantir que a sua interpretação é objetivamente correta? As coisas que digo são baseadas no que Deus nos deu a conhecer sobre si mesmo e em preceitos registrados na Bíblia, que é a palavra d’Ele. Refiro-me a determinações sobre a vida humana, como “não matarás”. Deus condena o sacrifício de crianças, Seu desejo é que amemos uns ao outros. Essa é a Sua moral geral. Seria apenas em casos excepcionalmente extremos, como o de Abraão e Isaque, que Deus mudaria isso. Se eu achar que Deus me comandou a fazer algo que é contra o Seu desejo moral geral, revelado na escritura, o mais provável é que eu tenha entendido errado. Temos a revelação do desejo moral de Deus e é assim que devemos nos comportar.

O sr. deposita grande parte da sua argumentação no conteúdo da Bíblia. Contudo, ela foi escrita por homens em um período restrito, em uma área restrita do mundo, em uma língua restrita, para um grupo específico de pessoas. Que evidência se tem de que a Bíblia é a palavra de um ser sobrenatural? A razão pela qual acreditamos na Bíblia e sua validade é porque acreditamos em Cristo. Ele considerava as escrituras hebraicas como a palavra de Deus. Seus ensinamentos são extensões do que é ensinado no Velho Testamento. Os ensinamentos de Jesus são direcionados à era da Igreja, que o sucederia. A questão, então, se torna a seguinte: temos boas razões para acreditar em Jesus? Ele é quem ele diz ser, a revelação de Deus? Acredito que sim. A ressurreição dos mortos, por exemplo, mostra que ele era quem afirmava.

Existem provas que confirmem a ressurreição de Jesus? Temos boas bases históricas. A palavra ‘prova’ pode ser enganosa porque muitos a associam com matemática. Certamente, não temos prova matemática de qualquer coisa que tenha acontecido na história do homem. Não temos provas, nesse sentido, de que Júlio César foi assassinado no senado romano, por exemplo, mas temos boas bases históricas para isso. Meu argumento é que se você considera os documentos do Novo Testamento como fontes da história antiga, — como os historiadores gregos Tácito, Heródoto ou Tucídides — o evangelho aparece como uma fonte histórica muito confiável para a vida de Jesus de Nazaré. A maioria dos historiadores do Novo Testamento concorda com os fatos fundamentais que balizam a inferência sobre a ressurreição de Cristo. Coisas como a sua execução sob autoridade romana, a descoberta das tumbas vazias por um grupo de mulheres no domingo depois da crucificação e o relato de vários indivíduos e grupos sobre os aparecimentos de Jesus vivo após sua execução. Com isso, nos resta a seguinte pergunta: qual é a melhor explicação para essa sequência de acontecimentos? Penso que a melhor explicação é aquela que os discípulos originais deram — Deus fez Jesus renascer dos mortos. Não podemos falar de uma prova, mas podemos levantar boas bases históricas para dizer que a ressurreição é a melhor explicação para os fatos. E como temos boas razões para acreditar que Cristo era quem dizia ser, portanto temos boas razões para acreditar que seus ensinamentos eram verdade. Sendo assim, podemos ver que a Bíblia não foi criação contingente de um tempo, de um lugar e de certas pessoas, mas é a palavra de Deus para a humanidade.

O textos da Bíblia passaram por diversas revisões ao longo do tempo. Como podemos ter certeza de que as informações às quais temos acesso hoje são as mesmas escritas há 2.000 anos? Além disso, como lidar com o fato de que informações podem ser perdidas durante a tradução? Você tem razão quanto a variedade de revisões e traduções. Por isso, é imperativo voltar às línguas originais nas quais esses textos foram escritos. Hoje, os críticos textuais comparam diferentes manuscritos antigos de modo a reconstruir o que os originais diziam. O Novo Testamento é o livro mais atestado da história antiga, seja em termos de manuscritos encontrados ou em termos de quão próximos eles estão da data original de escrita. Os textos já foram reconstruídos com 99% de precisão em relação aos originais. As incertezas que restam são trivialidades. Por exemplo, na Primeira Epístola de João, ele diz: “Estas coisas vos escrevemos, para que o vosso gozo se cumpra”. Mas alguns manuscritos dizem: “Estas coisas vos escrevemos, para que o nosso gozo se cumpra”. Não temos certeza se o texto original diz ‘vosso’ ou ‘nosso’. Isso ilustra como esse 1% de incerteza é trivial. Alguém que realmente queira entender os textos deverá aprender grego, a língua original em que o Novo Testamento foi escrito. Contudo, as pessoas também podem comprar diferentes traduções e compará-las para perceber como o texto se comporta em diferentes versões.

É possível explicar a existência de Deus apenas com a razão? Qual o papel da ciência na explicação das causas do universo? A razão é muito mais ampla do que a ciência. A ciência é uma exploração do mundo físico e natural. A razão, por outro lado, inclui elementos como a lógica, a matemática, a metafísica, a ética, a psicologia e assim por diante. Parte da cegueira de cientistas naturalistas, como Richard Dawkins, é que eles são culpados de algo chamado ‘cientismo’. Como se a ciência fosse a única fonte da verdade. Não acho que podemos explicar Deus em sua plenitude, mas a razão é suficiente para justificar a conclusão de que um criador transcendente do universo existe e é a fonte absoluta de bondade moral.

Por que o cristianismo deveria ser mais importante do que outras religiões que ensinam as mesmas questões fundamentais, como o amor e a caridade? As pessoas não entendem o que é o cristianismo. É por isso que alguns ficam tão ofendidos quando se prega que Jesus é a única forma de salvação. Elas pensam que ser cristão é seguir os ensinamentos éticos de Jesus, como amar ao próximo como a si mesmo. É claro que não é preciso acreditar em Jesus para se fazer isso. Isso não é o cristianismo. O evangelho diz que somos moralmente culpados perante Deus. Espiritualmente, somos separados d’Ele. É por isso que precisamos experimentar Seu perdão e graça. Para isso, é preciso ter um substituto que pague a pena dos nossos pecados. Jesus ofereceu a própria vida como sacrifício por nós. Ao aceitar o que ele fez em nosso nome, podemos ter o perdão de Deus e a limpeza moral. A partir disso, nossa relação com Deus pode ser restaurada. Isso evidencia por que acreditar em Cristo é tão importante. Repudiá-lo é rejeitar a graça de Deus e permanecer espiritualmente separado d’Ele. Se você morre nessa condição você ficará eternamente separado de Deus. Outras religiões não ensinam a mesma coisa.

A crença em Deus é necessária para trazer qualidade de vida e felicidade? Penso que a crença em Deus ajuda, mas não é necessária. Ela pode lhe dar uma fundação para valores morais, propósito de vida e esperança para o futuro. Contudo, se você quiser viver inconsistentemente, é possível ser um ateu feliz, contanto que não se pense nas implicações do ateísmo. Em última análise, o ateísmo prega que não existem valores morais objetivos, que tudo é uma ilusão, que não há propósito e significado para a vida e que somos um subproduto do acaso.

Por que importa se acreditamos no deus do cristianismo ou na ‘mãe natureza’ se na prática as pessoas podem seguir, fundamentalmente, os mesmos ensinamentos? Deveríamos acreditar em uma mentira se isso for bom para a sociedade? As pessoas devem acreditar em uma falsa teoria, só por causa dos benefícios sociais? Eu acho que não. Isso seria uma alucinação. Algumas pessoas passam a acreditar na religião por esse motivo. Já que a religião traz benefícios para a sociedade, mesmo que o indivíduo pense que ela não passa de um ‘conto de fadas’, ele passa a acreditar. Digo que não. Se você acha que a religião é um conto de fadas, não acredite. Mas se o cristianismo é a verdade — como penso que é — temos que acreditar nele independente das consequências. É o que as pessoas racionais fazem, elas acreditam na verdade. A  via contrária é o pragmatismo. “Isso Funciona?”, perguntam elas. “Não importa se é verdade, quero saber se funciona”. Não estou preocupado se na Suécia alguns são felizes sem acreditar em Deus ou se há alguma vantagem em acreditar n’Ele. Como filósofo, estou interessado no que é verdade e me parece que a existência desse ser transcendente que criou e projetou o universo, fonte dos valores morais, é a verdade.

Fonte:http://veja.abril.com.br/noticia/ciencia/e-possivel-acreditar-em-deus-usando-a-razao-afirma-william-lane-craig

Podemos ser bons sem Deus?

Fonte: http://feracional.net/2011/02/24/podemos-ser-bons-sem-deus/

A Morte de Deus e a Morte de Cristo

Traduzido por Eliel Vieira
Questão:

Olá Dr. Craig,

Eu gostaria primeiramente de agradecê-lo pelo tempo e trabalho que você dispensa ao seu ministério. Tem me beneficiado grandemente e foi o seu exemplo que me fez estudar e conseguir uma graduação em filosofia.

Sobre a minha questão, eu nunca consegui uma resposta clara a ela. Quando Jesus morreu na cruz, Deus morreu? Se sim, a essência de Jesus verdadeiramente morreu?

Esta questão realmente me incomodou enquanto eu estava escutando a música “And Can it Be?” [E pode ser?]. Tem uma parte nela, no fim do coro, que diz “Amazing Love! How can it be that Thou my God shoudst die for me? Amen!” [Grande amor! Como pode ser, Tu, meu Deus, morrer por mim? Amém!].

Eu nunca consegui uma resposta clara e concisa para esta questão e parecem existir diferentes opiniões entre os teólogos sobre a natureza desta questão. O pastor John MacArthur parece acreditar que Deus morreu, uma vez que Jesus é Deus. Já R. C. Sproul discorda e acredita que Deus não pode morrer.

Eu não consigo entender como pode ser possível que Deus pudesse verdadeiramente morrer. Por que se Deus pudesse, Ele não seria um Ser metafisicamente necessário. Mas isto é impossível porque, por definição, Deus deve ser necessário. Assim, quando Cristo morreu na cruz, foi apenas sua parte humana que morreu?

Esta é uma questão difícil, e eu apreciaria muito se você pudesse lançar alguma luz sobre ela.

Muito obrigado,

Jesse

Resposta do Dr. Craig:

Não pude resistir à sua questão, Jesse, uma vez que ela apela ao meu hino favorito, o magnífico “And Can it Be?”, de Charles Wesley. Eu desafio qualquer cristão que conheça apenas músicas de louvor e a adoração a ouvir este hino e contemplar sua maravilhosa letra sobre o incrível amor de Deus.

Sua questão é uma das que confunde nossos amigos mulçumanos e é, portanto, muito urgente. Felizmente, a Igreja cristã histórica já discutiu esta questão de forma clara.

O Concílio de Calcedônia (451) declarou que o Cristo encarnado era uma pessoa com duas naturezas, uma humana e outra divina. Isto gerou conseqüências muito importantes. Isto implica que, uma vez que Cristo exista antes de sua encarnação, ele era um ser divino antes de falarmos sobre sua humanidade. Ele foi e é a segunda pessoa da Trindade. Na encarnação, esta pessoa divina assume uma natureza humana também, mas não há outra pessoa em Cristo além da segunda pessoa da Trindade. Existe um acréscimo de natureza humana que o Cristo pré-encarnado não tinha, mas não há acréscimo algum de uma pessoa humana à pessoa divina. Existe apenas uma pessoa, com duas naturezas.

Portanto, o que Cristo disse e fez, Deus disse e fez, uma vez que quando falamos de Deus, estamos falando sobre uma pessoa. Esta é a razão do Concílio falar de Maria como “a mãe de Deus”. Ela carregou no ventre uma pessoa divina. Infelizmente, esta linguagem tem sido desastrosamente interpretada, porque soa como se Maria tivesse dado a luz à natureza divina de Cristo quando de fato ela deu a luz à natureza humana dele. Maomé aparentemente ensinou que os cristãos acreditavam que Maria era a terceira pessoa da Trindade, e Jesus era o descendente da relação entre Deus Pai e Maria, uma visão que ele corretamente rejeitou como blasfema, não obstante nenhum cristão ortodoxo a abraçasse.

Para evitar tais desentendimentos, é proveitoso falar do que ou como Cristo fez em relação a uma das suas naturezas. Por exemplo, Cristo é onipotente em relação a sua natureza divina, mas é limitado em poder em relação a sua natureza humana. Ele é onisciente em relação a sua natureza divina, mas ignorante sobre vários fatos em relação a sua natureza humana. Ele é imortal quando nos referimos a sua natureza divina, mas mortal quando nos referimos a sua natureza humana.

Você provavelmente já consegue entender agora aonde eu quero chegar. Cristo não poderia morrer em relação a sua natureza divina, mas ele poderia morrer em relação a sua natureza humana. O que é a morte humana? É a separação da alma do corpo quando o corpo cessa de ser um organismo vivo. A alma sobrevive ao corpo e se unirá com ele novamente algum dia em forma ressurreta. Foi isto que aconteceu com Cristo. Sua alma se separou do seu corpo e seu corpo cessou de viver. Por alguns instantes ele desencarnou. No terceiro dia Deus o ressuscitou dos mortos em um corpo transformado.

Em parte, sim, nós podemos dizer que Deus morreu na cruz porque a pessoa que submeteram à morte era uma pessoa divina. Então Wesley estava totalmente correto em perguntar “Como pode ser, Tu, meu Deus, morrer por mim?”. Mas dizer que Deus morreu na cruz é conduzir erradamente a questão, da mesma forma como fazem quando dizem que Maria era a mãe de Deus. Assim eu acho melhor dizer que Cristo morreu na cruz em relação a sua natureza humana, mas não em relação a sua natureza divina.

Fonte:http://www.reasonablefaith.org/site/News2?page=NewsArticle&id=8059